(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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sábado, 30 de novembro de 2013

A Lata

Da minha infância até minha adolescência vivi com meu avô Tuninho em sua casa, que depois tornou-se a casa dos meus pais e minha e de meu irmão. Nunca conseguira abrir os alimentos enlatados com aquele abridor tradicional, com um pequeno gancho de ferro sólido e fixo em uma curta base para se apoiar na palma da mão. Nunca. Então recorria ao meu avô, que tinha mais de oitenta anos já à época. E lá ia ele, meio sem jeito, meio sem força, agradar seu neto, abrir a lata difícil. Eu via que ele também tinha dificuldades, mas sempre conseguia abrir as latas. Sempre. De vez em quando eu dizia "vô, deixa pra lá", mas ele sempre conseguia abrir as latas. Sempre. Meu avô morreu e eu tinha dezesseis anos.

Hoje, exatamente hoje, eu comprei um patê, estava contido em uma lata, cheguei em casa, e estava lá um abridor idêntico ao que havia em minha antiga casa, o mesmo formato e material. Peguei a ferramenta e com extrema facilidade executei a tarefa. A lata foi aberta. Passei a faca à pasta e comi o pão.

Hoje, exatamente hoje, meu avô me habitou novamente.

E eu não queria que ele fosse embora.



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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Projeto "O Espírito da Coisa: Palavras Sobre Qualquer Coisa" - Launching People Samsung



Gente é o seguinte. Este é um projeto que enviei para o programa da Samsung chamado "Launching People" e eu preciso muito que vocês curtam e divulguem aqui pelo facebook e entre seus grupos e amigos. Se trata de realizar uma plataforma on line onde eu, em parceria com artistas da Baixada Fluminense e futuros colaboradores, poderemos co-produzir e divulgar nas redes sociais literatura, música e audiovisual dos cidadãos desta região.
Ficou com dúvidas? Quer saber um pouco mais? Clique no link do projeto, leia a descrição e veja um pequeno vídeo que preparei.


Clique no link abaixo, veja o projeto, deixe um comentário e compartilhe!


Obrigado.

Besos.
Projeto "O Espírito da Coisa: Palavras Sobre Qualquer Coisa" pelo Launching People Samsung.





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sábado, 23 de novembro de 2013

Deliciosamente / Natureza, por Rosemary Simões


A Mary é amiga de minha mãe já faz alguns anos. Tem uma neta da mesma idade de meu sobrinho. Mary sempre esteve em minha casa e trava enormes conversas e confissões com minha mãe. Ela sempre se disse fã do meu livro e me prometia um dia mostrar seus poemas. Mary sempre foi muito muito tímida, mas para minha surpresa, deixou um pacote com seus textos para que eu pudesse ler. E não há como perceber que essa timidez esconde uma busca pela alegria, felicidade, companhia e sensualidade.

Bom, selecionei dois textos para que vocês possam conhecer a poeta... Rosemary Simões. 


Deliciosamente

O olhar voltou como a chuva que cai deliciosamente 
para refrescar a terra necessitada de água.

O sorriso?

Ah! É como saborear pêssego com creme de leite,
só seria melhor sobre o peito dele.

Um dia, na idade madura, sentirei ter perdido por
não dizer: 

"O teu sorriso é lindo, melhor ainda seria com creme de leite".  


Natureza

Tive tempo de olhar a lua! Linda!
Era como se o Sol estivesse fazendo amor com ela, e o orgasmo foi pleno e simétrico.
E as estrelas em síncope brilhavam discretas, devido ao encanto proporcionado.
Raras são as noites em que olho o céu. 
Por isso perco em sentir esse sabor sempre encantador.
É claro que a natureza sabe fazer essa magia há milhares de anos, mas somente agora estou vulnerável.
É real, tenho o céu ao meu dispor.


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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Poema para Lara

Lara surgiu do nada lendo um meu poema,
e ainda assim me acha uma pessoa serena, mas que ingênua!

Lara é sentimental e de maneira imatura
procura e busca uma cura, mas que luta!

Lara se pergunta sobre o sentido da vida
mas como coisa teimosa essa tal sempre lhe evita, mas que doída!

Lara busca refúgio nas canções e nas palavras
e fica confusa pois nelas só há ciladas, mas que malvadas!

Lara então chora pois sabe que na despedida
remédio para a dor que sente não sara a ferida, mas que partida!

Então o poemista dirá:

"Lara cultive gargalhadas para que os males
colhidos sejam regados pelos sorrisos molhados de saudades e de vida.

Ame-se para poder amar aos outros e para que lhe amem quando menos necessitar.
Permita-se sofrer e chorar, mas não pratique o desespero e a melancolia.
Abrace sem pestanejar.
Beije de olhos fechados... mas abra-os de vez em quando, mas só de vez em quando.
Sussurre aos ouvidos.
Grite aos fantasmas.

Diga: "Eu te amo".
Diga: "Eu me amo".
Quebre um espelho!
E diga: "Até nunca mais!""

Lara, ninfa do Lácio, à sua morada o silêncio quer ficar.

Lara, a vida não é clara, mas é boa, e eu te juro, que não custa tentar.



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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O poeta passageiro


Ventos lusitanos enfrentaram as pancadas atlânticas do mar e trouxeram consigo os seres que continham a quarta parte da matéria do poeta. Terras de além mar, terras de além Porto, terras de além Lisboa e terras de Alentejo sujavam com seus grãos grudados aos pés e às botas, o chão da embarcação de diversas almas, almas em busca das boas aventuranças ou da redenção. A fêmea que carregava um gajo em seu ventre, quase o cuspiu para que fosse batizado em nome de Poseidon. Tupã, como com ciúmes, não permitiu tal heresia. Em terra tupiniquim aportaram e não em nome da divindade indígena, mas sim em Cristo, a criança foi entronada aos espíritos superiores. E nessa toada, nas andanças por terras ainda verdes, quase que despovoadas de civilização e de fuligem fabril, fincaram bandeira no Brasil. Nesta família alijada e por nossas areias adotada, parte importante do escrivinhador por nau foi trazida. Anos depois, aquele pequeno gajo, depois homem, cor de branco como vela, viu a morena analfabeta, e mesmo assim se apaixonou. Dessa união, em futuro próximo, metade em fêmea do poeta se formou. Mas a história não se acaba, porque ainda falta outra quarta parte, que ainda não somou.     

Ventos agrestes sopraram quentes nas vestes enquanto a égua e o jumento morriam de sede. Este quarto de parte do poeta vem daqui mesmo, com queijo coalho e torresmo, e oriundos da cidade que nasceu no mesmo dia de São Salvador da Cruz do Calvário, ao Rio de Janeiro vieram viver. Os motivos que lhes tiraram, juntos, do seio de suas entranhas macaxeiradas, assim como os patrícios de mesma história, talvez nunca iremos saber. Ao centro velho da cidade das águas de Janeiro chegaram, com crianças aos colos e suor nas testas, e mesmo assim em acordes nordestinos comiam, cantavam e faziam festas. O homem nos trens foi trabalhar, na Cinelândia foi jogar bilhar e cerveja tomar. A mulher com filhos para criar, comida a cozinhar, e outra função a inventar.... ah! foi vender beleza, e em movimento pendular, em ônibus-araras, perambulou de Natal a Janeiro, do Rio ao Rio Grande, lá ao Norte, sem se cansar. Levava consigo o único rebento cabra-da-peste, que carregava as malas e o peso como um jegue, sendo esta metade em macho, que em futura união, um pequeno poeta iria forjar.

Então em terras de Jacutinga e Mutambó, estas metades se encontram, e é a partir daí que o dono das palavras começa a respirar. Pedras duras, lama mole, asfalto molhado, de sangue, presidente-general no comando, povo em transe, e uma década dada como perdida para crescer e se formar. E depois... peladas em campos de poeira, dedos com tampões arrancados e esfolados em rubro, amigos pobres, pobres vizinhos e a grande família da rua a se compartilhar. Jovens em cima dos trens, corpos com cheiro de queimado do surf ferroviário, das balas de fogo, dos pelotões de fuzilamento fardados. O poeta navega nas minhocas de metal, nas araras-urbanas, no pé-ante-pé do negro chão esburacado de uma Baixada repleta de dores, e também amores. No verde da encosta, na cachoeira escondida, nas reuniões nas lajes, nas festas em família, na lembrança dos amigos, na sujeira fluminense em eterna companhia, caminhando e escrevendo versos na urbes esquecida.

E o tempo passará carregando as palavras, as frases e os versos do poeta embarcado em carros, trens, ônibus, vans, metrôs, mototáxis, aos pés, sempre ao meio do caminho de nenhum lugar, de lugar algum, porque o poeta e seus poemas estão de passagem, como um Caronte que não tem morada, só navega. Vive na intermitência do espaço, porque não pertence, realmente, a espaço algum. Não é de lá, não é de cá. Busca morada provisória onde poderá derramar suas dores e seus amores, e tentará desesperado ser ouvido, assim como um gemido, para algum sentido à sua vida dar. O poeta passageiro navega em águas turvas, dirige veloz em curvas, por não saber como chegar. Talvez derrame suas sementes ao mundo, para que brotem profundo e bons frutos possam dar. Palavras perdidas, soltas ao destino, agora caminham livremente de Mesquita a Gibraltar. E diante de ti se deita, presta respeito, de uma prece refeito, fala "ó Vida" quase sempre a murmurar. Quer passagem de ida e volta, porque de poesia e vento, o poeta sempre quer brincar. Para sempre.



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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

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O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

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