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sábado, 15 de agosto de 2009

Tiomac


Pedi o sanduíche. Cinco reais. Pedi a torta de maçã. Que adoro. Três reais. Pedi outro sanduíche. De gula. Mais três reais. Estava na bancada. Perdido em pensamentos. Longe dali. De repente, ao meu lado, surge uma mão. Do nada. Era um menino. Mulato. Mais baixo que eu. Sujo. Cabelos crespos. Carecia de um bom corte fazia tempo. Vestia uma camisa tão grande que parecia ser a única peça que protegia seu corpo. Camisa preta encardida, também suja. Estava descalço. Carregava na outra mão uma caixa para engraxar sapatos. Quando vi aquela mão pedinte tomei um susto. Depois fiquei com medo. Um pouco. “Moço, paga um lanche aí”. “Não, não tenho”. A cena se repetiu com todas as outras poucas pessoas que lanchavam. O menino saiu cabisbaixo. Com sua caixa em uma das mãos. Continuei quase que inerte esperando o pacote com minha janta, para viagem. Iria comê-la em casa. Cena normal. Cotidianamente comum. Até aquele momento só tinha sentido medo, susto e fome, não necessariamente nesta mesma ordem. Por alguma razão passei a olhar para as pessoas que compravam sanduíches e também comiam. Logo depois observei o cartaz que mostrava o preço do segundo sanduíche que comprei meio sem motivo. Três reais. Três reais. Três reais. O lanche demorava. Saí da bancada, fiquei procurando o menino, já fora da loja, eu e ele, ambos na rua. Avistei-o andando, se afastando, se afastando cada vez mais. O lanche chegou. Saí da lanchonete. Fitei o menino e sua caixa, também tão suja quanto ele. Então decidi ir atrás daquele menino. Comecei a correr, senão iria perdê-lo de vista. Passei por vários outros. Meninos, adultos, moradores da rua se preparando para dormir. Corria. Quando cheguei com aquele pacote outras pessoas começaram a me encarar. Comecei a ficar com medo novamente. Medo. Agora estava morrendo de medo. O menino conversava com outro rapaz, mais velho, mais alto do que o menino e do que eu. Tinha cabelos grandes, em cachos, descoloridos. “Pô tio... me dá um aí também, pô!”. Estava morrendo de medo. Eu, não eles. Tirei o pão com carne e queijo, quentinhos, e dei ao garoto engraxate com sua mão suja. Ofereci o lanche quase que correndo. Naquele instante aquela criança me deu um rápido sorriso, talvez tão rápido quanto a minha vontade de sair dali. Então disse rapidamente: “Valeu, tio”. Saí correndo mais uma vez. Queria ir logo para casa. Com meu cansaço de dia cheio de trabalho. Sabia exatamente que o que fiz não significava nada. Absolutamente nada. Nada. Nada mesmo. Mas tudo fez sentido quando aquele menino mostrou aquele rápido sorriso. Torço que minha memória me permita rever esse sorriso por muitos anos. Para que haja pelo menos alguma coisa que ainda faça sentido para mim. Cheguei em casa. O lanche, o pão, a carne, o queijo, o doce da maçã, me saciaram. Mas não matei minha fome.


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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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