(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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domingo, 31 de janeiro de 2010

I'm back !


Andaram dizendo em alguns posts passados que eu tinha saído de meu amado país para passear.

Só posso dizer que foram informações caluniosas, pois jamais deixaria minha terra para visitar um país vizinhozinho qualquer.

Ainda mais porque moro no lugar onde temos o samba, o carnaval, as praias, o calor, o funk, a Ivete Sangalo, e teremos a Copa do Mundo de 2014, as Olímpíadas de 2016. E onde helicópteros são derrubados com armas de guerra em pleno centro urbano. Isso só demonstra o quanto nossa tecnologia está avançada.

Estou de volta!

Bes...

ops!

Beijos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

7 pecados literais


7 pecados literais é uma tentativa de perceber e apontar todos os nossos pecados. Porém esses pecados não necessitam nos encalacrar em culpas e carapuças torturantes.

Nossos pecados nos servem para demonstrar que todas as fraquezas são humanas e que se humanas são, podem se transformar em virtudes ou se intensificarem em pecados ainda maiores.

Acertos e erros nos provam que a vida é muito mais complexa e difícil do que se possa imaginar, mas quem disse que a mesma vida não pode ser divertida?

Divirtam-se com seus pecados!


Besos.

fenomenal


inveja



- Olha, que coisa horrorosa!
- Eu já vi, eu já vi...
- Feia, feia! Coisa feia, coisa feia!
- Hahahahahahahahaha! Saí Exú! Tranca rua! Coisa horrível!
- Nunca vi uma coisa com tanta celulite na minha vida...
- E aquele peito de silicone, horrível, o meu é muito mais natural.
- Olha aquela lá vindo, pela calçada, gorda, olha as estrias!
- Gente... tô pas-sa-da... parece uma rede de pescador, cheia de linha cruzada.
- Ôoooooo minha filha, vai malhar!
- Hahahahahahahahaha! Nega, hoje você tá impossível.
- E o movimento?
- Tá fraco...
- Páaaaaaaaara tudo, que ca-be-lo é aquele?
- Meu Deus, tintura Márcia nela e alisamento vietnamita,
porque o japonês não vai dar jeito não!
- Minha filha, mas você não tá podendo mesmo, heim?

Neste momento um carro se aproxima em alta velocidade e alguns jovens da high socity carioca barrense atiram em alta pressão um pó branco oriundo de um extintor de incêndio. E um deles grita: - Vão se fuder! Cambada de traveco! Viado! Sai daqui! Vaza ou vai todo mundo morrê!

Neste momento, uma das "meninas" diz:

- Vamos, vamos sair daqui que o movimento está horrível mesmo e ainda têm esses escrotos!
- É, vamos sim... vamos para a Sernambetiba porque eu tô sentindo que alguma coisa boa vai acontecer nessa noite...
- É, vamos sim!

(para Andréa Albertini)


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o arrepio da libido


luxúria



Seus seios eram incrivelmente rijos. Protuberancias em formas perfeitas, rascunhadas em mãos leonardianas. Estava deitada e aqueles seios apontados para mim, os bicos rosados, um caimento que provavam que não eram pequenos, mas que se mantinham dignos, apesar do volume. O corpo era esguio, não muito alto, talvez um metro e setenta... não, um metro e setenta e um. Cabelos castanhos claros, naturais, sem tinta, olhos verdes. Sei que são verdes, mesmo que fechados. Cintura fina, forte, com coxas grossas, pernas bem torneadas. Seu sexo era pequeno, desenhado com um pequeno feixo de pelos aloirados, uma tirinha. Um pecado inevitável aos homens, e, a algumas mulheres também, tenho irrefutável certeza.

A pele alva demonstrava a preocupação com os perigos do Sol. Não era de ir muito à praia, dava para ver. Os ombros não muito largos continham braços finos e estes carregavam mãos de-li-ca-da-men-te bem cuidadas. Unhas impecáveis. O rosto continha um desenho clássico das européias, porém o conteúdo era um misto de etnias. Lábios em carne excessivamente vermelha, apetitosa. O nariz, que não era nem pontiagudo, nem muito redondo, tinha a medida perfeita. Sombrancelhas naturalmente desenhadas, sem muitos retoques. Pés pequenos, também não deixados de lado pelo seu zelo. Eram pequenos e suaves, perfilavam harmoniosamente todos os dez dedos, cinco e cinco.

Não havia como não se apaixonar por aquela mulher, por aquele corpo. Estava ali, de frente ao meu, esperando meu peso repousar junto ao seu. Senti meu suor congelar ao chegar mais perto dela. Não sabia mais o que fazer ou pensar. Possuiria aquela mulher naquele momento, naquele exato momento, mesmo sabendo que era um erro, sabendo que não devia, não, não. Não podia trair meu companheiro, minha honra, minha respeitabilidade conquistada junto à sociedade, junto à minha família. Porém aquela mulher me hipnotizava, me atraia como um imã. Seus olhos cerrados pareciam me convidar ao banquete do prazer, da inconsciência carnal e quando abro o zíper de minha calça e voo faminto àquela vagina a repousar meu p...

- Achei o outro bisturí! Vamos logo que a família está lá fora esperando o resultado da autópsia.


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a plataforma

ira


Entrei na estação às oito e cinquenta e cinco da manhã. O trem chegou logo depois, às nove, em ponto. Estava cheio, mas não lotado. Entrei no primeiro vagão. Quase nunca faço isso, mas como neste dia estava com pressa, o primeiro vagão me deixaria mais próximo da saída na Central do Brasil.

Se ambientar a um vagão de trem possui seus mistérios. É como se você entrasse em um esconderijo, ou na nova casa de um novíssimo amigo. No começo se estranha, não se quer estar ali, há um enorme desconforto, aqueles rostos, aquele odor, as pessoas desconhecidas, mas em instantes se familiariza, em duas ou três estações já se está em “casa”. Naquele dia não foi diferente. Assim que escolhi o canto que em ficaria por volta de cinqüenta minutos de viagem, comecei a perceber as pessoas em minha volta. Uma senhora enrugada com cara de evangélica, uma moça de cabelos crespos com cara de empregada doméstica, uma criança em pé com sua mãe também em pé, um rapaz branco com cara de quem olha outras pessoas tentando advinhar quem são aquelas pessoas para quem ele olha, mesmo sabendo que as pessoas o olham pensando quase a mesma coisa que ele pensa advinhar.

Havia um grupo de jovens, mais ou menos em cinco, ou seis. Um deles usava a camisa do Flamengo. Eu não sou Flamengo. Jovens negros, mulatos e mestiços, não haviam brancos, ou brancos tão brancos quanto o rapaz branco que olhava as pessoas tentando advinhar quem elas eram. Falavam alto, gritavam gírias. Havia um incomodo geral naquela parte inicial do primeiro vagão das nove horas. Se comunicavam, os jovens, quase que em um dialeto, não dava para entender direito o que diziam. Riam, brincavam sobre quem tinha ido a tal baile, onde o bicho pegava, onde o couro comia. Comecei a ficar com medo. As pessoas naquela parte do vagão também estavam. A senhora com rosto enrugado, a moça de cabelos crespos, o rapaz branco, a mãe em pé com a criança em pé, porém a criança em pé não tinha medo, não sabia muito bem o porquê ter medo.

Uma parte do grupo se espalhava recostado na parede que fazia divisa com a cabine do maquinista. Alguns sentados, alguns em pé. E o medo contido daquelas pessoas. Porém incontido em seus olhos, em suas expressões. Os jovens brincavam, se sacanavam e os outros passageiros com as iris e feições de descontentamento, de "vou trabalhar e essa algazarra". Porém havia um detalhe interessante nesse grupo... quase todos carregavam vassouras amarradas umas às outras, como um enorme pacote, e que tomavam grande espaço do primeiro vagão do trem das nove horas. A composição estava cheia de pessoas, de sentimentos e de vassouras. Nem todos exatamente nesta mesma ordem.

Quase que fluidamente a sensação de desconforto e medo com aqueles jovens foi se dissipando pelo vagão. O rosto enrugado da senhora continuou enrugado, mas sem aquele pesar de chateação. Os cabelos crespos da suposta empregada doméstica continuaram onde estavam, mas um sorriso em seus lábios começou a brotar ao ouvir as histórias dos garotos que iriam ao Centro vender suas vassouras. As vassouras tiveram um efeito amenizador impressionante. Não sei porque as mesmas vassouras não clareiam o medo histórico pelas bruxas. Cheguei também a sorrir das piadas do rapaz com a camisa do Flamengo, apesar de não gostar do Flamengo. O ar pesado e tenso dava lugar a uma descontração que já contagiava o primeiro vagão do trem das nove horas da manhã.

Engenho de Dentro. Metade do trajeto já tinha sido percorrido, outra metade faltava para o despejamento de todas as pessoas ávidas por chegarem aos seus trabalhos. Os jovens vendedores de vassouras continuavam a contar suas histórias. Porém algo aconteceu. Um deles, talvez o mais velho, e que estava sentado no chão do vagão e vestia a camisa do Flamengo, puxou um cigarro e o acendeu. Obviamente que um novo desconforto ocorreu entre os passagerios, inclusive comigo, mas o próprio aferrecimento do medo inicial acabou por tonar a cobrança por fumar em um lugar fechado um tanto amena. O jovem vendedor de vassouras com a camisa do Flamengo poderia fumar naquele local. Ninguém iria tomar satisfações por aquele ato hostil. Não mais. Tudo ficaria na mesma, até o final da viagem, na mesma tranquilidade recém conquistada.

Mas em um repente uma voz brava e diretiva bradou: "-Apaga esse cigarro!""-Você está vendo alguém fumando dentro do trem?". Todos olharam para a direção de onde vinha a voz. Um homem. Um homem branco, tão branco quanto o jovem branco que tentava advinhar quem eram as pessoas pelas feições. Só que este homem era mais velho do que o jovem que ali perto estava. O homem que acabara de acabar com a recém tranquilidade conquistada era de meia-idade, talvez ciquenta e três anos, cinquenta e quatro... Cabelos ondulados grisalhos, rosto conservado. Usava uma jaqueta de couro preta, relógio e cordão de ouro. Não sou ourives, mas tenho certeza que eram de ouro. Ouro do tipo 23 quilates, estilo bicheiro.

No momento em que aquele homem branco de meia idade gritou, todos olharam. E viram que o mesmo portava uma arma de fogo, uma arma alojada dentro daquela jaqueta de couro preta. Seu grito soou ao jovem branco observador como um "-Se você não apagar essa porra desse cigarro, eu atiro!". O medo voltava a se instaurar naquele vagão. Mas era uma medo diferente. Era um medo travestido de raiva. Uma raiva confusa. Raiva do homem branco, do jovem negro, do cigarro, das vassouras ou da camisa do Flamengo? O medo voltou, o medo não... o ódio. O rapaz negro com a camisa do Flamengo apagou o cigarro e pediu desculpas. Continuou a brincar com os outros rapazes uma brincadeira envergonhada. Os passageiros olhavam para o homem branco com olhares de reprovação. A senhora enrugada, a moça de cabelos crespos, a mãe e a filha em pé, o rapaz branco. Todos. Todos sabiam que ali dentro havia uma arma e havia um ódio, ou ódios. Mas por incrível que pareça a principal raiva, ou medo, não era da arma em si e sim do homem branco de meia idade e seu senso de justiça injusto.

O homem branco de meia idade com cordão de ouro falava com alguém, no rádio de seu celular, que estava tudo tranquilo, que a situação já estava "controlada". Ninguém sabia quem era aquele homem, não havia uniforme, distintivo, identificação, só havia uma arma dentro da jaqueta de couro. "Só pode ser policial", pensou o jovem branco que tentava advinhar as pessoas pelas feições e pelas roupas. Poderia ser um segurança a paisana da empresa exploradora dos trens urbanos. Poderia, mas ninguém sabia. Ninguém mais. Porque ali havia uma arma de fogo e um ódio, ou ódios. Só se sabia que aquele homem branco não vendia vassouras e não vestia a camisa do Flamengo, mas talvez fosse Flamengo.

A viagem continou, intranquila, até o seu final. Os jovens vendedores de vassouras brincando envergonhadamente, os passageiros olhando para o homem branco, o homem branco não olhando para ninguém, só espelhando seu senso de ordem imposto por uma arma de fogo. O medo e o ódio estavam estampados nas rugas do rosto, no branco do olho, no fiapo da vassoura, na unha do pé, no redomoinho do cabelo. Estavam.

O trem chegou. Todos desembarcaram ao mesmo tempo. Para as saídas da estação. Na mesma plataforma caminhavam o jovem com a camisa do Flamengo, a velha com rugas no rosto, a mãe e a filha, a moça de cabelos crespos, o jovem observador, o homem branco armado. Tudo caminhava na mesma plataforma.

Tudo e todos.


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o reluzir da faca


gula



A sala estava pronta. Com aquele verde que poderia ser reconhecido em qualquer lugar do mundo. Rabada com agrião. Todos em volta daquele corpo, daquele ser. Todos pensando em cortes precisos. Suturas finas. Maminha. Procedimentos perfeitos. O corpo pesado friccionava suas costas na mesa cirúrgica, fria, apesar do acolchoado. Costelinha. O médico com sua máscara, também verde. Agrião, de novo. Traçava os pontos onde o bisturi iria transpassar. Chuleta. Cento e trinta e um quilogramas de massa: músculos e gordura, muita gordura. Torresmo. Enfim, banha a beça. O paciente com seus olhos lacrados pelo adesivo hospitalar não fazia ideia que suas entranhas brilhavam expostas a um pequeno conjunto de pessoas estranhas a ele, e às suas próprias entranhas. A cirurgia não era somente para reduzir seu estômago, mas também fora necessária para a retirada de todo aquele abcesso adiposo, que destruía e obstruía todo aquele grande volume humano jogado sobre a tábua de cortar pessoas. O pequeno instrumento já tinha realizado seu trabalho e agora já poderíamos avistar as nuances do estômago. A víscera se encontrava amplamente estendida. Intestinos, fígado, lasanhas, pernis, lombos e linguiças. Carne e desejo ao mesmo tempo. Uma pinça com dentes e um lacre moderam o órgão digestivo do indivíduo. Feijoada. Um pequeno filete de sangue escorria após o parcial fechamento da víscera. Coca-cola. A gordura lipoaspirada. Aquele tecido amarelado e suas gotículas grudentas. Picanha. O fechamento minucioso daquele enorme ventre e tudo que nele havia. Porém uma agitação incomum se iniciou. O paciente parecia tentar acordar. Se mexia. Inquieto. Os olhos tentavam abrir. A equipe preocupada gritava pelo anestesista que já havia saído da sala fazia tempo. A linha cirúrgica unia as duas partes separadas do eloquente abdomem. Bobó de camarão. A sudorese e o aumento dos movimentos do paciente preocupavam a equipe. Ele poderia levantar-se a qualquer momento. E nada do anestesista reaparecer. Os engates da pele revelavam as dobras e excessos de alguém que não tinha pudor das delícias da vida. Dobradinha. De repente os olhos se abriram. Ergueram-se. Junto com os olhos, o pescoço. Quem eram aquelas pessoas? Aquela faca. O olho e a faca. E neste momento o médico não vê outra saída. Vai enfiar novamente aquela lâmina aguda naquele corpo e dirá que houvera uma complicação durante a operação. Estava cansado, não queria refazer tudo novamente, recosturar aquela banha nojenta. O homem recém acordado percebia a intenção no olhar daquele sanguinário doutor cirurgião. Não havia escapatória. Sua última ação em vida foi ver o brilho daquele bisturi com cheiro de morte vindo em sua direção.

E no momento em que a ponta afiada risca novamente a pel...

-Benhê! Acorda! Acorda! Isso é um pesadelo! Acorda que amanhã temos aquele rodízio de frutos do mar que você a-do-ra!

E o homem absorto de alívio, enxuga o suor, refaz-se do susto, e volta a pensar nas delícias que lhe esperam no dia seguinte. "Viva o bom apetite", pensa ele. Viva.


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tortura


avareza



Fora criado sem os pais.
Viveu sob as maiores privações.
Crescera em um orfanato.
Sempre fora calado.
Quieto.
Tímido.

Desenvolveu uma defesa infalível, para ele, e contestável, para todas as outras pessoas.
Tinha a absoluta certeza de que a melhor saída contra as agruras do mundo era:
O egoísmo! O mundo e as coisas tinham que ser suas, só suas, e de mais ninguém.
O egocentrismo e a autopiedade também faziam parte de seu armário, quase sempre vazio, de sentimentos.

Não tinha amigos.
Não tinha irmãos.
Não tinha pretensões.
Não tinha amores.

Só havia rancores.

A única coisa que restou, ao que parece, fora um lápis.
Somente um lápis.

Uma vez a diretora do orfanato contou que a pessoa que havia lhe trazido àquele lugar, anonimamente, dissera que o único presente que sua mãe tinha deixado em vida, era um lápis.
Lápis capeado de preto, e ponta de grafite comum. Só. Somente.

O único sentimento bom que detinha era algum gosto para a escrita. Escrevia, escrevia sempre, escrevia errado, escrevia mal, escrevia mau, mas escrevia. Desenhava suas letras tortas e derramava seus erros gramaticais em qualquer superfície. Era o seu único elo com o mundo. Sua oferta.

No resto...

Fechava as mãos nos bolsos.
Fechava o peito nos botões.
Fechava o olhar nos cílios.
Fechava o coração na garganta, seca.

E fecha este texto agora, porque não quer mais gastar seu lápis.



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Gusano e Helminto


preguiça



Ele era o mais novo em uma famíla de quatro pessoas. Mãe, pai, filho e filho. Um casal de filhos homens. Nasceu com a expectativa e os mimos que sempre cercam a todos os rebentos caçulas. Com ele não foi diferente. Recebeu os dengos e cut-cut's que qualquer criança recém-nascida, e mais nova que o primogênito, receberia. Seus pais tinham dúvidas a que nome chamar o menino, porém o pai tinha decidido que daria um nome diferente àquela criança, um nome marcante, algo que intuitivamente se referiria à personalidade do varão mais novo daquele núcleo familiar.

Nenhum dos dois progenitores tiveram uma educação formal muito prolongada, mas eram inteligentes e bons leitores. Viviam com simplicidade, porém sem deixar faltar nada para eles e para os filhos. A mãe gostava de biologia e veterinária, porém sem ter se especializado ou feito a graduação na área. Só tinha estudado até o antigo segundo grau. Lembrava ter visto um nome que havia lhe chamado a atenção em um desses livros didáticos, mas não teve a curiosidade para pesquisar seu significado, somente sabia que tinha gostado do nome: Gusano. Apresentou-o ao marido que prontamente deu seu aval: "-É isso, está escolhido, Gusano será o nome de nosso filho".

Gusano foi uma criança estranha. Com comportamento arredio tinha dificuldades em fazer amizades. Levaram-no a um especialista que verificou que o pequeno ser não tinha nenhum comprometimento neurológico ou afins. Alertou aos pais que talvez o excesso de zelo pudesse ser o causador de tal distúrbio no convívio social. Os pais não deram ouvidos ao comentário do médico. E o comportamento do pequeno Gusano continuou a alarmar a família, menos os pais do menino. Não se dava com os primos, odiava o irmão mais velho, era lento, troncho, gordo, lerdo, não brincava com nenhuma outra criança, a não ser para dizer que estava sendo sacaneado e automaticamente ser protegido pela mãe aflita pelo bem viver de seu garotinho.

Toda sua infância foi vivificada dessa forma, sem alterações significativas ou nuances mais surpreendentes. Quando estava pré-adolescente, seus pais, mais preocupados com sua situação, resolveram levá-lo novamente a outro especialista, porém neste caso o problema era de uma natureza diferenciada. Gusano tinha um pênis extremamente pequeno. O doutor especialista neste tipo de assunto tranquilizou os pais. "-Isso é normal para a idade dele, daqui a pouco cresce". Realmente cresceu. Um pouco.

Quando entrava para a vida adolescente Gusano descobriu o instrumento que transformaria toda a sua vida, e de certa forma a vida de seus pais e irmão mais velho. O já não mais pequeno rapaz descobrira um aparelho chamado... videogame. Todos os seus desejos se encontravam naquele singelo aparelho. Não necessitaria mais dos conselhos inúteis para que saísse de casa, para que fizesse amigos, para que jogasse bola ou então procurasse menininhas para beijar. Aquele aparelho era a solução para seus problemas. Nunca mais teria que falar com ninguém, nem com seus pais (tinha gratidão por eles, mas achava-os chatos). Tinha ojeriza a seu irmãos mais velho, que por sinal adorava uma rua.

O videogame continha tudo. Era seu universo particular, oferecia desafios intelectuais, oferecia punhetas para a Lara Croft, ali estava tudo, absolutamente tudo. Além desse aparelho também havia o computador e seus jogos on-line. Conhecia e conseguia "virar" todos os jogos, simplesmente todos. Transformou-se em um expert, muito provavelmente era melhor do que muitos profissionais de jogos, mas seu interesse não era ganhar dinheiro. Seu interesse era somente jogar. Jogar.

Conhecia todos os jogos. Todos. Counter Strike. Age Of Empires. Need for Speed. The Sims. GTA. Call of Duty. Final Fantasy. Gran turismo. Half Life. Medal of Honor. God Of War I, II e II. FIFA Soccer. Resident Evil 4. Diablo III. Final Fantasy XII. Final Fantasy VII. Daxter. Patapon. Ratchet & Clank Size Matters. Tekken Dark Resurrection. Final Fantasy Tactics. Medievil Resurrection. Castlevania X: The Dracula Chronicles. Metal Gear Solid: Portable Ops. GTA Vice City Stories. Guitar Hero.

Porém algumas pressões começavam a incomodá-lo. Os pais travavam uma árdua luta para que seu filho mais novo estudasse para poder se graduar em uma universidade pública. Gusano relutou. Mas a pressão foi tanta que não resistiu e passou a frequentar um cursinho pré-vestibular comunitário. O preço era barato. Outra pressão era para saber quando o rapazinho iria aparecer com sua primeira namorada em casa. Esse tipo de comentário começou a irritá-lo ainda mais. Foi quando o segundo grande evento na vida de Gusano aconteceu, depois do videogame obviamente.

Helminto. Helminto era um rapaz lindo. Cabelos cacheados, olhos de esmeralda. Ganhara o nome quando a mãe, empregada doméstica analfabeta perguntou ao médico o que seu nono filho, também caçula, tinha. "-Helminto", ele respondeu. Foi ao cartório registrar a galela criança e com a ajuda do escrivão deu-lhe o nome.

Não poderia haver no Universo, o real, duas almas tão parecidas. Dispunham do mesmo gosto. Do mesmo pensamento, que era pouco, mas que fazia suas mentes trabalharem, pelo menos enquanto jogavam seus games eternos. Se apaixonaram perdidamente. A família, a princípio, se incomodou com a relação não usual em seus meios, mas logo percebeu que aquelas almas se completavam. E a conjunção se deu. Dias e noites, os dois juntos. Jantavam juntos. Riam juntos. Comiam juntos. Dormiam juntos. E obviamente, jogavam juntos. Gusano e Helminto eram uma dupla e tanto. Viraram inúmeros jogos, bateram recordes não computados em apenas uma semana. E a vida corria. Eram somente os dois, o resto que se danasse. Não trabalhavam. Não compravam Coca-Cola. Não falavam com a família. A eterna cena naquela casa era observar Gusano e Helminto, lado a lado, em frente à tela do computador ou jogando o mais moderno videogame do momento.

Não podiam sair da caixa brilhante, nunca. Não podiam arrumar o quarto. Não podiam tirar os pratos. Não podiam lavar as louças. Estudar? Pouco, somente e devido às pressões familiares e sociais. Mas o que realmente importava para Gusano e Helminto era o jogo, os games, o computador, o videogame. Todas as outras coisas eram grandes bobagens.

E a vida assim se desenhou. Continuaram a viver juntos na casa dos pais de Gusano. Aquele casal poderia viver ali séculos, desde que houvesse um computador e um Playstation III. A muito custo Gusano conseguiu se formar. Helminto, algum tempo depois, também finalizou sua graduação, em comunicação. Decidiram sair da casa dos pais de Gusano e também saíram da cidade em que tinham nascido. Fugiram e nunca mais nada se soube sobre o paradeiro dos dois homens. Nem os pais tiveram notícia alguma sobre os queridos filhos.

Os anos correram e muitos descendentes nasceram depois daquela época passada. E um sobrinho de quarto grau, oriundo do casamento do irmão mais velho de Gusano, decidiu saber mais sobre seu antigo tio e sua história perdida. As lendas sobre Gusano perseguiam a família. Começou a pesquisar pelo sobrenome e descobriu meio que por acaso que o tio distante havia morado em uma cidade próxima de onde toda a família tinha nascido. Coberto de curiosidade decidiu procurar mais informações sobre o antepassado e descobriu que tinha sido casado com um homem chamado Helminto. Obviamente que os dois já estavam mortos, mas a curiosidade do sobrinho era tanta que conseguiu localizar onde o tio perdido tinha sido enterrado. Porém não encontrou nada relacionado a Helminto.

Ao chegar ao cemitério e pagar um cervejinha ao zelador de mortos, fez a proposta ao dito funcionário. Queria exumar a cova para saber mais sobre suas origens, nem que fosse para perceber as nuances dos ossos do parente até então perdido. Quando o coveiro abriu a tampa e os dois, ele e o sobrinho, olharam para a terra revolvida, tomaram um susto. A cena era surpreendente. Dentro da cova se via dois corpos, abraçados em conchinha, um atrás, com o braço na cintura do outro, e logo ao lado dos dois corpos uma outra surpresa, uma caixa com uma tela, parecia, parecia, um, um... computador! E na tela percebia-se a sombra da última coisa gravada dentro daqueles tubos de luz também mortos. E com algum esforço o sobrinho e o coveiro conseguiram identificar o que ali estava escrito: M... Mo... Mort... Mortal Kom... Mortal Kombat XVI.


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bigorna e martelo


soberba



Ouço ainda os sons gritados e cuspidos arderem em meus tímpanos:

-Você é uma prepotente, arrogante, metido! Agora sei sobre sua personalidade. Sei realmente quem e o que você é e no que se transformou. De nada vai adiantar seu choro, suas lágrimas. Não, não há perdão para o que você fez. Não, não há. Não venha buscar o consolo com esse choro vil, não venha! Saia por aquela porta e por pouco não se considere meu...

Pai. Meu pai me disse essas palavras, a pouco, a poucos instantes. E entre as lágrimas realmente ensaiadas e o rubor do rosto ao contato com os fonemas daquelas palavras ácidas, meu desejo mais íntimo e verdadeiro era poder dizer a ele...

-Ah, vai se danar!


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domingo, 3 de janeiro de 2010

Vem aí os "7 pecados literais"


Dia 7 de Janeiro de 2010

será lançada no


Palavras Sobre Qualquer Coisa

nossa nova secção:


7 PECADOS LITERAIS


Um pecado, um texto.

Não percam!

Com certeza você nunca vai se divertir tanto com seus pecados,
sem culpa...


Te espero cheio de ansiedade
(ainda bem que esse não é pecado,
ainda).

Besos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Don't cry for me...



Estamos aquí para aclarar que él mentor deste sítio de la web, Dom Vinícius Silva, no está en solo brasileño.

Dicen que se encuentra en tierras platinas bailando tango con su amada.

Creemos que pronto se vuelva a premiar nosotros con sus dulces, hermosas y reconfortantes palavras.


No hay más detalles acerca este misterioso informe.



Besos.

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Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

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Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

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Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

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Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

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