(para Gullar)
palavras
vermelhas
pala vra
ver melha
pala
vra
ver
melha
pa
la
vra
verme
lha
ver
me
lá.

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Canso-me da superficialidade. Lembro de um antigo e chato colega mais velho de licenciatura. Ele dizia: “- A juventude passa e perpassa por um processo de adolescentilização”. A princípio trupiquei-me com o referido comentário, depois refleti. Era verdade. Nos ressentimos da seriedade, não da seriedade boba e burra dos velhos antigos antiquados, mas sim da seriedade da vida e das coisas. Paro e penso nos programas vespertinos da tv, nas micaretas, nos bailes funk tão freqüentados por nós jovens. Nada contra o gosto alheio, o meu também é terrível. Penso no que deixamos de ler, ver e ouvir: Pessoa. Drummond. Bandeira. Quintana. Picasso. Van Gogh. Gaudi. Mozart. Pixinguinha. Buarque.
Tantos, tantos.
Lembro então da minha infância (pós 79) e das minhas noites dormidas juntinho com a televisão. Fascinado. Lembro das musiquinhas sofríveis da década de 80 e que eu tanto adorava. E vejo que não dá mais para fugir disto, somos o misto do popular, com um quê de popularesco, e de um mínimo de erudição, erudição buscada com ardor e dificuldade, com quase sofreguidão. Vejo existências tentando lutar para concentrarem, mesmo que num mínimo, alguns conhecimentos deste longo mundo. E vejo almas vivendo somente para responder aos estímulos dessa difícil vida, matrixiando seus corpos e mentes. Como eu queria ser uma dessas almas. Porém vivo angustiosamente na minha eterna superficialidade profunda.





- Foi boa, filha. Simples, mas boa. Brincava jogos simples pelas calçadas e ruas, com os moleques descalços e pés sujos de lama, moleques tão simples e tão moleques como eu.
- E meus avós?
- Seus avós também eram pessoas simples, mas de bom coração. Lembro de sua vó cozinhando o prato preferido de seu avô e de vez em quando ela gritava: “Menina sai da rua!”.
- E meu vô?
- Seu vô era pessoa séria, de poucas palavras e muitos olhares. Carinhoso e sisudo. Nenhum dos dois tiveram muitos estudos, mas sempre me perguntavam: “Já fez o dever de casa?”, “Deixa eu ver as notas do bimestre”.
- Eles eram severos?
- Não muito. Acho que consegui o que eles queriam. Consegui ter mais estudos do que eles. Me formei, depois me formei de novo e depois mais uma vez. Acho que consegui o que eles sempre esperaram de mim.
- Mamãe, o que você espera de mim?
- Espero que você seja uma boa pessoa, minha filha, uma pessoa de bem, que leia bons livros, que seja integra, carinhosa, boa filha para se tornar uma boa mãe, e que principalmente estude, estude e estude mais ainda, para que possa ser alguém na vida.
- Então você quer que eu faça tudo o que vovó queria que você fizesse?
- Não! Não é isso... não...
- Por quê?
- Quero que você siga seu próprio caminho!
- Hum. Tá bom.
- ... não sei. Só sei que sinto muito a falta deles. E todas as noites ainda lembro da minha infância, da cidade onde nasci e morei, que por sinal é bem longe daqui. Toda vez que lembro da rua, de casa, de papai e mamãe, lá no meu quarto, com seu pai ao meu lado, toda vez que lembro... [acabo chorando].
- Mamãe porque a gente ainda está andando de ônibus?
- Porque a vida não é tão fácil assim, por mais que tentemos fazer as coisas certas, filhota, sempre acabamos errando pelo caminho, deixando de fazer certas coisas, tomando outros rumos. Mas, hoje, você vive em melhores condições do que eu vivi! Posso te dar coisas que não tive.[Engraçado, mamãe também me dizia isso].
- Então acho que é isso mesmo que eu quero, mãe, quero estudar, ser uma webdesigner e publicitária, fazer um MBA na Fundação Getúlio Vargas, depois fazer meu mestrado e tentar um doutorado sanduwich em Londres com uma bolsa da CAPES ou do CNPq...
- É isso mesmo minha filha, este é o seu caminho, siga-o, faça-o.
- Mãe, será que eu serei uma pessoa feliz?
- Lógico minha filha, lógico...
-Você é feliz?
- Sim, sou sim. E sou feliz só porque tenho você. Mas porque também você tem um pai que te ama. Porque posso lembrar de minha infância, de meus amigos, de seus avós, e depois... [chorar]... e depois...sorrir!
- Mamãe. Eu te amo!
- Eu também te amo, minha menina.
- Mãe, a gente tem que puxar a “campanhia”, já é o nosso ponto.






Canso-me de ouvir os estilhaços das velhas palavras de ordem aos novos jovens, os jovens que escrevem nestes papéis virtuais em cristais de vidro. Tudo para nós, jovens, é sujo, transloucado, destruído, superado, estilhaçado....
Como se o tempo tivesse, nos seus anos longos anos de vida, que tencionar-se em uma longa curva para baixo, para o chão, para superar o chão e chegar, portanto, aos infernos dantescos.
Sempre somos os acusados de romper com a velha ordem, como se a velha ordem fosse a ordem certa, mas que ordem? Se a ordem em que vivemos agora é a desordem ordenada, realizada, deixada e cuspida por quem mais amamos, nossos pais, nossos avós, nossos...
Então escutamos calados, às vezes não, o que somos, vagabundos, sem bandeiras, sem ideologias, globalizados, alienados, baderneiros, consumistas, idiotizados. Me pergunto? Qual geração não foi isso tudo e também não foi vanguardista, inovadora, transgressora, descobridora e celestial.
Parece ser esquecido que dentro da linha do tempo quem dá o primeiro suspiro de vida será tão contemporâneo ao ser que der o último afagar antes da morte. Dentro dos limites da existência as gerações se misturam e dialogam, com suas fraquezas e virtudes, com suas afinidades e oposições. E quando acabo de falar disso, sem saber porquê, lembro do meu avô, morto, e penso que fui contemporâneo a ele, penso na falta que, hoje, ele e sua história me faz.


cinema
Tenho a impressão que os melhores filmes que já assisti
foram os que me fizeram chorar ao seu final.
Foi vendo filmes que aprendi que homens também choram.




Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.