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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sou (Nós) - Marcelo Camelo

Zé Pereira (2008)

Distribuição: Sony&BMG


É difícil analisar uma obra encerrada em si mesma, assim como um sepulcro encalacrado. E digo isso porque o álbum que iremos resenhar neste momento é de um artista que tem como uma de suas características principais um hermetismo poético e, porque não dizer, psicológico. Fechadura esta que pode se apresentar conscientemente ou não, mas que não importa para quem quer simplesmente sentir, e não ficar analisando as coisas por simplesmente... analisar.

Para quem conhece as canções compostas por Marcelo Camelo pelo Los Hermanos poderá identificar elementos e tendências que se unem em um processo musical que se inicia com o primeiro cd do grupo, Los Hermanos, de 1999. Não irei aqui retratar e esmiuçar toda a obra dos hermanitos, mas as referências encontradas nas poesias e melodias de Camelo aparecem e ressaltam aos ouvidos dos apreciadores deste cantor/compositor, agora em carreira solo, desde seu primeiro trabalho com a referida banda.

E esses elementos parecem ter se amalgamado e tido seu auge e magnitude justamente no último álbum da banda carioca. "4" (último cd lançado pelo Los Hermanos) revela um distanciamento cada vez maior das canções escritas por Camelo em relação a seu parceiro de banda (e não de composições) Rodrigo Amarante. Acredito que uma das novidades mais bacanas trazida pelo Los Hermanos era justamente o contraponto musical de poder ouvir, com qualidade, estilos e formas de ver o mundo, e cantá-lo, com estéticas tão diferentes e distintas. Sempre (?) achei que houvesse uma complementaridade entre o jeito gutural, sarcástico, irônico, divertido e triste de Amarante e a melancolia, os sussurros, a timidez, a solidão, os coros e o, também, lado triste de Camelo.

Só que em "4" esta distância se faz maior e mais presente, e talvez por esse motivo os fãs da banda tenham estranhado tanto o ca
minho estético pela qual o conjunto se apresentava naquele momento. Hoje, ouvindo Sou, podemos perceber que aquele estranhamento também era vivido e explicitado pelos integrantes da banda, e principalmente por Marcelo Camelo. A necessidade de se colocar como um compositor que não fosse obrigado a se adequar à complementaridade esperada pela trajetória e pela expectativas de seu público, já bastante específico e quase fanático, gerou uma ruptura de fato, alegada pelo cansaço mas também demonstrada como uma libertação artística. Só que nenhuma libertação é total. Camelo sabe disso e tenta dar um passo adiante, sem esquecer de olhar para trás.
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Em Sou podemos identificar os temas recorrentes nas canções do cantor/compositor. A solidão, percebida como o estar só no meio da multidão e como esta presença em si pode ser combustível para a reflexão de como tentar se adequar da melhor forma possível ao "nós", torna-se a grande figura poética do álbum. Outros elementos conhecidos estão lá: os sussurros, os silêncios, pausas, coros, sambas, letras mais simbólicas (iniciadas em "4" ), Deus, tristeza, solidão, solidão, solidão e alguma alegria.

O álbum tem como banda base o grupo paulistano Hurtmold, mais conhecido pelo público "cool" de Sampa, e reconhecido em sua tentativa na busca de uma nuance diversificada na música instrumental, pelos climas e interessantes texturas criadas por seus integrantes. Sou* abre com Téo e a Gaivota dizendo ao que o álbum veio. Melodia com clima de mar, guitarra com timbre havaiano, pausas e ondas permeando, mistura de canção instrumental com letra curtinha, lírica e sussurrada com a voz pequena de Camelo. Pausa. Falso fim. Recomeço. E fim. É o compositor mostrando o que vem de diferente. Os longos arranjos instrumentais são fundamentais no "novo" Camelo. Tudo Passa começa com um baixo nervoso hurtmoldiano, tem percussão, e vai até sua metade falando de relações, ódio e amor e depois... vira uma semi-marcha com a letra dizendo "tudo passaaaaaa", com a voz reverberada, vibrafone e belo solo de flughorn. Passeando t
em um lirismo e um fatalismo que podem ser comparados com O pouco que sobrou (Ventura), voz e violão, este muito bem interpretado por Camelo, letra miúda que atesta "E lá vai Deus sem... sequer saber de nós. Saibamos pois, estamos sós".

Doce Solidão talvez seja a mais radiofônica do álbum, e é. Já que está como música de trabalho nas rádios FM de MPB, que são poucas. Assobio, melodia gostosa, levada bossa com uma percussão de jangadas ao mar, do jeito Caymmi que Marcelo gosta, é o mar de novo em uma roupagem pop e um pouco mais suingada. Uma delícia de se ouvir. Já ao seu final temos um belo piano pra fechar a bela canção. Janta é a parceria com Mallu Magalhães.

[Janela reflexiva sobre Mallu Magalhães - Muito se fala dessa menina, fenômeno musical percebido e catapultado pela internet, talvez o grande fenêmeno brasileiro lançado por este "novo" meio. Muito se falou sobre ela, eu falarei um pouco menos. O que percebo: ela é uma menina de 16 anos (começou com 15); inteligente; rica (sim, ela é rica, e... foda-se isso); sabe usar a
mídia; escutou coisas legais; soube reunir as influências e criou algo inusitado. Melodias simples, harmonias interessantes, canta desafinada mas encaixa bem a voz em suas composições, letras espertas e em inglês. Demonstra suas influências claramente, que são: Bob Dylan, o cancioneiro americano baseado no folk-rock-pop e músicas contemporâneas que bebem também das influências citadas logo atrás. Não conseguiu me emocionar. Talvez seja minha implicância com os artistas brasileiros que compõem em inglês. Espero coisas boas dela em um futuro próximo, mas hoje, ainda não consegui curtir, assim como não curto CSS e outras cositas más, paciência...].

Voltando... Janta é a parceria com Mallu Magalhães. Dois violões, um de aço, tocado por Mallu, e um de nylon, tocado por Camelo. Marcelo canta em português. Magalhães canta em inglês. Eles invertem os versos e cantam juntos no final. E só. Acredito que chegamos agora ao ponto alto do álbum, Mais Tarde é deliciosa melodia com introdução com rifs de guitarra e teclados, com começo da letra mais lento e bum... vai crescendo, crescendo. A bateria com uma levada de apelo pegajoso e a letra mais do que deliciosa. Lembra os bons tempos de Hermanos. A união melodia e arranjo é soberba, ótima. A libertação do compositor vai se mostrando com o afoxé Menina Bordada, com bom refrão e os inseparavéis coros que Camelo tanto gosta. Percussão e cozinha bem azeitadas, teclados fazendo um acompanhamento leve
e bonito. Liberdade vem em parceria com Dominguinhos, violão e sanfona, lindo o casado arranjo entre os instrumentos, letra sonhodora, só, com uma fé e melancolia que buscam e tentam a liberdade. Essa canção fez parte da trilha sonora do bom filme brasileiro O Passageiro - Segredos de Adulto, visto por bem poucos, eu vi, e gostei.


Saudade carrega mais uma vez o violão solo e bem tocado de Marcelo. Triste. Sussurrada. Quase inaudível. Introdução longa, letra que retrata a já tão comentada solidão. E esta é trazida e traduzida talvez pela mais bela e exclusiva palavra de nossa língua: saudade. Santa Chuva talvez seja a canção mais conhecida do novo álbum, pois já foi muito cantada e tocada na voz de Maria Rita. Camelo canta em um tom mais baixo que a cantora paulista, e isso é quase que óbvio, mas proporciona um lindo arranjo de cordas que passeia por quase toda a canção e dialoga com seu violão. Particularmente acredito que a versão da paulistana ainda é superior, questão de gosto. Copacabana é uma marchinha sensacional que pode até nos remeter à fusão rock-marchinhas do primeiro disco, mas essa é marchinha mesmo, na melhor acepção do termo e de seu diminutivo. Ganharia fácil o concurso de marchinhas da Fundição Progresso. Letra que fala do famoso bairro carioca. O coro está aqui de novo, arranjo de metais que só aparecem com força e altura nesta faixa. Dizem que Camelo se parece com Chico, o Buarque. Não acho. Mas se essa comparação tem procedência talvez possa se dar nesta faixa. Então... ponto para Camelo. Esta canção é o segundo grande momento do álbum. Temos agora a latina Vida Doce, cantada quase em falsete, levada caribenha com quebra na parte final da música, gostosa e piano a la João Donato, guitarra com o mesmo timbre de mar, com levadas apimentadas, teclados e percussão bem marcados em uma salsa com a negritude brasileira.

Por fim temos encerrando Sou as canções Saudade e Passeando, nas versões instrumentais ao piano de Clara Sverner, influência declarada por Camelo. A obra de Chiquinha Gonzaga e Guiomar Novais esteve muito presente nos ouvidos do compositor pelos dedos da já citada pianista.

Marcelo Camelo estréia bem em seu primeiro álbum solo. Li que o álbum foi gravado faixa a faixa, com os instrumentos tocados ao mesmo tempo e em takes únicos. Às vezes é difícil ouvir a voz de Marcelo. Isso pode se dar por várias razões, algumas delas: a voz de Camelo é muito pequena e imagino como ele irá fazer com sua extensão em shows ao vivo (isso já era um problema com o Los Hermanos), algumas faixas parecem estar mal mixadas, em Janta a voz de Marcelo e Mallu parecem estar "estouradas", perdemos o entendimento de algumas palavras. Os sussurros de Marcelo também nos impedem de compreender algumas letras. Talvez isso esteja na proposta dele, mas também pode afastar muitos dos novos ouvintes.

Sou muito provavelmente agradará os fãs da antiga (?) banda de Camelo. Mas quem gostava da versão mais rock dos Hermanos talvez não se aproxime muito deste trabalho solo, assim como aconteceu com o álbum mais criticado da banda após sua consolidação no cenário musical nacional, o "4". Talvez estejam esperando o Little Joy, do Amarante. Sou aproxima Camelo da MPB (termo esse que entendemos como um estilo musical, e não mais como música-popular-brasileira) e não há mal nenhum nisso. Provavelmente trará novos ouvintes para o cantor/compositor. O que é muito bem vindo.

Melhor faixa: Mais Tarde.
Pior faixa: Janta.

* Não tive acesso à ficha técnica do álbum. Por isso não escrevi a autoria ao lado dos títulos das faixas como de costume. Acredito que todas as composições sejam de Marcelo Camelo, com poucas parcerias, como por exemplo em Janta. Quando tiver certeza dessas composições, modifico o post.

Observação: Esta resenha é dedicada a Felipe Provençano.

http://www.myspace.com/marcelocamelo


http://www.hurtmold.com/

"Mais Tarde" - Marcelo Camelo, Marina da Glória/TIM Festival, 25.OUT/ YOUTUBE

Besos.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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