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domingo, 15 de maio de 2016

O meu lugar, por Leandro Clímaco


Ao longo da infância e adolescência nossa compreensão da realidade é profundamente marcada pelo lugar onde vivemos e damos nossos primeiros passos. A cidade é, antes de tudo, nossa casa num determinado bairro e suas ruas. Logo, minha história de vida no Rio de Janeiro é uma história vivida no subúrbio. Isso diz muito sobre quem sou hoje. 

Olaria, Campo Grande e Santa Cruz foram alguns dos bairros periféricos por onde passei parte da minha infância. Mas aos 7 anos fui morar naquele que seria o bairro onde passaria a maior parte da minha vida: Madureira. Começava ali uma relação de mais de vinte anos. Da infância à fase adulta, passando pela adolescência, minhas travessias na metrópole - e não foram poucas - tinha como ponto de partida e chegada este que pode ser considerado o verdadeiro centro da cidade. Repare no mapa: Madureira está exatamente no centro geográfico do município, ponto privilegiado para quem busca se deslocar tanto para a Baixada e Jacarepaguá, como para a zona da Leopoldina e Oeste. Mas antes de olhar para o resto do Rio, quero explorar com vocês o meu lugar nessa cidade: Madureira.

O prédio onde morei, e onde até hoje vivem minha mãe e avó, ficou pronto na década de 1970. Ele tem um formato bem diferente. Ao contrário dos espigões que vieram a prevalecer, ele é horizontal. Cada um dos três andares possui inacreditáveis 30 apartamentos. A cobertura possui dois, além de abrigar um salão de festas. Há também uma garagem. Os corredores do prédio formam um verdadeiro labirinto, levando à loucura aqueles que o exploram pela primeira vez. Até placas foram colocadas nos seus corredores como forma de amenizar o sofrimento dos novatos. É difícil explicar seu formato, mas seria algo como um H com mais uma perna, formando três extensos corredores paralelos, interligados por um corredor menor que também tem apartamentos. O térreo, por sua vez, abriga uma galeria comercial, essa sim em forma de H. 

O “Cidade de Madureira”, nome oficial do condomínio, não tem play. Isso significa que lá pelos anos 80, quando a taxa de natalidade do país era bem mais elevada, havia muitas famílias com mais de um filho, despejados aos montes nos corredores do prédio. Sem um espaço delimitado para brincar acabamos por tornar todos os espaços do prédio como play. Significa dizer que o hall dos três elevadores era, para nós, espaço para se fazer quase tudo: campo de futebol, mesa para jogos de tabuleiro, espaço onde nos reuníamos para o jogo da verdade ou simplesmente ponto de encontro para se jogar conversa fora. As escadas, sinuosas, eram perfeitas para os primeiros beijos e “amassos”, onde, solidários, ficávamos vigiando para avisar quando algum adulto aparecesse.

Mais novos, as escadas eram também utilizadas para apostas de corrida. Quem chegasse primeiro no térreo era o grande vencedor. Então, lá íamos nós correndo desde a cobertura até o térreo que nem loucos, fazendo questão de fazer bastante barulho em cada andar que descíamos. Não tenho dúvida: éramos perigosos terroristas para a grande maioria dos moradores, muitos bem idosos. Afora as luminárias quebradas por causa do futebol, também sofríamos com a ação de alguns moradores mais impacientes. Não esqueço especialmente de uma do saudoso Ulysses (era a cara do Ulysses Guimarães), do 2º andar. Enquanto jogávamos Jogo da Vida ou War no hall dos elevadores, ele, sorrateiramente, veio com um balde d’água fria e nos jogou. Seu Ulysses sofreu muita com a gente. Merecemos.

Além da galeria, o térreo também era composto por uma área vazia de onde se saia para a rua Dona Clara. Esqueci de dizer, o prédio é de esquina, um lado virado para a Domingos Lopes e outro para a Dona Clara. Nos finais de semana, com o acesso para as galerias fechados, a entrada se dá por esta última. Nesse espaço também jogávamos bola, vôlei, andávamos de skate, bicicleta, além de toda sorte de pike isso e aquilo.

Na infância também havia um terreno baldio bem em frente ao prédio que estava em litígio. Antes que qualquer obra fosse realizada no local, era ali onde mais colocávamos a imaginação em ação. Não esqueço do dia em que eu, Glauco, Alexandre, Naila, Daniel, minha irmã Raquel, o Leo, e talvez outros que não me lembro agora, decidimos construir uma nave que nos levasse pro espaço. Influenciados por um filme da época (a década de 80 foi a década das aventuras juvenis no cinema e Os Goonies não me deixa mentir), dividimos as tarefas e passamos a procurar todo tipo de material que nos permitisse montar nossa nave. Conseguimos. E residia aí o maior barato de tudo isso: construir. Tamanha ousadia me remete a influência de outro ícone pop da época em nossas vidas: o filme Os Caça Fantasmas.

Num dado momento, o Alexandre, que era o mais criativo de todos nós, decidiu construir uma arma para caçar fantasmas na....garagem! Sim, acho que no fundo todos nós acreditávamos que a sombria garagem do prédio era mal assombrada. Armados, lá íamos, intrépidos, correr atrás das almas escondidas nas paredes cavernosas do estacionamento. Invariavelmente saíamos de lá correndo. Sempre tinha alguém que dizia ter visto alguma coisa.

Moleques, uma das nossas maiores ousadias era a travessia da rua principal do bairro: a Domingos Lopes. Fazíamos isso às escondidas, sem nossos pais saberem. Aquele que não atravessasse era zoado sem perdão (como isso parece bobo hoje em dia). Até música debochada ganhava. Chegar ao outro lado tinha um motivo: estar com a galera do prédio em frente. Nossa sociabilidade começava, lá pelos 10/11 anos a se expandir para fora das galerias do nosso prédio, conhecido no bairro como “Nova York”. Reza a lenda que o apelido surgiu por causa da construtora do prédio, chamada “New York”. Na medida em que crescíamos, começávamos a explorar outros pedaços da cidade. Lembro que raramente íamos para a Zona Sul. Nossa praia era a Barra. Pegávamos o antigo 701, que ligava Madureira ao terminal Alvorada, nos tempos pré BRT. Era uma verdadeira aventura, lá pelos 13/14 anos irmos à praia sozinhos, sem os pais. Éramos o exemplo mais acabado do farofeiro. Levávamos de um tudo, de bebidas à biscoitos e sandwiches. Se na infância íamos à praia de carro - era comum que a ida da família de um resultasse no convite para mais um ou dois do grupo - na adolescência, já metidos a espertos, nos aventurávamos nos ônibus lotados. O início dessa travessia para outros cantos do Rio começava a ensinar sobre as diferenças. Era evidente que a Barra tinha prédios que demonstravam a existência de pessoas com mais dinheiro. Bem diferente dos espaços da cidade por onde transitávamos. Até então, eu e minha família, por exemplo, íamos muito para a Penha, onde meu avô materno morou por um tempo, e depois para Nova Iguaçu, onde ele viveu até morrer. Por causa do meu pai, eu e meus irmãos íamos muito para Santa Cruz, onde ele vive até hoje. Sem carro, íamos de ônibus e trem. Esse era o nosso universo.

Atravessando os espaços periféricos da urbe carioca, não lembro de nenhum evento ou fala que me ensinasse sobre a lógica que até hoje insiste em retirar dos habitantes desses pedaços da cidade o direito à história e à memória e, claro, a uma vida mais digna. Madureira era o meu centro. Na minha cabeça de criança e de adolescente aquele estilo de vida era o da maioria, ainda que a noção de desigualdade me fosse ensinada pelas diferenças existentes no próprio prédio. Eu estudava em escola pública, enquanto outros amigos em escola particular. As comparações existiam, e muitas vezes tinham como critérios os móveis, emprego dos pais, tamanho da televisão, marca do videogame, e uma infinidade de outras coisas. Mas no principal estávamos irmanados. Vivíamos juntos, brincávamos juntos, começamos a namorar juntos. Havia uma relação tão intensa entre nós que essas diferenças eram sublimadas ou acertadamente não tinham peso.

Foi apenas através da mídia que comecei a entender algumas coisas. A principal, que eu era suburbano e que isso me marcava de várias maneiras. Todas negativamente. Foi através das matérias exibidas na TV e publicadas nos jornais que me foi apresentado o discurso preconceituoso que historicamente vem carimbando em nós, moradores dos subúrbios, favelas e periferias em geral, uma série de adjetivos: farofeiros, mal educados, pobres, desqualificados, limitados intelectualmente, só pra citar alguns. Até o dicionário Aurélio em uma de suas definições sobre a palavra subúrbio, afirma: 3. Bras. Que revela mau gosto. Em 1997, reportagens de O Globo e do JB traziam estampadas nas suas páginas revelações sobre os temores expressados pelos moradores da Barra com a abertura da Linha Amarela. Aqueles relatos me incomodavam. Não me reconhecia naqueles perfis. 

À essa altura, o reconhecimento de que era de uma família pobre era óbvio. O problema era o significado da pobreza pra aquela gente. Para aqueles que eram entrevistados e tinham voz na mídia. Isso me incomodava. Os ícones do bairro, costumeiramente apresentados como seus símbolos máximos, as escolas de samba Portela e Império Serrano, não faziam parte do meu cotidiano. Minha mãe não é uma pessoa musical. A música entrava em nossa casa mais por intermédio da televisão. Ao entrarmos na adolescência, eu e minha irmã passamos a consumir música, mas sem influências diretas. Dependíamos do que nos era apresentado pelos programas de auditório, nas rádios ou por aquilo que os amigos mais próximos ouviam. Na adolescência, mais pela farra, íamos às festas promovidas principalmente pela Tradição em sua quadra, no Campinho. 

Se por um lado não transitei pelas quadras das escolas de samba ou nos bailes de charme organizados sob o viaduto Negrão de Lima, outro “point” característico que reunia a juventude pobre e negra do bairro, por outro minha vivência no prédio onde cresci me ensinou a ser alguém que valoriza a relação com o outro. Esse sentido comunitário, gregário, estruturado por afetos, foi o que mais selou minha forma de compreender a vida nos subúrbios, ainda que morador de um condomínio. Sim, muitos deixavam as portas abertas, transitavam entre os apartamentos. Dependendo do sucesso televiso da época, combinávamos de assistir uma série ou filme na casa de um de nós; fazíamos festas americanas na cobertura; compartilhávamos jogos e realizávamos campeonatos de todos os tipos. Éramos, em suma, uma molecada unida que passou a explorar o prédio, o bairro e a cidade juntos. Pelo menos até certa época da juventude. Todos estudaram, se formaram e podem ser considerados bem sucedidos para os padrões atuais. Todos exercem suas funções com dignidade. Sem dúvida todos ascenderam socialmente, se comparados com a situação dos pais, e isso é revelador do processo histórico pelo qual vem passando o país, ainda que este 2015 nos deixe atemorizados.

Felizmente, a própria noção de subúrbio e suburbano vem sendo disputada. Talvez como reflexo dos novos tempos, marcado pela presença cada vez maior de alunos oriundos de famílias pobres, negros ou brancos, suburbanos ou favelados, aos bancos das universidades públicas. Novos temas, novas perguntas, novos objetos surgem desse caldeirão de mudanças. 

Em minha pesquisa com periódicos suburbanos, o que mais tem me chamado a atenção é o sentido de pertencimento que aqueles jornalistas tinham com aquele pedaço da cidade. Ainda que já no início do século XX ganhasse força na cidade imagens públicas de um subúrbio onde nada acontecia, espaço da carência e dos dignos de pena, o “refúgio dos infelizes” preconizado por Lima Barreto em Clara dos Anjos, a prática jornalística que aos poucos foi instituída nas diversas zonas suburbanas do então Distrito Federal era alicerçada por um orgulho militante que buscava dotar aqueles espaços da urbe dos mesmos benefícios concedidos ao centro e bairros chics do eixo Sul. Esses jornalistas buscavam, através da palavra impressa, promover a igualdade. Esse era o sentido máximo atribuído ao jornalismo. Todos se reconheciam como suburbanos, jornalistas suburbanos.

A partir dessa prática, ainda que pontuada por diferenças significativas, buscou-se pressionar os poderes públicos e empresas privadas para a realização dos então chamados “melhoramentos suburbanos”. Muito do que foi feito nas décadas de 10, 20 e 30 no campo das reformas urbanas no Rio que margeava as linhas férreas pode ser debitado na conta dessa militância. Claro que nessa história não faltam tensões e disputas por causa de enfrentamentos políticos e diferentes projetos de sociedade, no entanto, é forçoso reconhecer: os subúrbios e os suburbanos têm história e essa história precisa ser contada. A reprodução cega e preconceituosa de avaliações hegemônicas sobre a vida de um enorme contingente populacional na antiga periferia da cidade do Rio de Janeiro acabou por silenciar estas histórias de luta pelo direito à cidade. A imprensa auto intitulada suburbana é um poderoso meio de pesquisa que nos permite recontar parcialmente essas histórias. 

Tamanha militância, talvez a maioria não saiba, resultou na realização de um Congresso Suburbano, nos idos de 1911. Utilizando a seção suburbana do jornal diário A Tribuna, o jornalista Pinto Machado lançou uma campanha voltada a preencher as vagas de um congresso formado apenas por habitantes dos subúrbios. Os leitores se transformaram em eleitores por alguns meses e isso acabou por gerar uma associação que se pretendia permanente para discutir os reais problemas que afligiam aquela população. Todas as localidades suburbanas tinham um representante no congresso. Os últimos meses de 1911 foram marcados por um debate que resultou na elaboração de uma série de ofícios enviados às diversas autoridades da República, dos mais diferentes poderes. 

Não tenho dúvida de que se essa e outras experiências vividas nos subúrbios do Rio tivessem tido o direito a um espaço na História, muito provavelmente as avaliações pejorativas que atravessaram o século XX, força viva a alimentar a memória coletiva que molda o tecido social carioca, teriam ao menos sido disputadas. Sei que isso vem ocorrendo, e minha tarefa é produzir um conhecimento que, longe de idealismos, contribua no sentido de apresentar elementos que venham ajudar no processo de questionamento dessa memória hegemônica que tantos silêncios produziu ao longo do tempo. Pois, ainda que viventes em áreas pobres, destituídas de equipamentos públicos de qualidade, distantes dos espaços transformados em ícones da dita “cidade maravilhosa”, há vida nas periferias, e o que é mais brutal na lógica de reprodução de nossas relações sociais é o silenciamento criminoso que se pratica ao se retirar o direito dessas comunidades de se expressarem. Se não bastasse as agruras de se viver na cidade ilegal, ainda se tem que lutar contra os preconceitos que os viventes da cidade legal produzem e reproduzem através dos meios de informação que controlam ou influenciam. No passado, os suburbanos perceberam isso e decidiram que era estratégico para a luta política deter o controle dos meios de produção responsáveis pela produção da notícia.

As carências materiais e a pobreza que assolam os espaços periféricos jamais deveriam servir para a desqualificação da população que ali vive. Fizeram isso na virada para o século XX e continuam fazendo o mesmo ainda hoje. Ainda que ex morador de Madureira, espaço popular por excelência da cidade, objeto dos preconceitos daqueles que muitas vezes jamais colocaram os pés nas suas ruas, ou que os colocam para curtir o exótico, tenho uma lembrança maravilhosa dos tempos em que vivi ali. 

Minhas memórias podem não ter peso nenhum pra muita gente, assim como as histórias de militância dos jornalistas suburbanos pouco interessaram os pesquisadores ao longo do tempo. Mas são elas que podem ajudar a subverter a lógica que engendra ações e práticas que historicamente retiram de nós, habitantes das periferias, o direito à vida, à cidade e à livre expressão.





Leandro Climaco é Professor de História do Colégio Pedro II e doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) com o projeto "Histórias e memórias invisíveis: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro, 1880-1940". Na mesma universidade concluiu o Mestrado em 2011 com o trabalho "Nas margens: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro - 1880-1920"; e a graduação em 2007 apresentando monografia sobre a constituição histórica do bairro de Madureira intitulada "Memória e vida cotidiana em Madureira, um bairro da cidade do Rio de Janeiro".







Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Cama vazia / Água e fogo / Território, por Helenia Martinez


Cama vazia

Se tudo passa tudo se inicia
Guerra, cama vazia
O mundo anda tão ocupado
Preocupado e cansado
Com medo do fim
Medo da estrela
Do gelo tão frio
Quando corações
Não existem mais emoções
Nem razões de sobrevivência
A futilidade está dando audiência
A musica não é mais arte
Nem mesmo sei o motivo
De tudo isso
Por qual razão chorar sem emoção
O mundo anda cada vez mais quente
E as pessoas mais frias
O mundo anda tão frio
E as pessoas mais vazias
Será que alguém tem ao menos
Uma breve explicação
O amor virou comércio
Sem garantia de duração
Codinome extração
De tudo o que temos
O que temos então?
Viva o futebol!
A morte virou apenas
Falta de sorte
Uma falta “normal”
De saúde pública?
Ou Homeopatia...



Água e fogo

Você queima
E eu afogo
Mas nós dois matamos
E morremos de amor

Cada passo descompasso
Meu coração parece
Que abrigou um tambor

Eu te afogo
Você me esquenta até me evaporar
Eu refresco e mato a cede
Você queima e incendeia

Somos opostos
Você é um elemento quente
O despertar do calor
Eu sou fresca
Nasci em uma pequena nascente
E você me evaporou
Mas eu renasci como chuva
E te apaguei
Você renasceu em um fósforo
Ciclo vicioso...

Somos amantes somos inimigos
Somos apenas diferentes elementos
Causamos diferentes brilhos
Caro fogo amigo.



Território

A inercia dessa cidade
Me enlouquece
Não sai do lugar
Esse estranho lugar
Onde nada há
Me perco pensando
Às duas
E um estranho silêncio
Cala casas e ruas
Então penso
Imagino
Como se pensado
Eu pudesse
Fazer falar o mundo
Quero fugir desse lugar
Afogado na falta de progresso
Parado, chato e velho.

Que tédio, é sempre tudo igual
E a maioria das vezes, nada legal
Nada cultural
Quando não é um marasmo sufocante
Está tocando funk.

À noite, frio
De dia, febre
Cada passo me deixa
Mais impaciente
E cada dia menos inocente
Cada dia aumenta o grau da lente
E o modelo do óculos
Fica mais caro
E o pouco que a cidade cresce
Fica tudo congestionado
Circulam carros e carros
Velhos, batidos, importados
E quebrados
O progresso real
Ficou enterrado em algum lugar
Do ingênuo passado.



Helenia Martinez é jovem, muito jovem. Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, seu sangue ferve e faz ebulição nas palavras que derrama. Sangue mestiço, forjado de hemácias italianas, brasileiras e africanas. E é do espanto da mistura, da aflição e da incompreensão deste mosaico de terra em que vivemos, que Helenia repousa sua jovem pena a rabiscar a poesia que lhe corre pelas veias e nervos. O futuro deveria estar agradecido por esta menina ser a poeta que irá ser. Evoé.





Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

a menina que não gostava de viados, por Léo Rossetti


Conheci Léo Rossetti pelas andanças literárias na Baixada Fluminense. É meu colega de território, tendo como sede de vida e atuação a cidade de Duque de Caxias. Sua postura política, seu lirismo poético e seu belo livro "Cores de um Poeta Inverso" me chamaram a atenção. Inclusive tive a honra de ter sido convidado para participar da mesa de seu lançamento.

Então neste momento apresentamos um texto cheio de humor, ironia e posicionamento político e humano. Absolutamente oportuno para o momento que vivemos em nosso país.


Esse texto faz parte de um conjunto de relatos do professor Léo Rossetti a respeito do cotidiano de uma sala-de-aula, chamado “Crônicas de um professor à beira de um ataque de nervos”. As historietas são publicadas esporadicamente no Facebook, sem a preocupação de que os relatos digam respeito necessária e integralmente à sua própria experiência docente. A literatura não prevê a garantia da realidade. A imaginação e a suposição sobre a realidade dos fatos narrados ficam por conta do leitor, o que torna a literatura mais rica e mais interessante.

Escola pública em Duque de Caxias. Em sala de aula, um professor de história, gay, bem-resolvido, militante, e seus alunos de uma turma de 6º ano. A chatice da aula dá margem para assuntos mais interessantes e discussões mais animadoras.
Aluna A (para o Aluno B): Seu viado!
Aluno B (para o professor): Professor, a Aluna A não gosta de viado! - disse o estudante com a expectativa de que o mestre repreendesse sua colega. O professor ignora.
(...)
Aluno B (novamente para o professor): Professor, a Aluna A não gosta de viado! - bradou o aluno, enquanto o professor, em pensamento, confirmava a sua suspeita: a suposição de que o aluno pretendia, tão somente, expor a sexualidade do professor em sala de aula, na esperança de que o docente tomasse partido da causa gay e, dessa forma, revelasse seu lado fúcsia. O professor ignora.
(...)
Ao fundo da sala, ouvem-se sussurros. Uma aluna convoca a presença do professor a fim de esclarecer uma demanda adolescente. O tema era que o tal Aluno B estava perturbando o juízo da Aluna C, que desdenhava da investida deste, ignorando-o com certo ar de superioridade, mas com riso nos lábios. O professor pensa, obviamente, em uma tentativa de aproximação xavequeira do garoto. Besteira! Um par de amigos que discutia sobre a vida particular da menina. Mas o professor não sabia e pressupunha o prévio romance.
Professor: Se for para ficar de papo paralelo na minha aula, avisa com antecedência, que eu ajudo nos preparativos do casório, mas quero ser o padrinho, viu?
Aluna C: Sai fora, professor! Eu gosto de menina.
Enquanto o professor tenta recuperar seu cu, que caiu da bunda e rolou pela sala no instante mesmo que a menina revelou sua preferência sexual, o par de amigos tornou a divagar sobre qualquer coisa mais interessante que um ânus rolante.
Aluna C: [sussurros]
Aluno B: É sim! Professor, o senhor não é gay?
Professor: Sim.
Aluna C: Não, tô falando do dever... - disfarçou a menina, estupefata, enquanto despencava de seu corpo aquele orifício, que resolveu se juntar ao do mestre, no chão da sala de aula, para também desfrutarem de seus minutos de fofoca.
(...)
Aluna A: (para o Aluno B) Cala a boca, seu viado!
Aluno B: Professor, a Aluna A tem preconceito com viado!
E, finalmente, o professor intervém.
Professor: Aluna A, é a terceira vez que você chama seu colega de viado, como se isso fosse um xingamento.
Aluna A: É que eu tenho preconceito com viado, eu tenho.
Professor: Que bom, né? Pelo menos você reconheceu que tem. O primeiro passo pra acabar com o preconceito é reconhecer que ele existe.
Aluna A: Mas eu não gosto nem de viado e nem de macumbeiro!
Professor: Então você vai ter que começar a não gostar de mim também...
Aluna A: Por que, professor?
Professor: Porque eu sou muito mais viado do que todos eles juntos.
Aluna A: Tá bom, professor, eu não tenho preconceito com viado não, só com macumbeiro.
Aluna D: Nada a ver, eu sou macumbeira e não é por isso que eu vou fazer macumba pra você!
Professor: Minha filha, você não tem que ter preconceito nem com viado, nem com macumbeiro, nem com preto, nem com branco, nem com verde, nem com ninguém. As pessoas são o que são, e elas são tão dignas quanto você.
Aluna A: Mas é que eu tenho medo de macumba...
Professor: Ahhhhh... então não é “você não gosta”, é “você tem medo”!
Aluna E: Ih, gente, cada um com a sua religião! Eu hein...
(…)
Aproximando-se do final da aula, o professor convoca cada estudante para checar – no sentido de conferir, mesmo, pois passar cheque, sem a presença do cu, seria impossível naquele contexto – o cumprimento das tarefas propostas por ele aos seus alunos e alunas. Para sua surpresa, não é que a aluna que não tinha mais preconceito com viados mas que não gostava de macumbeiros foi a primeira a terminar a atividade?!
Professor: Aluna A, você foi a primeira a acabar, será a primeira a ser liberada hoje.
Aluna A: Obrigada, professor!
E uma nova discussão surgiu na sala de aula, cujo resultado implicou numa bolinha de papel que atingiu a menina que não tinha mais preconceito com viados mas que não gostava de macumbeiros.
Aluna A: Pára, seu viado!  – retrucou a menina, em alta voz.
Professor: Aluna A, mudei de ideia.
Aluna A: Não, professor, por favor!
Professor: Mudei, sim!
Aluna A: Desculpa, professor, desculpa! – redimia-se a pobrezinha.
Professor: Agora você vai ser a última! Vai ficar comigo até mais tarde.
Aluna A: Por que? – perguntou indignada.
Professor: Porque você precisa conviver mais com viados.


*Nota: Esse texto foi adaptado e ampliado para publicação no PSQC.

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Você também pode entrar na fanpage do Facebook do Poeta Inverso, é só clicar aqui:
https://www.facebook.com/CoresDeUmPoetaInverso


Léo Rossetti é professor de história da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro e da rede municipal do município de Belford Roxo. Militante dos direitos humanos, tem se dedicado especialmente ao debate sobre os direitos das minorias na educação. Especialista em História do Brasil e em Gênero e Sexualidade e mestrando em Ensino de História (UERJ), é também ator e poeta. Assinou a coautoria do livro Crônicas cariocas e ensino de história (2008), publicado pela FAPERJ/7 Letras. Também escreveu Cores de um poeta inverso (2012), coletânea de poesias autorais publicada pela Metanoia Editora. Em parceria com outros autores, revelou-se escritor de contos eróticos gays através da obra Censurado: sexo, taras e fetiches, publicada pela Lado B Edições em 2013. Atualmente mantém o blog “Profissão História” e a página homônima deste blog no Facebook. Last but not least, gay.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 23 de março de 2015

sábado, 21 de março de 2015

A construção do ser masoquista: A falácia do caso Cícero, por Igor Rodrigues


Igor Rodrigues fez um curso que dei na UFJF que se chamava "Introdução à Sociologia para a Administração". Dei um curso de Introdução à Sociologia, porque nunca soube para que servia "uma sociologia para a administração". Seu olhar cuidadoso e curioso diante do tema dos moradores de rua reflete sua postura sempre brilhante e indagadora durante o curso ministrado.

Neste caso, e em outros trabalhos, Igor chama a atenção para a naturalização da percepção de "invisibilidade" no que tange a situação da população de rua, pois mais do que ressaltar o não-olhar sobre estas pessoas, este termo-uso acaba, por vezes, a mascarar todo o processo de "visibilidade" que esta população sofre. Visibilidade pautada pela violência estatal, pela criminalização e pela midiatização estereotipada.   


Uma das ideologias presentes no senso comum e mesmo em outras esferas de pensamento ditas mais elaboradas, que reforça a injusta visão meritocrática no entremeio da desigualdade social, é o mito do ser masoquista, isto é, a interpretação do sofrimento e da necessidade como uma escolha do indivíduo, na ótima expressão "mora na rua porque quer". Encontra-se aqui a ideia de um morador de rua erudito, que detém certo capital cultural e escolhe a rua por uma questão de liberdade. Essa questão também tem relação com a percepção de classes como divisão econômica ou da pobreza somente enquanto desprovimento de capital econômico. Muitos trabalhos científicos se confundem com o romance “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Roterdã”, de Evandro Affonso Ferreira, no qual a personagem/narrador em razão de uma desilusão amorosa resolve “abandonar o mundo” e ir morar na rua. Essa retórica “romântica” de apontá-los como pessoas livres que escolheram na rua um exercício de liberdade, inclusive defendendo o “direito de morar na rua”, é uma valorização ingênua da exclusão e culmina por transformá-la em contestação social. É o caso do antropólogo e cientista político James Scott (2009), em “The Art of Not Being Governed”. Ele diz que é preciso rever a história civilizatória branca e européia e pensar que determinadas populações, mais do que serem “deixadas para trás”, podem estar deliberadamente, em determinadas condições, recusando-se a ser incorporadas em recursos e programas estatais, nas suas lógicas de fixação e controle das mobilidades. 

O que chamarei de “caso Cícero” é a regra medida pela exceção; casos individualizados, e não as relações institucionais, históricas e políticas que engendram a construção dessa população como uma problemática social. Ainda que reconhecendo a desigualdade de oportunidades, a “história de superação” surge como forma mais invisível de legitimar a escolha masoquista, pois, a vontade do indivíduo é o que determina sua condição presente e futura. Essa forma pode ser percebida na reportagem publicada pelo portal G1 no dia 04 de setembro de 2014, intitulada “Com livros achados no lixo, morador do DF aprende a ler e se torna médico: Órfão aos 2 anos, ele cresceu no Chaparral e buscava comida pelas ruas. Cícero conheceu obras de Bach, Beethoven e Kafka por meio dos descartes.”:

Órfão de pai aos 2 anos e tendo a mãe alcoólatra e um dos sete irmãos traficante, o médico de Brasília Cícero Pereira Batista, de 33 anos, conseguiu vencer as adversidades estudando a partir de livros que retirava do lixo. Ainda criança, ele saía do Chaparral, onde a família mora até hoje, e percorria 20 quilômetros todos os dias pelas ruas de Taguatinga em busca de comida. Junto com as sobras de alimentos descartados no lixo, Batista recolhia todos os livros que encontrava e vinis de Beethoven e Bach, atualmente suas inspirações. Ele se formou há menos de três meses e agora sonha em abrir um consultório.


O caso Cícero demonstra que a condição de morador de rua não é irreversível. Entretanto, o que mais chama atenção é como essa reversibilidade é tão difícil, exigindo um esforço sobre-humano, de um verdadeiro super-homem. Ela é louvada como uma “ilha de dignidade”, virando notícia de ampla repercussão em um jornal de âmbito mundial. Na outra ponta da corda, quando um indivíduo de classe média vira morador de rua, como “mendigo-gato”, “modelo craqueira”, entre outros, é tomado como algo escandaloso. O mendigo gato é um caso jornalístico emblemático acontecido no ano de 2013: Rafael Nunes, que morava nas ruas há cerca de um ano, foi fotografado enrolado em uma coberta em frente à Catedral Basílica na cidade de Curitiba – PR; após a publicação da fotografia nas em redes sociais, descobriu-se que Rafael era um ex-modelo fotográfico. Houve então, uma comoção, inclusive midiática, pelo caso do “mendigo gato”; empresários, donos de clínicas de reabilitação auxiliaram na recuperação de Rafael – não simplesmente por sua beleza, mas pelo fato de que aquele era um indivíduo digno de credibilidade, principalmente, por sua trajetória de classe e seu reconhecimento como um par


Os moradores de rua, diversas vezes, são tratados como uma espécie de fênix, isto é, como “portadores da capacidade humana de fazer frente às adversidades da vida, superá-las e sair delas fortalecidos ou inclusive transformados.”, como pensa Grotberg (1996). O caso Cícero é utilizado pelo senso comum e/ou pela mídia como exemplo de superação baseada na força de vontade do indivíduo: “se ele conseguiu, nada impede que os outros consigam”, como se o morador de rua representasse uma questão individualizada, “os vários e possíveis Cíceros”, dos quais se valem, portanto, da exceção para deslegitimar a regra. 


REFERÊNCIAS:

FERREIRA, Evandro Affonso. O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Roterdã. Rio de Janeiro: Record, 2012.
GROTBERG, E. H. Guia de promoción de la resiliencia en los niños para fortalecer el espirito humano. La Haya, Fundación Bernardvan Leer, 1996.
SCOTT, James C. The art of not being governed: An anarchist history of upland Southeast Asia. New Haven, CT: Yale University Press, 2009. 




Igor Rodrigues é doutorando em ciências sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Estuda moradores de rua há mais de 4 anos. Gosta de rock, anos 80, Journey, Scorpions, Queen. Gostaria de ter tido uma banda (preferencialmente de sucesso). Tem saudades da época que não tinha saudades de época alguma (quando um kinder ovo era seu objetivo de vida).







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domingo, 8 de março de 2015

Geograffitis: Uma leitura geográfica sobre os graffitis cariocas, por Leandro Tartaglia




Quantas vezes andamos pelas ruas das cidades e nos deparamos com a arte no concreto nos causando espanto. Com os graffitis que às vezes nos expõem sentimentos de beleza e perplexidade.

Mas o que este fenômeno artístico e social significa? Quais preconceitos existentes? Qual relação com as identidades territoriais? Quais novas apropriações são realizadas?

Enfim... Leandro Tartaglia desenvolve de forma brilhante um olhar acadêmico e nativo de quem dialoga com esta arte urbana.


"Este livro é produto da dissertação de mestrado de Leandro Tartaglia que tive a satisfação de acompanhar como orientador. Trata-se de um trabalho envolvente, tanto pelo sentido de aliar Geografia e manifestação artística (o graffiti em sua contextualização urbana) quanto pela própria trajetória do autor, que refletia sobre o tema ao mesmo tempo em que atuava, ele próprio, como grafiteiro. Essa espécie de "olhar de dentro", imerso na produção de seu próprio "objeto", não é comum e deve ser destacada. Leandro trata o graffiti como um fenômeno eminentemente urbano, produto e produtor de espaços e, mais especificamente, de territorialidades, na medida em que o grafiteiro, através de sua marcação simbólica, impregna a cidade de novos signos, abertos a múltiplas apropriações as quais começam, é claro, pela própria apropriação do espaço pelo seu proponente. O graffiti, entretanto, adquire também múltiplas faces, dependendo sobretudo dos sujeitos e ambientes em que está situado. Assim, o autor faz uma interessante distinção entre o graffiti por ele denominado de "selvagem" (os "bombardeios", mais espontâneos), o graffiti "comunitário" (realizado através de mutirões organizados), o graffiti "domesticado" (realizado na reclusão das exposições) e o graffiti "pedagógico" (difundido hoje através de oficinas de trabalho). Percebe-se assim uma diversidade crescente do fenômeno ao longo de um processo que vai da clandestinidade à domesticação. No final, ele questiona se o graffiti ainda mantém algo do caráter alternativo e subversor com que nasceu. O graffiti, de alguma forma, acaba assim compondo também a nossa "sociedade do espetáculo" contemporânea".

Rogério Haesbaert*

*Geógrafo e Professor Adjunto do Departamento de Geografia UFF

O livro pode ser comprado neste link: http://editoramultifoco.com.br/loja/produto/geograffitis-uma-leitura-geografica-dos-graffitis-cariocas/





Leandro Tartaglia é geógrafo, professor e, eventualmente rabiscador de paredes (grafiteiro?). Mestre pela Universidade Federal Fluminense, leciona no Colégio Pedro II. Espera por dias melhores de seu amado time da colina junto com seu recém chegado filhote.







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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dualismos / Lamento, por Rafael Valladão


Dualismos

Qual primavera que, a florir as ruas,
Sobre as ruínas traz graciosas flores,
Tu, musa eleita, nas canduras tuas
Anima em mim brilhantes novas cores.

Mas como o outono, a secar folhas mortas,
Sobre os jardins outrora coloridos,
Tu, musa eleita, as minhas veias cortas
E inânimes falecem meus sentidos.

Mas que farei então, se me sacia
Estar entre o martírio que a alma mata
E a paixão que as mágoas me devora?

Hei de ficar, carícia e, após, chibata:
Colhendo flores no raiar da aurora,
E as sepultando ao declinar o dia...

(24/06/2014)


Lamento

Um olhar oculto me observa
silencioso e muito manso:
- Será um anjo ou mulher?

O olhar oculto se alevanta
sinuoso no espaço vago
- Será um anjo ou mulher?

O olhar vela sua intenção
imprecisa de volúpia
- Será um anjo mulher?

Um olhar espreita meu vulto
de mansinho me murmura:
- Sou mosca que não te quer!

(26/12/2013)




Rafael Valladão é um jovem de dezessete anos. Tenta há uns quinze anos jogar futebol e fazer poesia. As vaias durante o futebol não deixam dúvidas quanto a seu talento esportivo. Quanto à poesia, se acha o tal porque faz uns versos clássicos. Confiram só o trabalho do zé ruela. (Ele já pode ouvir as vaias).






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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Dadivisão, por Marco Vinícius Lamarão


Vamos que estou indo

Para mais um ano

De novo passagem e rito

De infinitos planos

Para tempos finitos

de rua e de panos

fileiras e bandeiras!



Pra feios e bonitos momentos

Onde mormente direi: movimente-se

E reclamarei dos seus parênteses

Se neles não houverem ensinamentos



Que nos faça sair do confinamento

Desta individualidade bigbrotizada

Em cada passo um tormento

Pois que dói a consciência recobrada



Afinal, ela foi retirada da lancinante branquidão

Lá, jogada em meio as traças e às verdades fragmentadas,

Que fizeram da falsa incoerência seu chão

No lugar onde as mudanças minam

Quando homens e mulheres se indeterminam



Que indeterminação que nada!

Vamos que te chamo, pois que tenho percebido

Enquanto continuo andando

Aprendendo, ensinando e seguindo:

que a melhor forma de multiplicar

é buscar sempre estar dividindo.



Marco Vinícius Lamarão - Professor, militante, mil e tantos, metido a poeta e escritor, semi-músico, proto artista incubado, vídeo-maker inapto, mas sei fazer batatas souté. Dizem que sou formado em história, com mestrado em educação e que dou aula no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, mas eu duvido. Não passo, não lavo, não faxino e cobro caro, pois como todos nós- doença endêmica- por me dar preço, perco o meu valor. É nesta negação afirmativa que, quando não estou trabalhando, vivo. Não sou flamenguista e nem corintiano e esta coluna literária só não é mais torta do que a minha. Quanto ao que debateremos aqui: tudo e nada, cada qual em seu parágrafo ou não. Amém.



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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Livro: "Nas margens", de Leandro Climaco Mendonça



Para quem se preocupa com as construções materiais e sobre o imaginário de territórios tidos como "periféricos", não ler este livro será péssimo negócio!

O livro pode ser encontrado e comprado na livraria da UFF (a loja física é em Niterói) e também no site da Editora UFF. Além da Livraria da Travessa, site e lojas físicas desta rede.


"(...) Através de uma investigação histórica ampla e cuidadosa sobre pequenas e, muitas vezes, efêmeras folhas publicadas nas margens das ferrovias que cortam a cidade e dos meios hegemônicos de comunicação, Leandro realizou um criativo exercício de análise para superar as dificuldades de lidar com testemunhos dispersos e fragmentados e reconstruir a intensidade das experiências dos moradores dos subúrbios com o jornalismo, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Acompanhando as razões alegadas por cada jornalista ou diretor/proprietário para criar um jornal ou revista, o autor esmiuçou tensões e alianças entre diferentes experiências e práticas jornalísticas, dentro e fora dos subúrbios, e suas articulações com outras redes de comunicação social na cidade em meio ao silêncio ensurdecedor dos seus contemporâneos.

Trabalhando com coleções reduzidas, em geral compostas por um ou dois exemplares, ou com relatos indiretos e incompletos, um pesquisador menos atento poderia concluir que a imprensa suburbana foi socialmente irrelevante, desarticulada e frágil e nada teria a nos dizer sobre as intenções, projetos e reivindicações dos seus moradores para a cidade naquele momento histórico. Ao contrário, o que Leandro nos mostra é a força e a diversidade dessas pequenas folhas publicadas desde Santa Cruz, Realengo, Jacarepaguá até a Ilha do Governador; de Madureira até São Cristóvão, passando por Todos os Santos, Piedade, Engenho de Dentro, Méier, Engenho Novo... Ainda que a existência de muitos periódicos tenha sido efêmera, alguns duraram décadas, mantiveram tiragens bem expressivas e construíram amplas redes de interlocução, expressando opiniões, projetos e expectativas de um número considerável de moradores da cidade" (Laura Antunes Maciel).


Leandro Climaco é Professor de História do Colégio Pedro II e doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) com o projeto "Histórias e memórias invisíveis: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro, 1880-1940". Na mesma universidade concluiu o Mestrado em 2011 com o trabalho "Nas margens: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro - 1880-1920"; e a graduação em 2007 apresentando monografia sobre a constituição histórica do bairro de Madureira intitulada "Memória e vida cotidiana em Madureira, um bairro da cidade do Rio de Janeiro".



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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lançamento do livro "Entre Laranjas e Letras", de Amália Dias




"Surge, finalmente mais um livro autoral sobre a história de Nova Iguaçu. E não é um livro qualquer: pesquisa de fôlego, faro de investigação, clareza dos referências teóricos e uma boa dose de paixão. Essas são as qualidades do trabalho com que Amália Dias nos brinda.

(...) As páginas seguintes descrevem os processos de escolarização em Nova Iguaçu e as expectativas em relação ao futuro por parte das elites ligadas à lavoura e à imprensa. Estavam elas alvissareiras com a produção e o comércio internacional de laranjas colhidas na região, e a escola poderia expandir seus horizontes" (Álvaro Pereira do Nascimento).


Amália Dias é Professora Adjunta do Departamento de Ciências e Fundamentos da Educação da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF-UERJ) e membro permanente do Programa de Pós Graduação em Educação, cultura e comunicação em Periferias Urbanas. Membro do Grupo de Estudos Históricos da Baixada Fluminense (GEHBAF).Doutora em História da Educação na Universidade Federal Fluminense (2012). Mestre em História da Educação pela Universidade Federal Fluminense (2008), onde obteve o prêmio Bolsa Nota 10 Faperj. Atuou como Professora Substituta de História da Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ). Bacharel e licenciada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005), período em que realizou estágios no Arquivo Nacional, no Ministério das Relações Exteriores e obteve bolsa de Iniciação Científica da Faperj. Lecionou na rede estadual de educação. Inserida na área de ensino e pesquisa em História da Educação, atuando principalmente nos temas: história regional da Baixada Fluminense; história dos processos de escolarização na Baixada Fluminense, história da profissão docente no Brasil; história da educação, história política e história do Brasil. 

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sábado, 29 de novembro de 2014

CINEFILIA: "Boyhood", por Samantha Brasil



Boyhood – da infância à juventude (EUA, 2014).

Por Samantha Brasil

29/11/2014

Imagine um filme que demore 12 anos para ser rodado, no qual o diretor acompanha a rotina diária de uma “família”, no qual a gente percebe as mudanças físicas dos personagens, as roupas de cada ano, as músicas mais famosas de cada época, estilos e trejeitos de falar, gírias, jogos, aparelhos eletrônicos, carros da moda. Esse projeto fantástico de falar da simples rotina diária de uma família comum foi lançado esse ano por Richard Linklater, que inclusive levou o prêmio de melhor direção no Festival de Berlim. Mas não era de se surpreender que um projeto original desse porte viesse justamente de Linklater. Afinal ele ficou famoso por dirigir a trilogia composta pelos filmes “Antes do amanhecer” (1995), “Antes do por-do-sol” (2004) e “Antes da meia-noite” (2013) que também acompanha as três fases de um casal interpretado pelos mesmos atores (Ethan Hawke e Julie Delpy). Ou seja, o diretor gosta desse desafio de lançar grandes projetos que se perpetuam no tempo. E nós só temos a ganhar, já que a riqueza dos detalhes e das delicadezas em que as relações micro se formam para dar conta de um universo macro nos faz pensar e refletir não só sobre uma família em particular, mas sim na própria transformação social de uma década.

“Boyhood” (no original) é um dos filmes mais esperados nas indicações para o Oscar de 2015, podendo ser indicado nas categorias de melhor filme, direção, roteiro original, ator e atriz coadjuvantes (para Ethan Hawke e Patricia Arquette, que interpretam pai e mãe do protagonista). A película é vista pelos olhos do menino Mason Jr., interpretado por Ellar Coltrane, que vive as agruras da mudança da infância para a adolescência (um dos momentos mais ricos, tensos, densos e desconfortáveis da vida de um ser humano). Nessa empreitada ele se soma à sua irmã Samantha, personificada pela própria filha do diretor: Lorelei Linklater. Vemos ambos crescendo, envelhecendo, mudando os cabelos, o estilo de se vestir, o modo de falar, o timbre da voz, as espinhas, a descoberta do primeiro amor. Hawke e Arquette são os pais dessa dupla e que vivem em um casamento que não dá certo. Nessa jornada da infância à juventude, como sugere o subtítulo que ganhou em terras brasilis, vemos um casal que se separa, a mudança de colégio das crianças, problemas financeiros, o novo parceiro da mãe que chega nessa família meio desestruturada com mais dois filhos, um pai ausente que só aparece para entreter e não para educar.

Podemos então estar nos perguntando: o que tem de tão interessante e que faz este filme ser um marco no cinema mundial, já que ele conta uma história tão comum, tão banal?  A genialidade está na forma, na estética, na ousadia, no roteiro inventivo e constantemente mutável para se adequar às transformações sócio-culturais. Mas não somente nisso. Está também no conteúdo, pois muitas vezes é mais difícil contarmos uma trama simples, sem deixá-la parecendo “mais do mesmo” e enfadonha. Projeto semelhante, todavia menos grandiloquente, foi o de Michael Winterbottom ao filmar por cinco anos o longa inglês “Todos os dias” (2012). Porém, diferente deste aqui, tal diretor relata um caso específico. Mostra como uma família lidou com o fato do pai estar preso cumprindo pena por um crime cometido. Já Linklater consegue prender o espectador ao longo de quase três horas de projeção para falar sobre dia a dia, cotidiano, ou seja, nenhum tema em especial. Quando o filme acaba nos sentimos meio órfãos, querendo saber mais da vida de Mason Jr. e sua família. Se ele se forma, se seu encontro com a namoradinha dá certo, como está seguindo sua vida, como está sua aparência. Tornamo-nos meio que personagens ocultos do filme que se passa numa época recente em que todos vivemos. Impossível não se emocionar e se identificar com as diversas referências de gostos, hábitos, costumes da década passada. 

“Boyhood” apesar de datado é um filme atemporal no sentido em que marcará esta década numa experiência quase “documental” do diretor que pretende imprimir uma marca autoral na história do cinema. A vontade de Linklater nos convencer é tão realista que a gente acaba se deixando levar por aquela família como se ela de fato existisse. Um trabalho realmente primoroso e engajado não só do diretor, mas de todo o elenco. Aliado ao que já foi dito, some-se a tudo isso uma trilha sonora espetacular que marcou as fases pelo qual o filme perpassa de forma a se tornar quase um personagem. É um filme de total imersão que nos faz reviver a nossa própria infância e juventude, com o perdão do trocadilho em relação ao nome "brasileiro" do filme.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ 

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!




Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.



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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Homem / O poeta morreu, por Luan Alves Ribeiro


Homem

Uma coisa viva que pulsa e descansa
Sob tetos e anjos renascentistas
Sobre o piso e dentro da pele
Entre móveis, cores, cheiros, sons
Feito de passado e espera

Feito de saudade e miséria.



O poeta morreu

Morreu o poeta-pássaro, não haverá mais trovões,
Não haverá ventania, tristeza, planto, canções.
Hoje morreu meu poeta, meu bicho do mato no meio da gente
Me sinto órfão e quente do fogo etéreo da morte.

Hoje não voo, não amo,
Hoje nem sequer saio de casa
Vou pra floresta resgatar na madrugada
O canto que o João de Barro fez.

Hoje queria sorrir
Mas nem teu verso me traz
A possibilita de ir
Pra longe do uivo voraz.

Hoje queria cantar,
Mas hoje morreu a poesia
Retenho com  melancolia
Teus passos deixados pra trás.

Hoje o pássaro voou pelos céus da eternidade.


Juiz de Fora, MG.

13/11/2014

(Para Manoel de Barros)


Luan Alves dos Santos Ribeiro, nascido na cidade de Três Rios (RJ) em 14 de julho de 1992 é estudante de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora e poeta quando a vida deixa.  Pois como nos alerta Gullar a poesia nasce mesmo é do espanto! Extremamente perplexo com as loucuras da vida deságua seu verbo numa tentativa de catarse e numa tentativa de sobrevivência. Essa é a pequena história dos seus versos: uma forma de fugir da loucura da vida se entregando à loucura da palavra.  O que mais seria possível fazer? Os poemas falam por si só.


Página onde se encontram alguns poemas do autor: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=165642


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sábado, 22 de novembro de 2014

Nova Iguaçu: Cidade dos meus olhos, por Marcus Vinícius Faustini

Para quem não conhece a Baixada Fluminense.
Para quem só ouviu falar.
Para quem vem de vez em quando.
Para quem vive e convive neste território formado por tantos municípios, mas onde há uma relação social e econômica intrínseca e de interdependência entre as cidades.
Para quem quer saber mais sobre esta incrível cidade que é Nova Iguaçu e que formou tantas outras.

Ver este pequeno grande filme é um primeiro passo fundamental para conhecê-la e reconhecê-la.



Marcus Vinícius Faustini foi secretário de cultura de Nova Iguaçu, é o idealizador da Agência Redes Para Juventude e escreve às terças-feiras no jornal O GLOBO.


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terça-feira, 18 de novembro de 2014

BAIXADA FLUMINENSE: Inovações e Permanências, por Adrianno Oliveira

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro em Fevereiro de 2014.






















Para ler e fazer o download da tese completa é só clicar neste link:





Adrianno Oliveira é capixaba de alma fluminense, vascaíno e pai do Gabriel.
Economista e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ, leciona Economia Brasileira e Economia Fluminense no campus Nova Iguaçu da UFRRJ. Apaixonado por economia, artes, cinema e fotografia (não necessariamente nesta ordem) e agora se embrenhando em outras searas, sempre buscando o novo, pois como diria o amigo Buzz Lightyear: “Ao infinito....e além!”






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Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades
Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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Saiba como adquirir o mais novo livro de Vinícius Silva clicando nesta imagem

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

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Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

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