(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC
(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC. Saiba como adquirir o mais novo livro de Vinícius Silva clicando nesta imagem

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Cotas raciais - A posição do PSQC

Após o decantamento da resenha do livro de Ali Kamel, que aborda e propõe sobre as discussões geradas pela política de cotas raciais adotadas recentemente no país, o PSQC retorna e mostra seu (meu) posicionamento sobre o tema.

A cada dia que passa, acredito, como acadêmico e ser pensante, que os temas e problemas que abordamos em nossas vidas cotidianas e profissionais estão intimamente ligados às questões que são pedras fundamentais de nossa própria existência. Não há coincidências em nossas escolhas, e por mais que possamos nos contradizer e até mesmo antagonizar nossas abordagens intelectuais e sentimentais durante o tempo, sempre haverá uma linha condutora indizível (e porque não... indivisível?). Uma molécula que demonstra uma essência e direção em nossa trajetória da vida. Talvez isso seja um pouco confuso para a discussão a que estou me propondo, mas deverá fazer mais sentido ao final desse texto.

O tema "cotas raciais" faz parte de meus anseios intelectuais faz algum tempo. Para começar esse texto é necessário expor uma afirmação básica em minha concepção sobre o objeto: EXISTE E ATUA DE MANEIRA EFETIVA O PRECONCEITO CONTRA A COR DE PELE NO BRASIL!

Esta afirmação pode parecer e propor uma contradição à posição que adotarei neste exato momento: SOU CONTRA A ADOÇÃO DAS COTAS RACIAIS COMO POLÍTICA DE "INCLUSÃO" SOCIAL NO BRASIL!

Esta aparente contradição formula o cerne de como a questão se cristalizou e refletiu as discussões geradas desde a implementação da política das cotas raciais como meio de acesso ao ensino superior público brasileiro. A polarização chegou ao ponto de se colocar os anti-cotistas como "racistas", ou como "cegos" que queriam obscurizar ainda mais o preconceito de cor no acesso ao conhecimento acadêmico no país. Porém toda a discussão sobre as cotas, e logicamente, sobre o preconceito, têm um "início" epistemológico e também filosófico.

Não sou um especialista em antropologia física, porém a afirmação de que na espécie humana não existe uma "separação" biológica por RAÇAS (em comparação como esta separação está presente no restante da vida animal), parece ser preponderantemente aceita nos meios acadêmicos, e até mesmo na sociedade em geral, inclusive sendo "ressaltada" como um aspecto moral importante nos dias atuais. Há a comprovação de que o número de genes que diferenciam pessoas de cores de pele diferentes, ou etnias distintas, são insignificantes para podermos classificar os seres humanos em diferentes "raças". Esta afirmação indica que: uma pessoa com a pele clara pode ter em seu mapa genético características negróides ou mongolóides (asiáticos em geral) mais proeminentes do que uma pessoa com a pele mais escura, e o contrário também. Obviamente que a ciência está aí para nos contradizer a todo momento, mas parece que esse conhecimento é, hoje, predominante em toda comunidade acadêmica e detentor de um status positivo na sociedade moderna, até mesmo no Brasil, onde atualmente observamos uma discussão mais acirrada, muito devido à proeminência das discussões sobre as cotas raciais.

Porém a tentativa de explicação acima descrita não encerra a questão. A visão da genética não termina a problemática. O conceito de "raça" que estamos discutindo não é aquele somente circunscrito às questões sobre os genes e hereditariedades, mas sim a "raça" construída socialmente, e utilizada materialmente e simbolicamente como forma de opressão e distinção na(s) história(s) humana(s).

A já tão mítica e ressaltada miscigenação brasileira foi baseada em uma das mais cruéis e vergonhosas formas de submissão já realizadas pelo homem: a escravidão. Os muitos cientistas que procuraram pensar a especificidade do Brasil em comparação ao resto do mundo, sempre apontaram a nossa capacidade de nos "misturar" como grande diferencial e contribuição que serviria de exemplo para toda humanidade. A "plasticidade" dos portugueses comparados aos espanhóis foi descrita e analisada por pensadores como Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre, somente para citar dois dos mais importantes.

Esses autores retornaram a arena de debates e algumas de suas considerações foram utilizadas como argumentos pelos diferentes pólos nas disputas de legitimidade. São conhecidas e reconhecidas as afirmações de Freyre de que a miscigenação entre brancos, negros (principalmente) e índios (miscigenação mais ressaltada na análise de Darcy Ribeiro), é, como resultado final, uma forma positiva do resultado das relações íntimas forjadas entre a Casa Grande e a Senzala. Este argumento de Freyre foi bastante utilizado como forma de demonstrar uma certa "alienação" na questão da barbárie a que foram submetidos os africanos trazidos como escravos para o Brasil. Esta utilização é maniqueísta, pois só aponta os "resultados" apontados por Freyre, mas não aprofunda as considerações e análises feitas pelo autor.

A escravidão brasileira foi um fato histórico terrível e vergonhoso (como qualquer outra escravidão que já existiu no mundo). Os africanos foram expostos a condições inumanas e a relação entre o senhor de engenho branco e sua "peça" negra era, de uma opressão sem limites ou regras (a principal regra era somente não deixar a "peça" morrer e, portanto, o senhor não ter "prejuízo"). Os africanos foram subjugados, humilhados e, de certa forma, dizimados em suas vidas, afetivamente, fisicamente e culturalmente (apesar das estratégias de sobrevivência em todas essas instâncias). Esta relação e suas conseqüências estão descritas em "Casa Grande & Senzala (1933)" e também em outras obras de Freyre. Estão lá, é só lê-las.

Talvez a única contribuição que o Brasil deixou neste terrível cenário de desumanidade foi: não houve, desde a abolição da escravidão, nenhum impedimento legal (jurídico) para que os africanos e seus descendentes pudessem ascender socialmente. Esta afirmação também pontua uma proposição cruel. Legalmente não havia impedimentos, mas socialmente ocorriam muitos. É notório e conhecido que após a assinatura da Lei Áurea os ex-escravos foram "deixados" à sua própria sorte, muitos deles continuaram como "empregados" de seus antigos "donos"... Isso é História, não pode ser mudado, está dado. Mas a História é caprichosa e percorre caminhos que quase nunca são lineares.

Até a década de 1960, nos EUA, existiam LEIS que atuavam na separação e segregação entre negros e brancos, a miscigenação era mínima. Até o final do século XX o apartheid era vigente na África do Sul. Poderia aqui listar inúmeros casos e situações de conflitos raciais e étnicos no mundo. Felizmente o Brasil nunca viveu "políticas" dessa natureza. Nossas políticas são outras e não menos cruéis.

O grande fosso social existente no Brasil, pontuada aqui historicamente com a vinda da família real portuguesa, em 1808, sempre evidenciou dois lados. O lado mais pobre e desfavorecido sempre formado por "cores" de pele diferentes de uma específica, a branca. Primeiro os índios, depois os africanos, depois os descendentes dos índios com os portugueses, depois os descendentes dos africanos com os portugueses, depois os descendentes dos índios com os africanos, depois... As cores que eram um tom acima do branco-europeu-português sempre desfrutaram de um poderoso desprestígio na hierarquia social. Este desprestígio, hoje, é popularmente definido e reconhecido como o resultado do que denominamos PRECONCEITO RACIAL. A formas de atuação desse preconceito são percebidas no mundo real e nas construções simbólicas e imateriais dentro da sociedade brasileira desde nossa formação.

As explicações sobre as formas como esse preconceito atua são muitas e variadas, porém a questão principal a que me volto neste momento é: o preconceito racial existente no Brasil é DETERMINANTE para a grande desigualdade social e econômica no país? Essa questão principal pode gerar algumas outras, não menos importantes, como: o preconceito racial é uma constante importante na distribuição de renda e benesses sociais no Brasil? Ou: a população pobre e miserável no país é predominantemente negra ou afro-descendente?

Ali Kamel vai demonstrar em seu livro ("NÃO SOMOS RACISTAS", ver post anterior) que todas as pesquisas e abordagens quantitativas que tentam responder a essas perguntas vão gerar uma resposta: SIM! E essa resposta passa a ser constantemente dada a partir do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, e, portanto, dada e desenvolvida, desde então, pelo Estado. O autor afirma que foi a partir do governo FHC que os dados referentes aos "pardos" desaparecem das estatísticas oficiais, e que todos os antigos "pardos" passam a ser classificados como "negros", dividindo e reduzindo a população do país a duas "raças" antagônicas: negros e brancos!

Kamel indica que se fossem utilizados indicadores não "viciados", ou abordagens metodológicas sem esse viés apriorístico, as cores de pele das pessoas no Brasil seriam muito mais diversificadas, percorrendo um caminho muito além do negro ou do branco. Ele mesmo afirma que a população que se declara (ou declarava) "preta" (nomenclatura anterior à atual de nome "negros", e que agregava os "pardos" e os "pretos") é de aproximadamente 6%. O restante da população brasileira está dividida entre brancos, pardos (mestiços), amarelos e índios. Porém o que pretendo focar não é esta problemática.

O meu desejo é lançar aqui um questionamento se haveria uma real capacidade em se poder distinguir uma pessoa como branca ou negra geneticamente, e como essa associação pode ser atrelada a fatores sócio-econômicos. O Estado (governo), o movimento pró-cotas, muitos acadêmicos e boa parte da sociedade acreditam que revelar a relação entre cor da pele e posição social (e todas as suas especificidades) é possível. Eu acredito e afirmo que não. Não é possível!

A questão da avaliação sobre a "negritude" ou "branquitude" parece-me surreal, ou até mesmo irreal em dias de pós-modernidade. A relação causal entre ter uma pessoa de pele negra na família surge colocada de maneira inteiramente simplista e superficial. Como associar a cor da pele de uma pessoa com sua ascendência africana-negra? As discussões de quem tem direito às cotas no Brasil ficaram circunscritas à cor da pele que parece inscrita aos olhos. Ser "negro" ou "afrodescendente" fica atrelado ao fato de ter pais e, talvez, avós negros, ou mulatos. Invertendo os fatores, chegando-se a conclusão causal de que a "consequência" (ter a cor da pele negra) é a evidência de um "ação" anterior comprovada (ser um afro-descendente), e que ter a cor da pele branca é a prova de um passado europeu (estritamente?).

Como, empiricamente, podemos associar a ascendência de uma pessoa com sua cor de pele? Quantas pessoas vocês conhecem que possuem irmãos em que uns nasceram com pele clara e outros com a pele escura? Quantos pais e mães negros e negras que casaram-se com pessoas brancas e que tiveram filhos com a pele clara e outros com a pele escura, e que são irmãos, possuem a mesma carga genética. E por fim... como associar o mosaico de cores em que vivemos com fatores sociais e econômicos? Basta ser negro para que se seja pobre e despossuído? Sei que os cotistas não propõem isso de maneira simplista, mas o resultado final, acaba, por fim, a essa forma de reducionismo prático.

Chegamos ao ponto que temos que dissociar irmãos e famílias, pois nos processos seletivos a avaliação se dá pela análise de uma foto (preponderantemente), portanto, se por hipótese, tenho um irmão moreno ou mulato, e ele teve a "sorte" de ter a pele mais escura do que eu e, portanto, ser associado a um grupo social que tem uma maior possibilidade de ser mais discriminado do que eu (que sou branco e dei o "azar" de ter nascido com uma cor de pele que é historicamente opressora), terá a vantagem de tentar uma vaga em universidade pública em condições mais vantajosas em relação ao seu próprio irmão. As proposições e formulações das políticas de cotas não se propõem a estes resultados, mas, infelizmente são esses os resultados obtidos. Observamos centenas de jovens mestiços com melhor poder aquisitivo do que muitos "brancos" e que adotam "estratégias" para terem a possibilidade de entrar em uma universidade de qualidade através das cotas, isso é conhecido até pelas autoridades públicas.

Entramos, então, em um terreno perigoso. No século XIX os ingleses, e seus cientistas, criaram vários métodos para classificar os nativos da Oceania e povos das Ilhas do Pacífico, entre esses métodos havia um designado para a cor da pele. Uma paleta com várias tonalidades de cor, desde o "branco neve" até o "chocolate amargo" eram colocadas de front aos nativos e assim a classificação da cor da pele dos "primitivos" era realizada (essa descrição me foi dada por um importante antropólogo urbano contemporâneo, em um exemplo de sala de aula). Hoje, vejo uma universidade como a UnB pedir para que seus alunos enviem fotos(!) para que alguém(?) avalie se essa pessoa é negra ou afro-descendente(?). Portanto, regredimos aos colonizadores ingleses do século XIX. Não esqueçamos do incrível caso também ocorrido na UnB em que GÊMEOS tiveram avaliações DIFERENTES em seus processos para terem acesso às vagas destinadas para as cotas. Vou repetir, eles eram GÊMEOS! Para um avaliador um dos irmãos era "negro", para outro avaliador o outro gêmeo era... "branco". Interessante.

Imaginemos agora um rapaz de 19 anos, que nasceu e mora em Goiás, moreno escuro, com cabelos lisos castanhos escuros e olhos negros, nariz largo mas com lábios finos, típico representante de nossa mistura de "raças". Agora imaginemos ele tentando entrar em universidades públicas de dois estados diferentes, através da reserva de vagas pelas cotas raciais. Uma seria a Federal da Bahia e a outra seria a Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O processo seria enviar uma foto de rosto (frente e perfil) para as bancas examinadoras (?) poderem "avaliar" se ele é "negro" e/ou um "afro-descendente". Afirmo: ele é um afro-descente, talvez negro, talvez mulato, talvez moreno. A pergunta seria: será que ele conseguiria uma vaga mais facilmente na Federal da Bahia ou na Federal de Santa Maria? Lembremos que a porcentagem da população negra e afro-descendente na Bahia é a mais elevada do Brasil e que em Santa Maria observamos muito a influência de uma colonização fortemente européia-branca. Acredito que no Rio Grande do Sul ele teria grandes chances de ser considerado "negro", e conseguiria sua vaga, e que na Bahia seria considerado "branco" e não entraria pelas cotas. A grande questão é: não nos orgulhamos em ter uma tolerância nacional pelas diferenças e pelos distintos tons de pele? Como, então, podemos ter, em um mesmo país, em uma mesma nação e dentro do território nacional, concepções sobre quem é "negro" ou quem é "branco" tão diferenciadas e discrepantes, e que irão interferir diretamente na vida profissional desse jovem e possivelmente na construção de sua própria identidade. Nosso pobre amigo goiano vai preferir ser um "branco" na Bahia ou um "negro" no Rio Grande do Sul? É assim que acabaremos com a desigualdade social e "racial"?

E as perguntas retornam... Como se avalia alguém como negro? Pelo cabelo? Pelo nariz? Pelo tamanho da orelha? Pela cor dos olhos? E um negro com olhos azuis, vale? E quando temos muitas pessoas com a pele mais escura. Como avaliar quem é mais negro? Outra pergunta. Quem é que avalia? Quem avalia as fotos? Quem é que está dizendo que uma pessoa é mais negra do que a outra, e que, portanto, possui mais direitos a vagas cotizadas do que outra. Acredito que quem está avaliando deve ser um professor universitário... "branco". Portanto temos "brancos" dizendo à população quem são os... "negros"! Parece que a opressão possui formas sofisticadas de atuar. Mas nesse caso não há opressão, não há opressão racial. Essas perguntas nunca foram respondidas e, infelizmente, nunca serão...

É notório que existe a preponderância da população mestiça/negra entre os mais pobres no conjunto da sociedade brasileira, mas será que esta afirmação pode ser creditada a todas as regiões do país com suas diferentes formações migratórias e geográficas? Sempre foi associada à escravidão a culpa pelo lugar social ocupado pelos negros e mestiços em nossa sociedade. Acredito que esse foi o ponto de partida, mas também acho que a História é mais complexa do que isso. A escravidão deixou marcas indeléveis em nossa sociedade e em todos os descendentes de africanos e indígenas, porém após seu término a organização social sempre esteve pautada em uma "igualização" precária de direitos. Esta igualização permitiu mobilidade social para algumas pessoas deste grande grupo já historicamente estigmatizado. Temos relatos pontuais e relevantes dessa mobilidade.

Outro fato a ser ressaltado é o que a noção de "redes sociais" pode ser utilizada nos estudos sobre a permanência de determinados grupos à situações de pobreza e precariedade econômica. Os contatos inter e intrapessoais entre os indivíduos destes grupos podem servir como parâmetros interessantes para podemos focalizar a pouca ou muita mobilidade para determinadas pessoas. "Laços fracos" e "laços fortes" podem afetar diretamente as estratégias de ascensão social. Os "laços fracos" estariam pautados nas relações que vão além da perspectiva familiar ou da vizinhança. Os "laços fortes" estariam ligados diretamente às relações com forte proeminência familiar e de parentesco. Exemplificando os conceitos acima: tentem perceber a gama de pessoas e contatos profissionais e afetivos que um juiz possuiu, ou um médico, ou um professor universitário. Estas pessoas possuem uma variedade de possibilidades para integrarem sua posição social a outros indivíduos com estratégias que poderão ser favoráveis para sua vida pessoal, profissional, cultural... Por outro lado pensem em um trabalhador da construção civil que mora em uma comunidade carente ou favela, agora reflitam sobre os contatos a que essa pessoa estará circunscrita. Provavelmente manterá relações mais arraigadas com parentes e vizinhos. Lembrem-se que estamos falando de "esquemas" ideais, próximas das tipificações weberianas.

O grande problema é que os mestiços e negros sempre foram, e ainda são, associados ao fator mais importante de distinção social no Brasil: a pobreza! Talvez outra questão a ser perseguida seja (e já temos tantas nesse texto) a percepção se a discriminação pela cor da pele é o efeito preponderante da segregação e da falta de oportunidades.

A distinção pela cor da pele se colou ao aspecto sujo e imundo da pobreza (para as elites) e criou uma identidade do que não se quer ser no Brasil, "pobre". A pobreza não expressa somente a falta de dinheiro (mesmo que a pobreza seja corroborada estritamente sobre o aspecto da falta de recursos econômicos), expressa a burrice, o atraso, o sujo, o feio, o desdentado, absolutamente tudo o que nossa sociedade tem asco e horror, mas que serve para a manutenção dessa mesma sociedade desigual.

O que devemos perceber é que apesar da associação da cor da pele com a pobreza, e como esses fatores foram utilizados e internalizados por uma subjetividade social e simbólica para o afastamento dos "indesejáveis", ocorreram estratégias de fuga, de ascensão. Hoje podemos verificar uma classe média "negra", "mulata", "mestiça". Dentro do mosaico de cores que observamos nas variadas camadas da estratificação social, as cores das pessoas com maior ascendência social são as mais variadas, seja na favela, nas comunidades mais carentes, nas regiões menos favorecidas. Dizer que a pobreza e a má educação formal é um "privilégio" de negros e não observar as dinâmicas sociais in loco, empiricamente, é um erro. Sou morador da Baixada Fluminense, e posso dizer com bastante autoridade que a pobreza e a falta de opções de cultura, lazer e educação não é moldada pela cor da pele, mas sim pela pobreza das pessoas. E nessa pobreza temos as mais variadas tonalidades.

Outra questão que é importante ressaltar neste intrigante e complexo debate sobre as cotas raciais é sobre QUEM reivindica o direito à "discriminação positiva". Posso dizer também, com alguma segurança, que alguns dos movimentos negros (tenho a absoluta certeza que eles são completamente pertinentes) é formado por pessoas de classe média baixa, média e alta, e que essas pessoas representam (ou tentam representar) as demandas da população negra e/ou afro-descendente mais pobre. E esta suposição me traz outros questionamentos. Como seria se perguntássemos em alguma comunidade carente ou favela o que os jovens (negros e mestiços) sabem sobre as políticas de cotas nas universidades públicas e se entre eles existe alguém com planos para tentar uma vaga a curto prazo? Acho que grande parte sequer saberia do que estaríamos falando. Outra suposição minha.

Reitero, as luta pelas cotas raciais é uma demanda da classe média, seja ela negra, mestiça ou branca, e que geralmente requer maiores possibilidades de mobilidade social. Os alunos que ingressam nas universidades e escolas públicas através das cotas raciais são geralmente uma minoria entre a própria minoria, ou podemos dizer uma pequena "elite" de uma minoria(?), que não tem acesso a uma educação básica de qualidade.

Chamou-me a atenção, no percusso das discussões sobre o tema, um amplo debate ocorrido no Congresso Nacional a dois ou três anos atrás. Uma discussão em plenário realizada entre parlamentares, acadêmicos pró e contra as cotas, movimentos sociais e representantes da sociedade civil. Algo que ficou bastante claro em minha mente foram as manifestações dos grupos e movimentos negros que eram A FAVOR das cotas, e que a cada fala dos interlocutores CONTRA as cotas gritavam palavras de ordem, do tipo: "Racistas!!", "Intolerantes!!", "Vocês nos devem pela escravidão!!", entre outras classificações...

Ora, o pleiteio desses grupos é de terem mais chances para obter vagas em instituições ACADÊMICAS, e na luta pela ampliação desse direito a maior virtude de um acadêmico foi subjugada, que é justamente o respeito pela opinião ou concepção intelectual do outro. Compreendo o calor da discussão e a necessidade de pressão para conseguir sua respectiva reivindicação, mas acho muito estranho ser chamado de "racista" por não defender as cotas raciais. Sou contra as cotas raciais porque acredito que a longo prazo essas mesmas cotas servirão como pecha e pesada carga contra a própria população postulante, provavelmente pelas acusações de terem sido formados com "facilidades", ou que só estão ali por terem passado por um menor grau de dificuldade no processo de seleção.

Não tenho culpa pela escravidão. Você leitor também não, muitos menos os africanos e seus descendentes. A escravidão não pode ser usada como marco acusatório contra os brancos de hoje, ou contra os menos negros. A sociedade, o Estado e suas instituições é que devem promover as reparações... reparações não, isso não é mais possível, pagar essa conta que é impagável, mas todos esses atores devem atuar de maneira decisiva para que as desigualdades sejam diminuídas e que a concentração de renda não seja tão absurda.

Como já disse acima, o Brasil caminha passos perigosos, e não somente na questão racial. No Rio de Janeiro uma lei estadual foi aprovada contrariando, de forma contundente, a Constituição Federal, utilizando a discriminação por gênero. Vagões exclusivos para mulheres foram "criados" e circulam "proibindo" a entrada de homens em determinados horários, em dias úteis. Esta lei foi criada pelo Deputado Estadual Jorge Picciani, sob a alcunha de que as mulheres reclamavam de maneira sistemática sobre assédio sexual dos homens nos vagões da SuperVia e do Metrô Rio. Alguém já viu na televisão ou leu em algum jornal uma passeata de mulheres que foram "assediadas" no Metrô? Alguém leu ou soube de algum processo de alguma mulher assediada em um trem urbano? Pergunte a uma mulher que utiliza esses meios de transporte se ela sofreu algum tipo de constrangimento sexual? Garanto que 90% irá dizer que: NÃO! Outra forte suposição minha.

O que existe é a presunção da ação pelo estigma. Afirma-se que os negros e mestiços devam ter "facilidades" no acesso à universidade públicas por não terem acesso a uma educação básica de qualidade, mas ninguém fala em investir maciçamente na educação básica. Presume-se que os homens, sempre que tiverem uma pequena oportunidade, irão assediar mulheres indefesas em vagões de trem ou metrô.

Então eu deveria reivindicar um vagão somente para os homens, mas isso não "cairia" muito bem, mão é mesmo? Pois assim seria taxado de... gay! Nunca assediei nenhuma mulher no trem ou no metrô, e nunca vi nenhum outro homem fazendo o mesmo (não nego que isso possa ocorrer), porém vejo-me, hoje, tendo que pedir desculpa por ter nascido homem e com a pele clara.

-Desculpem-me! Por favor desculpem-me por ser branco, por ser homem, e por oprimi-los por todo esse tempo. Tenho 29 anos e sei de todas as maldades históricas que meus antepassados fizeram a todos vocês, negros, descendentes e mulheres! Prometo carregar este fardo por toda minha vida!

A questão é que olho para o lado e vejo que minha mãe é morena e que é, portanto, mestiça. Vejo que meu irmão é moreno, e que meu pai é branco, branco e filho de nordestinos, e que eu sou neto de nordestinos e branco, e que meu primo é negro, e que minha prima é loira, e que eu sou... mestiço. Eu, hoje, percebo que, infelizmente, tive o "azar" de ser um homem-branco. Será que é este tipo de "igualdade" que devemos buscar, a "igualdade" pela falta, pela o que se não é, ou pelo que se foi em um passado remoto. Ser um opressor em potencial. Será que em um futuro breve não ouvirei "olha aquele homem-branco desgraçado, maldito!".

Mas não! Retiro tudo o que disse acima. Isso não irá ocorrer. Não, porque somos brasileiros, e compactuo da mesma noção de Sérgio Buarque de Hollanda em Raízes do Brasil: o brasileiro carrega a identidade simbólica e material do "homem cordial". Em qualquer outro país a discussão e adoção da política de cotas, para quem é contra ou a favor, geraria um mal-estar social tremendo. Talvez manifestações agressivas, ações violentas ou até mesmo atentados terroristas. Mas no Brasil não. Aqui tornamos tudo em um amálgama de conciliações e opiniões, e, sinceramente, acredito que isso seja uma virtude. Obviamente que nunca vimos uma real revolução social em nosso país, e acredito que não estarei mais vivo se alguma algum dia vier a ocorrer. Mas essa virtude pode demonstrar alguma "novidade" nessas relações, a princípio, conflituosas. Novos arranjos sociais poderiam se desenvolver sem grandes atritos ou fricções violentas, ficando restritas tão somente ao mundo das idéias.

Tenho certeza que a entrada dos estudantes pelas cotas raciais será extremamente positivo para esses mesmos estudantes, e trará uma diversidade interessante ao convívio social das universidades, não sem problemas pontuais. O que não consigo compreender é a "saída" política para a mobilidade social praticamente restrito ao acesso a uma universidade pública. A existência das cotas já é a afirmação do completo fracasso de nosso ensino público regular básico. As cotas são para poucos, as cotas são discriminatórias (na minha opinião tanto para brancos, negros ou mestiços) e o acesso à universidade não garante a melhoria das condições de vida da grande massa de brasileiros, nem aos poucos que conseguem o acesso pelas cotas. O avanço irrefreável das universidades particulares é a prova que a saída somente pela educação superior não é tão "superior" assim. O "mercado" não consegue absorver a grande quantidade de profissionais formados todos anos, levando-se em consideração que essa nova força de trabalho geralmente é muito mal formada. Talvez essa seja a principal prova de que deve-se ampliar as vagas das universidades públicas, do ensino técnico de qualidade, e, principalmente, investir em uma formação básica em tempo integral e com um conteúdo consistente.

Um dos elementos mais importantes para essa discussão parece estar esquecido ou relegado, e esse fator importantíssimo é o TERRITÓRIO. Não devemos aqui entender o território somente como um espaço geográfico, mas sim como a criação de uma identidade de uma população com determinada localidade e como essa população se relaciona com o mundo do trabalho, com a cultura, com o lazer, com as instituições públicas e civis dentro desse território. O território parece ser um aspecto decisivo nos processos de discriminação, muito mais e além do que a cor da pele, demonstrando as diferenças sociais de maneira categórica.

Rocinha, Vidigal, Chapéu Mangueira, Mangueira, Chatuba, Rio das Pedras, Cidade de Deus, Estácio, Previdência, Baixada Fluminense, Interior do estado do Rio de Janeiro... Querem verificar a porcentagem de pessoas dessas localidades que estão em universidades públicas em comparação com a população da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro? Ou será que é a "negritude" que ainda é o PRINCIPAL fator distintivo nesse processo de "seleção".

E se as cotas vieram para ficar e são tão irresistíveis assim (os políticos em época eleitoral é que o digam), faço uma proposta. Ao invés de termos somente cotas para as universidades públicas, porque não ampliamos essas cotas para todas as escolas básicas e técnicas do Brasil? Explico. Toda escola particular será obrigada a ter entre 10% a 15% de suas vagas destinadas a pessoas carentes, pobres, desfavorecidas economicamente. E que esta seleção se dê pela localidade, ou absorva uma parcela de todas as localidades desfavorecidas de nossos estados. O menino que mora perto de uma comunidade situada próxima ao Cais do Porto do Rio de Janeiro poderia estudar no São Bento através das cotas. Talvez isso ajudasse um pouco mais o acesso à universidade pública. Ou então assumir constitucionalmente a proposta do Senador Cristovam Buarque, que propõe que todos os políticos no Brasil sejam obrigados a matricular seus filhos em escolas de ensino público (as escolas atuais), OBRIGADOS (viva Michael Moore, ver a cena com os senadores norte-americanos em "Fahrenheit 11 de Setembro").

O Senador Cristovam Buarque é a favor das cotas raciais. Sinceramente não entendo o porquê. Talvez seja pela extrema dificuldade em sua luta por uma educação básica e pública de qualidade. Mas tenho a absoluta certeza de que não é adotando uma discriminação (mesmo que, "positiva"?) que o problema será resolvido, ou até mesmo amenizado. A meritocracia, mesmo que desigual na base do conhecimento, é ainda o melhor critério para as seleções no ensino superior. Torço para que tenhamos, no futuro, vagas em nossas universidades para todos os estudantes, sejam eles negros, brancos, mestiços, índios, amarelos.

No percusso da História vimos os efeitos da "racialização" na humanidade e pudemos comprovar os resultados catastróficos dessa escolha. Não vamos replicar esse erro em uma prática social de que podemos realmente nos orgulhar: nossa tolerância!

Viva a tolerância AINDA existente e persistente no Brasil.

Viva!

Após o término desse longo texto venho tentar revelar justamente o que tentei definir como cerne das escolhas da vida de um pensador. Antes de me tornar cientista social/sociólogo fiz um pré-vestibular em Nova Iguaçu, no ano de 1999, onde em certa ocasião travei contato com um cartaz sobre o PVNC (Pré-Vestibular para Negros e Carentes). Aquele cartaz chamou-me muito a atenção e resolvi fazer um texto para dar conta de meus anseios intelectuais, mesmo sem saber se seria um intelectual ou não. Acredito que ainda estou no comecinho do processo. Portanto, a minha primeira observação sobre o tema foi a quase 10 anos. Este texto será o próximo que irei disponibilizar neste querido blog. Acho que dará uma noção de "percusso", na formação intelectual de um jovem. Admito que será muito enriquecedor para mim. Não sei o que virá pela frente.

Muito obrigado pelos seus olhos.


Observação: Tenho a absoluta noção o quanto este tema é polêmico e que minhas opiniões são frágeis e passíveis de erros de abordagem e interpretação. Como tenho fé no conhecimento e no debate, abro o espaço do blog para textos e opiniões discordantes da minha, assim como os textos convergentes. Adoro os comentários, mas quem quiser postar algum texto que critique e/ou acrescente novidades, conceitos e opiniões sobre o que escrevi acima, será muito bem vindo ao PSQC. Deixando claro que ofensas e agressões não serão aceitas.

O tema sobre as cotas voltou à tona com o manifesto com nome "113 Cidadãos Anti-Racistas Contra as Leis Raciais", assinado por intelectuais, acadêmicos e lideranças da sociedade civil, assim como a resposta a esse manifesto que foi o documento, a favor das cotas, de nome "Manifesto em favor da lei de cotas e do estatuto da igualdade racial", também assinados por intelectuais, acadêmicos e lideranças da sociedade civil. Ambos os documentos foram assinados e enviados para o Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal. Estes documentos serão reproduzidos em nosso querido blog, o Palavras Sobre Qualquer Coisa.


Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.


Deixe seu email para que você possa receber as novidades e promoções do PSQC!

Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades
Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC
Saiba como adquirir o mais novo livro de Vinícius Silva clicando nesta imagem

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!
Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

AMIGOS DO PSQC

Google+ Followers

As mais lidas!