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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Elevador


O quadrado metálico media quatro metros de largura por seis de comprimento. Era uma das máquinas mais luxuosas do mercado. Fundido em seu exterior com titânio e uma liga de ouro que se mesclavam realizando alguns desenhos florais e contendo a sigla da empresa que o produzia em edições limitadas. Seu interior indicava uma decoração art déco em tons de bege e marrom claro, além de pequenos detalhes em rubro, para melhor receber os indivíduos que transitavam pelos corredores refinados da magnânima construção.

O jovem negro apertou o botão, feito de marfim sintético, esperou poucos segundos e logo adentrou ao elevador, seu andar era o trigésimo nono, o último da suntuosa torre. Era jovem, bem jovem, no máximo quinze anos... Talvez dezesseis. Uma mulher adentrou ao recinto mecanizado por roldanas, cabos e um pequeno computador interno, se encontrava no vigésimo quarto andar. Entrou, viu o provável adolescente e permaneceu em silêncio, esperando que o mostrador indicasse logo o T.

O aparelho descia tranquilamente, sem realizar nenhum ruído, e os dois seres humanos em seu interior encontravam-se afastados diametralmente, um em cada canto do retângulo, mantendo a maior diagonal possível. No décimo terceiro andar entraram mais dois homens. No horário de almoço o movimento era menos intenso no agitado complexo empresarial.

O primeiro dos homens a entrar era um rapaz alto, trajando um bem cortado terno azul marinho risca de giz. Cabelos curtos e negros. Íris verdes. Corpo aparentemente atlético. Ao entrar a primeira coisa que fez foi lançar os olhos sobre a mulher que ali estava. Um olhar rápido, discreto, como um soldado que está verificando o campo de batalha pela primeira vez. O segundo era um homem enorme. Media um metro e oitenta e cinco de altura e pesava uns cento e cinqüenta quilos, para ser mais exato, cento e cinqüenta e três quilos. Estava suando pra cacete! Parecia nervoso por algum motivo desconhecido, seu colarinho estava completamente encharcado, e suas axilas mostravam as indefectíveis marcas redondas que manchavam seu blusão rosa, de botão.

A mulher o observou e pensou [nojento!]. Vestia um tailleur cor de chumbo e sapatos scarpin de cor cinza escuro e pontas finas. Saia até os joelhos em um tom dégradé um tantinho mais claro que a peça de cima. Parte superior que delimitava um leve decote que pouco revelava o belo contorno de seus bustos recém re-siliconados. Olhos azuis. Seus cabelos eram tamanho médio, um pouco acima dos ombros, castanhos claros, alisados por escova progressiva, feita dois dias antes. Pele alva. Reparou o olhar veloz do homem de terno bem cortado.

O jovem negro era baixo, tinha cabelos crespos curtos. Olhos negros. Usava um boné vermelho do time de basquete Chicago Bulls. Também usava uma enorme e larga camisa branca, negra e amarela do time de hóquei norte-americano Boston Bruins, além de um grosso colar dourado. O homem gordo lançou um rápido olhar para o reluzente colar. Não dá para saber o que pensava naquele momento.

Estavam os quatro dentro daquele luxuoso aparelho que descia silenciosamente. O gordo e o rapaz de terno estavam próximos um do outro, logo ao lado dos botões com os números dos andares, na entrada. A mulher permanecia em um canto e o menino no canto oposto. Todos em silêncio, apesar de alguns fortuitos olhares.

De repente, ao cruzar o oitavo andar e chegar exatamente à posição equivalente ao sétimo andar e meio, o elevador dá um solavanco, pára e todas as luzes se apagam. [Saco!] pensa o homem de terno. [Logo agora...] pensa o gordo.

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

- AI MEU PAI! PeloAmorDeDeusPutaQuePariuEuQueroSairDaquiTenhoUm
MedoFilhoDaPutaDeFicarPresaNumLugarEscuroEComGenteEstranhaPorra! – disse em voz estridente a mulher de tailleur cor de chumbo.

Logo após a esse pequeno desabafo a luz voltava ao recinto, porém a máquina continuava parada e aqueles olhos aflitos se entreolhavam. A mulher, envergonhada, pede desculpas: – Desculpa, gente! O homem gordo suava ainda mais e agora se encontrava completamente molhado. O homem de terno fitava o gordo com olhos complacentes e com alguma pena [gordo filho da puta, deve ser por sua causa que essa porra enguiçou].

O menino, pela primeira vez, dirige o olhar e a palavra à mulher, dizendo: - Dona! Fica tranqüila que logo logo eles consertam isso aqui, num demor... Ela o retruca: - Ô moleque, o que você entende de manutenção de elevadores de luxo? E ele: - Entendo um pouco [Patricinha de escritório escrota! Tá pensando que é alguma coisa?]. Ela diz: - É... Gente como você entende desse tipo de coisas mesmo...

O rapaz de terno tenta acalmar o ambiente falando para que todos fiquem tranqüilos e que esse tipo de problema é inteiramente normal. Era somente apertar o botão de emergência que em poucos minutos todos sairiam daquela situação sãos e salvos. A mulher gosta da fala do charmoso homem. A troca de olhares se intensifica. [Gostoso] ela pensa. [Gostei da roupa, deve ser executiva] pensa ele. [Gordo] pensa o garoto. [Pretinho cafona! Essa porra deve ser boy...] pensa o gordo.

O calor aumentava, pois se no recinto ainda havia luz, o ar condicionado estava desligado. O nervosismo e a temperatura subiam cada vez mais.

- Ô moleque, será que você não consegue sair pelo teto e chegar no próximo andar? – fala o belo homem de terno.
- E quem é tu pra me chamar de moleque? Você sabe com que... – tenta responder o rapaz.
- Cala a boca aí ô pivete! – grita o gordo, interrompendo-o.
- É isso aí, cala a boca mesmo – confirma a mulher.
- E tu? Maior chorona covarde! – caçoa o jovem.

O gordo nesse momento não se agüenta e gargalha. No mesmo instante a mulher enfurecida solta: - Não ri não, não ri não, seu gordo seboso e nojento. Deve ter sido por sua causa que esse elevador parou! Se você não fosse tão obeso essa porcaria não ficaria aqui parada e ainda por cima fedendo a suor.

O gordo engole a seco. E o silêncio retorna ao recinto... Um soluçar. Um pequeno barulho. Um barulhinho. Um choro. O homem gordo começa a chorar. Começa a chorar copiosamente. Chora como uma criança que perdeu o sorvete de creme que acabou de ir ao chão. Ele adorava sorvete de creme quando era criança.

Mais uma vez o rapaz de terno tenta acalmar as coisas dizend...

- Cala a boca seu playboyzinho de merda – grita o homem que ainda chorava – Quem é você para tentar me consolar? Você tá dando uma de bonzinho só porque quer comer essa gostosa metida à besta!

O belo rapaz abre a boca, mas nada sai de seus lábios.

Não havia mais a possibilidade de se mensurar o tempo naquele local. Uma eternidade de segundos fazia parte de suas vidas naquele luxuoso, fedorento e estacionado elevador. Porém mais que de repente a luz volta a cair, todos gritam, a luz volta e aparentemente o ar condicionado retorna o seu zunido. A máquina começa a se mexer lentamente, descendo, voltando ao movimento para a chegada definitiva ao sétimo andar. É quando ocorre um forte estrondo, a luz se apaga, a velocidade aumenta, um puxão brusco e intenso joga todos ao chão. O elevador cai violentamente.

Em uma das inúmeras manchetes do dia seguinte lê-se:


ACIDENTE EM ELEVADOR DE LUXO MATA QUATRO PESSOAS
Há uma mulher entre os quatro mortos e que posteriormente verificou-se ser a principal agenciadora de prostitutas de luxo em uma sala que funcionava no vigésimo quarto andar do mesmo prédio. Também faleceu um modelo internacional no terrível acidente. Fontes seguras indicam que ele fecharia seu primeiro contrato com uma revista gay masculina, devido à decisão de tornar pública a sua orientação sexual depois de sua separação com uma ex-modelo. Um segundo homem também morreu. Legistas indicaram que as mortes do modelo e da mulher ocorreram devido a fraturas múltiplas. O corpo deste outro homem foi encontrado em cima dos outros dois corpos. Parentes afirmam que ele estava a caminho do hospital para a realização de uma redução de estômago. Por fim noticiamos a morte do único filho do empresário que era justamente o dono de todo o complexo empresarial. A família comunicou à imprensa que o funeral durará uma semana e que não se pouparão esforços (dinheiro) para que todas as homenagens sejam feitas ao único herdeiro do império do homem que iniciou sua carreira vitoriosa construindo elevadores para grandes empresas e indústrias”.

Licença Creative Commons
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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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