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quinta-feira, 7 de agosto de 2008



Satolep Sambatown - Vitor Ramil & Marcos Suzano

Universal (2007)



Alguns sobrenomes parecem perseguir quem os carregam. Que o digam os filhos de atletas e artistas famosos. O mais interessante é que no exemplo que irei utilizar nesta resenha, não há uma associação pelo sobrenome, e sim pelo "nome". Explicarei. Vitor Ramil é irmão mais novo da dupla Kleiton & Kledir (reparem que o nome do duo é sem o sobrenome). Irmãos que fizeram sucesso integrando o grupo Almondêgas, na década de 70, e já como dupla nos anos 1980. E estamos aqui repetindo a mesma coisa, usando as mesmas referências, associando sobrenomes com arte, mas isso tem seu motivo. A família Ramil, que é de Pelotas, tem um histórico artístico interessante na produção contemporânea do Rio Grande do Sul.

Vitor sempre procurou dissociar suas percepções e influências musicais do pop feito por seus irmãos mais velhos. Muito de sua obra é pautada por uma melancolia e uma tristeza, peculiares, e com um lirismo argumentativo sobre questões da existência, do cotidiano e das relações amorosas. Percebe-se também a busca, a princípio, por uma identidade e construção de uma estética especificamente sulista, o que se configurou no livro A Estética do Frio (sim, ele tem um livro). Há o apontamento para uma produção musical característica da região, que quase sempre foi subestimada pelo
mainstream da nossa música popular, ficando restrita ao Rio Grande do Sul, com avanços até o Paraná (circunscrito à região Sul) e um pouco em São Paulo.

E as influências se fazem presentes: as milongas da fronteira entre os países portenhos (principalmente com o Uruguai), a música tradicional gaúcha e seus acordeons e estórias, a verve urbana muito característica na música feita no Rio Grande, especificamente em Porto Alegre e adjacências. Todas essas influências melódicas se coadunam com um típico cancioneiro brasileiro, com letras que o aproximam com formas de criação de outros compositores contemporâneos a ele, como Paulinho Moska e Lenine.

E é justamente na citação ao compositor carioca (Moska) que se une o outro elemento de Satolep Sambatown: Marcos Suzano. Este percussionista carioca que iniciou sua carreira tocando samba e choro com o grande instrumentista Paulo Moura, se notabilizou por seu pandeiro que mais parece uma bateria. Uniu-se a Vitor para juntar a força das canções do compositor gaúcho com os "climas" criados pelo seu set inovador e diferenciado.

Através do álbum Móbile (1999), de Moska, Suzano tenta ultrapassar o tradicional arsenal de instrumentos da percussão feita até aquele momento. Passa a gravar batidas de seu grave pandeiro, de pratos e instrumentos para produzir um aumento das batidas por minuto, realizando assim um mix entre a música tocada e o "clima" da música eletrônica. Esse experimentalismo o fez lançar o álbum Flash (2000), que é muito mais um disco de ambiência sonora do que uma proposta focada em canções instrumentais com uma linguagem iconoclasta por faixa.

Satolep Sambatown é a união dessas duas vertentes e formas de sentir e realizar a música popular. O nome Satolep (significa Pelotas ao contrário) ó nome de uma faixa do álbum A Paixão De V Segundo Ele Próprio (1984). Já Sambatown é o título do primeiro álbum solo de Marcos Suzano, lançado em (1996, se não me engano).

E apesar dessas diferenças geográficas e musicais, Satolep Sambatown consegue uma unidade interessante. A aproximação das canções de Vitor a uma leitura mais pop, iniciada em Tambong (2000), seguiu seu percusso e culminou em um excelente repertório, recheado de lindas melodias e letras encharcadas de uma poesia lírica e cínica. O som de Suzano traz um frescor e uma jovialidade que parecem não fazer muito parte dos arranjos anteriores de Vitor (com exceções obviamente), além de algo que o gaúcho não parece ter muito: ginga.

Ah... parece que houve uma certa surpresa com o prêmio de melhor cantor no Prêmio Multishow que Vitor conseguiu pelo voto popular. Um jornal carioca (não lembro qual) soltou uma notinha meio maldosa falando com certo espanto do feito, mas não há espanto, Vitor é excelente cantor. Tive o prazer de vê-lo com Suzano aqui no Rio. Junto com o Moska, é um dos melhores intérpretes dos poucos homens cantores que temos em nossa MPB. E o prêmio pelo voto popular mostra que nosso "gosto" não fica só no óbvio, tem uma tal de internet propiciando novas possibilidades, fazendo as pessoas saírem do "mais do mesmo".

Livro aberto (Vitor Ramil) abre lindamente o disco, com sua letra falando da espera aflita por alguém e com uma cuíca de Suzano que persegue os ouvidos desde o início até o final da faixa. Invento (Vitor Ramil) parece trazer aos nossos olhos as imagens de Pelotas, com suas paixões e histórias do passado. Posteriormente temos, na minha humilde opinião, a faixa mais bela do álbum: Viajei (Vitor Ramil). A melodia deliciosa com um clima esvoaçante e um assobio fabuloso faz você realmente viajar. Me fez. Depois mais uma boa faixa com Que horas não são? (Vitor Ramil), com participação da cantora carioca Kátia B, canção esta com arranjo oriental/árabe totalmente pertinente e canto otimamente casado entre Vitor e Kátia. Depois temos a animadinha O copo e a tempestade (Vitor Ramil), somente com o pandeiro de Marcos Suzano.

A zero por hora (Vitor Ramil) conta com a participação do cantor e compositor hispano-uruguaio Jorge Drexler, e indica o interesse de Vitor pelas canções latinas (ausentes durantes muito anos em nossa produção musical e que parecem estar de volta, felizmente). A história de uma apaixonite e bebedeira em plena Rua Augusta (SP) é ótima, além da referência a Roberto Carlos e de ouvir pela primeira vez Drexler cantando (tentando) em português. 12 segundos de oscuridad (Vitor Ramil/Jorge Drexler) não avança muito em relação a parcerias já feitas pelo uruguaio com outros compositores brasileiros. A ilusão da casa (Vitor Ramil) é uma regravação desnecessária de uma faixa de Tambong, mas a canção é legal. Café da manhã-D’après Prévert (Vitor Ramil) é uma daquelas em que ironia e boa pegada no refrão faz uma canção ser muito bacana. Por fim temos um poema de Emily Dickinson musicado por Ramil, The word is dead (Vitor Ramil/Emily Dickinson), rapidinha mas gostosa (hum...), e para fechar temos Astronauta lírico (Vitor Ramil) com um lirismo (proposto no título) citadino como despedida, com pensamentos no céu.

Bom, como este blog é meuzinho e entre meus pitacos musicais e artísticos, em geral, tem muito das minhas referências e preferências, decidi criar na secção Acordes a(s) melhor(es) e a(s) pior(es) faixa(s). Isso não significa que o meu gosto define se aquela canção ou arranjo são ruins ou maravilhosos, mas aponta somente as faixas que se encaixam mais aos meus parâmetros sensoriais e afetivos. Então vamos ao começo (ou ao final?).

Melhor faixa: Viajei.
Pior faixa: 12 segundos de oscuridad.


Observação: Carla, minha senhora, diz que não gosta muito de Astronauta lírico e que gosta um pouco menos de 12 de oscuridad, e que o restante do álbum é bom pacas!


Quer saber um pouco mais do Vitor Ramil? Entra no site dele. O Marcos Suzano infelizmente ainda não tem homepage.


http://www.vitorramil.com.br/


Besos.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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