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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O carnaval, eu e a identidade nacional

Depois de algum tempo de folia e descanso o PSQC volta ao batente e arregaça suas palavras para todo o mundo.

E como prometido... vamos às palavras sobre qualquer coisa carnaval.

Parece que o Brasil carrega em sua formação e auto-percepção cultural algo que pode ser escutado de vez em quando no âmbito futebolístico: o complex
o de vira-lata. Parece que estamos sempre atrás dos países e culturas mais antigas, as "civilizadas". A democracia americana é uma beleza (lembremos que eles têm quase a nossa idade), a cozinha e os vinhos franceses são um luxo, a Império Romano foi um dos formadores da cultura do Ocidente e era italiano, assim como a Igreja Católica. Também podemos encontrar a Revolução Indústrial inglesa, a tecnologia japonesa, o kung-fu chinês e a maravilhosa filosofia grega. Poderia citar vários outros exemplos.

Nós e nossos hermanos latinos ficamos sempre à margem desse grande e poderoso arcabouço cultural mundial. E nisso acabamos por fortalecer nossa cultura nacional, a internalização e valorização do genuinamente brasileiro, e por isso somos tão fechados para uma grande parte da cultura feita fora do país, até mesmo de nossos irmãos latinos, infelizmente.

Somos o país do futebol, do carnaval, da mulata, do samba, das comídas típicas, da miscigenação, da mistura, da alegria, da diversidade da nossa culinária, das muitas danças folclóric
as, do sol, do calor, do amor ao verão, da sensualidade, do sincretismo religioso, do jeitinho brasileiro, do bom humor...

Só não "temos" cultura para ganhar o Prêmio Nobel, para ter uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, para ditar os rumos da economia mundial (só se quebrarmos), para liderar a luta pela manutenção física do planeta...

Esse exclusivismo cultural serve tanto para o bem quanto para o mal. E o que tem isso tudo a ver com o carnaval, acho que na verdade nem sei mais... porém posso convergir lembranças e idéias, e refletir sobre algumas coisas.

Por esse medo da derrota, de ficar para trás, de sermos menos brasileiros, de termos menos cultura, passamos a ser radicais das coisas que consideramos nossas. Queremos ser mais brasileiros do que qualquer brasileiro já tenha sonhado. Portanto, quanto menos desses traços culturais você tiver, talvez menos brasileiro você será. Não gostar de carnaval, do verão, de praia, de futebol, das mulatas sambando, de samba, de cotas raciais, poderá definí-lo como um cidadão "menos" brasileiro, não em direitos, mas em sua IDENTIDADE nacional perante aos outros cidadãos mais brasileiros que você. Este fato poderia ser atribuído simplesmente a um gosto, a não gostar de certas coisas, mas no caso brasileiro parece haver um "patrulhamento de identidade". Optar em não ter essa intensa "identidade brasileira" é, talvez, ser: racista, vendido, capitalista, branco, europeu, playboy, metido, arrogante, intelectual, intolerante, mesquinho, babaca, batedor de velhinhas e empurrador de bêbados na ladeira. Os estrangeiros que vêm morar no Brasil e que são cariocas de carteirinha, amam a Lapa, bebem cerveja, escutam choro, comem pretas e estudam antropologia, esses são os mais brasileiros de todos. São porque são brasileiros de coração.

Isso que estou falando acima não é uma filiação radical, mas pode ser sensivelmente percebido pelos "menos" brasileiros.

Quando criança, isso na década de 80, adorava ir ao clube perto de casa e participar dos bailes de carnaval para crianças e adultos, fantasiado de bate-bola, onde podia me esconder naquela máscara, jogar confetes em outras crianças, ouvir as mesmas marchinhas 500 vezes e ainda por cima super mal-cantadas, paquerar meninas e sair correndo de vergonha, entre outras brincadeiras que o carnaval me proporcionava. Como morador da Baixada Fluminense ainda era possível participar desses bailes de clubes (mesmo que muitos já estivessem decadentes, como o que eu frequentava já estava) e brincar com meus pais, irmão e coleguinhas de rua. Nesta época quase todo mundo no Rio de Janeiro saia da cidade maravilhosa para outros municípios e estados. Os tão agora famosos blocos de rua do Rio estavam esvaziados de popularidade nos anos 1980.

E qual criança não gostava de carnaval?

Eu até meus 18 anos gostei de carnaval. Viajava e brincava, sem fantasia, mas brincava, paquerava as meninas, gostava das marchinhas, da festa. Porém percebi de forma traumática que o carnaval de minha adolescência-vida-adulta não era mais o mesmo, comparado ao da minha infância. Pensem então nas pessoas que viveram os carnavais de 1920,30,40,50,60... Esse espanto ocorreu quando fui passar um carnaval com meu irmão em Cabo Frio, acho que já tinha 19 anos. Só estávamos eu e ele.

Panorama: uma cidade abarrotada de gente, um calor insuportável, jovens jogando uma espuma fedorenta e tóxica na cara de outros jovens (inclusive na minha), um trio elétrico que tocava axé music incessantemente (esqueci desse estilo musical como nosso traço cultural marcante), pitboys e pitgirls se pegando frenéticamente (e eu obviamente não beijei ninguém), rapazes alcoolizados batendo em outros rapazes alcoolizados sem nenhum motivo aparente, enfim... uma certa subversão ao carnaval de minha infância. Depois de algum tempo vi e percebi que essa "cultura" de carnaval foi a que passou a predominar nos jovens dos anos 90 e 2000. Nunca mais gostei de carnaval...

E assim, quando as pessoas perguntam se eu gosto de carnaval e digo que não, ouço, "Não gosta de carnaval, nem pareçe brasileiro", ou, "Branco desse jeito, não gosta de verão, não gosta de praia, nem parece carioca", ou então, "Você ainda não decorou o samba-enredo da Beija-Flor?".

Mas sou brasileiro, gosto do meu país, gosto de sua cultura, porém me permito a gostar de outras, de ouvir música em espanhol sem ser o Rebelde ou o Ricky Martin, de não gostar de praia, de gostar de comida árabe, de adorar a literatura em português (brasileira ou não), e de pensar em viver em outro país, pois o meu (nosso) nos dá poucas condições de se ter uma vida digna e estável, mesmo para quem estuda muito.

E esse carnaval de 2008 eu passei em Petrópolis, com minha senhora, e foi ótimo, lindo, um carnaval longe do carnaval, do confete e da serpentina. Mas nas madrugadas de não-sono eu vi os desfiles, quase todos, e vi como nossa cultura é bonita e única, e lembrei como eu gostava do carnaval. Então em um arroubo de saudade fiz uma promessa à minha companheira:

Em 2009 iremos passar o carnaval na Sapucaí!
Viva o carnaval!

Voltarei a gostar novamente de carnaval, serei mais brasileiro do que nunca! Está decretado!

... mas só não me peçam para ir à praia nesta calor infernal do Rio de Janeiro...






Besos.



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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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