"Infamous" (2006)
Direção: Doug McGrath e Dogulas McGrath.
Com: Toby Jones (Truman Capote) , Sandra Bullock (Harper Lee) e Daniel Craig (Perry Smith).
"Infamous" é um caso raro dentro da filmografia mundial, acredito. No espaço de 1 ano foi lançado um filme que reconta a mesma história já brilhantemente contada em outro, neste caso o "outro" é o filme ganhador do Oscar de melhor ator, com Philip Seymour Hoffman em "Capote" (2005). "Infamous" foi lançado em 2006.
Parece estranho dois filmes que contam a mesma história serem produzidos e lançados praticamente ao mesmo tempo. Talvez tenha ocorrido a observação de que as histórias de Truman Capote e do assassinato da família Clutter fossem ótimas para a tela grande, ou talvez os produtores dos dois filmes tenham lido a biografia de Geralfd Clarke e outras fontes ao mesmo tempo. Talvez o primeiro tenha influenciado a produção do segundo. Não dá pra saber. Porém o importante é que são dois belos filmes. Especialmente no que se diferem.
Observar a caracterização do ator inglês Toby Jones talvez seja mergulhar no que seja de mais próximo de alguém que tenha convivido e conhecido Truman Capote. A afirmação anterior só pode ser encarada como uma hipótese, já que nunca estive ao lado do escritor americano ou de alguém que o tenha conhecido pessoalmente. A interpretação de Jones é soberba, até porque diferentemente de Hoffman, Jones é fisicamente muito parecido com Capote, o que não nega a excelência da interpretação do primeiro.
O filme começa em dois planos distintos. O primeiro é como se ocorresse um talk-show, onde personagens importantes que conviveram com Capote dão depoimentos emocionados sobre ele, como Harper Lee, Gore Vidal (um grande rival), Jack Dunphy, entre outros. O outro plano é justamente o desenvolvimento da história de Truman e dos assassinos dos Clutter. Esses planos não se segmentam no filme. Se sobrepõem em diferentes momentos da película.
"Infamous" é diferente de "Capote" em vários aspectos. O filme é luminoso, as cores e a fotografia refletem bem a efervescência dos anos 1950 e 1960, principalmente em Nova York, habitat do escritor. O filme relata as amizades de Truman com a alta sociedade da grande maçã. High socity tão importante para ele. Seu contato com personalidades, empresários e dondocas de Manhattan é explorado neste filme, e demonstra que ter acesso à elite norte-amerciana era de suma importância para o escritor, para seu ego tão inflado quanto carente.
O Truman de Jones tem uma alegria melancólica, ácida, mas foge um pouco da depressão demonstrada por Philip e as cores acinzentadas e frias de "Capote". A trilha sonora também é mais animada, apresentando os standards do cancioneiro americano com a exemplificação de uma apresentação característica da época, com a participação especial de Gwyneth Paltrow.
Jones apresenta o escritor como alguém sensível, cheio de manias e afetações. Ser gay e efeminado para Capote não era uma alegoria, fazia parte de sua personalidade, de quem ele era, além do uso que o próprio fazia de sua condição sui generis para chamar a atenção e ser notado. O que não era muito difícil... A atuação de Sandra Bullock como Harper Lee é mais interessante e viva do que a de Catherine Keener em "Capote". Porém não gosto do Perry Smith interpretado por Daniel Craig. O ator irlandês parece estar sempre encarnando James Bond e apesar de Smith ter sido um cara realmente perigoso, a atuação de Clifton Collins Jr aparenta trazer uma sensibilidade que Truman demonstra no seu "A sangue frio" e que Clark apresenta na biografia de Capote. Além disso Craig é muito diferente fisicamente de Perry, o que é também muito importante, pois e apesar de Perry Smith ser muito mais forte do que Truman Capote, os dois tinham praticamente a mesma altura. Em "Infamous" essa discrepância me incomodou bastante.
Outro fato interessante é a explicitação do envolvimento sexual entre Truman e Perry, que em nenhum momento é descrito em sua biografia. Já as fontes dos roteiristas de "Infamous" são baseadas em um livro de fofocas e relatos de pessoas que conheceram Capote, talvez dessa fonte tenha nascido a ideia e o uso de um "talk-show" imaginário com os "amigos" de Capote. Este livro-fonte foi escrito por George Plimpton.
Acredito que como arte final, na somatória de todos os fatores cinematográficos e da genial atuação de Toby Jones , "Infamous" é superior a "Capote". Mas como tinha dito na resenha do filme de 2005, o ineditismo e a também brilhante, porém diferente interpretação de Hoffman, faz com que minhas emoções se apeguem mais à primeira película. Outro dado importante é que "Capote" assisti na tela grande e "Infamous" degustei em casa, no meu computador. A forma como os filmes são vistos e absorvidos é de fundamental importância na maneira como você os sente posteriormente, e neste caso, a tela grande ganha de goleada de qualquer filme visto em casa.
Cenas antológicas de "Infamous": A abertura da caixa de Perry por Capote na cena final. Quando Capote ganha e perde de propósito na queda de braços. A cena em que Truman relata os dramas de sua infância para Perry dentro da cela.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Nenhum comentário:
Postar um comentário