(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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sábado, 27 de dezembro de 2014

A Caixa de Afetuosidades






























Alguns anos atrás, acho que há mais de dez, uma grande amiga me deu um presente inusitado. Uma caixa de papelão grosso encapada por ela mesmo, em papel presente prateado, listrado e brilhante. Uma caixa... vazia! 

Em nossa tradicional cultura ocidental, dias festivos são preenchidos com embrulhos e caixas cheias de presentes! E assim vamos com nossos dias das Mães, dos Namorados, dos Pais, dos Amigos, das Crianças, Natais, fazendo a alegria do comércio, enchendo de "notícias" os comentaristas econômicos ávidos por crescimento, crescimento e mais crescimento. Não que essas pessoas não sejam importantes ou que estes dias não devam ser comemorados, mas até nossas homenagens foram capitalizadas pelo fetiche da mercadoria. Eu também fui cooptado por este fetiche, e nas vésperas de tais dias, lá vou eu encher shoppings centers e lojas para comprar presentes, e se não o fizer, correrei o risco de ser taxado de filho ingrato, marido insensível e etc. 

Mas e o que fazer com uma caixa vazia? A princípio... a dúvida, mas depois encontrei um destino à mesma. Ela seria a minha... Caixa de Afetuosidades! Isto significaria que a partir de então todo e qualquer documento, papelzinho, lembrança, cartas de amor, bilhetes de filmes, peças teatrais, shows ou eventos que fizessem me religar a uma emoção significativa, entrariam na caixa. Algo que achei que seria banal, tornou-se um marco que considero importante. 

E depois de tanto tempo, minha Caixa de Afetuosidades está cheia, abarrotada de papéis e lembranças que contam um pouco minha vida através de sentimentos e emoções, amores e desamores, acontecimentos vividos antes ou depois de casado, de formar nova família, de fazer novas ou desfazer velhas amizades. Pelos caminhos desconhecidos em que a vida nos traz e nos leva, a amiga que me presentou com a Caixa hoje não faz mais parte do rol de meus amigos mais íntimos. Na verdade nem trocamos mais palavras. E se me perguntarem "o por quê disso"? Não sei responder. Obviamente que erros cometi nesta relação de carinho e amizade, nunca com a intenção da mágoa ou do ressentimento, mas talvez coisas muito intensas tenham destinos mais dramáticos. Elucubrações de quem sabe muito pouco sobre os mistérios dessa grande surpresa que é a vida. Mas ao olhar para a Caixa, o amor e amizade que sinto por ela continuam presentes, porque não existe ex-amor, amores apenas se transformam.

Com o passar de todos estes anos a Caixa continua firme e forte, com claros desgastes que só o tempo pode proporcionar. Com sua tampa a rachar nas pontas, com o papel a descolar de suas paredes, com o brilho prateado a ficar fosco, com a poeira que se não se cansa de lhe sujar. Mas continua ali, altiva e viva, ainda recebendo, de vez em quando, os talhos de memória que a fazem cumprir a missão que lhe dei.

Hoje já se faz necessário uma nova Caixa de Afetuosidades, um novo recipiente para novas emoções, lembranças e aventuras. Para que os acúmulos possam ter representatividades materiais, não somente em fotografias, mas em pedaços que em um simples toque ou olhar, tragam a explosão de memórias e afetos já vivificados.

E se eu chegar à mais profunda velhice, meus descendentes poderão ouvir minhas histórias de meus lábios murchos, mas quando aqui não mais estiver, minhas Caixas de Afetuosidades ajudarão a revelar com mais carinho e amor os sentimentos que permearam minha vida.    

E você, já fez ou ganhou sua Caixa de Afetuosidades?


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

CINEFILIA: MELHORES FILMES DE 2014, por Samantha Brasil

Final de ano combina com listas e como todo cinéfilo adora uma lista de melhores filmes do ano eis aqui uma recheada. Já que 2014 foi um ano repleto de filmes interessantíssimos, não me detive a fazer uma pequena lista de 10 melhores como é de praxe. Aproveitei o ensejo, me inspirei e dividi a lista em categorias, pois o mundo vai muito além de Hollywood. Corram atrás dessas pérolas do cinema nacional e mundial porque 2015 já está batendo à porta e novas produções estão por vir.



FILME (LÍNGUA INGLESA): ELA, de Spike Jonze.

























1) ELA, de Spike Jonze
2) SOB A PELE, de Jonathan Glazer
3) BOYHOOD, de Richard Linklater
4) 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO, de Steve McQueen
5) NEBRASKA, de Alexander Payne
6) O ABUTRE, de Dan Gilroy
7) O CONGRESSO FUTURISTA, de Ari Folman
8) O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, de Wes Anderson
9) MIL VEZES BOA NOITE, de Erik Poppe
10) THE ROVER – A CAÇADA, de David Michôd


FILME (LÍNGUA NÃO-INGLESA): MISS VIOLENCE (Grécia), de Alexandros Avranas.



1) MISS VIOLENCE (Grécia), de Alexandros Avranas
2) INSTINTO MATERNO (Romênia), de Calin Peter Natzer
3) MOMMY (Canadá), de Xavier Dolan
4) O PASSADO (Irã), de Asghar Fahradi
5) RELATOS SELVAGENS (Argentina), de Demian Szifron
6) IDA (Polônia), de Pawel Pawlikowski 7
7) A MONTANHA MATTERHORN (Holanda), de Diederik Ebbinge
8) GLÓRIA (Chile), de Sebastian Lelio
9) ALABAMA MONROE (Bélgica), de Felix Van Groeningen
10) CÃES ERRANTES (China) de Tsai Ming-Liang


FILME NACIONAL: O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra.

























      1) O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra
2) UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA, de Gustavo Galvão
3) VENTOS DE AGOSTO, de Gabriel Mascaro
4) O HOMEM DAS MULTIDÕES, de Marcelo Gomes
5) O MENINO E O MUNDO, de Alê Abreu
6) QUANDO EU ERA VIVO, de Marco Dutra
7) HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, de Daniel Ribeiro
8) GATA VELHA AINDA MIA, de Rafael Primot
9) PRAIA DO FUTURO, de Karim Aïnouz
10) MINUTOS ATRÁS, de Caio Soh


FILME ESTRANGEIRO (Mostras e Festivais): A ILHA DOS MILHARAIS, de George Ovashvili.

























      1) A ILHA DOS MILHARAIS (Geórgia), de George Ovashvili
2) WINTER SLEEP (Turquia), de Nuri Bilge Ceylan
3) O SEGREDO DAS ÁGUAS (Japão), de Naomi Kawase
4) BLIND (Noruega), de Eskil Vogt
5) O PRESIDENTE (Alemanha, França, Geórgia e Reino Unido), de Moshen Makhmalbaf


FILME NACIONAL (Mostras e Festivais): A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante.

























1) A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante
2) A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA, de Guto Parente 
3) CASA GRANDE, de Fellipe Gamarano Barbosa
4) LOVE FILM FESTIVAL, de Vinícius Coimbra
5) A DESPEDIDA, de Marcelo Galvão



Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.




Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

CINEFILIA: "Mommy", por Samantha Brasil




Mommy (2014, Xavier Dolan)

Por Samantha Brasil

24/12/2014

Com seu quinto filme, o jovem diretor canadense Xavier Dolan foi aclamado no Festival de Cannes desse ano recebendo o Prêmio do Júri junto com o experiente cineasta Jean-Luc Godard. E o prêmio não foi à toa. Com um trabalho magnífico, o diretor de apenas 25 anos, retoma o tema que nunca largou e que o lançou no mundo cinematográfico: as dificuldades nas relações familiares, em especial entre mãe e filho. Seu primeiro filme “Eu matei minha mãe” (2009) é um retrato histérico de uma família disfuncional formada somente por mãe e filho na qual a relação de ambos é totalmente inviável. Já em “Mommy”, o tema é semelhante, porém aqui o que mais chama a atenção é o amor exacerbado entre a mãe Diane (Anne Dorval, atriz-fetiche de Dolan) e seu filho adolescente Steve (Antoine-Olivier Pilon). É tanto amor que a relação fica sufocante, não mais pelas diferenças (como no primeiro filme), mas pelas semelhanças.

E pra mostrar o quanto a essa mediação é claustrofóbica em diversos níveis, Dolan utiliza a técnica estilística de filmar no formato de câmera 1:1 que encurta a tela, deixando a imagem com um tamanho quadrado como se fosse uma janela. Só por esse aprumo e apreço estético que compõe uma metáfora e uma metalinguagem dos e para os próprios personagens já se pode notar o cuidado com que Dolan idealizou essa obra. Nada é gratuito e este recurso imagético funciona perfeitamente para demonstrar o quanto ao longo do filme os personagens conseguem se expandir e se retrair de acordo com os acontecimentos. “Mommy”, nesse sentido, é uma película bastante sensorial, pois além de vermos as atuações em conjunto com cenário e fotografia (acertadamente trabalhada por André Turpin), nós de fato experimentamos junto com os atores todas as agruras do roteiro tão bem explorado pelo diretor.

A história é contada num Canadá fictício, mas não muito longínquo. A trama é narrada em 2015 quando o governo canadense sanciona uma Lei que prevê que a família pode “abandonar” um filho problemático aos cuidados do Estado sem qualquer ônus ou sanções legais. Steve é um desses adolescente-problemas, que tem na mãe Diane um espelho de imaturidade que faz com a relação entre eles, apesar de muito amorosa, seja uma completa catástrofe. Ambos são desajustados sociais, pois não se enquadram nas regras de conduta moralmente recomendadas. A essa dupla quase que explosiva soma-se uma vizinha tímida chamada Kyla (Suzanne Clément) introspectiva, com problemas de fala e sufocada por uma estrutura familiar extremamente conservadora, mas que de alguma forma vai ser o ponto de equilíbrio dessa família disfuncional. 

Esse triângulo emotivo formado por Dorval, Clément e Pilon tem uma força monstruosa de atuações irrepreensíveis funcionando como um motor catártico de relações interpessoais que denotam insegurança, amor, fúria, frustração, angústia, incerteza, liberdade, alegria, prazer. Tudo isso misturado com cores vibrantes e acompanhado de uma trilha sonora extremamente vívida a ponto de se tornar praticamente uma personagem. Destaco aqui uma cena de grande beleza do filme em que a tela se expande para o seu formato normal, abandonando aquele olhar reduzido do mundo proporcionado pelo formato quadrado vertical 1:1, no qual Steve tem um momento explosivo e catártico ao som de “Wonderwall” da banda Oasis. Facilmente essa cena entrará para o panteão do cinema devido a sua intensa magia.

Sem sombra de dúvida e tendo em vista que já estamos a menos de 15 dias para o fim de 2014 é possível desde já afirmar que “Mommy” é um dos melhores filmes do ano. Indicado pelo Canadá para concorrer na categoria do Oscar de filme estrangeiro é um filme imprescindível não somente na filmografia de Dolan que o dirige, monta, produz, é chefe de figurino e roteirista, mas na lista de qualquer cinéfilo que se preze.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!







































Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.




Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Volta pra C... hina!



Quando representantes da direita ou da extrema direita querem "xingar" movimentos que defendem mais democracia ou mais direitos, ou simplesmente pessoas, grupos ou partidos de esquerda, costumam gritar a frase "Volta pra Cuba!". Antes mesmo de ser uma frase/pensamento totalmente ilógicos e desconectados com qualquer razoabilidade histórica ou política, este "xingamento" é cafona e velho. Já pouco antes ao Golpe de 1964 víamos em cartazes da tradicional família cristã brasileira a mesma frase. Cinquenta anos depois, sendo vinte e um vivendo em um regime de exceção, o Brasil não se transformou em Cuba, muito pelo contrário.

O Brasil se aproxima muito mais de nossos irmãos norte-americanos, não ainda no tamanho de sua economia, mas em sua estrutura democratico-parlamentar representativa, onde o Congresso está dominado pelos interesses financeiros internacionais, pelas corporações multinacionais e seus representantes não passam, em sua maioria, de lobistas a defender estes interesses, tendo de vez em quando que dar pequenas respostas à população. O Excecutivo não é muito diferente, pois também sobrevive e se elege pelos mesmos "investimentos" corporativos e convive na balança entre a manutenção dos ganhos do capital e o medo da dissolução do estado liberal democrático de direito pelas justas revoltas populares. O Brasil sempre sonhou ser os EUA, vide nosso primeiro nome após o golpe militar republicano de 1889, quando fomos nomeados de República Federativa dos Estados Unidos do Brasil. Nunca estivemos tão próximos de realmente sermos os EUA da América do Sul. Na verdade já o somos atualmente. Hoje vivemos uma grande miséria em nossa democracia representativa, assim como eles.  

Porém voltando à Cuba... Não, a ilhota situada na América Central não é nem de longe o exemplo de socialismo humanista imaginado por Marx ou por outros grandes pensadores críticos do capitalismo. Assim como a União Soviética não foi, nem o Vietnã, nem a China é, e muito menos a Coreia do Norte. Mas lembremos que a miséria produtiva de Cuba é muito mais reflexo do embargo econômico de mais de cinquenta anos dos EUA do que efetivamente sua incapacidade de produzir riqueza. É de admirar então que uma ilhota miserável da América Central tenha a melhor saúde e educação públicas de toda a América Latina, isso reconhecido pelo Banco Mundial, grande instituição da ordem capitalista do planeta. 

Já que a questão do imperativo "Volta pra Cuba!" é de natureza ideológica, porque não ouvimos então o... "Volta pra China!"? Porque a China é tão diferente de Cuba? Os dois não são países comunistas/socialistas? Porque é muito mais fácil "mandar" pessoas à Cuba do que à China? Neste caso a própria natureza dos defensores ardorosos das economias de mercado e dos fluxos financeirizados ao redor do mundo sabem: hoje a maior economia do planeta pertence a um país comunista. Atualmente a China é a mola econômica do mundo. Se quebrar, leva o restante de praticamente todo o planeta. Seus fluxos de importação e exportação fazem o movimento pendular e produtivo que o atual sistema capitalista necessita. Papeis moeda e de dívidas públicas norte-americanas estão mais nas mãos de chineses do que dos próprios americanos, e não se pode mandar o FED ficar imprimindo dinheiro com o risco de desvalorização do dólar. A vida dos grandes capitalistas mundiais está nas mãos... do Partido Comunista Chinês! 

Pena que a China não realiza efetivamente um socialismo humanista e libertário, pois seu sistema político e econômico está concentrado no velho padrão de hierarquia e estratificação social, neste caso baseado no pertencimento às diferentes instâncias de poder dentro do Partido Comunista. Seu modelo de produção industrial é totalmente desconectado com a preocupação da sustentabilidade ambiental, destruindo seus recursos naturais e sendo o maior poluidor do planeta. Seus trabalhadores recebem salários miseráveis e com pouquíssima legislação de proteção, podendo ser comparados (dependendo das leis de determinados países) a escravos pós-modernos, resultado de seu capitalismo de Estado. A China, portanto, parece, em certos aspectos, ter-se transformado em sonho de todo... capitalista.

Então fica mais claro e compreensível a escolha burocrática racional para onde se mandar os indesejáveis. Dentro da lógica das vantagens do capital, a China é o grande paraíso, dane-se se é comunista. Na verdade a ideologia é o que menos importa, o que importa mesmo é o capital. E se tratando de capital... fácil mesmo é gritar ou berrar:

"Volta pra Cuba!"    


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Livro: "Nas margens", de Leandro Climaco Mendonça



Para quem se preocupa com as construções materiais e sobre o imaginário de territórios tidos como "periféricos", não ler este livro será péssimo negócio!

O livro pode ser encontrado e comprado na livraria da UFF (a loja física é em Niterói) e também no site da Editora UFF. Além da Livraria da Travessa, site e lojas físicas desta rede.


"(...) Através de uma investigação histórica ampla e cuidadosa sobre pequenas e, muitas vezes, efêmeras folhas publicadas nas margens das ferrovias que cortam a cidade e dos meios hegemônicos de comunicação, Leandro realizou um criativo exercício de análise para superar as dificuldades de lidar com testemunhos dispersos e fragmentados e reconstruir a intensidade das experiências dos moradores dos subúrbios com o jornalismo, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Acompanhando as razões alegadas por cada jornalista ou diretor/proprietário para criar um jornal ou revista, o autor esmiuçou tensões e alianças entre diferentes experiências e práticas jornalísticas, dentro e fora dos subúrbios, e suas articulações com outras redes de comunicação social na cidade em meio ao silêncio ensurdecedor dos seus contemporâneos.

Trabalhando com coleções reduzidas, em geral compostas por um ou dois exemplares, ou com relatos indiretos e incompletos, um pesquisador menos atento poderia concluir que a imprensa suburbana foi socialmente irrelevante, desarticulada e frágil e nada teria a nos dizer sobre as intenções, projetos e reivindicações dos seus moradores para a cidade naquele momento histórico. Ao contrário, o que Leandro nos mostra é a força e a diversidade dessas pequenas folhas publicadas desde Santa Cruz, Realengo, Jacarepaguá até a Ilha do Governador; de Madureira até São Cristóvão, passando por Todos os Santos, Piedade, Engenho de Dentro, Méier, Engenho Novo... Ainda que a existência de muitos periódicos tenha sido efêmera, alguns duraram décadas, mantiveram tiragens bem expressivas e construíram amplas redes de interlocução, expressando opiniões, projetos e expectativas de um número considerável de moradores da cidade" (Laura Antunes Maciel).


Leandro Climaco é Professor de História do Colégio Pedro II e doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) com o projeto "Histórias e memórias invisíveis: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro, 1880-1940". Na mesma universidade concluiu o Mestrado em 2011 com o trabalho "Nas margens: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro - 1880-1920"; e a graduação em 2007 apresentando monografia sobre a constituição histórica do bairro de Madureira intitulada "Memória e vida cotidiana em Madureira, um bairro da cidade do Rio de Janeiro".



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

zero







Minha busca é antigravitacional, mas na dúvida,
viro à esquerda.











Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os cinco ciclos da morte



Faz pouco tempo atrás a Morte sentou-se ao meu lado e sussurrou seu verbo mudo em meus ouvidos quentes. Seus lábios murchos e ressequidos pela eternidade não vinham brindar minha alma com sua passagem fria, nebulosa e desconhecida, porém traziam surdamente as novas do que me esperava pela frente, o avançar do aprendizado amargo que ela prometeu a todos nós, a todos.

Primeiro e sorrateiramente ela iniciou seus trabalhos levando o bailarino de ébano. Amigo recente, à época, que me tratava como mestre, e dizia sempre [mestre] [mestre] com o maior sorriso do mundo. Nunca conheci alguém com sorriso tão grande e tão bonito. Depois de meu vô Antonio sorrir em seu estado final, nunca tinha visto outro alguém sorrir em sua esquife de tal maneira. Douglas sorria um sorriso discreto, mas que foi notado por todos que ali dele se despediam. Acho que por Douglas chorei uma das minhas lágrimas mais doídas. Foi quando sua mãe contou o hino cristão que ela disse ser de sua preferência quando criança. Posso esquecer-lembrar-esquecer da melodia neste exato momento. Exato. Aquela melodia entoada por alguns dentro da nave fez a água salina de meus olhos jorrar pelos pêlos de minha barba espessa. Tenho certeza que Douglas nutria amores pela mulher que hoje chamo minha. Nunca tive raivas ou rancores por isso. Como odiar quem ama quem você ama? Ah dançarino do sorriso largo, que saudades tenho de ti.   

Um ciclo de quatro estações depois Ela veio como um repente, dizendo-sem-falar que não estava para brincadeira. E foi buscar, então, espanto distante, familiar, mas distante. Um primo. Meu primo. Meu primo que não tivera contato próximo comigo, que não fora criado entre os meus e nem eu entre os dele, mas ainda sim primo, sangue e moléculas. O mais interessante nesta relação distante-próxima-distante eram os corpos. Impossível notar distância entre jovens tão parecidos, com semblantes tão semelhantes. Rostos, cores, tamanhos, olhos, cabelos, corpos. São parentes? Sim. Sim. Gilmar se foi. Rápido, de supetão. E não deu tempo. Não houve tempo para que eu dissesse [primo, me perdoe, não nos conhecemos muito, mas... quer ser meu amigo?] Foi-se. Se foi. E chorei também distante, ao léu de sua lápide, chorei por seu irmão, também meu primo, que chorava perto. Chorei ao chegar à porta de casa. Dentro do automóvel. Chorei. Chorei por Gilmar. Chorei por seu irmão também meu primo Gilsomar. Chorei por mim.  

Mas quando Ela prometeu que [dessa lição eu não esqueceria] não brincava em seu juramento, mesmo que de tal eu sequer suspeitasse. Mais um ciclo. Uma manhã em minha nova casa, em minha nova vida, um telefonema. Meu pai. E a pergunta por mim se repetiu repetiu [Quem?] [Quem?] [Quem?]. Não, não, meu tio não. Mazinho, meu sim-não-sangue-tio-sim morria por um coração que decidira parar de bater. Naquele instante já sabia da dor que enfrentaria. Mazinho, tio meu, passou anos afastado de mim, de meu irmão, por motivos e rusgas familiares que nós crianças não temos nenhuma culpa ou vontade. Da frieza dessa relação engessada pelo tempo e por mágoas emprestadas, surgia calor e amizade já nas vidas adultas. Ah santas películas italianas que nos aproximaram. Ah santa nova-tecnologia-nova que me fez um pouco mais conhecer meu tio, meu tio Mazinho. Ele se foi. Se foi no meio do caminho. [Tio eu não havia terminado de te ensinar como baixar todos os filmes. Volta. Volta!] Em sua despedida eu não chorei. Não consegui. Bastava as lágrimas de meus primos, sua dor presente. Minhas lágrimas vieram à noite, à cama, no colo da mulher que decidiu me acolher e amar.  

E quem disse que terminaria? O título diz [cinco]. Dessa vez Ela, a Morte, pareceu me deixar de entre aviso. Cesar, meu padrinho-padrinho-amor, carregava um coração valente e doente. Sabia de seu estado. Sabia da fragilidade de seu corpo. E dessa vez pensei [eh Morte, já saquei a sua, vou te antecipar, vou me despedir]. E assim fui fazer sem dizer, só em pensamento e sentimento. Visitei-o antes. Beijei-o no rosto. Disse [eu te amo]. Cheirei seu sempre bom perfume. Abracei-o. Fiz e refiz. E então, um dia, no meio do labor, o telefonema grave de minha mãe avisou [Cesar se foi]. Fui forte. Sabia que Ela o espreitava e me preparei antes [Danadinha, dessa vez você não me pega]. Em sua despedida chorei contidamente ao beijar seu rosto pela última vez. Como gostava de beijar meu padrinho-padrinho-amor na bochecha, com estalo. Cheguei em casa forte, forte. Mentira! Ao banho, desabei. Nunca passei noite-dor tão dor como aquela noite-dor que passei. Dormir não podia. Gritar também não. Então escrevi. Escrevi texto de despedida mais triste que já pude escrever. Não, não é este aqui, apesar das lágrimas que vocês não podem ver e saber, mas que já rolaram e rolam no exato presente que já se foi. Agora. Se foi. E pela heresia de tentar se fazer de forte diante Dela, a fúnebre Morte presenteou-me com feridas na pele que nunca saram, a me perseguir e lembrar que dor é para ser sofrida e sentida, sempre!     

Mas tudo que começa-termina depois termina-começa. O último ciclo ainda viria. Dessa vez como lição final, talvez. Morte danada, feridas abertas. Quem mais ela poderia espreitar? Levar? Meu último um/quarto formador! Óbvio. Meu vô Francisco Trajano. Meu vô Francisco foi o vô mais distante, até porque só tive um próximo, pois minhas vós se foram há muito tempo. A Danada estava a brincar com outros nesta época. Minhas a[vós] se foram e eu era muito muito menino. Meu vô Chico viveu sua vida como bem quis. Bebeu. Brincou. Gastou. Jogou. Nunca me incomodou. Porém nunca foi [vô]. Mas era meu vô Chico, o Trajano. Seu cérebro já havia sangrado algumas vezes antes, e sua agonia em cama arrastava-se como agonia-vida-agonia. Neste caso parecia que a Velha-sem-dó vinha finalizar a agonia-vida-agonia que o velho Trajano já apontava não mais aguentar. Sim, Ela o embalou. Fui ao encontro de meu pai confortar a perda de seu pai. E na discreta despedida, chorei ao ouvir o canto católico que ninava seu velho corpo, como uma ladainha a lembrar o velho Nordeste de sua origem. Ciclo fechado! Mas [Não] [Não] [Não]. Ela não me deixaria assim tão tranquilamente. Uma estação depois, como se me lembrasse [sem dor não vale] levou Dona Fátima, mãe de meu amigo-irmão-amigo Well. Com requintes de crueldade levou Dona Fátima em um momento que não poderia estar junto de meu amigo-irmão-amigo para confortá-lo no momento mais difícil de sua vida. Obrigou-me a chorar lágrimas em terra distante e a carregar a culpa eterna da ausência.

Agora sim, os ciclos parecem que se encerraram. Mas por que causa a Medonha viria me passar lição tão dura, tão longa assim? E como mágica divinal ouço sua voz inaudível entre tímpanos e cera amarelada. Sim. Agora. Ouvem? [Tolo! Visito a todos sem distinção. Passo minhas lições para que aprendam que não há escapatória] [Do... do... na, Do... na Morte, posso fazer uma pergunta?] [Sim, faça, logo] [O que aprendi com estas lições tão duras?] [Oras, tolo menino, aprendeste que deves viver e ponto. Ainda receberás muitos recados e lições, mas quando tua hora chegar... Sento-me ao teu lado e carrego tua alma sem avisar!].


Para Caio Fernando Abreu.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lançamento do livro "Entre Laranjas e Letras", de Amália Dias




"Surge, finalmente mais um livro autoral sobre a história de Nova Iguaçu. E não é um livro qualquer: pesquisa de fôlego, faro de investigação, clareza dos referências teóricos e uma boa dose de paixão. Essas são as qualidades do trabalho com que Amália Dias nos brinda.

(...) As páginas seguintes descrevem os processos de escolarização em Nova Iguaçu e as expectativas em relação ao futuro por parte das elites ligadas à lavoura e à imprensa. Estavam elas alvissareiras com a produção e o comércio internacional de laranjas colhidas na região, e a escola poderia expandir seus horizontes" (Álvaro Pereira do Nascimento).


Amália Dias é Professora Adjunta do Departamento de Ciências e Fundamentos da Educação da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF-UERJ) e membro permanente do Programa de Pós Graduação em Educação, cultura e comunicação em Periferias Urbanas. Membro do Grupo de Estudos Históricos da Baixada Fluminense (GEHBAF).Doutora em História da Educação na Universidade Federal Fluminense (2012). Mestre em História da Educação pela Universidade Federal Fluminense (2008), onde obteve o prêmio Bolsa Nota 10 Faperj. Atuou como Professora Substituta de História da Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ). Bacharel e licenciada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005), período em que realizou estágios no Arquivo Nacional, no Ministério das Relações Exteriores e obteve bolsa de Iniciação Científica da Faperj. Lecionou na rede estadual de educação. Inserida na área de ensino e pesquisa em História da Educação, atuando principalmente nos temas: história regional da Baixada Fluminense; história dos processos de escolarização na Baixada Fluminense, história da profissão docente no Brasil; história da educação, história política e história do Brasil. 

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

sábado, 29 de novembro de 2014

CINEFILIA: "Boyhood", por Samantha Brasil



Boyhood – da infância à juventude (EUA, 2014).

Por Samantha Brasil

29/11/2014

Imagine um filme que demore 12 anos para ser rodado, no qual o diretor acompanha a rotina diária de uma “família”, no qual a gente percebe as mudanças físicas dos personagens, as roupas de cada ano, as músicas mais famosas de cada época, estilos e trejeitos de falar, gírias, jogos, aparelhos eletrônicos, carros da moda. Esse projeto fantástico de falar da simples rotina diária de uma família comum foi lançado esse ano por Richard Linklater, que inclusive levou o prêmio de melhor direção no Festival de Berlim. Mas não era de se surpreender que um projeto original desse porte viesse justamente de Linklater. Afinal ele ficou famoso por dirigir a trilogia composta pelos filmes “Antes do amanhecer” (1995), “Antes do por-do-sol” (2004) e “Antes da meia-noite” (2013) que também acompanha as três fases de um casal interpretado pelos mesmos atores (Ethan Hawke e Julie Delpy). Ou seja, o diretor gosta desse desafio de lançar grandes projetos que se perpetuam no tempo. E nós só temos a ganhar, já que a riqueza dos detalhes e das delicadezas em que as relações micro se formam para dar conta de um universo macro nos faz pensar e refletir não só sobre uma família em particular, mas sim na própria transformação social de uma década.

“Boyhood” (no original) é um dos filmes mais esperados nas indicações para o Oscar de 2015, podendo ser indicado nas categorias de melhor filme, direção, roteiro original, ator e atriz coadjuvantes (para Ethan Hawke e Patricia Arquette, que interpretam pai e mãe do protagonista). A película é vista pelos olhos do menino Mason Jr., interpretado por Ellar Coltrane, que vive as agruras da mudança da infância para a adolescência (um dos momentos mais ricos, tensos, densos e desconfortáveis da vida de um ser humano). Nessa empreitada ele se soma à sua irmã Samantha, personificada pela própria filha do diretor: Lorelei Linklater. Vemos ambos crescendo, envelhecendo, mudando os cabelos, o estilo de se vestir, o modo de falar, o timbre da voz, as espinhas, a descoberta do primeiro amor. Hawke e Arquette são os pais dessa dupla e que vivem em um casamento que não dá certo. Nessa jornada da infância à juventude, como sugere o subtítulo que ganhou em terras brasilis, vemos um casal que se separa, a mudança de colégio das crianças, problemas financeiros, o novo parceiro da mãe que chega nessa família meio desestruturada com mais dois filhos, um pai ausente que só aparece para entreter e não para educar.

Podemos então estar nos perguntando: o que tem de tão interessante e que faz este filme ser um marco no cinema mundial, já que ele conta uma história tão comum, tão banal?  A genialidade está na forma, na estética, na ousadia, no roteiro inventivo e constantemente mutável para se adequar às transformações sócio-culturais. Mas não somente nisso. Está também no conteúdo, pois muitas vezes é mais difícil contarmos uma trama simples, sem deixá-la parecendo “mais do mesmo” e enfadonha. Projeto semelhante, todavia menos grandiloquente, foi o de Michael Winterbottom ao filmar por cinco anos o longa inglês “Todos os dias” (2012). Porém, diferente deste aqui, tal diretor relata um caso específico. Mostra como uma família lidou com o fato do pai estar preso cumprindo pena por um crime cometido. Já Linklater consegue prender o espectador ao longo de quase três horas de projeção para falar sobre dia a dia, cotidiano, ou seja, nenhum tema em especial. Quando o filme acaba nos sentimos meio órfãos, querendo saber mais da vida de Mason Jr. e sua família. Se ele se forma, se seu encontro com a namoradinha dá certo, como está seguindo sua vida, como está sua aparência. Tornamo-nos meio que personagens ocultos do filme que se passa numa época recente em que todos vivemos. Impossível não se emocionar e se identificar com as diversas referências de gostos, hábitos, costumes da década passada. 

“Boyhood” apesar de datado é um filme atemporal no sentido em que marcará esta década numa experiência quase “documental” do diretor que pretende imprimir uma marca autoral na história do cinema. A vontade de Linklater nos convencer é tão realista que a gente acaba se deixando levar por aquela família como se ela de fato existisse. Um trabalho realmente primoroso e engajado não só do diretor, mas de todo o elenco. Aliado ao que já foi dito, some-se a tudo isso uma trilha sonora espetacular que marcou as fases pelo qual o filme perpassa de forma a se tornar quase um personagem. É um filme de total imersão que nos faz reviver a nossa própria infância e juventude, com o perdão do trocadilho em relação ao nome "brasileiro" do filme.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ 

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!




Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.



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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Homem / O poeta morreu, por Luan Alves Ribeiro


Homem

Uma coisa viva que pulsa e descansa
Sob tetos e anjos renascentistas
Sobre o piso e dentro da pele
Entre móveis, cores, cheiros, sons
Feito de passado e espera

Feito de saudade e miséria.



O poeta morreu

Morreu o poeta-pássaro, não haverá mais trovões,
Não haverá ventania, tristeza, planto, canções.
Hoje morreu meu poeta, meu bicho do mato no meio da gente
Me sinto órfão e quente do fogo etéreo da morte.

Hoje não voo, não amo,
Hoje nem sequer saio de casa
Vou pra floresta resgatar na madrugada
O canto que o João de Barro fez.

Hoje queria sorrir
Mas nem teu verso me traz
A possibilita de ir
Pra longe do uivo voraz.

Hoje queria cantar,
Mas hoje morreu a poesia
Retenho com  melancolia
Teus passos deixados pra trás.

Hoje o pássaro voou pelos céus da eternidade.


Juiz de Fora, MG.

13/11/2014

(Para Manoel de Barros)


Luan Alves dos Santos Ribeiro, nascido na cidade de Três Rios (RJ) em 14 de julho de 1992 é estudante de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora e poeta quando a vida deixa.  Pois como nos alerta Gullar a poesia nasce mesmo é do espanto! Extremamente perplexo com as loucuras da vida deságua seu verbo numa tentativa de catarse e numa tentativa de sobrevivência. Essa é a pequena história dos seus versos: uma forma de fugir da loucura da vida se entregando à loucura da palavra.  O que mais seria possível fazer? Os poemas falam por si só.


Página onde se encontram alguns poemas do autor: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=165642


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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Atire!


Atire

Pois não há temor por tua arma
Apontada para minha negra pele branca.


Atire

De tua alcova sombreada pela violência
Do teu trabalho vilipendiado pelo ódio.


Atire

Protegido por tuas botas e fardas
No sorriso mudo de patentes e estrelas ao ombro.


Atire

Através da hipocrisia coletiva
Na escravidão perpetuada pelo brilho do papel moeda.


Atire

Pela fresta do portão
Pelo mato seco
Pela terra batida
Pelo valão imundo
Pelo muro em tijolo furado
Pela fumaça do escapamento
Pelo beco periférico.


Atire

Mas saibas que morrerei olhando em teus olhos
Afirmando que tua covardia nunca mais ficará impune.


Atire!


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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sábado, 22 de novembro de 2014

Nova Iguaçu: Cidade dos meus olhos, por Marcus Vinícius Faustini

Para quem não conhece a Baixada Fluminense.
Para quem só ouviu falar.
Para quem vem de vez em quando.
Para quem vive e convive neste território formado por tantos municípios, mas onde há uma relação social e econômica intrínseca e de interdependência entre as cidades.
Para quem quer saber mais sobre esta incrível cidade que é Nova Iguaçu e que formou tantas outras.

Ver este pequeno grande filme é um primeiro passo fundamental para conhecê-la e reconhecê-la.



Marcus Vinícius Faustini foi secretário de cultura de Nova Iguaçu, é o idealizador da Agência Redes Para Juventude e escreve às terças-feiras no jornal O GLOBO.


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terça-feira, 18 de novembro de 2014

BAIXADA FLUMINENSE: Inovações e Permanências, por Adrianno Oliveira

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro em Fevereiro de 2014.






















Para ler e fazer o download da tese completa é só clicar neste link:





Adrianno Oliveira é capixaba de alma fluminense, vascaíno e pai do Gabriel.
Economista e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ, leciona Economia Brasileira e Economia Fluminense no campus Nova Iguaçu da UFRRJ. Apaixonado por economia, artes, cinema e fotografia (não necessariamente nesta ordem) e agora se embrenhando em outras searas, sempre buscando o novo, pois como diria o amigo Buzz Lightyear: “Ao infinito....e além!”






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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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