(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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sábado, 29 de novembro de 2014

CINEFILIA: "Boyhood", por Samantha Brasil



Boyhood – da infância à juventude (EUA, 2014).

Por Samantha Brasil

29/11/2014

Imagine um filme que demore 12 anos para ser rodado, no qual o diretor acompanha a rotina diária de uma “família”, no qual a gente percebe as mudanças físicas dos personagens, as roupas de cada ano, as músicas mais famosas de cada época, estilos e trejeitos de falar, gírias, jogos, aparelhos eletrônicos, carros da moda. Esse projeto fantástico de falar da simples rotina diária de uma família comum foi lançado esse ano por Richard Linklater, que inclusive levou o prêmio de melhor direção no Festival de Berlim. Mas não era de se surpreender que um projeto original desse porte viesse justamente de Linklater. Afinal ele ficou famoso por dirigir a trilogia composta pelos filmes “Antes do amanhecer” (1995), “Antes do por-do-sol” (2004) e “Antes da meia-noite” (2013) que também acompanha as três fases de um casal interpretado pelos mesmos atores (Ethan Hawke e Julie Delpy). Ou seja, o diretor gosta desse desafio de lançar grandes projetos que se perpetuam no tempo. E nós só temos a ganhar, já que a riqueza dos detalhes e das delicadezas em que as relações micro se formam para dar conta de um universo macro nos faz pensar e refletir não só sobre uma família em particular, mas sim na própria transformação social de uma década.

“Boyhood” (no original) é um dos filmes mais esperados nas indicações para o Oscar de 2015, podendo ser indicado nas categorias de melhor filme, direção, roteiro original, ator e atriz coadjuvantes (para Ethan Hawke e Patricia Arquette, que interpretam pai e mãe do protagonista). A película é vista pelos olhos do menino Mason Jr., interpretado por Ellar Coltrane, que vive as agruras da mudança da infância para a adolescência (um dos momentos mais ricos, tensos, densos e desconfortáveis da vida de um ser humano). Nessa empreitada ele se soma à sua irmã Samantha, personificada pela própria filha do diretor: Lorelei Linklater. Vemos ambos crescendo, envelhecendo, mudando os cabelos, o estilo de se vestir, o modo de falar, o timbre da voz, as espinhas, a descoberta do primeiro amor. Hawke e Arquette são os pais dessa dupla e que vivem em um casamento que não dá certo. Nessa jornada da infância à juventude, como sugere o subtítulo que ganhou em terras brasilis, vemos um casal que se separa, a mudança de colégio das crianças, problemas financeiros, o novo parceiro da mãe que chega nessa família meio desestruturada com mais dois filhos, um pai ausente que só aparece para entreter e não para educar.

Podemos então estar nos perguntando: o que tem de tão interessante e que faz este filme ser um marco no cinema mundial, já que ele conta uma história tão comum, tão banal?  A genialidade está na forma, na estética, na ousadia, no roteiro inventivo e constantemente mutável para se adequar às transformações sócio-culturais. Mas não somente nisso. Está também no conteúdo, pois muitas vezes é mais difícil contarmos uma trama simples, sem deixá-la parecendo “mais do mesmo” e enfadonha. Projeto semelhante, todavia menos grandiloquente, foi o de Michael Winterbottom ao filmar por cinco anos o longa inglês “Todos os dias” (2012). Porém, diferente deste aqui, tal diretor relata um caso específico. Mostra como uma família lidou com o fato do pai estar preso cumprindo pena por um crime cometido. Já Linklater consegue prender o espectador ao longo de quase três horas de projeção para falar sobre dia a dia, cotidiano, ou seja, nenhum tema em especial. Quando o filme acaba nos sentimos meio órfãos, querendo saber mais da vida de Mason Jr. e sua família. Se ele se forma, se seu encontro com a namoradinha dá certo, como está seguindo sua vida, como está sua aparência. Tornamo-nos meio que personagens ocultos do filme que se passa numa época recente em que todos vivemos. Impossível não se emocionar e se identificar com as diversas referências de gostos, hábitos, costumes da década passada. 

“Boyhood” apesar de datado é um filme atemporal no sentido em que marcará esta década numa experiência quase “documental” do diretor que pretende imprimir uma marca autoral na história do cinema. A vontade de Linklater nos convencer é tão realista que a gente acaba se deixando levar por aquela família como se ela de fato existisse. Um trabalho realmente primoroso e engajado não só do diretor, mas de todo o elenco. Aliado ao que já foi dito, some-se a tudo isso uma trilha sonora espetacular que marcou as fases pelo qual o filme perpassa de forma a se tornar quase um personagem. É um filme de total imersão que nos faz reviver a nossa própria infância e juventude, com o perdão do trocadilho em relação ao nome "brasileiro" do filme.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ 

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!




Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Homem / O poeta morreu, por Luan Alves Ribeiro


Homem

Uma coisa viva que pulsa e descansa
Sob tetos e anjos renascentistas
Sobre o piso e dentro da pele
Entre móveis, cores, cheiros, sons
Feito de passado e espera

Feito de saudade e miséria.



O poeta morreu

Morreu o poeta-pássaro, não haverá mais trovões,
Não haverá ventania, tristeza, planto, canções.
Hoje morreu meu poeta, meu bicho do mato no meio da gente
Me sinto órfão e quente do fogo etéreo da morte.

Hoje não voo, não amo,
Hoje nem sequer saio de casa
Vou pra floresta resgatar na madrugada
O canto que o João de Barro fez.

Hoje queria sorrir
Mas nem teu verso me traz
A possibilita de ir
Pra longe do uivo voraz.

Hoje queria cantar,
Mas hoje morreu a poesia
Retenho com  melancolia
Teus passos deixados pra trás.

Hoje o pássaro voou pelos céus da eternidade.


Juiz de Fora, MG.

13/11/2014

(Para Manoel de Barros)


Luan Alves dos Santos Ribeiro, nascido na cidade de Três Rios (RJ) em 14 de julho de 1992 é estudante de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora e poeta quando a vida deixa.  Pois como nos alerta Gullar a poesia nasce mesmo é do espanto! Extremamente perplexo com as loucuras da vida deságua seu verbo numa tentativa de catarse e numa tentativa de sobrevivência. Essa é a pequena história dos seus versos: uma forma de fugir da loucura da vida se entregando à loucura da palavra.  O que mais seria possível fazer? Os poemas falam por si só.


Página onde se encontram alguns poemas do autor: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=165642


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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Atire!


Atire

Pois não há temor por tua arma
Apontada para minha negra pele branca.


Atire

De tua alcova sombreada pela violência
Do teu trabalho vilipendiado pelo ódio.


Atire

Protegido por tuas botas e fardas
No sorriso mudo de patentes e estrelas ao ombro.


Atire

Através da hipocrisia coletiva
Na escravidão perpetuada pelo brilho do papel moeda.


Atire

Pela fresta do portão
Pelo mato seco
Pela terra batida
Pelo valão imundo
Pelo muro em tijolo furado
Pela fumaça do escapamento
Pelo beco periférico.


Atire

Mas saibas que morrerei olhando em teus olhos
Afirmando que tua covardia nunca mais ficará impune.


Atire!


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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sábado, 22 de novembro de 2014

Nova Iguaçu: Cidade dos meus olhos, por Marcus Vinícius Faustini

Para quem não conhece a Baixada Fluminense.
Para quem só ouviu falar.
Para quem vem de vez em quando.
Para quem vive e convive neste território formado por tantos municípios, mas onde há uma relação social e econômica intrínseca e de interdependência entre as cidades.
Para quem quer saber mais sobre esta incrível cidade que é Nova Iguaçu e que formou tantas outras.

Ver este pequeno grande filme é um primeiro passo fundamental para conhecê-la e reconhecê-la.



Marcus Vinícius Faustini foi secretário de cultura de Nova Iguaçu, é o idealizador da Agência Redes Para Juventude e escreve às terças-feiras no jornal O GLOBO.


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terça-feira, 18 de novembro de 2014

BAIXADA FLUMINENSE: Inovações e Permanências, por Adrianno Oliveira

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro em Fevereiro de 2014.






















Para ler e fazer o download da tese completa é só clicar neste link:





Adrianno Oliveira é capixaba de alma fluminense, vascaíno e pai do Gabriel.
Economista e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ, leciona Economia Brasileira e Economia Fluminense no campus Nova Iguaçu da UFRRJ. Apaixonado por economia, artes, cinema e fotografia (não necessariamente nesta ordem) e agora se embrenhando em outras searas, sempre buscando o novo, pois como diria o amigo Buzz Lightyear: “Ao infinito....e além!”






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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Diálogos III

- Cara, não acredito, puta que pariu, quanto tempo, quantos anos?!
- Meu Deus, como você tá meu amigo? Só o pré-vestibular tem uns 15 anos...
- Pois é, depois disso nos vimos pouquíssimas vezes!
- É verdade, e essa barba? Tá parecendo um Black Bloc, hahahaha!
- Eh... é, pois é, às vezes deixo a barba crescer, gosto, acho bonito.
- E aí, tá trabalhando aqui perto?
- Sim, sim, dou aula nesta faculdade aqui em frente, mas ando na maior correria...
- É, por quê?
- Porque dou aula aqui, vou e volto de Juiz de Fora também para dar aula e ainda estou terminando meu doutorado...
- Caramba! Que dureza...
- Pois é, mas estou feliz. E você? Todo paramentado...
- É, trabalho neste batalhão já faz um tempinho.
- E não é perigoso?
- Já estou acostumado.
- E família, filhos?
- Pois é, tô com 4 filhos, casado, e moro bem distante. E você?
- Também casei, mas ainda não temos filhos, queremos curtir mais, estudar... Mas em breve teremos.
- Como o tempo passa.
- É... como tempo passa.
- Vi tua prima uma vez, faz um bom tempo, ela terminou medicina, né?
- É, terminou.
- Levei uns vagabundos num camburão no Hospital em que ela estava trabalhando, mas acho que ela não me reconheceu...
- Ah...
- Estava todo sujo de sangue daqueles vagabundos que ela nem deve ter me reconhecido mesmo. Preferi nem falar com ela.
- Ah, sim...
- Mas é isso, vou lá, voltar ao trabalho.
- Também tenho que ir, já está na hora da minha aula e meus alunos estão me esperando.
- Bom te ver meu amigo.
- Bom te ver também... Cara... é... toma cuidado com essas armas aí e isso tudo, tá?
- Relax meu camarada, tá tranquilo, já tô acostumado, tá tudo na... paz.

Obs.: Estes fatos reais são baseados em obra de ficção. Qualquer semelhança não é absolutamente mera coincidência, ou será que é?


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Juiz é Deus sim!



Oras, que conversa é essa de que Juiz não é Deus no Brasil? É óbvio, claro e patente que juízes, e não só eles, são deuses, ou mais que deuses. Juízes, promotores e desembargadores carregam em si, devido às suas funções sociais e incorporações simbólicas, uma aura de inviolabilidade social, econômica e... jurídica.

O caso da agente que tentou aplicar a lei de trânsito a um juiz que conduzia seu carro sem placa e sem documento ao dizer que "ele não era Deus" é somente um dos poucos casos em que uma carteirada ou o "você sabe com quem está falando", como desenvolvido por DaMatta, são operacionalizados no cotidiano brasileiro. Quantas vezes não ouvimos falar que magistrados exigiram serem chamados de "doutores" (mesmo a grande maioria não tendo doutorado) ou "excelências" em ambientes fora de seus domínios laborais, como em reuniões de condomínios, por exemplo. Ou vídeos publicados em que vemos magistrados atuando de maneira arrogante e preconceituosa frente a "subalternos" sociais, como no caso em que um juiz humilha o funcionário de um restaurante no RN, ou do juiz que atirou contra um segurança de um supermercado à queima roupa matando-o no Ceará alguns anos atrás. Ou o que falar do corporativismo, do auxílio-moradia de quatro mil reais aprovado e a proposta do TJ-RJ de um auxílio educação para os filhos dos magistrados no valor de sete mil reais?

Mas como explicar esta situação? Como já citado acima podemos utilizar o conceito de Roberto DaMatta para ressaltar como a existência social brasileira é altamente marcada e delimitada por uma hierarquia social baseada em diferenciados prestígios simbólicos e que acabam por ser internalizados pelos grupos sociais desde o início de seus processos de socialização. Por este motivo o "sabe com quem está falando" ainda é tão compreendido e assimilado por todas as classes sociais no país.

Outro conceito que podemos observar é o trazido por Raymundo Faoro em seu "Os Donos do Poder", onde o mesmo fará um aprofundado estudo sobre a formação social e jurídico-administrativa do Brasil, recompondo as tradições ibéricas históricas dos indivíduos que vieram formar nosso país. Utilizando dos conceitos e metodologias de Max Weber, o jurista gaúcho irá demarcar a existência de um estamento social que conduziria os rumos materiais e simbólicos da nação, tendo uma gerência e posição privilegiadas dentro do cenário político e social brasileiro.

Para Faoro "o estamento burocrático comanda o ramo civil e militar da administração e, dessa base, com aparelhamento próprio, invade e dirige a esfera econômica, política e financeira. No campo econômico, as medidas postas em prática, que ultrapassam a regulamentação formal da ideologia liberal, alcançam desde as prescrições financeiras e monetárias até a gestão direta das empresas, passando pelo regime das concessões estatais e das ordenações sobre o trabalho. Atuar diretamente ou mediante incentivos serão técnicas desenvolvidas dentro de um só escopo. Nas suas relações com a sociedade, o estamento diretor provê acerca das oportunidades de ascensão política, ora dispensando prestígio, ora reprimindo transtornos sediciosos, que buscam romper o esquema de controle".

Dessa forma o Poder Judicário brasileiro não obedeceria ipsis litteris à conceituação desenvolvida por Faoro, mas de alguma forma se relacionaria de maneira contundente com a mesma. O Poder Judiciário é um dos elementos da trindade fundadora de nosso republicanismo democrático representativo, mesmo que subjugado em determinados momentos de nossa História, tendo sua influência diminuída em seu aspecto de garantidor da democracia como na República Velha, no Estado Novo e na malfadada Ditadura Militar de 1964 a 1985. 

Com a Constituição de 1988 o Poder Judiciário ganha novo significado e vigor diante de nossa jovem democracia, passando a ter um papel cada vez mais fundamental dentro das disputas e cenários políticos que vão se travando com a estruturação de grandes blocos partidários e correntes políticas. Há, a partir de então, a observação do aumento do papel do Judiciário no arbítrio de uma justiça social, às vezes atropelando e superando as funções do Executivo, ou até mesmo legislando sobre matérias que teriam como principal agente o Legislativo, extrapolando, portanto, suas funções fundantes. Todas estas observações, e críticas a estas observações, são válidas e necessitam cada vez mais de debates acadêmicos e de participação da opinião pública.

Talvez a grande questão a que devamos nos ater no caso do Poder Judiciário é o substrato de sua função primordial: a garantia da democracia. Porém como um poder que deve ter como principal atividade possibilitar o acesso à democracia, através das leis, não ser justamente democrático? Apesar de todas as desvirtuações observadas nos últimos tempos nos poderes Executivo e Legislativo, os mesmos ainda são regidos, apesar das formas assimétricas vistas entre poder econômico e poder popular, por processos democráticos. Mas e o Judiciário? Não queremos aqui romper com a determinação do concurso e do mérito pessoal para a efetivação de técnicos judiciários, juízes, promotores e defensores públicos, porém como um poder autônomo pode ser garantidor da democracia sem ao menos usufruí-la? Não seria interessante a população escolher através de sufrágio o promotor de uma determinada região entre alguns postulantes, já que sabemos ser impossível o caráter da neutralidade política? Não seria interessante haver um sufrágio para decidirmos qual o juiz será o responsável por tal Vara ou Comarca por determinado período? Ou, como se dá a escolha dos desembargadores? Alguém sabe realmente os critérios e como funciona?     

Esta é uma discussão a ser travada indissoluvelmente no presente, no agora da estruturação de nossa democracia e talvez só a efetiva participação popular de uma Constituinte possa elencar este tema para as reformas que tanto necessitamos. 

Quanto ao caráter simbólico do uso da função e do prestígio social da magistratura na vida cotidiana, há de se afirmar que a grande maioria dos magistrados e promotores não se utilizam do expediente descrito no início deste texto, por suas corretas percepções de que exercem função de servidores públicos ou por suas convicções de foro pessoal e íntimo. Porém o que devemos estar atentos não é sobre as possibilidades de suprimir estas "vantagens" sociais por escolhas e determinação pessoais, mas sim de que ainda seja suportado socialmente e juridicamente a possibilidade de "carteiradas" e "sabe com quem está falando" em pleno momento de luta e reafirmação democrática.

E ao final destas considerações irei contradizer o título deste texto para me desdizer com orgulho que "Juiz não é Deus!".


Citação: FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Vol. I e II. Editora Globo, Publifolha, Coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro, 10a. edição, 2000, p. 740.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Da grande vantagem de se ganhar mal, por Marco Vinícius Lamarão


Ou das verdades que a pequena burguesia tem mais medo...

(1) A primeira grande e incontestável vantagem de se ganhar mal é o fato de que, no mês de Abril, você não precisa pagar o imposto de renda e se lembrar - de forma violenta - o quanto você é roubado pelo Estado.

(2) A segunda grande vantagem é que, quando você falta ao trabalho, você não perde quase nada; é quase um brinde ou feriado.

(3) Você ganha tão mal que qualquer troco a mais errado é praticamente um novo 13º.

(4) Você pode olhar com cara de gozo para os seus amigos que ganham bem e pensar, soberbo: "traidores da causa".

(5) Na hora de pagar a conta, a família te trata como café-com-leite e você acaba não desembolsando muito, graças ao “ratatá” da solidariedade.

(6) "Viver com dívidas é viver com liberdade" é teu lema.

(7) Qualquer aumento que te derem é significativo embora, na real, não seja nada além do que um troco errado ...

(8) Pra quê ganhar bem quando se pode comprar em Madureira?

(9) De tão determinado na pobreza, montado na miséria, o pessoal já te considera o "sem lenço, sem documento" dos tempos modernos e, por conta disso, nutre certa admiração por você...

(10) Descobre que ganhar mal não é problema, problema é o carnê não ser aceito na "Ricardo Eletro", afinal, pra que serve a fortuna de Bill Gates se já inventaram o crediário?

O resto é luxúria!



Marco Vinícius Lamarão - Professor, militante, mil e tantos, metido a poeta e escritor, semi-músico, proto artista incubado, vídeo-maker inapto, mas sei fazer batatas souté. Dizem que sou formado em história, com mestrado em educação e que dou aula no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, mas eu duvido. Não passo, não lavo, não faxino e cobro caro, pois como todos nós- doença endêmica- por me dar preço, perco o meu valor. É nesta negação afirmativa que, quando não estou trabalhando, vivo. Não sou flamenguista e nem corintiano e esta coluna literária só não é mais torta do que a minha. Quanto ao que debateremos aqui: tudo e nada, cada qual em seu parágrafo ou não. Amém. 


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

CINEFILIA: "Relatos Selvagens", por Samantha Brasil

É com muito orgulho que o PSQC anuncia a luxuosa participação de Samantha Brasil em nosso humilde e persistente espaço. Samantha irá nos brindar com sua percepção aguçada e coração afetuoso para a arte mais apaixonante dos tempos modernos: o CINEMA!

Com duas críticas por mês, espaçadas quinzenalmente, irá falar sobre filmes de arte que entrarão em circuito. Nas segundas e últimas sextas-feiras de cada mês. Excepcionalmente estreamos hoje. Porquê? Porque somos ansiosos oras, eu e ela! Degustem! Divirtam-se! 

Obrigado Samantha. 




Relatos Selvagens

Por Samantha Brasil

7/11/2014

Relatos Selvagens é o indicado da Argentina ao Oscar de filme estrangeiro de 2015. O filme é uma produção de Pedro Almodóvar, escrito e dirigido por Damián Szifrón (criador da série argentina Os simuladores). Com ritmo frenético, acompanhado de uma estética do caos, permeado por uma linguagem coloquial e versando sobre vingança, o filme é composto por seis esquetes que não se comunicam, mas que brilham em conjunto de forma magistral. É difícil vermos um longa-metragem composto por historietas em que todas funcionem de forma eficiente. Aqui, pelo menos 4 são excelentes e 2 ótimas e é por este motivo que a película tem sido ovacionada por público e crítica.

Relatos Selvagens tem um galã de peso no elenco, o queridinho do público brasileiro Ricardo Darín. Mas o filme é muito maior que isso. A trama que envolve Darín é de fato uma das melhores. No dia do aniversário da filha, seu carro é rebocado por estar estacionado de forma irregular bem na hora em que ele está comprando o bolo da festa para a qual está extremamente atrasado. Ao se dirigir ao departamento de trânsito, além de pagar uma multa exorbitante, se depara com toda a burocracia que é peculiar aos serviços públicos e tem momentos de fúria que poderiam ser vividos por qualquer pessoa em situação semelhante. E é de momentos como esse que vem a “selvageria” do roteiro. No filme, em cada situação limite a que os personagens são submetidos, as respostas a estes estímulos são justamente aquelas que não podemos fazer por termos que respeitar não só às Leis como todas as regras de bom convívio social. Num embate entre cidadão versus Estado, esse trecho faz alusão ao filme Um dia de fúria (1993, Joel Schumacher) protagonizado por Michael Douglas

Neste universo da barbárie criado pelo diretor em que o politicamente correto não existe vemos ainda a trama na qual um rapaz da alta sociedade argentina atropela de madrugada uma mulher e, para tentar livrar o filho do cumprimento da pena pelo crime cometido, o pai usa das mais ardilosas ferramentas de corrupção imaginadas. Imediatamente somos remetidos ao interessante filme turco 3 macacos (2008, Nuri Bilge Ceylan) que trata de temática semelhante de forma séria e mais visceral.

Um episódio de ares tarantinescos envolve uma briga de trânsito, no qual dois homens vão aos limites da loucura após uma discussão por conta de uma ultrapassagem na estrada. Afinal, quem nunca discutiu no trânsito e/ou teve vontade de matar alguém ou simplesmente destruir o carro do oponente pelo simples prazer de expor todo o ódio cego que estava sentindo? Para encerrar o filme temos a atuação fantástica de Erica Rivas que interpreta uma noiva “à beira de um ataque de nervos” (em homenagem à produção de Almodóvar) no dia da sua festa de casamento.

Os seis episódios que compõem essa obra são alinhavados pela excelente trilha sonora composta por Gustavo Santaolalla que dão o tom grave de humor negro que nos faz rir de situações grotescas nas quais, de uma forma ou de outra, iremos nos identificar. Apesar de episódios breves (cada um tem em torno de 20 minutos), é possível fazermos uma reflexão sobre todos os “sacrifícios” que temos que fazer para nos conter no dia-a-dia a fim de que possamos viver de forma pacífica em sociedade. Em tempos em que uma cultura de intolerância e de ódio é crescente, Relatos Selvagens vem para nos fazer refletir sobre até que ponto podemos ir para satisfazer um desejo de vingança, ou porque não, de fazer justiça com as próprias mãos.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥  ½

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!

RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes)
Direção: Damián Szifrón
Elenco: Ricardo Darín, Oscar Martínez, Leonardo Sbaraglia, Erica Rivas, Diego Gentili

Produção: Argentina/Espanha (2014)






Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.


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Democracia de Exceção

Aristóteles já havia percebido que a melhor forma de governo seria o governo do “meio”, ou seja, uma forma de governo que atendesse aos interesses médios de uma sociedade. Em seu escalonamento da tirania à monarquia, levando-se em consideração a pior forma de governo à melhor forma, o filósofo acaba por consagrar a democracia como a melhor possibilidade, mesmo esta sendo uma degeneração da “politia”, mas talvez por ser mais eficaz em congregar os interesses das elites às necessidades da plebe.

Muitos anos depois Montesquieu viria refletir sobre as transições entre o poder no Estado francês, muito devido à nova força pautada pela burguesia. Suas considerações sobre a separação e autonomia entre os poderes constituintes do Estado teriam influência decisiva às revoluções liberais que ocorreriam nos EUA e na própria França. Indicando a solidificação do ideário dos poderes autônomos, tendo ressaltado principalmente o Executivo e o Legislativo.

A constituição dos novos Estados burgueses ocidentais obedeciam, quase que em sua totalidade, à configuração pautada na divisão dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O Brasil, após o golpe militar e a proclamação da República em 1889, foi amplamente inspirado na constituição administrativa de seu novo Estado pelo modelo democrático representativo norte-americano e na pax romana, na construção de seu modelo jurídico institucional.

A partir de 1988, quase cem anos após tornar-se uma República, o país finalmente constrói um documento progressista e garantidor das liberdades individuais e coletivas. De acordo com o modelo liberal nossa nova Constituição atenderia a todos os requisitos necessários à liberdade política e ao empreendedorismo privado. 

Porém vinte e seis anos após redigirmos nossa atual Carta Magna, as limitações e contradições para a efetivação da democracia proposta à época se colocam presentes neste momento. Como recém-saída de vinte anos de ditadura militar, nossa Constituição, em sua execução durante os anos seguintes, foi utilizada com um caráter inibidor do protagonismo democrático efetivamente popular. O medo do povo dispôs nosso corpo político-partidário a uma ideia de representatividade que expurga qualquer ação de participação direta. Neste aspecto a democracia só pode ser exercida através das eleições, pois qualquer outra forma de ação política proposta pela sociedade civil é refutada por um dirigismo partidário que reflete os interesses de manutenção do poder concentrado em legendas e grupos políticos que se perpetuam no cenário eleitoral por anos e anos.

A democracia real, aquela vivida no dia-a-dia nas ruas e instituições pelo conjunto da sociedade, ainda é uma sombra em relação à democracia proposta na Constituição de 1988. Os direitos fundamentais e as liberdades individuais e coletivas estão hoje pautados pela estratificação social por renda, escolaridade, sobrenome familiar, função socialmente exercida e cor de pele. A criminalização da pobreza é a maior usurpação dos direitos conquistados no pós-ditadura, pois hoje temos territórios, sabidamente pobres, tomados por forças militares com a autorização expressa da presidência da República. A democracia de exceção configura-se pela amplitude dos direitos conquistados juridicamente, mas pelas limitações encontradas na vida real.

Para que exemplos mais claros sejam dados, podemos citar o caso do juiz que foi considerado vítima pela Justiça por ter sido afirmado "que ele não era Deus”, sendo que o mesmo infringia claramente regras de trânsito e assim receberá indenização justamente por não ser... Deus. Ou então o caso de uma chacina agendada publicamente pela Polícia Militar através das redes sociais para o extermínio de pessoas em uma região pobre de Belém do Pará. Em uma democracia de exceção, estes exemplos se repetirão até que uma democracia mais próxima da vida real seja implantada.

Vinícius Silva é Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC -Faculdade de Duque de Caxias-, e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco.


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domingo, 2 de novembro de 2014

FLIM - 2 Festival de Leitura Interativa Mesquitense - 6 a 8 de Novembro de 2014


Como mesquitense venho com muito orgulho divulgar este evento. Não irei participar da programação do festival (adoraria por sinal) mas irei participar como beneficiário e cidadão de minha cidade. Que eventos como este surjam cada vez mais entre as cidades da Baixada Fluminense!











A programação:















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Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

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Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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Saiba como adquirir o mais novo livro de Vinícius Silva clicando nesta imagem

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

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Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

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