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segunda-feira, 18 de abril de 2016

O dia da infâmia


Eduardo Cunha e João Roberto Marinho


Nasci em 1979, em plena ditadura civil-militar e na última fase dos governos fascistas, liderado naquele momento pelo ditador João Figueiredo, ex-chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação), e portanto diretamente responsável por perseguições, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Os resultados deste último período da ditadura foram uma anistia que só fez livrar assassinos e torturadores de futuros encarceramentos e o adiantamento do processo de "redemocratização", culminando na Constituição de 1988.

Minha primeira infância e posterior adolescência foram vivenciadas na tentativa do país em efetivar uma agenda democrática e de garantia de direitos. Nossa carta fundamental foi extremamente avançada em seus desígnios e dispositivos jurídicos, porém as práticas políticas fortemente enraizadas pela ditadura se tornaram o principal obstáculo à implementação de uma real democracia. No Brasil a Política institucional e estatal é inimiga da Constituição.   

Já na primeira eleição direta para presidente da República, em 1989, vimos que esta política pautada pelos interesses empresariais e do grande capital não rogou em construir, eleger e destituir um personagem-presidente, e a eleição e impeachment de Fernando Collor pela Rede Globo é a mais cabal prova de que não seria nada fácil tentar formar um novo país, mais justo e igualitário.

E a História seguiu, vimos e vivemos enormes crises econômicas, algumas graves crises políticas, um governo de centro-direita, um governo de centro-esquerda e a guinada deste último também para a direita, principalmente em relação à economia do país. Porém algo que podemos verificar, hoje, é que o avanço da democracia pelos chamados meios institucionais-legais precisa ser amplamente questionado.

Os processos conciliatórios que nossas esferas de poder, através das elites partidárias e sindicais, sempre buscaram, acabaram por encobrir algo que sempre tivemos medo de revelar e assumir: a ditadura e seus arautos autoritários estiveram, desde sempre, nos habitando e efetivamente nunca os enfrentamos. Todos os produtores, defensores, propagadores, difusores, mantenedores do Estado torturador e assassino foram amplamente mantidos e reproduzidos em nossa vida política, social e cultural. Não foram expurgados pelos julgamentos jurídicos e morais que deveríamos ter feito, como a sociedade que gostaríamos avançada a um estado civilizatório verdadeiramente superior.    

Fracassamos! Fracassamos ao permitirmos que nossos jovens e adultos fossem "educados" pela indústria cultural e midiática que cotidianamente apoia e estimula a destruição da democracia para continuarem em sua plutocracia formada pelos "homens de bem(ns)". Fracassamos ao negligenciarmos a construção da indústria cultural e material do extermínio dos "telespectadores", da patuleia, da massa pobre e negra que só serve para reproduzir força de trabalho, e enquanto for "servil", pode e deve continuar a viver na miséria, pois só a miséria pode mantê-la sob controle. Esta indústria cultural e midiática efetivamente não necessita desses telespectadores, o Estado está aí para sustentá-la. Ambos se servem muito bem, até porque uma grande parte dos agentes do Estado também são seus donos.  

Fracassamos ao não levarmos para a educação publica e privada a garantia dos direitos humanos como conteúdo principal, e não somente tratá-la como tema transversal! Ao não destruirmos de maneira contundente a ideia difundida pela indústria midiática de que a ditadura foi uma "dita-branda" e que "vários aspectos positivos foram proporcionados ao povo". Farsa! Ao não elencarmos como tema fundamental as garantias das minorias, e que já eram pautas importantíssimas na década de 1980, no seio do avanço dos movimentos feministas, GLS, com o advento do HIV, etc.

Fracassamos ao termos permitido que os jovens nascidos nas décadas de 1990 e 2000 ainda reproduzam os discursos homofóbicos, misóginos, racistas e de ódio, ainda pautados na desinformação, na ignorância, na incivilidade que permeia nossa triste história de sociedade escravagista, patriarcal e violenta.

O dia em que um novo golpe de Estado foi perpetrado na História do Brasil, em Abril de 2016, não é um dia novo, não é um novo dia. É um fenômeno que talvez a física quântica possa, no futuro, nos explicar. É uma dobra no espaço-tempo em que o Universo se repete, e repete os mesmos atores, as mesmas falas, os mesmos discursos, as mesmas ações e misérias. Vejam! Não há nada de novo! São exatamente os mesmos atores, as mesmas falas, os mesmos discursos, as mesmas ações e misérias. Vejam! São os mesmos... Que destruíram nossa já opaca democracia em 1964 e que a violentaram novamente em 2016. 

Ao vermos os discursos e rostos da esmagadora maioria do Congresso Nacional, neste Abril de 2016, que votaram pelo golpe de Estado (367 votos), podemos realmente compreender nossos fracassos e misérias citados acima. A sociedade brasileira não é efetivamente representada por estes 513 deputados. A anomalia gerada pelo financiamento privado de campanhas pode explicar boa parte desta degeneração. Porém sim, somos também representados e elegemos conscientemente este corpo político. E digo isto para poder afirmar: Uma sociedade que aplaude e permite que um deputado defenda a ditadura e homenageie um notório assassino e torturador, merece, sim, ter como presidente da República Michel Temer e vice-presidente Eduardo Cunha, ou seria o contrário, ou... tanto faz?

E apesar dos fracassos apontados, o mais importante notar é que nos filmes de ficção científica o continuum espaço-tempo sempre pode ser alterado por um fio, por alguma pequena mudança ou esperança que rompa com a repetição e altere o tecido da História.

E mesmo que este 2016 seja uma réplica quase que (im)perfeita de 1964, há a possibilidade de uma mudança significativa: a resistência!

Se em 1964 os golpistas passearam em carro aberto pelas ruas do país, talvez em 2016 esta aventura não seja tão fácil assim. O golpe foi dado, está sendo dado e será dado. Então... Qual a grande diferença?

Sim, parece que dessa vez, vai ter luta!
Sim, vai ter luta!
Luta!
Luta?

Este texto também está publicado em nosso outro espaço virtual o "Palavras, Películas e Cidades", na Plataforma Obvious.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias:(in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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