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domingo, 12 de outubro de 2014

Carta a Lobão


Caro Lobão, eu sei que a cidade enlouquece sonhos tortos, na verdade nada é o que parece ser, mas digo a você que a brincadeira já passou um pouco do ponto. Tá na hora de dizer a verdade. Chegar em público e dizer com sua voz rouca: "Rapeize, acabou, era tudo tiração de sarro, entrei nessa de direita-classe-média-reacinha para ver como funcionava essa dinâmica e zoar com esses otários. Agora chega!".

Caro Lobão, não nos conhecemos nem somos da mesma geração, mas escrevo essa carta com certa intimidade, porque você nunca foi um cara de se render. Todo mundo sabe da sua origem burguesa de garoto da Zona Sul do Rio de Janeiro, mas logo depois de entrar à vida adulta você deu uma banana para os arquétipos e demonstrou isso ao romper com a Blitz, quando viu que a parada era só reproduzir, reproduzir, vender, vender e vender até esgotar, e foi exatamente o que aconteceu com a Blitz, mas com você não.

Caro Lobão, você foi taxado de maldito, bandido, maconheiro, drogado, foi preso e perseguido. E eu sei, e você sabe, que vai chegar a hora que todo mundo vai perceber que temos uso-fruto de nosso corpo e de nossas vontades. Que se quisermos cheirar talco Barla poderemos, desde que arquemos com esta responsabilidade. Todas as sociedades humanas usaram e usarão substâncias para a expansão de seus estados de consciência, com as respectivas consequências das formas de uso. Irá demorar, mas esse dia vai chegar. 

Caro Lobão, a mídia que te detonou e perseguiu àquela época é a mesma que é morada para teus textos, e que te aplaude agora, mas você sabe que eles mentem, que eles te odeiam. Meu camarada, você mesmo disse que subiu o morro pra comprar as paradas e deu até tiro com a rapaziada pensando em fazer uma revolução popular no país. Sabemos que isso não leva a nada, mas você conheceu a realidade brasileira ao conviver com os efetivos excluídos em nossas cadeias e presídios.  

Caro Lobão, você sambou na cara das gravadoras, denunciou o jabá nas rádios e televisões (e por isso parou de tocar e aparecer nos mesmos), exigiu a numeração dos cd's e maior controle dos artistas sobre suas obras. Teve uma época que andou em uma maré ruim, que eu sei, e se reinventou com a genial ideia de lançar uma revista com um cd, e vender em... bancas de jornal! A galera da indústria virou a cara, porque são babacas e arrogantes, mas você realmente ousou em popularizar a produção musical neste pais. Cara, "A vida é doce" é foda e o seu Acústico é um dos poucos que canto em voz alta, e foda-se quem disse que você se vendeu à indústria para fazê-lo.

Caro Lobão, não é possível que somente Olavo de Carvalho tenha feito sua cabeça para a direita. Não há como acreditar. Tenho absoluta certeza que todos somos, de certa forma, filósofos, ou potenciais filósofos, mas se autodenominar Filósofo sem uma mínima formação acadêmica institucional, é um pouco demais para mim. Li o "Jardim das Aflições", faz um bom tempo, mas lembro que Olavo procura fazer um paralelismo entre a obra de Epicuro (e sua busca pelo prazer) ao desdobramento do pensamento hegeliano e marxista, criticando obviamente seus efeitos práticos e reais; em contraposição à obra de Aristóteles à escolástica, e a futura evolução ao pensamento liberal. Meu brother, nem ligo que você seja liberal, mas o que atualmente Olavo e seus discípulos pregam está longe de qualquer ideia ligada ao liberalismo original, vide a obra de Adam Smith. O que temos hoje da direita brasileira é basicamente ódio, ódio e mais ódio.

Caro Lobão, a direita classe média brasileira é burra e todos sabemos disso. Você sabe. Eu sei. Sabemos também que a grana oriunda da música e de shows, sem estar na mídia corporativa, não deve ser bem lá essas coisas. E como a direita é burra e não tem ninguém em quantidade suficiente para abastecê-la com mínimos bons textos, você naturalmente viu um filão bom de entrar. Era lógico que a classe média paulista que consome a VEJA iria proporcionar um tutu bom, eu sei. Sua biografia vendeu bem, porque é boa, e obviamente que tudo o que viesse a escrever posteriormente também venderia bem. Imagino a graninha que não rola com as palestras aos coxinhas paulistas, que quando eram crianças ouviam de seus pais "não escuta essa música não que isso é coisa de marginal, esse moço é bandido e drogado meu filho". Agora essas crianças, hoje jovens adultos, batem palmas pra você, não pela sua essência, mas por sua transformação ao que eles sempre quiseram, sua "conservadorização". Parece que você se "bundamolizou", falando por termos "lobinianos".

Caro Lobão, ser associado e comparado ao "Inútil" dos anos oitenta, a Constantino (nada de usar a cor vermelha, heim!) e Reinaldo Azevedo (procurando o manequim da Toulon até hoje) me traria vergonha. Sei que, no fundo, a você também. Meu distante amigo, tá na hora de dizer: "Há! Pegadinha do Mallandro!" e mostrar o dedo médio para a VEJA e essa cambada de elitistas escrotos.

Caro Lobão, já tá na hora de sair da Décadance e voltar à Élégance. 

Caro Lobão, um abraço de um ex-fã que tá doido para voltar a ser... fã?


*Referências às canções Essa Noite Não e Décadance Avec Élégance, e ao livro Jardim das Aflições (Olavo de Carvalho).  

Todas as informações deste texto foram retiradas do livro "50 anos a mil", biografia de Lobão e comprada por este quem vos escreve.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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