seco
Os canhões estavam em suas mãos, o relógio marcava, feroz, o encontro dos dois ponteiros sobre o número doze. Estavam diante do ponto no tempo onde eram mais poderosos, de armas em punho, dentro do castelo. Castelo? Sim, o bar.
A meia-noite significava a fronteira onde começaria a guerra dos sóbrios, ou dos ébrios? Desde então, eu, mero espectador, estava imune. Eles eram muitos, alguns meus amigos. Vinham armados com espadas poderosas, os copos, e escudos impenetráveis, o mau hálito.
Três da manhã. Resistia bem com o que somente me restava: a força da minha vontade sobre o amarelo corrupto de suas artimanhas. Eram persuasivos, vinham com estórias bem contadas de poderes mágicos, daquele líquido dos deuses, sensações jamais desfrutadas por nenhum alienígena ou animal desconhecido, somente os humanos poderiam tê-las, possuí-las, eu poderia também.
Quatro horas. Já não conseguia esconder-me entre os copos vazios e disfarçar o olhar. Seguiam-me com o olhar com que se queimavam bruxas em Salem. Estava fraco, o pensamento já não atendia mais. Então o golpe veloz e pujante veio, acertou-me como um tiro cego, como um projétil que acaba por atingir um gato preto em uma sala escura. Dei o primeiro gole, somente UM gole.
A guerra havia acabado. Estava vencido. Depois do primeiro gole vieram outros e outros. Seis horas da manhã e todos saíam do castelo, alegres e contentes, segurando uns aos outros. Eu caí em uma poça d’água que lembrava as águas sujas que circundavam as construções medievais. Meus olhos marejavam. Mais uma vez eles ganharam, um novo guerreiro, um momentâneo, e talvez constante, inebriado dos sentidos.
Para eles a guerra continuava. Para mim, a guerra havia terminado.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
O autor
Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.
Contato
O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com
O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO
As mais lidas!
-
A luz encerra seu expediente. O ambiente dá as boas vindas à escuridão. Nada mais há. Só a sala esquecida em seus retalhos. A tela da máqui...
-
Mommy (2014, Xavier Dolan) Por Samantha Brasil 24/12/2014 Com seu quinto filme, o jovem diretor canadense Xavier Dolan fo...
-
A relação entre professores e alunos é um mistério desde os primórdios do tempo. Quase indecifrável entre os primeiros pés sujos de lama ...
-
A Mary é amiga de minha mãe já faz alguns anos. Tem uma neta da mesma idade de meu sobrinho. Mary sempre esteve em minha casa e trava e...
-
O crescer em Mesquita continua quase o mesmo, comparado ao de anos atrás. O jogar bola na rua de terra. O soltar p...
Um comentário:
oi vinicius
passando pra te ler e deixando um beijao
Postar um comentário