(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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quarta-feira, 28 de março de 2012

A caminhada


O passo era firme, frequente. A caminhada diária recomeçava mais uma vez. Mais um dia. Um novo dia. Mas aqueles passos eram especiais, eram os últimos. Mesmo sem saber, caminhava os passos firmes da convicção serena de ter feito as boas escolhas, de ter sido bom pai, boa pessoa.

Os pensamentos vinham como a poeira carregada pelo vento. A cada esquina dobrada, pensava: 

"Acho que fiz tudo certo, meus filhos casados, criados, bem formados! Meus netos lindos e felizes. Uma esposa que me ama, apesar dos meus erros e defeitos...".

A caminhada continuava, pé-pós-pé, calcanhares velozes, transpiração pulsando. E assim como as pernas, os flashes velozes diziam "é... foi um trabalho bem feito!".  

E de repente. Susto. Susto. O coração para. O coração parou e a escuridão se fez... O tempo passou, a poeira voou, outras pernas dobraram as esquinas e seus olhos enxergaram outra vez. Valeu a pena, sim, e como valeu, e se pudesse caminhar, novamente, andaria os mesmos caminhos. Mas hoje não caminha mais, porque voa, voa e viaja aos mesmos passos firmes e vicejantes, assim como antes, a nos visitar de vez em quando e a dizer: 

"Vamos caminhar gente! Vamos todos, pois agora é com vocês. Vamos!".
  


                                                                                                                    Para meu Tio Mazinho.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pequeno pai


Hoje meu padrinho foi sepultado. Sua morte ocorreu ontem, devido a um coração frágil que o perseguia faz alguns anos. Isso seria uma notícia comum, comum no dia-a-dia da corrida cidade, onde pessoas morrem todos os dias, sem sabermos os nomes, as idades, as doenças, as histórias. Pais, irmãos, filhos, mães, avós… padrinhos.

E o que o fazia tão especial, além do fato dele ser o MEU padrinho? Esta pessoa não era da minha família, não tinha laços consangüíneos comigo ou com meus pais. Foi “escolhido” para ser meu “pequeno pai” (padre + inho) pelos laços de amizade construídos com meu velho quando os dois iam trabalhar juntos, tomando o trem dos sucateados trilhos da Central. Não à toa. Os trens possuem um grande significado em minha história, mas isso é papo para um outro texto.

O que o fez e o faz especial foi o amor intenso e sincero que ele me deu desde minha tenra idade. Nunca me senti um afilhado para meu padrinho, sempre me senti um “pequeno filho”. Sei do amor irrestrito de meus pais por mim e meu irmão, mas amor de pai e mãe é sempre marcado pela obrigação da educação, das regras e de uma certa rigidez. Não. Ele não precisava ser assim comigo, e não foi.

Meu pequeno pai sempre me disse as coisas mais belas que já pude ouvir na vida. Coisas que nunca escutei de ninguém, e que ele sussurrava em meu ouvido quando me abraçava, depois de tascado um beijo em minha bochecha. Meu padrinho era um homem pequeno, de baixa estatura, era mais baixo do que eu, o que é realmente uma grande proeza. Mas como era gostoso de abraçar, de beijar, além de ser cheiroso. Acho que foi com meu padrinho que aprendi a abraçar, cheio, com vontade, sem vergonha se estava abraçando um homem ou não. Ele sempre me abraçou sem pudores, me tascava um beijo no rosto e eu adorava. Sua pequenez era só em sua altura, ou falta dela. É um grande homem, grande. Não sei que tempo verbal mais usar.

E quais palavras ele falava para mim? Não posso reproduzir todas, não teríamos espaço nem tempo, eram muitas! Mas posso descrever algumas dessas palavras que ecoam neste momento em meus ouvidos e em minha memória ferida. “Bendito o dia que teu pai me deu a honra de ser seu padrinho”, “Meu filho, você é uma benção em minha vida”, “Eu sou mais feliz por saber que eu tenho um afilhado como você”.

O que mais me dói não é achar se ele sofreu muito ou pouco. Sei efetivamente que ele estava cansado, seu corpo estava cansado, sei disso, sentia isso em sua voz nos últimos dias. Ele queria vida, queria a vida, mas nem sempre nossa máquina humana responde à altura nossos desejos.

Minha verdadeira dor, agora, neste exato momento, é saber que não terei mais aquele abraço, aquele beijo na bochecha, aquelas palavras. Pelo menos não agora. Não hoje. Não mais. E com toda a minha mesquinhez e arrogância, o que eu queria era o poder divinal para abraçá-lo mais uma vez, pela última vez, dá-lhe um beijo e dizer: “Eu te amo!”. Mas não posso, não mais.

E o que realmente desejo registrar e que talvez nunca tenha dito como deveria ter feito um dia, é:

“Meu padrinho, meu amigo, é com muito orgulho e amor que te afirmo que você é uma benção na minha vida e que te agradeço pelo homem que você é, e que me ajudou a ser na minha luta cotidiana para ser uma pessoa melhor, uma pessoa…. como você! Obrigado meu padrinho, meu amigo! Obrigado por ter estado em minha vida por todos esses anos com seu amor e seu carinho”.

E o nome desse príncipe, desse gentil pequeno homem só poderia ser um. O nome que traz a sensação da grandeza, que nele simplesmente soava como educação e gentileza, externado no homem amoroso e sensível que ele sempre foi e é, para sempre.

Cesar, seu nome é Cesar.

Obrigado e saudades, seu afilhado, seu pequeno filho.






Vinícius Fernandes da Silva.

07/03/2012.





Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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