(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O ódio pela televisão e o ódio pela televisão?




Passei toda minha infância existindo durante os anos 1980. Como todo menino de classe média baixa (às vezes baixíssima), e ainda vivedor e morador da Baixada Fluminense, minhas principais brincadeiras e diversões eram obviamente me reunir nas calçadas com todos os primos e crianças vizinhas, jogar bola no campinho de terra batida e... ver televisão! Os videogames apareceriam depois. Um Atari e muito tempo depois um MasterSystem. Mas sim, a televisão era uma grande diversão.

A memória afetiva é grande, pois para mim são ainda muito claras as imagens de meus pais à noite vendo novelas e filmes, e tentando me proibir de acompanhá-los porque já fazia tarde da noite. Hoje sou um notívago às vezes convicto, às vezes envergonhado, até porque sofro muito fisicamente por esta situação. Mas que eles tentaram me tirar esse hábito, ah tentaram! A culpa é minha mesmo, mas o prazer também. Tínhamos um televisor Telefunken à válvula, isso quer dizer que quando o cristal esquentava a imagem ficava igual à tv com estática. O técnico frequentava minha casa quase que mensalmente, virou inclusive amigo da família. Até que depois de muitos anos ele se negou a consertar a antiga Telefunken e disse para minha mãe "A senhora tem que comprar uma televisão nova, essa aqui eu não conserto mais".   

E as memórias são facilmente identificáveis. Iremos a elas: Superman, o filme (I e II), Superman III, Roque Santeiro, Memórias de um Gigolô, Guerra nas Estrelas (todos os três), Rambo I e II, E a gata comeu, Plunct Plact Zum, A arca de Noé, Bozo (Papai Papudo: Que horas são amiguinhos? Cinco e sessenta!), os Trapalhões (todos), Clube da Criança, o Show da Xuxa, Ultraman, Spectreman, O rapto do menino dourado, Tira da pesada, Loucademia de Polícia, Chacrinha, Programa Silvio Santos, desenhos da Rede Manchete, e muito mais.

Obviamente que estou falando de tv's abertas que concentravam-se nas emissoras Globo, SBT, Manchete, TVE, Record (que vivia grande decadência à época), Bandeirantes. Depois surgiu a CNT e parava por aí

Como criança e pré-adolescente não entendia nada sobre poder e mídia, política e concessões públicas, só sei que gostava de ver televisão, e muito, pois era uma de minhas melhores diversões. O primeiro contato mais político que tive iniciou- se com a campanha para as primeiras eleições diretas presidenciais, já no período democrático em 1989. Também é clara a forte imagem da morte de Tancredo Neves, o caixão um pouco suspenso e seu rosto aparecendo pelo vidro, minha mãe chorando, Fafá de Belém chorando ao cantar o hino nacional na televisão, "Coração de estudante" tocando sem parar... imagens ainda muito fortes.

Meu avô Tuninho era um fã empedernido de Leonel de Moura Brizola. Vibrava com os discursos eloquentes do político que à época tornou-se governador do Estado do Rio de Janeiro. Política mesmo eu tive contato pela primeira vez com o direito de resposta conseguido por Brizola no já histórico momento em que Cid Moreira, o rosto da Rede Globo à época, leu com sua voz grave o texto não muito elogioso a Roberto Marinho e sua empresa de comunicação. Sim, eu assisti Cid Moreira ler tal texto ao vivo.  

Os anos se passaram, os estudos e a busca cada vez maior por informação mostrou-me o papel preponderante dos conglomerados de mídia no Golpe de 1964. As produtoras de "sonhos" também ajudaram a produzir anos de mais puro terror político-militar em nosso país. A Rede Globo de Televisão, criada em 1965, foi uma das grandes apoiadoras e beneficiárias do golpe militar, e de sua manutenção também. "Muito além do cidadão Kane" documentário político, e quase maldito, contra a Rede Globo e facilmente encontrável no youtube explicita uma visão pouco aberta à massa sobre como este grande conglomerado empresarial obteve sucesso nos anos de chumbo. Vale também lembrar, como uma pequena pílula vermelha, a fala do ditador Garrastazu Médici, que em um determinado momento disse “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”1.

Vale lembrar também a omissão da Rede Globo na campanha das Diretas Já!, a associação com a Proconsult na divulgação de informações falsas sobre as eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro no início dos anos 80 e em que Brizola foi eleito, a produção do programa "O caçador de marajás" vinculado no Globo Repórter e a manipulação da edição do debate entre Lula e Collor para o favorecimento do segundo (que ganhou, levou, mas não ficou, em movimento também orquestrado pela mídia para sua derrubada por efetivas denúncias de corrupção) nas já mencionadas eleições de 1989.

Nos anos 1990, com a vitória do neoliberalismo e de Fernando Henrique Cardoso e o PSDB, seu papel resumiu-se a tentar não explicitar demais, juntos com outras empresas de mídia, os muitos escândalos de corrupção estouradas à época. 

Nos dias atuais Rede Globo continua, através de seu jornalismo e em todos os canais e empresas que lhe pertencem, de seus articulistas a editorais no jornal O GLOBO, mantendo e expandindo seu padrão conservador, tanto em suas colocações sobre política quanto em suas percepções econômicas, sempre atuando em desacreditar e criminalizar qualquer movimento social que lute por mais democracia popular direta, ou propostas de mais democracia nos meios de comunicação. Já se declarou contrária à taxação de mais impostos a grandes fortunas e à regulação da mídia, por motivos mais do que óbvios.

Mas então como se relacionar com questões tão pertinentes e claras, assim como contrastantes e quase que contraditórias? Em que uma empresa nacional (há relatos de que dinheiro da Time/ Warner tenha entrado para a expansão da Rede Globo no período da ditadura, apesar de ser limitado constitucionalmente o investimento estrangeiro a empresas de comunicação nacionais) gera milhares de empregos, desenvolve conteúdos audiovisuais nacionais premiados e ressaltados mundialmente e detém ainda, mas em franca decadência, altos índices de audiência. Porém e ao mesmo tempo mantém uma relação tão intrínseca com a manutenção da mesma elite econômica que domina o país há décadas e atua sempre de forma contrária a qualquer tentativa de empoderamento popular.

Acredito não existir resposta fácil ou simplista. De fato há inúmeras nuances a serem observadas nesta complexa dialética. Se no alto comando administrativo e editorial temos a aproximação com o conservadorismo político e o liberalismo econômico, a Rede Globo (especificamente) notabilizou-se, em muitos momentos, na diversidade de seus quadros em sua produção artística. Comunistas históricos como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho, Jorge Amado, entre muitos outros, participaram decisivamente como produtores de conteúdo da empresa, por mais que não tivessem total liberdade sobre o que era produzido, mas qual profissional de grandes conglomerados empresariais tem tal liberdade, inclusive nos dias atuais?

Porém a questão que se coloca e que considero extremamente pertinente no momento atual é: Deve-se demonizar aprioristicamente qualquer produto confeccionado pela Rede Globo ou qualquer outra grande empresa tradicional de mídia no Brasil? E mais uma vez repito a resposta já dada: Não há respostas prontas. Porém é pertinente chamar a atenção a dois casos recentes e de grande repercussão.

O primeiro foi o grande frisson causado pelas críticas contundentes de movimentos feministas e negros contra a mini-série O Sexo e as Nega, escrito e dirigido por Miguel Falabella. A série foi livremente inspirada em Sex and The City, onde bem sucedidas mulheres brancas novaiorquinas relatam suas experiências afetivas e sexuais na contemporaneidade.    

Logo de cara considero que exprimir a analogia foi o primeiro grande erro estratégico de lançamento e apresentação da série, pois as mulheres retratadas no seriado nacional são negras, pobres, moradoras de favelas e comunidades pobres. Essa associação direta entre realidades efetivamente diferentes, apesar da contemporaneidade vivida por todas, seria prato cheio para a percepção coletiva de representação da mulher-negra-pobre brasileira através dos esteriótipos recorrentes e persistentes em nossa sociedade e história. O título do seriado só corrobora esta percepção e as críticas à analogia inicial e ao título encontram eco sim na reprodução destes esteriótipos. Mas para mim a questão principal em relação às críticas desferidas por movimentos feministas e negros, e a grande maioria da mídia independente e de esquerda, é: O seriado foi duramente criticado e taxado de racista antes mesmo de ser visto! 

E como enunciado logo acima, as primeiras críticas podem ser consideradas pertinentes dentro do amplo contexto histórico e reprodutor de desigualdades materiais e simbólicas que vivemos em nosso país. Mas efetivamente é possível classificar um conteúdo de racista antes mesmo de ser visto ou consumido? E foi exatamente isto que vimos neste caso. Se por acaso durante a exibição ou ao final da série a mesma fosse indiretamente e simbolicamente racista, as críticas deveriam e devem (caso efetivamente isto se confirme) ser feitas, mas antes? Se odeia o Paulo Coelho antes de se ler pelo menos um livro dele? No Brasil, sim. Acredito que em outras partes do mundo também.

Neste caso o mais interessante foi quando o deputado federal Jean Wyllys declarou não considerar o seriado O Sexo e as Nega e nem Miguel Falabella racistas. Bastou para ser chamado de "afroconveniente". E não, não estou aqui para fazer campanha para o deputado, mas é reconhecida sua militância a favor dos direitos LGBT, das religiões afrobrasileiras, dos direitos de mulheres e negros. Porém parece que infelizmente a esquerda, representada não somente por partidos políticos mas por movimentos sociais e representações da sociedade civil, ainda vive sob o auspício da pauta única e coordenada, onde mesmo que se defenda os direitos humanos de maneira irrestrita, fugir da pauta por questões filosóficas e particulares irromperá ao que o pior a mesma esquerda ainda produz, o patrulhamento. Se críticas a algum aspecto sobre cotas fizer, racista será. Se reflexões sobre a separação física entre sexos realizar, como por exemplo em vagões de metrôs e trens, misógino será. Se programas da Rede Globo elogiar... alienado, misógino, racista, vendido, reacionário e todos estes não muito positivos adjetivos aglutinará. Não estou elogiando O Sexo e as Nega pois sequer o assisti. Posso falar do "mal gosto" do título ou da infelicidade da analogia, mas classificar algo de racista antes de mesmo de assisti-lo... jamais.   

Neste momento já posso sentir a acidez da bílis a ser produzida em alguns sistemas digestivos ao lerem estas minhas palavras, mas a estes só posso dizer e escrever: o antiácido de minha consciência me livra de qualquer temor de patrulhamento ou dirigismo, mesmo que seja de gente bacana e que luta por mais direitos humanos, assim como eu.

Mas para tornar ainda mais completa e complexa nossa digressão sobre ódios e ódios pela televisão, trago a enorme polêmica do especial sobre Tim Maia, também produzido pela Rede Globo. Especial baseado em filme lançado em 2014, este baseado em biografia realizada por Nelson Motta. De antemão o próprio filme já havia sofrido críticas por tornar um tanto quanto unidimensional um artista do talento e da complexidade de Tim, mas uma obra cinematográfica sempre será um recorte escolhido sobre uma obra que pode ser mais aprofundada, como no caso de uma biografia em formato literário.

O que mais chama atenção neste caso é que Tim Maia na parte final de sua vida e carreira tornou-se um grande antagonista da Rede Globo, e principalmente do jornal O GLOBO. Antagonismo que pode ser visto em entrevistas gravadas e dadas por Tim, onde o mesmo relatava que fora vetado em participar de programas musicais na empresa do Jardim Botânico. No livro de Nelson Motta e no filme de Mauro Lima, Roberto Carlos aparece menosprezando e humilhando Tim Maia, este em começo de carreira. No especial exibido pela Rede Globo, com trechos do filme, relatos de famosos e novas cenas gravadas com um dos atores que representam o cantor no filme, recolocam Roberto Carlos como um "amigo" que lançou "o gordo mais querido do Brasil". O Nelson Motta do seriado da Globo desdiz o Nelson Motta que escreveu a biografia. O filho de Tim Maia declarou que tanto no filme quanto na série seu pai "não merecia algo tão tendencioso". Mas como então um artista tão crítico da Rede Globo torna-se produto a ser explorado e vendido por tal emissora, esta a esconder as fortes críticas feitas à mesma pelo próprio retratado. Só pode haver uma explicação: Tim Maia foi e é um artista extremamente popular. E ser popular e ter o amor do povo invariavelmente provoca audiência, algo que anda escasso nas tradicionais mídias nacionais.

E esses dois exemplos que trouxe, atrelados à minha história afetiva e crítica em relação à televisão brasileira, tendo como base de observação a Rede Globo de Televisão, servem para tornar ainda mais complexa, mas também mais ilustrada a afirmação e a pergunta: O ódio pela televisão ou o ódio pela televisão?

1 Referia-se ao Jornal Nacional da Rede Globo.


Texto originalmente publicado no espaço Palavras, Películas e Cidades na plataforma de cultura colaborativa Obvious.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.
   

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PSQC na França!


Gente... para a imensa alegria do PSQC nós estamos na França! Sim, a Editora Anacaona, especializada em literatura brasileira e que publica autores brasileiros na França, fez uma matéria sobre o Palavras Sobre Qualquer Coisa e uma breve entrevista.


Estamos muito muito felizes! Para ler a matéria é só clicar no link abaixo, ela está em francês e português (ao final). Prestigiem a literatura nacional e principalmente o espaço para autores da Baixada Fluminense e periferias do Rio e do Brasil.


Merci.

Um trechinho em francês... para ler a matéria toda é só clicar no link ao final.


Alors que les auteurs Ferréz et Rodrigo Ciríaco se préparent à quitter São Paulo pour Paris dans quelques semaines à l’occasion du Salon du Livre, les éditions Anacaona poursuivent leur valorisation de la littérature des périphéries, aussi appelée « marginale » au Brésil.
Nous nous présentons l’écrivain Vinícius Fernandes da Silva, auteur du blog Palavras Sobre Qualquer Coisa (Des mots sur tout et rien), implanté et attaché à la région métropolitaine carioca de la Baixada Fluminense. Découvrez son travail, avec une version de l’entretien en portugais ci-dessous.

Peux-tu te présenter et décrire ton projet ?
Je m’appelle Vinícius Fernandes da Silva, j’ai 35 ans. Je suis né à Nova Iguaçu à Rio de Janeiro, j’ai grandi dans le quartier Mesquita et j’habite actuellement à Belford Roxo avec mon épouse. Je suis habitant, défenseur et critique du territoire qu’on appelle Baixada Fluminense.
Je suis poète, écrivain et professeur, doctorant en planification urbaine et en sciences sociales. Aujourd’hui, je suis professeur de sociologie à Rio de Janeiro. J’ai créé et géré le blog Palavras Sobre Qualquer Coisa depuis 2007 et en 2011 j’ai lancé le livre éponyme aux éditions Multifoco. Le livre a reçu la mention honorable dans la catégorie Littérature du Prix Baixada Fluminense de 2012.
L’idée initiale était de publier des poèmes que j’avais écrits, et peu à peu se sont ajoutés des nouvelles, des chroniques, des articles, des textes académiques, des critiques artistiques, des commentaires politiques, ou des présentations d’oeuvres et d’artistes en général. Le blog n’a jamais bénéficié d’aucun soutien financier ou commercial, précisément pour disposer d’une entière liberté éditoriale.

http://www.anacaona.fr/info-favela/voix-peripherie-rio-de-janeiro/



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Dadivisão, por Marco Vinícius Lamarão


Vamos que estou indo

Para mais um ano

De novo passagem e rito

De infinitos planos

Para tempos finitos

de rua e de panos

fileiras e bandeiras!



Pra feios e bonitos momentos

Onde mormente direi: movimente-se

E reclamarei dos seus parênteses

Se neles não houverem ensinamentos



Que nos faça sair do confinamento

Desta individualidade bigbrotizada

Em cada passo um tormento

Pois que dói a consciência recobrada



Afinal, ela foi retirada da lancinante branquidão

Lá, jogada em meio as traças e às verdades fragmentadas,

Que fizeram da falsa incoerência seu chão

No lugar onde as mudanças minam

Quando homens e mulheres se indeterminam



Que indeterminação que nada!

Vamos que te chamo, pois que tenho percebido

Enquanto continuo andando

Aprendendo, ensinando e seguindo:

que a melhor forma de multiplicar

é buscar sempre estar dividindo.



Marco Vinícius Lamarão - Professor, militante, mil e tantos, metido a poeta e escritor, semi-músico, proto artista incubado, vídeo-maker inapto, mas sei fazer batatas souté. Dizem que sou formado em história, com mestrado em educação e que dou aula no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, mas eu duvido. Não passo, não lavo, não faxino e cobro caro, pois como todos nós- doença endêmica- por me dar preço, perco o meu valor. É nesta negação afirmativa que, quando não estou trabalhando, vivo. Não sou flamenguista e nem corintiano e esta coluna literária só não é mais torta do que a minha. Quanto ao que debateremos aqui: tudo e nada, cada qual em seu parágrafo ou não. Amém.



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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Projeto "O Espírito da Coisa"

OLÁ AMIGUINHO/A, TUDO BEM? VOCÊ ME RESPONDERIA UMAS PERGUNTINHAS?

O PSQC tem o intuito de realizar um projeto de crowdfunding (financiamento coletivo) neste ano de 2015. O projeto se chama O ESPÍRITO DA COISA e funcionará assim:

1) A construção de uma plataforma virtual (site) que receberá textos de novos autores da Baixada Fluminense, de periferias do Rio de Janeiro ou até mesmo de periferias de todo o país;
2) Qualquer tema ou conteúdo poderá ser abordado (sendo vedado qualquer discurso de ódio) e a publicação no site será gratuita;
3) Os textos enviados passarão por um período de votação pela internet;
4) Os textos mais populares entrarão na publicação de uma revista literária luxuosa e lindona a ser confeccionada trimestralmente (provavelmente);
5) Os autores não pagarão nenhum centavo para terem seus textos publicados na revista. O único trabalho é fazer a divulgação e torná-los populares, curtidos ou votados, para que possam ser publicados.


Perguntas:
Você contribuiria financeiramente neste projeto?
Com qual valor você estaria disposto a contribuir?
Realizando a contribuição, que recompensas (brindes) você gostaria de receber?
Gostou da ideia? Tem sugestões a nos fazer?

Para quem ainda não sabe muito bem o que é crowdfunding, adianto que se trata de algo bem próximo a nós, o que nos acostumamos chamar de "vaquinha". Mas o PSQC prefere chamar de: concretização de ideias de forma coletiva!

Quer saber mais sobre o assunto? Então acho que este vídeo pode te ajudar:


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu não sou carioca!



Eu nasci no Rio de Janeiro, mas não sou carioca. 

Rio de Janeiro e São Paulo são os dois estados da federação em que Estado e Capital se confundem em seus nomes. Portanto em São Paulo há paulistanos e paulistas. No Rio há cariocas e fluminenses. Porém diferentemente de São Paulo, essa distinção no Rio de Janeiro parece ser muito mais fluida, principalmente para quem vive na chamada Região Metropolitana do Estado, ou Grande Rio, onde estão a cidade do Rio de Janeiro e os municípios ao seu redor. No Rio de Janeiro há então como distinção os cariocas da "gema" e os cariocas.

Eu não sou carioca. Para mim 20 graus não é inverno. Eu não vou ao shopping de chinelo. Eu não gosto de horário de verão. Eu não tomo chopinho na praia depois do expediente. Eu não moro pertinho da praia. Eu não aplaudo o pôr-do-sol no Arpoador. Eu não vou à praia da Barra aos finais de semana. Não frequento o Baixo Gávea. Não tenho o corpo bronzeado de Sol. Não malho para ficar desfilando de sungão nas areias das praias da Zona Sul. Não vou à rodas de samba. Não torço para nenhuma escola de samba. Não decoro os sambas-enredos. Não passeio de bicicleta pela Lagoa. Não ando diariamente pelo Jardim Botânico. Não vou ao carnaval de rua. O garçom não é meu amigo e não sei o seu nome. 

Eu sou fluminense. É duro um botafoguense ter que afirmar isso, mas acredito que para flamenguistas e vascaínos a "dor" seja a mesma. Sou nascido, criado e habitante da Baixada Fluminense. Esta região, a Baixada, é composta mais ou menos por 13 municípios (existem diferentes tipos de classificação), mas quem nasce e habita alguma de suas cidades, sabe que há uma relação intrínseca entre quase todas elas.

Não, eu não o odeio a cidade do Rio de Janeiro. Muito pelo contrário. Minha vida acadêmica, profissional e cultural se fez andando pelas ruas do Rio. Fiz o antigo segundo grau no Maracanã/Tijuca, fiz a graduação e mestrado no coração do Centro, trabalhei anos no Galeão e meu doutorado também foi pelas terras da Ilha do Governador, para ser mais exato na Ilha do Fundão. Trabalhei na Glória, frequentei casas de amigos na Zona Sul, cinemas, teatros, festas e, raramente, praias também por lá. 

Na minha adolescência, e talvez juventude, tive vergonha, às vezes, em dizer que era da Baixada Fluminense. Porque quem é da Baixada vive em um certo limbo identitário. Estamos próximos demais do Rio, e por isso embebidos por essa "entidade" carioca, mas não temos os benefícios que a cidade do Rio de Janeiro possui. Ao mesmo tempo não estamos distantes o bastante para assumirmos outras identidades territoriais, como quem vive em Campos, Macaé, Itaperuna ou até mesmo Petrópolis ou Niterói, que já foram capitais. A primeira foi "capital de veraneio" da família imperial, a segunda foi capital do Estado do Rio de Janeiro, enquanto a cidade do Rio de Janeiro era a capital do Estado da Guanabara (vai entender?).

A positividade atrelada à identidade territorial e cultural do Rio foi forjada no Brasil a partir da década de 1950, com a Copa do Mundo e os processos de internacionalização da imagem do país realizados em um dos breves períodos em que efetivamente fomos uma democracia no século XX. A música, principalmente com o Samba e a Bossa Nova, foi outro caminho de construção desta identidade que, de certa forma e durante anos, projetou ao mundo e ao próprio Brasil o que é ser do Rio de Janeiro. Ser carioca é percebido por muita gente como ser... brasileiro, apesar dessa afirmação não ser mais uma unanimidade. Com o passar dos anos e em outros estados do país ocorreu uma transformação. Uma carga negativa formou-se em se dizer que é do Rio, pois parece haver uma percepção de "malandragem" ou "desvio moral" em quem fala com "chiado" entre o -t.

Porém essa identidade não é fixa, ela se desloca. Há também os favelados e os suburbanos cariocas, que sofrem com as agruras da violência, da desigualdade social e econômica, mas que de certa maneira também foram incorporados pela idealização e romantização do arquétipo do que é "ser" carioca, onde o samba, o funk e outros elementos populares fundem-se à alta cultura praiana e intelectual da Zona Sul. Políticos que não possuem absolutamente nada a ver com subúrbios ou favelas souberam se utilizar muito bem deste expediente identitário e simbólico, vale lembrar das campanhas eleitorais de Sergio Cabral e Eduardo Paes. 

Como escapar da explosão de beleza e cores ao sair do Túnel Rebouças e dar de cara com a paisagem da Lagoa e seus entornos? Onde efetivamente se tem a impressão da perfeita harmonia entre Natureza e Urbes (apesar de sabermos que não é muito bem assim). Algumas partes do Rio de Janeiro são inacreditavelmente extasiantes, e não é difícil de compreender porque os gringos ficam completamente enlouquecidos quando aqui/lá chegam.

Mas... e os fluminenses? Bom, também e basicamente convivemos com esteriótipos muito fortes. Como "cariocas" temos quase todas as associações pertinentes aos cariocas da gema, quase... Mas com o adendo da percepção coletiva da extrema violência, da extrema pobreza, da extrema sujeira, da extrema falta de urbanização. Não que estas percepções não reflitam a realidade. Mas não definem absolutamente quem somos.

Para exemplificar podemos demonstrar a fala de dois candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro durante a campanha eleitoral de 2014. Marcelo Crivella disse que devia-se melhorar as oportunidades de trabalho na Baixada "para que eles (bandidos) não venham de lá para roubar na Capital". Pezão, atual governador, ao justificar a preferência da ida do Metrô à Barra ao invés da Baixada disse que "era para dar mais conforto às empregadas domésticas e ao pessoal que trabalha no comércio da Barra". Portanto não haveria saída identitária a quem nos governasse: morador da Baixada ou é "bandido" por falta de oportunidades ou tem trabalho "subalterno". Há milhares de empregadas domésticas e comerciários na Baixada, e isso nos engrandece, mas somos muito, mas muito mais do que somente isso. Eu sou doutor, mestre, sociólogo, poeta, escritor e professor titular do Colégio Pedro II. Eu sou da Baixada Fluminense! E muitos outros "iguais" a mim também são ou estão no processo de mobilidade social, cultural e educacional.

Então em um determinado momento (não sei quando) decidi ter orgulho por ser fluminense, em ter nascido nesta terra e viver neste território. Hoje vivo na Baixada porque minhas famílias vivem aqui, meus amigos, porque o custo de vida é mais baixo e por uma decisão política. Sim, política! Continuarei reclamando, gritando, comparando e apontando as diferenças de nossa rede urbana e de saneamento, nossa terrível deficiência nos transportes urbanos, a falta de produtos e dispositivos culturais de alto nível, nosso corpo político coronelista e retrógrado, nossa bárbara violência (eu, minha esposa e sogra fomos violentamente assaltados na tarde do dia 08/01/2015 em Nova Iguaçu). Mas também ressalto e lembro dos vizinhos que formam grandes famílias em calçadas largas, da integração simbiótica entre as muitas cidades, dos banhos de cachoeira no Parque de Mesquita/Nova Iguaçu, em Tinguá ou no Parque do Gericinó em Nilópolis. Da pipa na rua. Do futebol no campo de terra. Da piscininha de plástico na laje.

E antes que pensem que sou anti-carioca, digo que não sou e não quero ser anti-nada, mas sim ser múltiplo. E neste momento de minha vida sinto-me cada vez mais fluminense, iguaçuano, mesquitense, nilopolitano, belford-roxense, queimadense, caxiense, meritiense, etc. E até... carioca.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

pra mim o tempo sempre durou mais


sempre quis que o tempo fosse mais curto
como um Rimbaud a produzir sua obra prima na juventude mais tenra

que a genialidade escorresse entre os poros de minha carne ainda dura
que a corrosão do conhecimento espontâneo saltasse pelos olhos espantados

sempre quis o elogio da surpresa pela inteligência tenaz
como do gozo do cientista pela complexidade simples da descoberta

que a serenidade transparecesse pelos golpes de pequenos dedos
que o charme da inocência superior inflamasse a todos e a todas

tolo
tolo

pra mim o tempo sempre durou mais
como o bolo que sola sem se perceber

como o capataz que se demora a notar que é capataz
como o escriba que faz e refaz seu ofício porque dele depende

como o escultor que martela a pedra bruta sem nunca parar de lascar
como o torrão de açúcar que como ambrosia fosse

pra nunca esquecer que de gênios Gaia se faz de poucos
e de ferreiros necessita para a eterna manutenção do devir.



sempre quis que o tempo fosse mais curto
como se para esquecessem dos poucos erros ainda acumulados

que os platônicos amores permanecessem em suas áureas eternas
que a inspiração transbordasse a todo momento que requerida

sempre quis a saliva mais ácida e o mel mais doce a estalarem no céu da boca
como do anseio de Dorian para com a beleza mais divinal

que a glória mais profana iluminasse o passar das horas
que o apupo das palmas se deflagrasse ao sibilar de palavras ao vento

tolo
tolo

pra mim o tempo sempre durou mais.






















Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

sábado, 27 de dezembro de 2014

A Caixa de Afetuosidades






























Alguns anos atrás, acho que há mais de dez, uma grande amiga me deu um presente inusitado. Uma caixa de papelão grosso encapada por ela mesmo, em papel presente prateado, listrado e brilhante. Uma caixa... vazia! 

Em nossa tradicional cultura ocidental, dias festivos são preenchidos com embrulhos e caixas cheias de presentes! E assim vamos com nossos dias das Mães, dos Namorados, dos Pais, dos Amigos, das Crianças, Natais, fazendo a alegria do comércio, enchendo de "notícias" os comentaristas econômicos ávidos por crescimento, crescimento e mais crescimento. Não que essas pessoas não sejam importantes ou que estes dias não devam ser comemorados, mas até nossas homenagens foram capitalizadas pelo fetiche da mercadoria. Eu também fui cooptado por este fetiche, e nas vésperas de tais dias, lá vou eu encher shoppings centers e lojas para comprar presentes, e se não o fizer, correrei o risco de ser taxado de filho ingrato, marido insensível e etc. 

Mas e o que fazer com uma caixa vazia? A princípio... a dúvida, mas depois encontrei um destino à mesma. Ela seria a minha... Caixa de Afetuosidades! Isto significaria que a partir de então todo e qualquer documento, papelzinho, lembrança, cartas de amor, bilhetes de filmes, peças teatrais, shows ou eventos que fizessem me religar a uma emoção significativa, entrariam na caixa. Algo que achei que seria banal, tornou-se um marco que considero importante. 

E depois de tanto tempo, minha Caixa de Afetuosidades está cheia, abarrotada de papéis e lembranças que contam um pouco minha vida através de sentimentos e emoções, amores e desamores, acontecimentos vividos antes ou depois de casado, de formar nova família, de fazer novas ou desfazer velhas amizades. Pelos caminhos desconhecidos em que a vida nos traz e nos leva, a amiga que me presentou com a Caixa hoje não faz mais parte do rol de meus amigos mais íntimos. Na verdade nem trocamos mais palavras. E se me perguntarem "o por quê disso"? Não sei responder. Obviamente que erros cometi nesta relação de carinho e amizade, nunca com a intenção da mágoa ou do ressentimento, mas talvez coisas muito intensas tenham destinos mais dramáticos. Elucubrações de quem sabe muito pouco sobre os mistérios dessa grande surpresa que é a vida. Mas ao olhar para a Caixa, o amor e amizade que sinto por ela continuam presentes, porque não existe ex-amor, amores apenas se transformam.

Com o passar de todos estes anos a Caixa continua firme e forte, com claros desgastes que só o tempo pode proporcionar. Com sua tampa a rachar nas pontas, com o papel a descolar de suas paredes, com o brilho prateado a ficar fosco, com a poeira que se não se cansa de lhe sujar. Mas continua ali, altiva e viva, ainda recebendo, de vez em quando, os talhos de memória que a fazem cumprir a missão que lhe dei.

Hoje já se faz necessário uma nova Caixa de Afetuosidades, um novo recipiente para novas emoções, lembranças e aventuras. Para que os acúmulos possam ter representatividades materiais, não somente em fotografias, mas em pedaços que em um simples toque ou olhar, tragam a explosão de memórias e afetos já vivificados.

E se eu chegar à mais profunda velhice, meus descendentes poderão ouvir minhas histórias de meus lábios murchos, mas quando aqui não mais estiver, minhas Caixas de Afetuosidades ajudarão a revelar com mais carinho e amor os sentimentos que permearam minha vida.    

E você, já fez ou ganhou sua Caixa de Afetuosidades?


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

CINEFILIA: MELHORES FILMES DE 2014, por Samantha Brasil

Final de ano combina com listas e como todo cinéfilo adora uma lista de melhores filmes do ano eis aqui uma recheada. Já que 2014 foi um ano repleto de filmes interessantíssimos, não me detive a fazer uma pequena lista de 10 melhores como é de praxe. Aproveitei o ensejo, me inspirei e dividi a lista em categorias, pois o mundo vai muito além de Hollywood. Corram atrás dessas pérolas do cinema nacional e mundial porque 2015 já está batendo à porta e novas produções estão por vir.



FILME (LÍNGUA INGLESA): ELA, de Spike Jonze.

























1) ELA, de Spike Jonze
2) SOB A PELE, de Jonathan Glazer
3) BOYHOOD, de Richard Linklater
4) 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO, de Steve McQueen
5) NEBRASKA, de Alexander Payne
6) O ABUTRE, de Dan Gilroy
7) O CONGRESSO FUTURISTA, de Ari Folman
8) O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, de Wes Anderson
9) MIL VEZES BOA NOITE, de Erik Poppe
10) THE ROVER – A CAÇADA, de David Michôd


FILME (LÍNGUA NÃO-INGLESA): MISS VIOLENCE (Grécia), de Alexandros Avranas.



1) MISS VIOLENCE (Grécia), de Alexandros Avranas
2) INSTINTO MATERNO (Romênia), de Calin Peter Natzer
3) MOMMY (Canadá), de Xavier Dolan
4) O PASSADO (Irã), de Asghar Fahradi
5) RELATOS SELVAGENS (Argentina), de Demian Szifron
6) IDA (Polônia), de Pawel Pawlikowski 7
7) A MONTANHA MATTERHORN (Holanda), de Diederik Ebbinge
8) GLÓRIA (Chile), de Sebastian Lelio
9) ALABAMA MONROE (Bélgica), de Felix Van Groeningen
10) CÃES ERRANTES (China) de Tsai Ming-Liang


FILME NACIONAL: O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra.

























      1) O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra
2) UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA, de Gustavo Galvão
3) VENTOS DE AGOSTO, de Gabriel Mascaro
4) O HOMEM DAS MULTIDÕES, de Marcelo Gomes
5) O MENINO E O MUNDO, de Alê Abreu
6) QUANDO EU ERA VIVO, de Marco Dutra
7) HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, de Daniel Ribeiro
8) GATA VELHA AINDA MIA, de Rafael Primot
9) PRAIA DO FUTURO, de Karim Aïnouz
10) MINUTOS ATRÁS, de Caio Soh


FILME ESTRANGEIRO (Mostras e Festivais): A ILHA DOS MILHARAIS, de George Ovashvili.

























      1) A ILHA DOS MILHARAIS (Geórgia), de George Ovashvili
2) WINTER SLEEP (Turquia), de Nuri Bilge Ceylan
3) O SEGREDO DAS ÁGUAS (Japão), de Naomi Kawase
4) BLIND (Noruega), de Eskil Vogt
5) O PRESIDENTE (Alemanha, França, Geórgia e Reino Unido), de Moshen Makhmalbaf


FILME NACIONAL (Mostras e Festivais): A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante.

























1) A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante
2) A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA, de Guto Parente 
3) CASA GRANDE, de Fellipe Gamarano Barbosa
4) LOVE FILM FESTIVAL, de Vinícius Coimbra
5) A DESPEDIDA, de Marcelo Galvão



Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.




Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

CINEFILIA: "Mommy", por Samantha Brasil




Mommy (2014, Xavier Dolan)

Por Samantha Brasil

24/12/2014

Com seu quinto filme, o jovem diretor canadense Xavier Dolan foi aclamado no Festival de Cannes desse ano recebendo o Prêmio do Júri junto com o experiente cineasta Jean-Luc Godard. E o prêmio não foi à toa. Com um trabalho magnífico, o diretor de apenas 25 anos, retoma o tema que nunca largou e que o lançou no mundo cinematográfico: as dificuldades nas relações familiares, em especial entre mãe e filho. Seu primeiro filme “Eu matei minha mãe” (2009) é um retrato histérico de uma família disfuncional formada somente por mãe e filho na qual a relação de ambos é totalmente inviável. Já em “Mommy”, o tema é semelhante, porém aqui o que mais chama a atenção é o amor exacerbado entre a mãe Diane (Anne Dorval, atriz-fetiche de Dolan) e seu filho adolescente Steve (Antoine-Olivier Pilon). É tanto amor que a relação fica sufocante, não mais pelas diferenças (como no primeiro filme), mas pelas semelhanças.

E pra mostrar o quanto a essa mediação é claustrofóbica em diversos níveis, Dolan utiliza a técnica estilística de filmar no formato de câmera 1:1 que encurta a tela, deixando a imagem com um tamanho quadrado como se fosse uma janela. Só por esse aprumo e apreço estético que compõe uma metáfora e uma metalinguagem dos e para os próprios personagens já se pode notar o cuidado com que Dolan idealizou essa obra. Nada é gratuito e este recurso imagético funciona perfeitamente para demonstrar o quanto ao longo do filme os personagens conseguem se expandir e se retrair de acordo com os acontecimentos. “Mommy”, nesse sentido, é uma película bastante sensorial, pois além de vermos as atuações em conjunto com cenário e fotografia (acertadamente trabalhada por André Turpin), nós de fato experimentamos junto com os atores todas as agruras do roteiro tão bem explorado pelo diretor.

A história é contada num Canadá fictício, mas não muito longínquo. A trama é narrada em 2015 quando o governo canadense sanciona uma Lei que prevê que a família pode “abandonar” um filho problemático aos cuidados do Estado sem qualquer ônus ou sanções legais. Steve é um desses adolescente-problemas, que tem na mãe Diane um espelho de imaturidade que faz com a relação entre eles, apesar de muito amorosa, seja uma completa catástrofe. Ambos são desajustados sociais, pois não se enquadram nas regras de conduta moralmente recomendadas. A essa dupla quase que explosiva soma-se uma vizinha tímida chamada Kyla (Suzanne Clément) introspectiva, com problemas de fala e sufocada por uma estrutura familiar extremamente conservadora, mas que de alguma forma vai ser o ponto de equilíbrio dessa família disfuncional. 

Esse triângulo emotivo formado por Dorval, Clément e Pilon tem uma força monstruosa de atuações irrepreensíveis funcionando como um motor catártico de relações interpessoais que denotam insegurança, amor, fúria, frustração, angústia, incerteza, liberdade, alegria, prazer. Tudo isso misturado com cores vibrantes e acompanhado de uma trilha sonora extremamente vívida a ponto de se tornar praticamente uma personagem. Destaco aqui uma cena de grande beleza do filme em que a tela se expande para o seu formato normal, abandonando aquele olhar reduzido do mundo proporcionado pelo formato quadrado vertical 1:1, no qual Steve tem um momento explosivo e catártico ao som de “Wonderwall” da banda Oasis. Facilmente essa cena entrará para o panteão do cinema devido a sua intensa magia.

Sem sombra de dúvida e tendo em vista que já estamos a menos de 15 dias para o fim de 2014 é possível desde já afirmar que “Mommy” é um dos melhores filmes do ano. Indicado pelo Canadá para concorrer na categoria do Oscar de filme estrangeiro é um filme imprescindível não somente na filmografia de Dolan que o dirige, monta, produz, é chefe de figurino e roteirista, mas na lista de qualquer cinéfilo que se preze.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!







































Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.




Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Volta pra C... hina!



Quando representantes da direita ou da extrema direita querem "xingar" movimentos que defendem mais democracia ou mais direitos, ou simplesmente pessoas, grupos ou partidos de esquerda, costumam gritar a frase "Volta pra Cuba!". Antes mesmo de ser uma frase/pensamento totalmente ilógicos e desconectados com qualquer razoabilidade histórica ou política, este "xingamento" é cafona e velho. Já pouco antes ao Golpe de 1964 víamos em cartazes da tradicional família cristã brasileira a mesma frase. Cinquenta anos depois, sendo vinte e um vivendo em um regime de exceção, o Brasil não se transformou em Cuba, muito pelo contrário.

O Brasil se aproxima muito mais de nossos irmãos norte-americanos, não ainda no tamanho de sua economia, mas em sua estrutura democratico-parlamentar representativa, onde o Congresso está dominado pelos interesses financeiros internacionais, pelas corporações multinacionais e seus representantes não passam, em sua maioria, de lobistas a defender estes interesses, tendo de vez em quando que dar pequenas respostas à população. O Excecutivo não é muito diferente, pois também sobrevive e se elege pelos mesmos "investimentos" corporativos e convive na balança entre a manutenção dos ganhos do capital e o medo da dissolução do estado liberal democrático de direito pelas justas revoltas populares. O Brasil sempre sonhou ser os EUA, vide nosso primeiro nome após o golpe militar republicano de 1889, quando fomos nomeados de República Federativa dos Estados Unidos do Brasil. Nunca estivemos tão próximos de realmente sermos os EUA da América do Sul. Na verdade já o somos atualmente. Hoje vivemos uma grande miséria em nossa democracia representativa, assim como eles.  

Porém voltando à Cuba... Não, a ilhota situada na América Central não é nem de longe o exemplo de socialismo humanista imaginado por Marx ou por outros grandes pensadores críticos do capitalismo. Assim como a União Soviética não foi, nem o Vietnã, nem a China é, e muito menos a Coreia do Norte. Mas lembremos que a miséria produtiva de Cuba é muito mais reflexo do embargo econômico de mais de cinquenta anos dos EUA do que efetivamente sua incapacidade de produzir riqueza. É de admirar então que uma ilhota miserável da América Central tenha a melhor saúde e educação públicas de toda a América Latina, isso reconhecido pelo Banco Mundial, grande instituição da ordem capitalista do planeta. 

Já que a questão do imperativo "Volta pra Cuba!" é de natureza ideológica, porque não ouvimos então o... "Volta pra China!"? Porque a China é tão diferente de Cuba? Os dois não são países comunistas/socialistas? Porque é muito mais fácil "mandar" pessoas à Cuba do que à China? Neste caso a própria natureza dos defensores ardorosos das economias de mercado e dos fluxos financeirizados ao redor do mundo sabem: hoje a maior economia do planeta pertence a um país comunista. Atualmente a China é a mola econômica do mundo. Se quebrar, leva o restante de praticamente todo o planeta. Seus fluxos de importação e exportação fazem o movimento pendular e produtivo que o atual sistema capitalista necessita. Papeis moeda e de dívidas públicas norte-americanas estão mais nas mãos de chineses do que dos próprios americanos, e não se pode mandar o FED ficar imprimindo dinheiro com o risco de desvalorização do dólar. A vida dos grandes capitalistas mundiais está nas mãos... do Partido Comunista Chinês! 

Pena que a China não realiza efetivamente um socialismo humanista e libertário, pois seu sistema político e econômico está concentrado no velho padrão de hierarquia e estratificação social, neste caso baseado no pertencimento às diferentes instâncias de poder dentro do Partido Comunista. Seu modelo de produção industrial é totalmente desconectado com a preocupação da sustentabilidade ambiental, destruindo seus recursos naturais e sendo o maior poluidor do planeta. Seus trabalhadores recebem salários miseráveis e com pouquíssima legislação de proteção, podendo ser comparados (dependendo das leis de determinados países) a escravos pós-modernos, resultado de seu capitalismo de Estado. A China, portanto, parece, em certos aspectos, ter-se transformado em sonho de todo... capitalista.

Então fica mais claro e compreensível a escolha burocrática racional para onde se mandar os indesejáveis. Dentro da lógica das vantagens do capital, a China é o grande paraíso, dane-se se é comunista. Na verdade a ideologia é o que menos importa, o que importa mesmo é o capital. E se tratando de capital... fácil mesmo é gritar ou berrar:

"Volta pra Cuba!"    


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Livro: "Nas margens", de Leandro Climaco Mendonça



Para quem se preocupa com as construções materiais e sobre o imaginário de territórios tidos como "periféricos", não ler este livro será péssimo negócio!

O livro pode ser encontrado e comprado na livraria da UFF (a loja física é em Niterói) e também no site da Editora UFF. Além da Livraria da Travessa, site e lojas físicas desta rede.


"(...) Através de uma investigação histórica ampla e cuidadosa sobre pequenas e, muitas vezes, efêmeras folhas publicadas nas margens das ferrovias que cortam a cidade e dos meios hegemônicos de comunicação, Leandro realizou um criativo exercício de análise para superar as dificuldades de lidar com testemunhos dispersos e fragmentados e reconstruir a intensidade das experiências dos moradores dos subúrbios com o jornalismo, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Acompanhando as razões alegadas por cada jornalista ou diretor/proprietário para criar um jornal ou revista, o autor esmiuçou tensões e alianças entre diferentes experiências e práticas jornalísticas, dentro e fora dos subúrbios, e suas articulações com outras redes de comunicação social na cidade em meio ao silêncio ensurdecedor dos seus contemporâneos.

Trabalhando com coleções reduzidas, em geral compostas por um ou dois exemplares, ou com relatos indiretos e incompletos, um pesquisador menos atento poderia concluir que a imprensa suburbana foi socialmente irrelevante, desarticulada e frágil e nada teria a nos dizer sobre as intenções, projetos e reivindicações dos seus moradores para a cidade naquele momento histórico. Ao contrário, o que Leandro nos mostra é a força e a diversidade dessas pequenas folhas publicadas desde Santa Cruz, Realengo, Jacarepaguá até a Ilha do Governador; de Madureira até São Cristóvão, passando por Todos os Santos, Piedade, Engenho de Dentro, Méier, Engenho Novo... Ainda que a existência de muitos periódicos tenha sido efêmera, alguns duraram décadas, mantiveram tiragens bem expressivas e construíram amplas redes de interlocução, expressando opiniões, projetos e expectativas de um número considerável de moradores da cidade" (Laura Antunes Maciel).


Leandro Climaco é Professor de História do Colégio Pedro II e doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) com o projeto "Histórias e memórias invisíveis: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro, 1880-1940". Na mesma universidade concluiu o Mestrado em 2011 com o trabalho "Nas margens: experiências de suburbanos com periodismo no Rio de Janeiro - 1880-1920"; e a graduação em 2007 apresentando monografia sobre a constituição histórica do bairro de Madureira intitulada "Memória e vida cotidiana em Madureira, um bairro da cidade do Rio de Janeiro".



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

zero







Minha busca é antigravitacional, mas na dúvida,
viro à esquerda.











Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os cinco ciclos da morte



Faz pouco tempo atrás a Morte sentou-se ao meu lado e sussurrou seu verbo mudo em meus ouvidos quentes. Seus lábios murchos e ressequidos pela eternidade não vinham brindar minha alma com sua passagem fria, nebulosa e desconhecida, porém traziam surdamente as novas do que me esperava pela frente, o avançar do aprendizado amargo que ela prometeu a todos nós, a todos.

Primeiro e sorrateiramente ela iniciou seus trabalhos levando o bailarino de ébano. Amigo recente, à época, que me tratava como mestre, e dizia sempre [mestre] [mestre] com o maior sorriso do mundo. Nunca conheci alguém com sorriso tão grande e tão bonito. Depois de meu vô Antonio sorrir em seu estado final, nunca tinha visto outro alguém sorrir em sua esquife de tal maneira. Douglas sorria um sorriso discreto, mas que foi notado por todos que ali dele se despediam. Acho que por Douglas chorei uma das minhas lágrimas mais doídas. Foi quando sua mãe contou o hino cristão que ela disse ser de sua preferência quando criança. Posso esquecer-lembrar-esquecer da melodia neste exato momento. Exato. Aquela melodia entoada por alguns dentro da nave fez a água salina de meus olhos jorrar pelos pêlos de minha barba espessa. Tenho certeza que Douglas nutria amores pela mulher que hoje chamo minha. Nunca tive raivas ou rancores por isso. Como odiar quem ama quem você ama? Ah dançarino do sorriso largo, que saudades tenho de ti.   

Um ciclo de quatro estações depois Ela veio como um repente, dizendo-sem-falar que não estava para brincadeira. E foi buscar, então, espanto distante, familiar, mas distante. Um primo. Meu primo. Meu primo que não tivera contato próximo comigo, que não fora criado entre os meus e nem eu entre os dele, mas ainda sim primo, sangue e moléculas. O mais interessante nesta relação distante-próxima-distante eram os corpos. Impossível notar distância entre jovens tão parecidos, com semblantes tão semelhantes. Rostos, cores, tamanhos, olhos, cabelos, corpos. São parentes? Sim. Sim. Gilmar se foi. Rápido, de supetão. E não deu tempo. Não houve tempo para que eu dissesse [primo, me perdoe, não nos conhecemos muito, mas... quer ser meu amigo?] Foi-se. Se foi. E chorei também distante, ao léu de sua lápide, chorei por seu irmão, também meu primo, que chorava perto. Chorei ao chegar à porta de casa. Dentro do automóvel. Chorei. Chorei por Gilmar. Chorei por seu irmão também meu primo Gilsomar. Chorei por mim.  

Mas quando Ela prometeu que [dessa lição eu não esqueceria] não brincava em seu juramento, mesmo que de tal eu sequer suspeitasse. Mais um ciclo. Uma manhã em minha nova casa, em minha nova vida, um telefonema. Meu pai. E a pergunta por mim se repetiu repetiu [Quem?] [Quem?] [Quem?]. Não, não, meu tio não. Mazinho, meu sim-não-sangue-tio-sim morria por um coração que decidira parar de bater. Naquele instante já sabia da dor que enfrentaria. Mazinho, tio meu, passou anos afastado de mim, de meu irmão, por motivos e rusgas familiares que nós crianças não temos nenhuma culpa ou vontade. Da frieza dessa relação engessada pelo tempo e por mágoas emprestadas, surgia calor e amizade já nas vidas adultas. Ah santas películas italianas que nos aproximaram. Ah santa nova-tecnologia-nova que me fez um pouco mais conhecer meu tio, meu tio Mazinho. Ele se foi. Se foi no meio do caminho. [Tio eu não havia terminado de te ensinar como baixar todos os filmes. Volta. Volta!] Em sua despedida eu não chorei. Não consegui. Bastava as lágrimas de meus primos, sua dor presente. Minhas lágrimas vieram à noite, à cama, no colo da mulher que decidiu me acolher e amar.  

E quem disse que terminaria? O título diz [cinco]. Dessa vez Ela, a Morte, pareceu me deixar de entre aviso. Cesar, meu padrinho-padrinho-amor, carregava um coração valente e doente. Sabia de seu estado. Sabia da fragilidade de seu corpo. E dessa vez pensei [eh Morte, já saquei a sua, vou te antecipar, vou me despedir]. E assim fui fazer sem dizer, só em pensamento e sentimento. Visitei-o antes. Beijei-o no rosto. Disse [eu te amo]. Cheirei seu sempre bom perfume. Abracei-o. Fiz e refiz. E então, um dia, no meio do labor, o telefonema grave de minha mãe avisou [Cesar se foi]. Fui forte. Sabia que Ela o espreitava e me preparei antes [Danadinha, dessa vez você não me pega]. Em sua despedida chorei contidamente ao beijar seu rosto pela última vez. Como gostava de beijar meu padrinho-padrinho-amor na bochecha, com estalo. Cheguei em casa forte, forte. Mentira! Ao banho, desabei. Nunca passei noite-dor tão dor como aquela noite-dor que passei. Dormir não podia. Gritar também não. Então escrevi. Escrevi texto de despedida mais triste que já pude escrever. Não, não é este aqui, apesar das lágrimas que vocês não podem ver e saber, mas que já rolaram e rolam no exato presente que já se foi. Agora. Se foi. E pela heresia de tentar se fazer de forte diante Dela, a fúnebre Morte presenteou-me com feridas na pele que nunca saram, a me perseguir e lembrar que dor é para ser sofrida e sentida, sempre!     

Mas tudo que começa-termina depois termina-começa. O último ciclo ainda viria. Dessa vez como lição final, talvez. Morte danada, feridas abertas. Quem mais ela poderia espreitar? Levar? Meu último um/quarto formador! Óbvio. Meu vô Francisco Trajano. Meu vô Francisco foi o vô mais distante, até porque só tive um próximo, pois minhas vós se foram há muito tempo. A Danada estava a brincar com outros nesta época. Minhas a[vós] se foram e eu era muito muito menino. Meu vô Chico viveu sua vida como bem quis. Bebeu. Brincou. Gastou. Jogou. Nunca me incomodou. Porém nunca foi [vô]. Mas era meu vô Chico, o Trajano. Seu cérebro já havia sangrado algumas vezes antes, e sua agonia em cama arrastava-se como agonia-vida-agonia. Neste caso parecia que a Velha-sem-dó vinha finalizar a agonia-vida-agonia que o velho Trajano já apontava não mais aguentar. Sim, Ela o embalou. Fui ao encontro de meu pai confortar a perda de seu pai. E na discreta despedida, chorei ao ouvir o canto católico que ninava seu velho corpo, como uma ladainha a lembrar o velho Nordeste de sua origem. Ciclo fechado! Mas [Não] [Não] [Não]. Ela não me deixaria assim tão tranquilamente. Uma estação depois, como se me lembrasse [sem dor não vale] levou Dona Fátima, mãe de meu amigo-irmão-amigo Well. Com requintes de crueldade levou Dona Fátima em um momento que não poderia estar junto de meu amigo-irmão-amigo para confortá-lo no momento mais difícil de sua vida. Obrigou-me a chorar lágrimas em terra distante e a carregar a culpa eterna da ausência.

Agora sim, os ciclos parecem que se encerraram. Mas por que causa a Medonha viria me passar lição tão dura, tão longa assim? E como mágica divinal ouço sua voz inaudível entre tímpanos e cera amarelada. Sim. Agora. Ouvem? [Tolo! Visito a todos sem distinção. Passo minhas lições para que aprendam que não há escapatória] [Do... do... na, Do... na Morte, posso fazer uma pergunta?] [Sim, faça, logo] [O que aprendi com estas lições tão duras?] [Oras, tolo menino, aprendeste que deves viver e ponto. Ainda receberás muitos recados e lições, mas quando tua hora chegar... Sento-me ao teu lado e carrego tua alma sem avisar!].


Para Caio Fernando Abreu.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lançamento do livro "Entre Laranjas e Letras", de Amália Dias




"Surge, finalmente mais um livro autoral sobre a história de Nova Iguaçu. E não é um livro qualquer: pesquisa de fôlego, faro de investigação, clareza dos referências teóricos e uma boa dose de paixão. Essas são as qualidades do trabalho com que Amália Dias nos brinda.

(...) As páginas seguintes descrevem os processos de escolarização em Nova Iguaçu e as expectativas em relação ao futuro por parte das elites ligadas à lavoura e à imprensa. Estavam elas alvissareiras com a produção e o comércio internacional de laranjas colhidas na região, e a escola poderia expandir seus horizontes" (Álvaro Pereira do Nascimento).


Amália Dias é Professora Adjunta do Departamento de Ciências e Fundamentos da Educação da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF-UERJ) e membro permanente do Programa de Pós Graduação em Educação, cultura e comunicação em Periferias Urbanas. Membro do Grupo de Estudos Históricos da Baixada Fluminense (GEHBAF).Doutora em História da Educação na Universidade Federal Fluminense (2012). Mestre em História da Educação pela Universidade Federal Fluminense (2008), onde obteve o prêmio Bolsa Nota 10 Faperj. Atuou como Professora Substituta de História da Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ). Bacharel e licenciada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005), período em que realizou estágios no Arquivo Nacional, no Ministério das Relações Exteriores e obteve bolsa de Iniciação Científica da Faperj. Lecionou na rede estadual de educação. Inserida na área de ensino e pesquisa em História da Educação, atuando principalmente nos temas: história regional da Baixada Fluminense; história dos processos de escolarização na Baixada Fluminense, história da profissão docente no Brasil; história da educação, história política e história do Brasil. 

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Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades
Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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Saiba como adquirir o mais novo livro de Vinícius Silva clicando nesta imagem

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

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Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

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