(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O ódio pela televisão e o ódio pela televisão?




Passei toda minha infância existindo durante os anos 1980. Como todo menino de classe média baixa (às vezes baixíssima), e ainda vivedor e morador da Baixada Fluminense, minhas principais brincadeiras e diversões eram obviamente me reunir nas calçadas com todos os primos e crianças vizinhas, jogar bola no campinho de terra batida e... ver televisão! Os videogames apareceriam depois. Um Atari e muito tempo depois um MasterSystem. Mas sim, a televisão era uma grande diversão.

A memória afetiva é grande, pois para mim são ainda muito claras as imagens de meus pais à noite vendo novelas e filmes, e tentando me proibir de acompanhá-los porque já fazia tarde da noite. Hoje sou um notívago às vezes convicto, às vezes envergonhado, até porque sofro muito fisicamente por esta situação. Mas que eles tentaram me tirar esse hábito, ah tentaram! A culpa é minha mesmo, mas o prazer também. Tínhamos um televisor Telefunken à válvula, isso quer dizer que quando o cristal esquentava a imagem ficava igual à tv com estática. O técnico frequentava minha casa quase que mensalmente, virou inclusive amigo da família. Até que depois de muitos anos ele se negou a consertar a antiga Telefunken e disse para minha mãe "A senhora tem que comprar uma televisão nova, essa aqui eu não conserto mais".   

E as memórias são facilmente identificáveis. Iremos a elas: Superman, o filme (I e II), Superman III, Roque Santeiro, Memórias de um Gigolô, Guerra nas Estrelas (todos os três), Rambo I e II, E a gata comeu, Plunct Plact Zum, A arca de Noé, Bozo (Papai Papudo: Que horas são amiguinhos? Cinco e sessenta!), os Trapalhões (todos), Clube da Criança, o Show da Xuxa, Ultraman, Spectreman, O rapto do menino dourado, Tira da pesada, Loucademia de Polícia, Chacrinha, Programa Silvio Santos, desenhos da Rede Manchete, e muito mais.

Obviamente que estou falando de tv's abertas que concentravam-se nas emissoras Globo, SBT, Manchete, TVE, Record (que vivia grande decadência à época), Bandeirantes. Depois surgiu a CNT e parava por aí

Como criança e pré-adolescente não entendia nada sobre poder e mídia, política e concessões públicas, só sei que gostava de ver televisão, e muito, pois era uma de minhas melhores diversões. O primeiro contato mais político que tive iniciou- se com a campanha para as primeiras eleições diretas presidenciais, já no período democrático em 1989. Também é clara a forte imagem da morte de Tancredo Neves, o caixão um pouco suspenso e seu rosto aparecendo pelo vidro, minha mãe chorando, Fafá de Belém chorando ao cantar o hino nacional na televisão, "Coração de estudante" tocando sem parar... imagens ainda muito fortes.

Meu avô Tuninho era um fã empedernido de Leonel de Moura Brizola. Vibrava com os discursos eloquentes do político que à época tornou-se governador do Estado do Rio de Janeiro. Política mesmo eu tive contato pela primeira vez com o direito de resposta conseguido por Brizola no já histórico momento em que Cid Moreira, o rosto da Rede Globo à época, leu com sua voz grave o texto não muito elogioso a Roberto Marinho e sua empresa de comunicação. Sim, eu assisti Cid Moreira ler tal texto ao vivo.  

Os anos se passaram, os estudos e a busca cada vez maior por informação mostrou-me o papel preponderante dos conglomerados de mídia no Golpe de 1964. As produtoras de "sonhos" também ajudaram a produzir anos de mais puro terror político-militar em nosso país. A Rede Globo de Televisão, criada em 1965, foi uma das grandes apoiadoras e beneficiárias do golpe militar, e de sua manutenção também. "Muito além do cidadão Kane" documentário político, e quase maldito, contra a Rede Globo e facilmente encontrável no youtube explicita uma visão pouco aberta à massa sobre como este grande conglomerado empresarial obteve sucesso nos anos de chumbo. Vale também lembrar, como uma pequena pílula vermelha, a fala do ditador Garrastazu Médici, que em um determinado momento disse “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”1.

Vale lembrar também a omissão da Rede Globo na campanha das Diretas Já!, a associação com a Proconsult na divulgação de informações falsas sobre as eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro no início dos anos 80 e em que Brizola foi eleito, a produção do programa "O caçador de marajás" vinculado no Globo Repórter e a manipulação da edição do debate entre Lula e Collor para o favorecimento do segundo (que ganhou, levou, mas não ficou, em movimento também orquestrado pela mídia para sua derrubada por efetivas denúncias de corrupção) nas já mencionadas eleições de 1989.

Nos anos 1990, com a vitória do neoliberalismo e de Fernando Henrique Cardoso e o PSDB, seu papel resumiu-se a tentar não explicitar demais, juntos com outras empresas de mídia, os muitos escândalos de corrupção estouradas à época. 

Nos dias atuais Rede Globo continua, através de seu jornalismo e em todos os canais e empresas que lhe pertencem, de seus articulistas a editorais no jornal O GLOBO, mantendo e expandindo seu padrão conservador, tanto em suas colocações sobre política quanto em suas percepções econômicas, sempre atuando em desacreditar e criminalizar qualquer movimento social que lute por mais democracia popular direta, ou propostas de mais democracia nos meios de comunicação. Já se declarou contrária à taxação de mais impostos a grandes fortunas e à regulação da mídia, por motivos mais do que óbvios.

Mas então como se relacionar com questões tão pertinentes e claras, assim como contrastantes e quase que contraditórias? Em que uma empresa nacional (há relatos de que dinheiro da Time/ Warner tenha entrado para a expansão da Rede Globo no período da ditadura, apesar de ser limitado constitucionalmente o investimento estrangeiro a empresas de comunicação nacionais) gera milhares de empregos, desenvolve conteúdos audiovisuais nacionais premiados e ressaltados mundialmente e detém ainda, mas em franca decadência, altos índices de audiência. Porém e ao mesmo tempo mantém uma relação tão intrínseca com a manutenção da mesma elite econômica que domina o país há décadas e atua sempre de forma contrária a qualquer tentativa de empoderamento popular.

Acredito não existir resposta fácil ou simplista. De fato há inúmeras nuances a serem observadas nesta complexa dialética. Se no alto comando administrativo e editorial temos a aproximação com o conservadorismo político e o liberalismo econômico, a Rede Globo (especificamente) notabilizou-se, em muitos momentos, na diversidade de seus quadros em sua produção artística. Comunistas históricos como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho, Jorge Amado, entre muitos outros, participaram decisivamente como produtores de conteúdo da empresa, por mais que não tivessem total liberdade sobre o que era produzido, mas qual profissional de grandes conglomerados empresariais tem tal liberdade, inclusive nos dias atuais?

Porém a questão que se coloca e que considero extremamente pertinente no momento atual é: Deve-se demonizar aprioristicamente qualquer produto confeccionado pela Rede Globo ou qualquer outra grande empresa tradicional de mídia no Brasil? E mais uma vez repito a resposta já dada: Não há respostas prontas. Porém é pertinente chamar a atenção a dois casos recentes e de grande repercussão.

O primeiro foi o grande frisson causado pelas críticas contundentes de movimentos feministas e negros contra a mini-série O Sexo e as Nega, escrito e dirigido por Miguel Falabella. A série foi livremente inspirada em Sex and The City, onde bem sucedidas mulheres brancas novaiorquinas relatam suas experiências afetivas e sexuais na contemporaneidade.    

Logo de cara considero que exprimir a analogia foi o primeiro grande erro estratégico de lançamento e apresentação da série, pois as mulheres retratadas no seriado nacional são negras, pobres, moradoras de favelas e comunidades pobres. Essa associação direta entre realidades efetivamente diferentes, apesar da contemporaneidade vivida por todas, seria prato cheio para a percepção coletiva de representação da mulher-negra-pobre brasileira através dos esteriótipos recorrentes e persistentes em nossa sociedade e história. O título do seriado só corrobora esta percepção e as críticas à analogia inicial e ao título encontram eco sim na reprodução destes esteriótipos. Mas para mim a questão principal em relação às críticas desferidas por movimentos feministas e negros, e a grande maioria da mídia independente e de esquerda, é: O seriado foi duramente criticado e taxado de racista antes mesmo de ser visto! 

E como enunciado logo acima, as primeiras críticas podem ser consideradas pertinentes dentro do amplo contexto histórico e reprodutor de desigualdades materiais e simbólicas que vivemos em nosso país. Mas efetivamente é possível classificar um conteúdo de racista antes mesmo de ser visto ou consumido? E foi exatamente isto que vimos neste caso. Se por acaso durante a exibição ou ao final da série a mesma fosse indiretamente e simbolicamente racista, as críticas deveriam e devem (caso efetivamente isto se confirme) ser feitas, mas antes? Se odeia o Paulo Coelho antes de se ler pelo menos um livro dele? No Brasil, sim. Acredito que em outras partes do mundo também.

Neste caso o mais interessante foi quando o deputado federal Jean Wyllys declarou não considerar o seriado O Sexo e as Nega e nem Miguel Falabella racistas. Bastou para ser chamado de "afroconveniente". E não, não estou aqui para fazer campanha para o deputado, mas é reconhecida sua militância a favor dos direitos LGBT, das religiões afrobrasileiras, dos direitos de mulheres e negros. Porém parece que infelizmente a esquerda, representada não somente por partidos políticos mas por movimentos sociais e representações da sociedade civil, ainda vive sob o auspício da pauta única e coordenada, onde mesmo que se defenda os direitos humanos de maneira irrestrita, fugir da pauta por questões filosóficas e particulares irromperá ao que o pior a mesma esquerda ainda produz, o patrulhamento. Se críticas a algum aspecto sobre cotas fizer, racista será. Se reflexões sobre a separação física entre sexos realizar, como por exemplo em vagões de metrôs e trens, misógino será. Se programas da Rede Globo elogiar... alienado, misógino, racista, vendido, reacionário e todos estes não muito positivos adjetivos aglutinará. Não estou elogiando O Sexo e as Nega pois sequer o assisti. Posso falar do "mal gosto" do título ou da infelicidade da analogia, mas classificar algo de racista antes de mesmo de assisti-lo... jamais.   

Neste momento já posso sentir a acidez da bílis a ser produzida em alguns sistemas digestivos ao lerem estas minhas palavras, mas a estes só posso dizer e escrever: o antiácido de minha consciência me livra de qualquer temor de patrulhamento ou dirigismo, mesmo que seja de gente bacana e que luta por mais direitos humanos, assim como eu.

Mas para tornar ainda mais completa e complexa nossa digressão sobre ódios e ódios pela televisão, trago a enorme polêmica do especial sobre Tim Maia, também produzido pela Rede Globo. Especial baseado em filme lançado em 2014, este baseado em biografia realizada por Nelson Motta. De antemão o próprio filme já havia sofrido críticas por tornar um tanto quanto unidimensional um artista do talento e da complexidade de Tim, mas uma obra cinematográfica sempre será um recorte escolhido sobre uma obra que pode ser mais aprofundada, como no caso de uma biografia em formato literário.

O que mais chama atenção neste caso é que Tim Maia na parte final de sua vida e carreira tornou-se um grande antagonista da Rede Globo, e principalmente do jornal O GLOBO. Antagonismo que pode ser visto em entrevistas gravadas e dadas por Tim, onde o mesmo relatava que fora vetado em participar de programas musicais na empresa do Jardim Botânico. No livro de Nelson Motta e no filme de Mauro Lima, Roberto Carlos aparece menosprezando e humilhando Tim Maia, este em começo de carreira. No especial exibido pela Rede Globo, com trechos do filme, relatos de famosos e novas cenas gravadas com um dos atores que representam o cantor no filme, recolocam Roberto Carlos como um "amigo" que lançou "o gordo mais querido do Brasil". O Nelson Motta do seriado da Globo desdiz o Nelson Motta que escreveu a biografia. O filho de Tim Maia declarou que tanto no filme quanto na série seu pai "não merecia algo tão tendencioso". Mas como então um artista tão crítico da Rede Globo torna-se produto a ser explorado e vendido por tal emissora, esta a esconder as fortes críticas feitas à mesma pelo próprio retratado. Só pode haver uma explicação: Tim Maia foi e é um artista extremamente popular. E ser popular e ter o amor do povo invariavelmente provoca audiência, algo que anda escasso nas tradicionais mídias nacionais.

E esses dois exemplos que trouxe, atrelados à minha história afetiva e crítica em relação à televisão brasileira, tendo como base de observação a Rede Globo de Televisão, servem para tornar ainda mais complexa, mas também mais ilustrada a afirmação e a pergunta: O ódio pela televisão ou o ódio pela televisão?

1 Referia-se ao Jornal Nacional da Rede Globo.


Texto originalmente publicado no espaço Palavras, Películas e Cidades na plataforma de cultura colaborativa Obvious.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.
   

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PSQC na França!


Gente... para a imensa alegria do PSQC nós estamos na França! Sim, a Editora Anacaona, especializada em literatura brasileira e que publica autores brasileiros na França, fez uma matéria sobre o Palavras Sobre Qualquer Coisa e uma breve entrevista.


Estamos muito muito felizes! Para ler a matéria é só clicar no link abaixo, ela está em francês e português (ao final). Prestigiem a literatura nacional e principalmente o espaço para autores da Baixada Fluminense e periferias do Rio e do Brasil.


Merci.

Um trechinho em francês... para ler a matéria toda é só clicar no link ao final.


Alors que les auteurs Ferréz et Rodrigo Ciríaco se préparent à quitter São Paulo pour Paris dans quelques semaines à l’occasion du Salon du Livre, les éditions Anacaona poursuivent leur valorisation de la littérature des périphéries, aussi appelée « marginale » au Brésil.
Nous nous présentons l’écrivain Vinícius Fernandes da Silva, auteur du blog Palavras Sobre Qualquer Coisa (Des mots sur tout et rien), implanté et attaché à la région métropolitaine carioca de la Baixada Fluminense. Découvrez son travail, avec une version de l’entretien en portugais ci-dessous.

Peux-tu te présenter et décrire ton projet ?
Je m’appelle Vinícius Fernandes da Silva, j’ai 35 ans. Je suis né à Nova Iguaçu à Rio de Janeiro, j’ai grandi dans le quartier Mesquita et j’habite actuellement à Belford Roxo avec mon épouse. Je suis habitant, défenseur et critique du territoire qu’on appelle Baixada Fluminense.
Je suis poète, écrivain et professeur, doctorant en planification urbaine et en sciences sociales. Aujourd’hui, je suis professeur de sociologie à Rio de Janeiro. J’ai créé et géré le blog Palavras Sobre Qualquer Coisa depuis 2007 et en 2011 j’ai lancé le livre éponyme aux éditions Multifoco. Le livre a reçu la mention honorable dans la catégorie Littérature du Prix Baixada Fluminense de 2012.
L’idée initiale était de publier des poèmes que j’avais écrits, et peu à peu se sont ajoutés des nouvelles, des chroniques, des articles, des textes académiques, des critiques artistiques, des commentaires politiques, ou des présentations d’oeuvres et d’artistes en général. Le blog n’a jamais bénéficié d’aucun soutien financier ou commercial, précisément pour disposer d’une entière liberté éditoriale.

http://www.anacaona.fr/info-favela/voix-peripherie-rio-de-janeiro/



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Dadivisão, por Marco Vinícius Lamarão


Vamos que estou indo

Para mais um ano

De novo passagem e rito

De infinitos planos

Para tempos finitos

de rua e de panos

fileiras e bandeiras!



Pra feios e bonitos momentos

Onde mormente direi: movimente-se

E reclamarei dos seus parênteses

Se neles não houverem ensinamentos



Que nos faça sair do confinamento

Desta individualidade bigbrotizada

Em cada passo um tormento

Pois que dói a consciência recobrada



Afinal, ela foi retirada da lancinante branquidão

Lá, jogada em meio as traças e às verdades fragmentadas,

Que fizeram da falsa incoerência seu chão

No lugar onde as mudanças minam

Quando homens e mulheres se indeterminam



Que indeterminação que nada!

Vamos que te chamo, pois que tenho percebido

Enquanto continuo andando

Aprendendo, ensinando e seguindo:

que a melhor forma de multiplicar

é buscar sempre estar dividindo.



Marco Vinícius Lamarão - Professor, militante, mil e tantos, metido a poeta e escritor, semi-músico, proto artista incubado, vídeo-maker inapto, mas sei fazer batatas souté. Dizem que sou formado em história, com mestrado em educação e que dou aula no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, mas eu duvido. Não passo, não lavo, não faxino e cobro caro, pois como todos nós- doença endêmica- por me dar preço, perco o meu valor. É nesta negação afirmativa que, quando não estou trabalhando, vivo. Não sou flamenguista e nem corintiano e esta coluna literária só não é mais torta do que a minha. Quanto ao que debateremos aqui: tudo e nada, cada qual em seu parágrafo ou não. Amém.



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Projeto "O Espírito da Coisa"

OLÁ AMIGUINHO/A, TUDO BEM? VOCÊ ME RESPONDERIA UMAS PERGUNTINHAS?

O PSQC tem o intuito de realizar um projeto de crowdfunding (financiamento coletivo) neste ano de 2015. O projeto se chama O ESPÍRITO DA COISA e funcionará assim:

1) A construção de uma plataforma virtual (site) que receberá textos de novos autores da Baixada Fluminense, de periferias do Rio de Janeiro ou até mesmo de periferias de todo o país;
2) Qualquer tema ou conteúdo poderá ser abordado (sendo vedado qualquer discurso de ódio) e a publicação no site será gratuita;
3) Os textos enviados passarão por um período de votação pela internet;
4) Os textos mais populares entrarão na publicação de uma revista literária luxuosa e lindona a ser confeccionada trimestralmente (provavelmente);
5) Os autores não pagarão nenhum centavo para terem seus textos publicados na revista. O único trabalho é fazer a divulgação e torná-los populares, curtidos ou votados, para que possam ser publicados.


Perguntas:
Você contribuiria financeiramente neste projeto?
Com qual valor você estaria disposto a contribuir?
Realizando a contribuição, que recompensas (brindes) você gostaria de receber?
Gostou da ideia? Tem sugestões a nos fazer?

Para quem ainda não sabe muito bem o que é crowdfunding, adianto que se trata de algo bem próximo a nós, o que nos acostumamos chamar de "vaquinha". Mas o PSQC prefere chamar de: concretização de ideias de forma coletiva!

Quer saber mais sobre o assunto? Então acho que este vídeo pode te ajudar:

video

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu não sou carioca!



Eu nasci no Rio de Janeiro, mas não sou carioca. 

Rio de Janeiro e São Paulo são os dois estados da federação em que Estado e Capital se confundem em seus nomes. Portanto em São Paulo há paulistanos e paulistas. No Rio há cariocas e fluminenses. Porém diferentemente de São Paulo, essa distinção no Rio de Janeiro parece ser muito mais fluida, principalmente para quem vive na chamada Região Metropolitana do Estado, ou Grande Rio, onde estão a cidade do Rio de Janeiro e os municípios ao seu redor. No Rio de Janeiro há então como distinção os cariocas da "gema" e os cariocas.

Eu não sou carioca. Para mim 20 graus não é inverno. Eu não vou ao shopping de chinelo. Eu não gosto de horário de verão. Eu não tomo chopinho na praia depois do expediente. Eu não moro pertinho da praia. Eu não aplaudo o pôr-do-sol no Arpoador. Eu não vou à praia da Barra aos finais de semana. Não frequento o Baixo Gávea. Não tenho o corpo bronzeado de Sol. Não malho para ficar desfilando de sungão nas areias das praias da Zona Sul. Não vou à rodas de samba. Não torço para nenhuma escola de samba. Não decoro os sambas-enredos. Não passeio de bicicleta pela Lagoa. Não ando diariamente pelo Jardim Botânico. Não vou ao carnaval de rua. O garçom não é meu amigo e não sei o seu nome. 

Eu sou fluminense. É duro um botafoguense ter que afirmar isso, mas acredito que para flamenguistas e vascaínos a "dor" seja a mesma. Sou nascido, criado e habitante da Baixada Fluminense. Esta região, a Baixada, é composta mais ou menos por 13 municípios (existem diferentes tipos de classificação), mas quem nasce e habita alguma de suas cidades, sabe que há uma relação intrínseca entre quase todas elas.

Não, eu não o odeio a cidade do Rio de Janeiro. Muito pelo contrário. Minha vida acadêmica, profissional e cultural se fez andando pelas ruas do Rio. Fiz o antigo segundo grau no Maracanã/Tijuca, fiz a graduação e mestrado no coração do Centro, trabalhei anos no Galeão e meu doutorado também foi pelas terras da Ilha do Governador, para ser mais exato na Ilha do Fundão. Trabalhei na Glória, frequentei casas de amigos na Zona Sul, cinemas, teatros, festas e, raramente, praias também por lá. 

Na minha adolescência, e talvez juventude, tive vergonha, às vezes, em dizer que era da Baixada Fluminense. Porque quem é da Baixada vive em um certo limbo identitário. Estamos próximos demais do Rio, e por isso embebidos por essa "entidade" carioca, mas não temos os benefícios que a cidade do Rio de Janeiro possui. Ao mesmo tempo não estamos distantes o bastante para assumirmos outras identidades territoriais, como quem vive em Campos, Macaé, Itaperuna ou até mesmo Petrópolis ou Niterói, que já foram capitais. A primeira foi "capital de veraneio" da família imperial, a segunda foi capital do Estado do Rio de Janeiro, enquanto a cidade do Rio de Janeiro era a capital do Estado da Guanabara (vai entender?).

A positividade atrelada à identidade territorial e cultural do Rio foi forjada no Brasil a partir da década de 1950, com a Copa do Mundo e os processos de internacionalização da imagem do país realizados em um dos breves períodos em que efetivamente fomos uma democracia no século XX. A música, principalmente com o Samba e a Bossa Nova, foi outro caminho de construção desta identidade que, de certa forma e durante anos, projetou ao mundo e ao próprio Brasil o que é ser do Rio de Janeiro. Ser carioca é percebido por muita gente como ser... brasileiro, apesar dessa afirmação não ser mais uma unanimidade. Com o passar dos anos e em outros estados do país ocorreu uma transformação. Uma carga negativa formou-se em se dizer que é do Rio, pois parece haver uma percepção de "malandragem" ou "desvio moral" em quem fala com "chiado" entre o -t.

Porém essa identidade não é fixa, ela se desloca. Há também os favelados e os suburbanos cariocas, que sofrem com as agruras da violência, da desigualdade social e econômica, mas que de certa maneira também foram incorporados pela idealização e romantização do arquétipo do que é "ser" carioca, onde o samba, o funk e outros elementos populares fundem-se à alta cultura praiana e intelectual da Zona Sul. Políticos que não possuem absolutamente nada a ver com subúrbios ou favelas souberam se utilizar muito bem deste expediente identitário e simbólico, vale lembrar das campanhas eleitorais de Sergio Cabral e Eduardo Paes. 

Como escapar da explosão de beleza e cores ao sair do Túnel Rebouças e dar de cara com a paisagem da Lagoa e seus entornos? Onde efetivamente se tem a impressão da perfeita harmonia entre Natureza e Urbes (apesar de sabermos que não é muito bem assim). Algumas partes do Rio de Janeiro são inacreditavelmente extasiantes, e não é difícil de compreender porque os gringos ficam completamente enlouquecidos quando aqui/lá chegam.

Mas... e os fluminenses? Bom, também e basicamente convivemos com esteriótipos muito fortes. Como "cariocas" temos quase todas as associações pertinentes aos cariocas da gema, quase... Mas com o adendo da percepção coletiva da extrema violência, da extrema pobreza, da extrema sujeira, da extrema falta de urbanização. Não que estas percepções não reflitam a realidade. Mas não definem absolutamente quem somos.

Para exemplificar podemos demonstrar a fala de dois candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro durante a campanha eleitoral de 2014. Marcelo Crivella disse que devia-se melhorar as oportunidades de trabalho na Baixada "para que eles (bandidos) não venham de lá para roubar na Capital". Pezão, atual governador, ao justificar a preferência da ida do Metrô à Barra ao invés da Baixada disse que "era para dar mais conforto às empregadas domésticas e ao pessoal que trabalha no comércio da Barra". Portanto não haveria saída identitária a quem nos governasse: morador da Baixada ou é "bandido" por falta de oportunidades ou tem trabalho "subalterno". Há milhares de empregadas domésticas e comerciários na Baixada, e isso nos engrandece, mas somos muito, mas muito mais do que somente isso. Eu sou doutor, mestre, sociólogo, poeta, escritor e professor titular do Colégio Pedro II. Eu sou da Baixada Fluminense! E muitos outros "iguais" a mim também são ou estão no processo de mobilidade social, cultural e educacional.

Então em um determinado momento (não sei quando) decidi ter orgulho por ser fluminense, em ter nascido nesta terra e viver neste território. Hoje vivo na Baixada porque minhas famílias vivem aqui, meus amigos, porque o custo de vida é mais baixo e por uma decisão política. Sim, política! Continuarei reclamando, gritando, comparando e apontando as diferenças de nossa rede urbana e de saneamento, nossa terrível deficiência nos transportes urbanos, a falta de produtos e dispositivos culturais de alto nível, nosso corpo político coronelista e retrógrado, nossa bárbara violência (eu, minha esposa e sogra fomos violentamente assaltados na tarde do dia 08/01/2015 em Nova Iguaçu). Mas também ressalto e lembro dos vizinhos que formam grandes famílias em calçadas largas, da integração simbiótica entre as muitas cidades, dos banhos de cachoeira no Parque de Mesquita/Nova Iguaçu, em Tinguá ou no Parque do Gericinó em Nilópolis. Da pipa na rua. Do futebol no campo de terra. Da piscininha de plástico na laje.

E antes que pensem que sou anti-carioca, digo que não sou e não quero ser anti-nada, mas sim ser múltiplo. E neste momento de minha vida sinto-me cada vez mais fluminense, iguaçuano, mesquitense, nilopolitano, belford-roxense, queimadense, caxiense, meritiense, etc. E até... carioca.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

pra mim o tempo sempre durou mais


sempre quis que o tempo fosse mais curto
como um Rimbaud a produzir sua obra prima na juventude mais tenra

que a genialidade escorresse entre os poros de minha carne ainda dura
que a corrosão do conhecimento espontâneo saltasse pelos olhos espantados

sempre quis o elogio da surpresa pela inteligência tenaz
como do gozo do cientista pela complexidade simples da descoberta

que a serenidade transparecesse pelos golpes de pequenos dedos
que o charme da inocência superior inflamasse a todos e a todas

tolo
tolo

pra mim o tempo sempre durou mais
como o bolo que sola sem se perceber

como o capataz que se demora a notar que é capataz
como o escriba que faz e refaz seu ofício porque dele depende

como o escultor que martela a pedra bruta sem nunca parar de lascar
como o torrão de açúcar que como ambrosia fosse

pra nunca esquecer que de gênios Gaia se faz de poucos
e de ferreiros necessita para a eterna manutenção do devir.



sempre quis que o tempo fosse mais curto
como se para esquecessem dos poucos erros ainda acumulados

que os platônicos amores permanecessem em suas áureas eternas
que a inspiração transbordasse a todo momento que requerida

sempre quis a saliva mais ácida e o mel mais doce a estalarem no céu da boca
como do anseio de Dorian para com a beleza mais divinal

que a glória mais profana iluminasse o passar das horas
que o apupo das palmas se deflagrasse ao sibilar de palavras ao vento

tolo
tolo

pra mim o tempo sempre durou mais.






















Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

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