(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os olhos abertos de Che

Os olhos abertos de Che vêem um caminho, libertam-se da dor. Esclarecem que na estrada escolhida de guerras, sujeiras, cansaço e fome, a fé ainda permanece ativa e altiva. Não a fé divinal, mas a fé de que os homens podem escolher a estrada da igualdade.

Os olhos abertos de Che revelam a convicção da escolha pelo projeto de mudança, mesmo tendo a violência como meio. Assistem a tentativa de sobrevivência ainda igualitária do povo cubano, a busca por mais igualdade em sua finda Bolívia, ao esquecimento e afastamento de sua terra portenha às suas ideologias.

Os olhos abertos de Che navegam pelo ar, correndo entre motocicletas nas vielas andinas deste continente. Sobrevoam as cidades, os vilarejos, e torcem que seus habitantes tenham a felicidade material e imaterial que tanto merecem. Estes olhos viajam invisíveis ao lado dos andantes, dos errantes, dos pedintes, dos mendigos, a penetrar-lhes as iris e a indagar "À luta?". Estes olhos emudecidos enxergam, mas quase sempre não são vistos.

Os olhos abertos de Che procuram seus filhos para dizer-lhes "Papai ama vocês". Procuram seus algozes para avisar-lhes "Sem mágoas, a morte a todos chega". Estes olhos cegam ao observarem que o rosto que lhes contém virou produto vendido e vendível. Estes olhos ao final lacrimejam, sorriem e pensam "Jovens, que sigam suas escolhas".

Os olhos abertos de Che se fecham e descansam, mas em seu último piscar me encontram e gritam "Tú!".   



Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pra sonhar e cantar, por André Jamaica

"Nasci pra sonhar e cantar". Este me seria um epitáfio perfeito. Pra quem não ligou nome à pessoa, epitáfio é aquela frase escrita no túmulo e que, geralmente, resume o que foi a vida do defunto.

Canto desde criança e isso não quer dizer que eu cantava bem. Não nasci cantor. Não fui aquela criança afinadíssima que poderia tentar uma vaga no coro dos Meninos Cantores de Petrópolis ou no programa de calouros mirins do Raul Gil. Eu era, sim, uma criança cara de pau! Com seis anos cantei na escola a música "Sonhos" do Peninha, sucesso nos meados da década de 70. Eu me diverti. Não posso dizer o mesmo de quem ouviu. Meu pai criava porcos e galinhas e eu, moleque, gostava de subir num pé de jenipapo e gastava ali um bom tempo cantando pra eles. Hoje sei que não tornei a vida daqueles bichos nada fácil.

Me tornei cantor por insistência, por teimosia e também por destino. Eu já estava em sala de aula travestido de professor de História quando a música resolveu me dar uma chance. Me agarrei a ela e larguei tudo. Fui encarar a noite, o barzinho, o público. Eu e meu companheiro violão. A cada música que cantava, em cada bar que trabalhei, tinha a certeza que desenvolvia ali o meu ofício, o ofício de cantar.Certa feita, depois de uma noite de trabalho, um cliente me abordou dizendo: "Estou com problemas sérios mas te ouvir cantar me fez esquecê- los por algumas horas, obrigado por isso". Gelei. Não tinha noção do tamanho da responsabilidade do meu ofício. Aprendi.

Mas a redenção do moleque que atormentava porcos e galinhas com sua voz chinfrim chegaria anos mais tarde. Parte relevante da história da música brasileira passa pelo auditório da Rádio Nacional. Por ali, nas décadas de 40 e 50 passaram os maiores cantores e cantoras do país, algumas das maiores vozes brasileiras em todos os tempos. Cantar naquele auditório equivale a um jogador de futebol jogar no Maracanã. Coisa de sonho.

E lá estava eu, no dia 23 de outubro de 2008 acompanhado pelo grupo Mulato Velho, no programa Dorina.com, cantando na Rádio Nacional. Confesso que chorei muito emocionado por estar ali. Não que eu achasse que tinha, e não tinha e não tenho, a qualidade e a importância das estrelas que ali passaram mas, estar ali fazia de mim um companheiro de profissão de Marlene, Emilinha, Cauby, Francisco Alves, Orlando Silva. Nunca, em nenhum lugar, em nenhum palco, eu me senti tão cantor.

Me exponho a tanta emoção porque... "Nasci pra sonhar e cantar".   




Músico e Historiador, André Jamaica trabalhou como professor de História em pré- vestibulares comunitários e começou sua carreira musical fazendo voz e violão em bares da Baixada Fluminense. Com a banda Caô de Raiz, vencedora dos prêmios de Melhor Banda e Melhor Música do Festival Som da UFF, gravou seu primeiro cd. Hoje André Jamaica é um cantor de samba requisitado nas rodas do Rio e lançou em 2014 o cd Fuzuê, com o grupo Sambalangandã, do qual é vocalista.





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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Obrigado Eleições 2014!




Obrigado Eleições 2014!

Obrigado por nos mostrar que existe, sim, luta de classes neste país. Que a estratificação social por renda, escolaridade, profissão, território, idade e cor da pele pode ser refletida na escolha eleitoral e nas propostas de diferentes partidos.

Obrigado por trazer de volta uma polarização explícita da política brasileira, onde o muro ficou bem estreitinho e difícil de ficar em cima.

Obrigado por colocar a política como tema principal do país, seja nas redes sociais, nos jornais, nos botecos e nas reuniões familiares. Isto é de um avanço sem precedentes em nossa História.

Obrigado por desvelar o rosto do ódio, este representado pelo fascismo, pela intolerância, racismo, xenofobia, homofobia, e por outras tantas fobias. Por desmascarar uma boa parte da população que se diz "democrática" mas que na verdade só quer admitir a existência de quem pensa igual a seus mesmos valores e opiniões. Ao outro? A aniquilação.

Obrigado por revelar que entre amigos e familiares que nos beijam, abraçam e apertam nossas mãos cotidianamente há visões de mundo antagônicas às nossas, e que nem por isso os mesmos devem deixar de ser amados, porém indica que devemos estar sempre atentos e vigilantes também aos nossos próximos. Que devemos estar vigilantes a nós mesmos, sempre.

Obrigado por apontar quem deve estar definitivamente excluído de nossas vidas virtuais e reais.

Obrigado por trazer um pouco do futebol para a política e nos fazer esquecer um pouquinho o... futebol.

Obrigado por publicizar como pensa nossa classe médica.

Obrigado por confirmar como pensam nossos policiais e militares.

Obrigado por explicitar que existe uma classe média que ainda não consegue enxergar nas camadas mais pobres a irmandade que nos faz efetivamente brasileiros, todos.

Obrigado por esclarecer que boa parte da militância de partidos que outrora eram de esquerda, e que hoje mal sabemos o "lado", tem uma imensa dificuldade em receber críticas e realizar auto-avaliação.

Obrigado por ser um efeito, sim, das Manifestações de 2013, tão criticadas neste processo de 2014. Se temos uma re-politização abrangente da sociedade brasileira, devemos agradecer às milhões de pessoas que foram às ruas em Junho de 2013.

Obrigado pode deixar mais do que evidente o caráter anti-democrático de uma parte da mídia nacional. 

Obrigado por não restar dúvidas da necessidade de uma Reforma Política no Brasil.

Obrigado!


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Carta a Dilma Rousseff



























À Excelentíssima Senhora Presidenta da República Federativa do Brasil Dilma Rousseff, 

Venho através desta carta, um tanto quanto íntima de um cidadão a seu representante máximo em uma república presidencialista, revelar meus sentimentos e expectativas neste novo ciclo que se inicia. Primeiramente venho parabeniza-la pela difícil vitória e que lhe garantiu a reeleição. Por seguinte irei relatar algumas considerações deste humilde brasileiro que lhe escreve.

A partir deste segundo parágrafo pedirei desculpas, mas passarei tratá-la somente como Presidenta Dilma. Espero que não se zangue. Revelarei neste momento uma inconfidência. Votei na senhora neste segundo turno, mesmo tendo dito publicamente e anteriormente que votaria nulo. Sei que poderão me cobrar por tal atitude, mas achei melhor seguir minha consciência e meus instintos. No primeiro turno meu voto foi na candidata Luciana Genro. Na verdade meus votos nos primeiros turnos desde as eleições de 2006 não são mais em candidatos do PT, mas nos segundos turnos sim. Talvez reflexo da deflagração do mensalão à época.

Presidenta Dilma, votei na senhora neste segundo turno por motivos bem diferentes pela qual votei, torci e elegi Lula na eleição de 2002. No pleito em que Lula se tornou o primeiro presidente de origem efetivamente humilde deste país, a esperança havia vencido o medo. Infelizmente, mais de 10 anos depois, votei na senhora e em seu partido porque... o medo superou a esperança. Obviamente que este medo estava diretamente ligado ao projeto de país do outro candidato e partido. Projeto pautado em replicações de agruras já vividas por longos 8 anos e que não gostaria de ver repetidas em minha vida e na vida de todos os brasileiros. Acredito não ser necessário descrevê-las neste momento.

Mas e a esperança?

Falarei, agora, de desesperança. Minha desesperança teve início quando passei a perceber que, para a efetividade de uma denominada governabilidade, seu partido teve que se aliar ao fisiologismo das forças políticas mais retrógradas, clientelistas e causadoras das desigualdades históricas desse país. Em uma eleição para o governo de uma unidade da federação, a senhora subiu ao palanque de... 4 candidatos? Isto não é apoio, isto é um descompromisso total com qualquer posicionamento político e completo desrespeito aos cidadãos de tal estado, pois não há possibilidade de "derrota", somente a contemplação dos interesses dos muitos "aliados" e que precisam estar na agenda de cargos do governo. Não irei nem comentar sobre os financiadores/investidores de sua campanha, dos aliados e dos opositores. 

Minha desesperança se amplificou ao verificar o seu silêncio pessoal, que também representa um silêncio político e representativo, à imensa repressão policial aos cidadãos que foram às ruas nas Manifestações de Junho de 2013. Ao silêncio à fúria assassina das Polícias Militares em todo território nacional. Ao silêncio ao espancamento coletivo a que professores foram submetidos nas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo. Ao envio da Força Nacional para o impedimento de protestos contra o leilão do pré-sal. E por fim ao maior aparato de repressão policial e militar ocorrido no Brasil desde a ditadura militar no período da Copa do Mundo 2014, onde ao seu final tivemos 28 presos políticos em um inquérito policial que denunciava um anarquista nascido a 200 anos, Bakunin (obviamente... morto) e a constituição de um processo fictício, mas com mais de 2.000 páginas e lido em 20 minutos por um juiz. Seu Ministro da Justiça relatou que foi um procedimento legal. A presidência do seu partido, o PT, disse que as prisões eram inadmissíveis. Quem estava certo? A senhora em nenhum momento respondeu.

A desesperança se confirmou ao perceber que a política econômica, apesar dos importantes programas sociais, ainda está pautada no exacerbado rendimento de uma pequena elite, de bancos privados e do mercado financeiro. Onde a política fiscal arrocha a grande massa trabalhadora em um sistema de recolhimento piramidal e proporcionador de mais desigualdades. A tabela do imposto de renda, defasada mais de 100%, pressiona ainda mais a classe média, que demonstrou todo seu descontentamento nestas eleições. A desesperança se deu ao ver que os interesses ruralistas se sobrepuseram aos interesses de uma agricultura sustentável, da reforma agrária e dos interesses dos reais donos dessa terra: os índios. Que os interesses ultra-religiosos se sobrepuseram aos direitos de todas as orientações sexuais. Que o falso moralismo se sobrepôs à vida das mulheres. Que o discurso da guerra às drogas se sobrepôs à vida de milhares de jovens negros e pobres  

Mas e a esperança? Sim, ela existe. Anda pouca. Pequena. Mas ainda persiste.

A esperança surge na possibilidade de que a senhora, Presidenta Dilma, e seu partido, o PT, voltem de onde vieram, voltem às ruas, aos protestos, às indignações. Vocês deixaram de se indignar e terceirizaram a indignação. Voltem de onde vieram, da esquerda. Que as vozes das ruas entrem pelos corredores do Palácio do Planalto e insufle-os para o combate no Congresso, que sabemos representar os interesses mais conservadores e elitistas deste pais.

Ela, a esperança, emerge da necessidade da reforma política para a governabilidade, porque sem ela, a senhora pode ter certeza, não haverá sossego. Da ampliação da democracia, sua radicalização. Da ampliação da atuação política para além da representação. Da urgência da regulação da mídia, não de seu conteúdo, mas de seus donos, da desconcentração do oligopólio das empresas de comunicação, pois as maiores vítimas somos nós, população com grande déficit educacional e cultural e a senhora, que viu uma das mais grotescas articulações e manipulações para o impedimento da democracia. As empresas de mídia que persistentemente mentem e difamam precisam sofrer as consequências de seus atos, porque, hoje, absolutamente nada acontece a estes poderosos interesses.

A esperança se revigora ao verificar que precisamos repensar o Poder Judiciário, através da reforma política, em que este poder não pode se resumir a um reino estamental, onde se legisla em proveito próprio, onde vive-se totalmente separado de todo o restante do país. O Judiciário brasileiro pode ser qualquer coisa, menos justo. Necessita de algo que o próprio prega, mas que em nenhum momento pratica: a democracia. O Poder Judiciário brasileiro necessita de um banho de democracia. A reforma política necessita incorporar também esta tarefa.

Presidenta Dilma, o desafio é grande, imenso, talvez até mesmo impossível de se completar em 4 anos de governo, mas que precisa se iniciar para já, para amanhã. Peço que o PT esqueça 2018, que esqueça a possível candidatura de Lula, que esqueça o depois e que se foque no presente, para que nunca mais, mas nunca mais, o medo vença a esperança.

Presidenta Dilma, parabéns pela reeleição, e indico que serei um dos primeiros às ruas a bradar se for necessário, contra ou a favor da senhora, porque só assim a esperança poderá voltar à minha vida e às vidas de todos os brasileiros. 


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.



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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Mas não podemos generalizar..."




























Albert Einstein no início do século XX revolucionou a física moderna com sua teoria da relatividade. Tudo mudou. O mundo se redefiniu através da percepção que mesmo na Natureza mais desconhecida, na grandeza do Universo, dificilmente poderemos afirmar que algo é absoluto, que uma certeza poderá ser insoluvelmente verdadeira. As teorias da Mecânica de Newton, oriundas ainda do movimento do Renascimento e propulsoras do Iluminismo, tiveram que ser revistas e o próprio sistema filosófico cartesiano* passou a ser questionado a partir de então. A ciência, que através dos ideais do Iluminismo, poderia substituir as religiões na busca humana pelas leis universais e pela verdade, teria que refletir e repensar suas próprias limitações epistemológicas.

Esta pequena introdução aos alicerces da Física é para confirmar que nenhuma generalização é realmente possível. Todas as coisas e afirmações passam pela crivo da relatividade, seja na Natureza, seja pelas diferentes percepções sensoriais humanas.

Outro fato importante é perceber que grandes teorias e cosmologias sempre fizeram parte do imaginário humano coletivo e individual. Sabemos que o homem medieval tinha sua vida inteiramente pautada e vivida pelos ensinamentos e visões de mundo construídos pelas teologias dominantes. Com o avanço da ciência e a substituição das religiões como principais explicadoras do mundo em relação à primeira, os conhecimentos científicos também passaram a interagir com as dinâmicas sociais e na constituição das personalidades. A racionalização dos sistemas educacionais, o planejamento urbanístico, a higienização urbana e social através do avanço da biologia e da medicina, e a valorização das individualidades a partir da psicanálise são alguns dos exemplos que posso dar sobre a retroalimentação entre produção filosófica-científica e a própria reprodução humana, sem nos esquecermos da continuidade da influência religiosa e metafísica neste complexo tripé.  

Isto tudo para dizer que: Não! Não podemos generalizar nada. Nada. Nadinha da Silva. E isto é uma grande virtude, pois é o pressuposto fundamental de que temos a capacidade e a preocupação perene de relativizarmos tudo o que nos é próximo e tudo o que nos é também distante. A habilidade de percebermos o outro, a alteridade.

Portanto ciência e senso comum se entrelaçam em nosso dia-a-da, e isso já faz algum tempo. E só para relembrar que este senso comum trata-se de nossos conhecimentos prévios e/ou atuais e que utilizamos cotidianamente para a realização de qualquer tarefa, em uma conversa informal, em um planejamento temporal, em uma escolha em quem confiar, votar, amar, em uma fé corriqueira, em uma crendice, em tomar um remédio por acreditar que ele irá lhe fazer bem, mesmo fazendo ou não. Este senso comum não é o falso, ou mentiroso, mas ele opera sem as obrigatoriedades metodológicas e éticas do que chamamos de conhecimento científico ou de objetividade científica. 

E dentro do escopo da vida social há a incorporação de certos termos e chavões científicos, ou até mesmo filosóficos, que encontram ressonância na gramática popular e resultam em produções que quase sempre nem mais se relacionam com o enunciado original, perdendo seu sentido primeiro e ampliando outras significações. Significantes e significados se alterando mutuamente. As palavras e as coisas, coisas e palavras.  

Um destes termos anda sendo muito utilizado por bocas brasileiras nos últimos tempos. É o "mas não podemos generalizar...". Fico feliz que nosso povo tenha incorporado em sua dinâmica social um reconhecimento do relativismo. Porém ao mesmo tempo isso me traz uma grande preocupação sobre qual o sentido que tal termo realmente se refere. Infelizmente em nosso senso comum popular, e também no que consideramos os "estratos superiores" da sociedade, o "não podemos generalizar" tornou-se um guarda-chuva teórico-filosófico-frase-feita para justificar o injustificável.   

Se as Polícias Militares em todo país em suas institucionalidades transgridem qualquer ideia primária de direitos humanos, ouvimos logo seus defensores bradarem o "mas não podemos generalizar". Se médicos por todo o país têm atitudes racistas e elitistas através de manifestações públicas e classistas, o "mas não podemos generalizar" surge com toda força. Quando fica evidenciada as intenções de manter oligopólico e familiar o poder da grande mídia, da mídia confundida como corporação, onde o jornalismo é utilizado como ferramenta de subordinação da opinião pública e controle social, não há momento em que não se diga o... "mas não podemos generalizar". A ideia de que INSTITUIÇÕES possam representar ideários  anti-democráticos  e excludentes é muito doloroso para se admitir materialmente e simbolicamente, principalmente quando se faz parte destas instituições, então temos a busca da atomização pelo indivíduo, para que se amenize a sua própria posição institucional diante da óbvia prática/valores da instituição ou classe profissional à qual se pertence.

É óbvio que não podemos reduzir as pessoas às suas instituições. Mas "não generalizar" não pode mais esconder as motivações as quais certas representações atuam e significam claramente. 

Então declaro neste momento, mesmo com a subversão e a dificuldade de subtrair-me de minha formação profissional e científica como sociólogo e professor, que irei generalizar:

Mesmo que nem todos os policiais militares estejam incluídos, a Polícia Militar é uma instituição assassina, torturadora, transgressora dos direitos humanos, e que não possui nenhum compromisso com seu lema jurídico de "servir e proteger", mas com a real função dada pelo Estado de "controlar, reprimir e exterminar".

Mesmo que nem todos os médicos estejam incluídos, a "classe médica" brasileira é formada por profissionais que não têm nenhum interesse por salvar vidas dos pobres ou pela saúde coletiva, buscando muito rapidamente de volta o alto investimento realizado em suas faculdades particulares, atuando de maneira desleixada em clínicas e consultórios do SUS ou em planos de saúde para pobres, e até mesmo para a classe média. Negando-se a atuar em localidades distantes e pauperizadas, e nos rincões do Brasil profundo, mas observando a chegada de médicos estrangeiros para fazer o trabalho que ela classe médica não quer, chamando-os de... "escravos".

Mesmo que nem todos os jornalistas estejam incluídos, a grande mídia brasileira é formada por profissionais que têm como principal missão reafirmar seus valores de classe, garantindo o lucro e os interesses de seus patrões e das empresas em que trabalham, mentindo, vilipendiando, não investigando realmente, usando de deslealdade com companheiros de profissão por mesquinharia e ego.   

E em um último exercício de generalização, deixo em aberto a vocês mais um: me julgar.

*René Descartes (La Haye en Touraine, 31 de março de 1596 – Estocolmo, 11 de fevereiro de 1650 ) foi um filósofo, físicoe matemático francês. Durante a Idade Moderna, também era conhecido por seu nome latino Renatus Cartesius. Notabilizou-se sobretudo por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria - fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Por fim, foi também uma das figuras-chave na Revolução Científica. FONTE: Wikipedia.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Uma análise sobre a mobilidade urbana na Baixada Fluminense como contribuição para a formulação de uma sociologia dos transportes no Brasil - Em pé ou sentado? -


Em Fevereiro de 2014 defendi minha tese de doutorado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - IPPUR/UFRJ.

Desde sempre tive interesse sobre os transportes e a mobilidade urbana. Talvez desde a primeira vez que meu pai me "ensinou" a andar de trem (um "Japeri") quando eu tinha 15 anos.

É com muito orgulho, e alguns anos depois, que apresento este trabalho. Ao final dos slides haverá um link onde você poderá ter acesso à própria tese, integralmente.

Mas afinal eu te pergunto: "Em pé ou sentado?"

















































Para você poder ter e ler a TESE COMPLETA, é só clicar neste link:

https://drive.google.com/file/d/0B9mu72OM-pdKb3lQcGpnWGc2OUk/view?usp=sharing

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


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domingo, 12 de outubro de 2014

Carta a Lobão


Caro Lobão, eu sei que a cidade enlouquece sonhos tortos, na verdade nada é o que parece ser, mas digo a você que a brincadeira já passou um pouco do ponto. Tá na hora de dizer a verdade. Chegar em público e dizer com sua voz rouca: "Rapeize, acabou, era tudo tiração de sarro, entrei nessa de direita-classe-média-reacinha para ver como funcionava essa dinâmica e zoar com esses otários. Agora chega!".

Caro Lobão, não nos conhecemos nem somos da mesma geração, mas escrevo essa carta com certa intimidade, porque você nunca foi um cara de se render. Todo mundo sabe da sua origem burguesa de garoto da Zona Sul do Rio de Janeiro, mas logo depois de entrar à vida adulta você deu uma banana para os arquétipos e demonstrou isso ao romper com a Blitz, quando viu que a parada era só reproduzir, reproduzir, vender, vender e vender até esgotar, e foi exatamente o que aconteceu com a Blitz, mas com você não.

Caro Lobão, você foi taxado de maldito, bandido, maconheiro, drogado, foi preso e perseguido. E eu sei, e você sabe, que vai chegar a hora que todo mundo vai perceber que temos uso-fruto de nosso corpo e de nossas vontades. Que se quisermos cheirar talco Barla poderemos, desde que arquemos com esta responsabilidade. Todas as sociedades humanas usaram e usarão substâncias para a expansão de seus estados de consciência, com as respectivas consequências das formas de uso. Irá demorar, mas esse dia vai chegar. 

Caro Lobão, a mídia que te detonou e perseguiu àquela época é a mesma que é morada para teus textos, e que te aplaude agora, mas você sabe que eles mentem, que eles te odeiam. Meu camarada, você mesmo disse que subiu o morro pra comprar as paradas e deu até tiro com a rapaziada pensando em fazer uma revolução popular no país. Sabemos que isso não leva a nada, mas você conheceu a realidade brasileira ao conviver com os efetivos excluídos em nossas cadeias e presídios.  

Caro Lobão, você sambou na cara das gravadoras, denunciou o jabá nas rádios e televisões (e por isso parou de tocar e aparecer nos mesmos), exigiu a numeração dos cd's e maior controle dos artistas sobre suas obras. Teve uma época que andou em uma maré ruim, que eu sei, e se reinventou com a genial ideia de lançar uma revista com um cd, e vender em... bancas de jornal! A galera da indústria virou a cara, porque são babacas e arrogantes, mas você realmente ousou em popularizar a produção musical neste pais. Cara, "A vida é doce" é foda e o seu Acústico é um dos poucos que canto em voz alta, e foda-se quem disse que você se vendeu à indústria para fazê-lo.

Caro Lobão, não é possível que somente Olavo de Carvalho tenha feito sua cabeça para a direita. Não há como acreditar. Tenho absoluta certeza que todos somos, de certa forma, filósofos, ou potenciais filósofos, mas se autodenominar Filósofo sem uma mínima formação acadêmica institucional, é um pouco demais para mim. Li o "Jardim das Aflições", faz um bom tempo, mas lembro que Olavo procura fazer um paralelismo entre a obra de Epicuro (e sua busca pelo prazer) ao desdobramento do pensamento hegeliano e marxista, criticando obviamente seus efeitos práticos e reais; em contraposição à obra de Aristóteles à escolástica, e a futura evolução ao pensamento liberal. Meu brother, nem ligo que você seja liberal, mas o que atualmente Olavo e seus discípulos pregam está longe de qualquer ideia ligada ao liberalismo original, vide a obra de Adam Smith. O que temos hoje da direita brasileira é basicamente ódio, ódio e mais ódio.

Caro Lobão, a direita classe média brasileira é burra e todos sabemos disso. Você sabe. Eu sei. Sabemos também que a grana oriunda da música e de shows, sem estar na mídia corporativa, não deve ser bem lá essas coisas. E como a direita é burra e não tem ninguém em quantidade suficiente para abastecê-la com mínimos bons textos, você naturalmente viu um filão bom de entrar. Era lógico que a classe média paulista que consome a VEJA iria proporcionar um tutu bom, eu sei. Sua biografia vendeu bem, porque é boa, e obviamente que tudo o que viesse a escrever posteriormente também venderia bem. Imagino a graninha que não rola com as palestras aos coxinhas paulistas, que quando eram crianças ouviam de seus pais "não escuta essa música não que isso é coisa de marginal, esse moço é bandido e drogado meu filho". Agora essas crianças, hoje jovens adultos, batem palmas pra você, não pela sua essência, mas por sua transformação ao que eles sempre quiseram, sua "conservadorização". Parece que você se "bundamolizou", falando por termos "lobinianos".

Caro Lobão, ser associado e comparado ao "Inútil" dos anos oitenta, a Constantino (nada de usar a cor vermelha, heim!) e Reinaldo Azevedo (procurando o manequim da Toulon até hoje) me traria vergonha. Sei que, no fundo, a você também. Meu distante amigo, tá na hora de dizer: "Há! Pegadinha do Mallandro!" e mostrar o dedo médio para a VEJA e essa cambada de elitistas escrotos.

Caro Lobão, já tá na hora de sair da Décadance e voltar à Élégance. 

Caro Lobão, um abraço de um ex-fã que tá doido para voltar a ser... fã?


*Referências às canções Essa Noite Não e Décadance Avec Élégance, e ao livro Jardim das Aflições (Olavo de Carvalho).  

Todas as informações deste texto foram retiradas do livro "50 anos a mil", biografia de Lobão e comprada por este quem vos escreve.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


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III Semana da Baixada Fluminense - 2014



O PET / Conexões de Saberes – IM/UFRRJ ( Instituto Multidisciplinar – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Campus Nova Iguaçu), fruto da fusão do Programa Conexões de Saberes (PCS) e Programa de Educação Tutorial (PET), busca a articulação entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão, com o propósito de contribuir na formação acadêmica e cidadã dos estudantes de origem popular e de baixa renda da Baixada Fluminense matriculados no IM/UFRRJ. E visando essa maior coesão social, o grupo PET/Conexões produziu a primeira edição da Semana da Baixada Fluminense, no Instituto Muldidisciplinar.

O trabalho desenvolvido pelo Programa de Educação Tutorial, articulado com o Conexões de Saberes, tem sido capaz de fornecer aos estudantes universitários de baixa renda, afrodescedentes e/ou de origem popular, um valioso capital cultural muito além da sala de aula. Através da participação dos mesmos em diversas atividades extra-curriculares e extra-acadêmicas como a leitura de textos, visita a Museus, Quilombos, Rodas de conversa e realização de eventos, como a I Semana da Baixada Fluminense, são atividades de grande importância para a vida cidadã destes estudantes e através da aproximação do saber acadêmico com o saber popular.



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

2014: O ano em que o futebol saiu da minha vida




Certamente você já ouviu as frases: "Eu nunca mais quero saber de futebol" ou "Desisto, não volto mais a este estádio para ver a porcaria deste time". Normalmente as revoltas futebolísticas associam-se aos maus momentos vividos pelos respectivos clubes ou por uma grande falha da arbitragem que afetou o resultado de um campeonato, por exemplo.

Comigo não é diferente. Como botafoguense apaixonado, e oriundo de uma família de alvinegros, o momento atual é simplesmente desesperador, tanto dentro como fora de campo. Acredito que os palmeirenses também sintam este sofrimento. No caso de Botafogo e Palmeiras, e alguns outros gigantes da história do futebol brasileiro, a agonia já vem há anos. Para o Botafogo no mínimo uns... vinte!

Mas este texto não trata somente do desencantamento de um torcedor desiludido com seu clube. Na verdade é muito mais que isso. Minha infância foi permeada pelo futebol, com as brincadeiras na rua, com a zoação sobre ser botafoguense e "sofredor" e ao mesmo tempo comemorar as vitórias e campeonatos que vieram nos anos 90. Minha relação de amizade e amor com meu pai se deu com muitas idas ao Maracanã entre bate papos sobre futebol e a vida. Isto nunca sairá de minha memória e da minha história. Porém com o passar dos anos algo se perdeu, se quebrou na minha relação com este esporte definido e definidor do ethos brasileiro.

Faz um bom tempo que percebo que no futebol brasileiro os resultados esportivos cada vez menos se relacionam com o que acontece DENTRO de campo, quer dizer, da relação entre onze jogadores versus onze jogadores. Desde a descoberta do juiz, um dos principais do campeonato brasileiro à época, que beijava a santinha e depois manipulava os resultados das partidas, não há mais nenhuma maneira de confiar plenamente na arbitragem brasileira, por mais que a mídia tente nos empurrar a certeza que não, que é seguro, goela abaixo.

Porém o desencantamento mencionado acima se tornou mais complexo ao perceber que as grandes mazelas da sociedade brasileira se refletem e se amplificam quando olhamos para a situação do futebol nacional. O grito de indignação por mais direitos iniciados em Junho de 2013 pode e deve ser expandido a todas as práticas sociais do país, e o futebol é uma delas, talvez uma das mais importantes, inclusive.

A necessidade sufocante de mais democracia direta no Estado brasileiro talvez seja menos pior, não muito, se compararmos esta mesma necessidade aos feudos elitistas, conservadores, racistas e segregadores que dominam as cúpulas dos clubes de futebol de hoje e de ontem. Gestões com o pior resultado possível, pois praticamente todos os clubes do futebol brasileiro estão falidos ou quase insolventes economicamente. Como acreditar no futebol brasileiro se a CBF é um antro do que temos de pior como grupo social, com gente que representa, ainda, a ditadura, o autoritarismo, o sectarismo e o desprezo por tudo que se queira democrático e popular. O que dizer sobre o que foi feito com um templo como o Maracanã, transformado em um shopping center com um gramado verde no centro para a classe média ir ver jogos uma vez ao mês, quando estiverem de saco cheio do pay-per-view.

O que falar da nossa Copa do Mundo em 2014, que desalojou centenas de famílias, que priorizou o lucro e os ganhos do grande capital nacional e internacional, além de proporcionar o maior aparato repressivo desde os anos de chumbo, com dezenas de prisões políticas no último dia da Copa e em pleno governo de um partido de... esquerda!? O que dizer de nossa mídia corporativa que controla e manda efetivamente em nossos clubes e campeonatos, com seu poderio econômico e impenetrável regulação pelo poder público, determinando dias e horários de jogos quase sempre contrários às possibilidades de presença do público, mas dentro da lógica do futebol visto pelo sofá. Das preferências e favorecimentos midiáticos escancarados a determinados clubes, e que podem variar de acordo com as conveniências políticas, com o gosto clubístico de um diretor de tv manda-chuva ou com um time de jornalistas que não sabem separar paixão do trabalho.  

Nossa justiça desportiva, representada pelo STJD, é uma piada, onde cada julgamento tem um resultado diferente, de acordo também com o gosto futebolístico dos integrantes do Pleno, com um desfile de egos e projetos de ascensão e reconhecimento para futuro carreirismo nos tribunais de justiça espalhados por aí ou até na projeção de uma carreira política.

Mas aí você pode me provocar: "Mas e se um mecenas chegar ao Botafogo, pagar as dívidas e montar um time galáctico, você não vai torcer?". Sim, seria difícil não torcer. Mas digo que hoje me encontro em um estado de vida que não consigo mais me sentir representado sem poder decidir, ou participar, por minimamente que seja, de algo que também considero "meu" ou "nosso". Porque devo pagar um sócio-torcedor se não posso votar para o corpo político de meu clube? Porque terei um título de sócio-proprietário se a sede do clube é longe de minha casa e sua frequência é elitista, não havendo nenhuma política de aproximação com os torcedores mais distantes.

Talvez essa ruptura seja momentânea, mas realmente a minha antiga e fiel paixão pelo futebol desmoronou. E não me digam para torcer pelo Barcelona ou pelo Bayern. Eu não tenho e nunca terei nenhuma relação afetiva com nenhum desses clubes!

Enfim informo que ando precisando formar um grupo de novos amigos para uma pelada semanal. Quem sabe a semente de um novo-velho amor volte a brotar?

Ando meio triste e cabisbaixo porque no ano de 2014... o futebol deixou a minha vida. 


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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