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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Racismo


Esta é uma história verdadeiramente vivida e seu teor de autenticidade estará de acordo com a minha memória.

Eu devia ter entre 7 e 9 anos de idade, não sei precisar. Meu primo Fernando (este não é seu nome real) trabalhava em uma rede de supermercados muito popular nos anos 1980 e que não existe mais, era a Rede Rainha, se não me engano. Talvez trabalhasse no setor de armazenagem, no galpão do mercado que ficava ao lado da garagem da empresa de ônibus Nossa Senhora da Penha, em Mesquita, até então bairro da cidade de Nova Iguaçu.

Foi provavelmente uma função de pouca complexidade intelectual, com baixo salário e que proporcionava o convívio com outros trabalhadores na mesma situação. Meu primo ainda era bastante jovem e os primeiros trabalhos de nossas vidas quase sempre não nos colocam em nossa plenitude laboral. Eu também já vivi isso.

Porém este mesmo emprego parecia proporcionar-lhe uma rede de amizades fraternas em seu ambiente de trabalho. E foi nestas condições que em algum momento este meu primo mais velho convidou-me para fazer um passeio com ele e seus amigos do trabalho, passeio provavelmente financiado pela empresa e que levaria seus funcionários e familiares para o estreitamento dos laços de amizade e, obviamente, buscar a melhoria da produtividade. Os passeios de final de semana a diversos sítios que existiam/existem na Baixada Fluminense eram muito comuns nos anos 1980 e 1990. Não sei se ainda são, mas eu fui a vários, inclusive oferecidos e vendidos pelo colégio.

O que me recordo foi da tarde aprazível no sítio, na piscina, nos brinquedos, com crianças que não conhecia e passei a conhecer, com adultos que não conhecia e que me relacionei com bastante integração naquele dia feliz.

No retorno ao lar vínhamos em um grupo: eu, meu primo e mais algumas pessoas, em uma kombi, provavelmente. A volta era divertida como todo o passeio havia sido, os adultos brincavam e contavam piadas, encarnando uns aos outros. Havia eu, meu primo, e talvez mais um ou dois brancos ou com a pele mais clara, o restante do grupo, a maioria, era formado por negros e mulatos.   

Em um determinado momento uma das piadas era perguntar quem ali era o mais feio. Foi quando uma dessas pessoas, à qual jamais lembrarei o nome mas que ao mesmo tempo o rosto ficará eternamente em minhas lembranças, perguntou: 

- "E aí menino, quem é o mais feio?"
- "Você!"
- "Eu? Por quê?"
- "Porque você é preto!"

Aquela resposta que dei de maneira tão natural e automática funcionou como um açoite no ar. Um silêncio e um peso fez-se presente dentro daquele pequeno espaço proporcionado pelo automóvel. Acho que ainda posso sentir o constrangimento de meu primo e da percepção de algo de muito errado que eu havia feito.  

Porém ao invés de ódio e fúria, a imagem que tenho daquele homem e seu rosto negro, bigode escuro, cabelo crespo curto e escuro é de um... sorriso. Não lembro o que ele disse, mas recordo que foi com calma, tranquilidade e fraternidade. Lembro que a mensagem final era de que havia beleza em todos.

Imagino a vergonha que fiz meu primo passar e não posso e nem sei identificar de onde aquela frase e resposta vieram. Não posso isentar ou culpar meu núcleo familiar, ou minha família como um todo, ou meus amigos da época, ou a televisão, ou ninguém... pelo meu ato de racismo infantil. Se fosse para achar uma culpa talvez ela recaísse à nossa história e sociedade por importar e reproduzir o racismo, e a mim mesmo. 

Os detalhes de um belo passeio em um final de semana com boas e bonitas pessoas ficaram sombreados nos recantos do meu esquecimento.  

Uma maldita frase dita ficou talhada em minha memória e nunca mais sairá dela, para que eu sempre me lembre da vergonha que ainda sinto quase 30 anos depois de tê-la dito àquele gentil homem.

E como única maneira de me redimir de minha própria consciência, repito-a agora, dando o sentido do que deveria ter aprendido desde que comecei a me achar "gente".

- "E aí menino, quem é o mais feio?"
- "Não é você, você é o mais bonito!"
- "Eu? Por quê?"
- "Porque você é preto!"



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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