(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010


Observação 5:


O que fazer com um livro ruim?

Esta é uma questão que pode parecer fácil e até simples de responder, mas que me causa uma dificuldade imensa para enfrentá-la, e que ainda permanece.

Parece ser senso comum que nossas escolhas e "gostos" se definam pela construção de nossa identidade social e psíquica, e esta identidade é formada por elementos complexos. O contexto social, a educação dos pais, a educação formal e informal do próprio indivíduo, o acesso à cultura, o poder econômico. Esses diversos fatores (entre outros) podem ser resumidos citando-se um conceito de Pierre Bourdieu, que fala sobre o conjunto de elementos de nascença e as escolhas pessoais que definem o habitus de uma pessoa.

E tudo isso escrito acima para resumir uma percepção clara: Quando toca uma música que não gostamos, simplesmente a passamos no tocador; quando no radinho está a estação que detestamos, simplesmente mudamos seu número no dial; ou quando no cinema vamos às salas assistir ao que mais ou menos já sabemos o que encontrar.

Mas e quando esse produto cultural é um livro? Obviamente que podemos escolher um livro pela capa, e principalmente pelo autor, por quem o escreve.

Porém explico minha aflição. Ganhei um livro no final do ano passado. Um livro de um autor brasileiro, um best seller em vendas (não, não é o Paulo Coelho), e que sem problema algum decidi enfrentar. Acredito que livros são enfrentados, são desafios entre autores e leitores. Além disso não tenho nenhum problema com autores populares
. Leio desde Dan Brown a Saramago, passando por Clarice Lispector a Rubem Fonseca, sem problema algum.

A grande questão é que efetivamente o livro que ganhei era ruim, muito ruim. Tive a informação que era o segundo livro de uma trilogia, então imagino a porcaria que era o primeiro livro dessa trilogia. Personagens superficiais, história risível, trama boba, situações inverossímeis. Uma tentativa mal feita de trazer uma mensagem positiva para um mundo negativo, através de má literatura. É claro que a pessoa que me presenteou não sabia que eu não iria gostar da leitura. Um livro pode ser comprado pela capa, pelo título, pelo tema ou assunto, mesmo sem se conhecer muito bem seu autor. Neste caso houve uma associação entre o título do livro/presente e minha personalidade. O presenteador está completamente isento da responsabilidade pelo sucesso do presente. Um presente é sempre uma tentativa, um risco, às vezes se erra, porém todo presente é bem vindo, o lema do "o que vale a intenção" é verdadeira.

Porém um estranho fenômeno aconteceu. A história era ruim, os personagens eram mal construídos e a leitura era extremamente irritante. Mas como largar o livro. Ao meio? Sem terminá-lo? Passamos a música, não vemos o filme, trocamos de canal... mas como não terminar o livro? Lê-lo era quase um suplício, uma dor. Aquele objeto ocuparia um lugar em minha estante, tomaria o lugar de um livro melhor. Não poderia me desfazer do presente. Mas o que fazer com aquele maldito objeto?

Já comecei e parei de ler alguns livros. Mas nestes outros casos foi a pura percepção e intuição de que ainda não estava preparado para tal texto, ou tema, ou autor. Posteriormente voltei a estes livros, e os enfrentei, apesar de saber que em algum momento terei que voltar a alguns deles novamente. Mas com este recente livro/presente não foi o mesmo caso. E a persistência da angústia entre não querer lê-lo e acabar com o sofrimento e finalizá-lo logo para começar outra obra. E na continuação dessa questão que ainda me persegue, lanço a questão para os leitores do PSQC:

O que fazer com um livro ruim?


Besos.

Obs.: Já terminei o dito cujo.

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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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