(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Palavras Sobre Qualquer Coisa e o Grupo Baixada Fluminense da Anistia Internacional estarão no evento Caleidoscópio, dia 15/08/15















Caleidoscópio... 
Pois é, aquele negócio em forma de tubo com vidrinhos coloridos em seu interior, que quando a gente olha lá dentro tem uma explosão de formas. 

E o que somos, senão pedaços de algo maior, que vistos juntos formamos uma bela imagem? Somos pessoas diferentes com uma mesma ideia: transformar o mundo num lugar bem melhor. Mais bonito, entende? 

Caleidoscópio é um encontro de diversos sujeitos em prol de um bem comum: a VALORIZAÇÃO DA VIDA.

A segunda edição do evento terá como tema a campanha Jovem Negro Vivo, lançada pela Anistia Internacional, que busca quebrar a indiferença de setores da sociedade que parecem não se escandalizar com o índice alarmante de homicídios de jovens negros no Brasil; e mobilizar e empoderar sujeitos diretamente afetados pela violência letal a buscar alternativas de valorização, manutenção e melhora na qualidade das próprias VIDAS. 

Interessados em contribuir com ações/intervenções podem entrar em contato: 
contato@hullebrasil.com.br 
(21)9.6563-0554




Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.


terça-feira, 9 de junho de 2015

O Palavras Sobre Qualquer Coisa na Festa Literária de Caxias 2015!

É com muito orgulho que eu, Vinícius Fernandes da Silva, criador e administrador do PSQC anuncio nossa participação dupla, minha e do PSQC, na Festa Literária de Duque de Caxias 2015.

No dia 12 de Junho de 2015, uma sexta-feira às 16h, estarei mediando uma mesa sobre Direitos Humanos na Baixada Fluminense, representando o Grupo Baixada Fluminense da Anistia Internacional com a Campanha Jovem Negro Vivo.

No mesmo dia, às 18h, estarei mediando e representando o PSQC em uma conversa sobre autores virtuais.

A programação e os convidados estão logo abaixo.

Não percam!





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sábado, 18 de abril de 2015

Cultura em Belford Roxo II, no Extra Especial (03/04/2015)

A poeta (acho muito mais bonito utilizar "poeta" tanto para o feminino quanto para o masculino) e guerreira da poesia e das palavras da Baixada Fluminense, Ivone Landim, e o belíssimo projeto Pó de Poesia no Centro Cultural Donana em Belford Roxo.


Absolutamente imperdível!





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sexta-feira, 17 de abril de 2015

O PSQC, de novo, no Diário do Centro do Mundo com o texto "A UPP acabou!"


Para a alegria do Palavras Sobre Qualquer Coisa nosso texto "A UPP acabou!" foi republicado pelo site de notícias Diário do Centro do Mundo (DCM).

Desde já reiteramos que somos fãs do DCM e que ficamos muito orgulhosos em ter um de nossos textos republicados por site de jornalismo tão bacana. Obrigado Paulo Nogueira!

Não acredita? Então aí vai a imagem do artigo, tá bem ao centro. E se você ainda não teve oportunidade de ler o texto... o que está esperando?! É só clicar aqui!



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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Por que meus amigos viraram à direita?



Algo me aflige. Como um grande número de familiares, amigos e conhecidos são ou se tornaram representantes da direita?

Mas antes de prosseguir na tentativa de intuir sobre este fenômeno ou fato, é necessário fazer uma afirmação: Eu sou de esquerda! E obviamente que aos olhos dos neo-liberais ou ultraconservadores que iniciaram este texto até este momento a repugnância não terá limites. Se quiserem partir, digo, até logo. Se continuarem, digo, talvez a reflexão seja útil ou divirta.

Porém digo mais: Eu sou esquerda-caviar (ou esquerda-festiva para alguns). Provarei. Neto de um filho de imigrantes portugueses e de uma lavradora de cana analfabeta; por parte de mãe. Neto de um casal de natalenses imigrantes ao Rio de Janeiro; por parte de pai. Avós moradores e pais nascidos e moradores da Baixada Fluminense. Pai e mãe sem o ensino superior ou profissão formal. Viram? Não é óbvio? Esquerda caviar!

Agora vamos falar um pouco de história, Brasil e sociologia. Dentro das tentativas já realizadas por alguns notáveis do pensamento social brasileiro, sempre buscou-se identificar um certo ethos na formação de nossa sociedade, um ponto de convergência que nos identificasse como uma cultura própria, com um caráter distintivo que pudéssemos ao final definir o que é ser brasileiro.

Muitos tentaram. E chegaram a resultados brilhantes e diversificados. Podemos citar entre eles Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Junior, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Roberto DaMatta, entre alguns outros.   

E na imensa humildade de um iniciante na arte do pensar, e depois da leitura de praticamente todos estes autores ao perpassar de minha formação acadêmica e profissional, levanto e aponto uma característica que considero fundamental e presente no escopo histórico e contínuo de formação de nossa sociedade: o conservadorismo.

A multiplicidade de sociabilidades e traços culturais de um povo miscigenado e variado como o brasileiro não permite forjar termo único e definidor de nosso caráter na existência social. Porém menos do que buscar termo fundante, ouso falar de "traço de permanência" na tentativa de entender o que se passa entre os nossos.

Parece-me óbvio que dois elementos são fundamentais para o viés conservador que nos acompanha: Nossa formação católica e nosso colonialismo extremamente centralizador e autoritário. Estes dois elementos conjugam-se de maneira complementar e retroalimentadora. Os dois baseiam-se em um terceiro elemento comum e que serve como "cola" a eles, a submissão à hierarquia. Dentro do escopo religioso a própria estrutura da Igreja Católica Apostólica Romana não deixa dúvidas em relação aos níveis hierárquicos de quem manda e de quem obedece. As mulheres historicamente e contemporaneamente sabem muito bem disso. Homossexuais e outros "grupos" pecadores ainda estão terminantemente excluídos de poderem fazer parte da instituição que detém os rumos da fé católica. Dentro do campo político, a hierarquia na história brasileira se deu de maneira exemplar na relação entre Metrópole e Colônia, e posteriormente com o governo da família imperial portuguesa/brasileira. Esta relação foi pautada no binômio: nós mandamos/vocês obedecem. Qualquer variação deste binômio tinha como resultado a violência e a repressão, obviamente para o lado do "vocês obedecem".  

Mas como a hierarquia pode ser internalizada, compreendida e acionada? Então outro fator torna-se evidente: a distinção. A hierarquia como força quase que inquestionável pode se reproduzir através da distinção social. Não à toa em uma sociedade extremamente hierarquizada em suas origens a escravidão foi força tão "importante" e perene na construção do país e do Estado. É esta distinção histórica que permeia as relações sociais e que desaguam, ontem e hoje, nas assimetrias de gênero, de território, de riqueza material e simbólica, e, obviamente... no racismo.

Porém este é o momento de voltarmos ao tempo e chegarmos ao... agora. A grande questão que me persegue é: como as camadas mais populares ao invés de se insurgirem sobre a imensa desigualdade hierárquica que as oprime simplesmente as... reproduzem? Não há resposta simples. E neste ponto, como esquerdista que afirmei que sou, o mais evidente(?) talvez fosse chamar Marx à me ajudar, mas não. Não o chamarei. Agora invocarei os poderes de Pierre Bourdieu. O pensador francês possui um livro simplesmente chamado "A distinção". Dentro do escopo de toda sua formulação teórica (e neste exato momento imploro o perdão de todos na tentativa de "resumir" Bourdieu) o conceito de habitus é extremamente pertinente na tentativa de compreensão da reprodução dessa distinção.

Para Bourdieu na constituição de um Estado e de uma sociedade produz-se várias formas de capitais. Capital econômico, capital cultural, capital social, são alguns dos "capitais" identificados pelo autor, porém o capital com a capacidade de realizar a distinção social efetiva seria o capital simbólico. Este se daria pela conjunção das narrativas e construções abstratas e materiais das classes dominantes e que detém praticamente todas as posições privilegiadas referentes a todos os tipos de capitais existentes. Obviamente que existem gradações no acesso a estes capitais, a verdadeira elite econômica de um país/nação não se confunde com a classe média, porém os valores e o capital simbólico a serem almejados se realizam pela produção e reprodução das distinções criadas pelos discursos da pequena e exclusiva classe dominante.

Mas e o habitus? Este conceito refletiria o posicionamento social dos indivíduos ou de classes sociais dentro de um certo "mapa" social. Nós somos produzidos e produtores de "estruturas estruturantes estruturadas". Calma... vamos lá! Temos ponto de partida, não saímos do zero, não somos tábuas rasas, páginas em branco, não socialmente falando. A família da qual nascemos, a classe social (renda principalmente) a qual pertencemos ao nascermos nesta determinada família, o nível de escolaridade de nossos pais e parentes mais próximos, a forma como nossos pais enxergam e valorizam símbolos considerados "superiores" em tal sociedade, nossa vizinhança, o local (território) onde nascemos, a religião (ou não) e a visão ético/moral de nossa formação primeira são absolutamente fundamentais para nossa vida presente e futura. Mas estes fatores não agem determinantemente. As individualidades e pertencimentos de classe afetam diretamente os caminhos a seguir. No processo de se tornar adulto, independente e autônomo, os caminhos escolhidos em relação à formação universitária (se o fizer), o trabalho e função que desempenhar, as relações de amizade que estreitar, poderão reafirmar ou modificar uma pré-disposição inicial no mapa social de onde se surgiu. Esta posição não é fixa, apesar das fronteiras delimitadas pelos capitais que dispuser do ponto de partida e durante a "corrida" da vida.

E aí que mora um dado interessante da sociedade brasileira. Somos movidos a distinção. É evidente que em todas as sociedades a distinção social existe, é almejada e, às vezes, necessária. Em quase todos os países e nações a distinção dialogou e travou combate simbiótico com a ideia do coletivo, do bem público. Até mesmo nos EUA, auge do desenvolvimento capitalista de cunho individualista, a ideia de bem público forjou em muitos momentos a construção de uma cidadania em que liberdade e um mínimo de igualdade foram almejados. A percepção de que condições mínimas seriam necessárias para que o tão amado individualismo liberal pudesse aflorar, se fez presente na história norte-americana. Porém no caso brasileiro a distinção age quase como uma patologia social, uma impossibilidade de enxergar o outro como igual, de ver as mesmas origens, apesar das diferenças, no acesso a determinados capitais.

Mas como explicar sem exemplificar? Então vamos ao exemplo mais fácil neste momento. O meu. Como disse anteriormente, sou de uma família pobre da Baixada Fluminense. Mas esta afirmação não explica tudo, porque não é absoluta. Vamos pensar em um mapa?

Dentro do cenário de distinção de uma metrópole como o Rio de Janeiro as coisas ficam um pouco mais simples: família pobre de uma periferia pobre. Porém dentro do contexto da própria Baixada Fluminense as coisas mudam um pouco de figura. Não, minha família não era miserável ou muito pobre, mas considerada, dentro dos padrões sócio-territoriais da Baixada, como classe média baixa ou classe média. Outro fator importante... uma família considerada "branca". Não, não somos arianos, somos mestiços, com as mais variadas tonalidades de cor de pele na família, com mãe morena, irmão moreno, primos negros, primos brancos e loiros. Mas ser considerado "branco" no contexto brasileiro é quase ter 50% de chances a mais de sobreviver às agruras das consequências estruturais de nosso racismo e desigualdade social.

Meu núcleo familiar foi e é politicamente conservador. As histórias que meus pais contam é que meu avô sempre fora "governista" e a criação que minha mãe e meu pai tiveram se pautaram por uma a-politização. Compreensível para quem nasceu em 1954 (ambos têm as mesma idade) e com dez anos de idade passa a viver em uma ditadura, existindo mais de vinte anos em um sangrento, fascista e assassino regime militar. Diante de todo esse cenário considero meu núcleo familiar moderadamente conservador, outras partes da família são muito mais conservadoras... em minha perspectiva.

Mas olhem a surpresa, meu avô era fã de... Leonel de Moura Brizola! Incongruências que nós brasileiros odiamos amar ou amamos odiar? Meus pais votaram nas eleições de 1989 em Lula e no PT nas eleições subsequentes. Como disse acima, não há vetores ou valores absolutos.

Porém o viés conservador tentou me formatar ou forjar. Estudei em uma tradicional escola conservadora, pró-militar, em Nova Iguaçu. Depois fiz cursinho pré-segundo grau em instituição que tem como nome um herói da Marinha e cuja maior "distinção" para seus alunos é passar para escolas... militares. Retruquei. Por alguma razão estava desenhado a mim que este não era o meu caminho. Depois trabalhei como terceirizado na Polícia Federal (trabalho importante e fundamental para mim naquele momento de minha vida e que agradeço eternamente a um primo pela possibilidade), instituição não muito conhecida pelos valores progressistas de seus integrantes, porém neste momento também já cursava minha graduação em... ciências sociais na UFRJ!

Não, não me transformei em um revolucionário marxista da noite para o dia. E nem o sou hoje (apesar de muitos terem essa absoluta certeza). Muito pelo contrário. Minha formação familiar apolítica neste caso se fez presente. Queria distância do movimento estudantil por identificar nele intenções mesquinhas de ganhos individuais através da política (o que não era totalmente uma inverdade). Lula havia ganhado as eleições de 2002 e finalmente a esquerda parecia ter chegado ao poder (apesar da "Carta ao povo brasileiro"). A polarização parecia não ter mais necessidade de estar tão aflorada e ela, de fato, se amainou.

Porém hoje, em pleno 2015, a polarização está de volta, com toda força e força total. O esgotamento do lulismo também evidencia-se. O desgaste do PT, para completar dezesseis anos no poder, também é transparente. E isso traz de volta das penumbras e das alcovas... a direita e o conservadorismo. E o que mudou para mim neste grande espaço de tempo que foi o governo do PT? O que mudou chama-se... Junho de 2013! Neste evento histórico para nosso país, a juventude à qual compartilho teve de fato um exemplo do que é uma mobilização popular de grande magnitude (no impeachment de Collor éramos muito muito jovens, e hoje vejo o circo de horrores daquele momento também), da necessidade urgente de mudanças da representação política em nosso país, da radicalização da democracia em todas as instâncias de nosso Estado, da reinvenção do próprio Estado brasileiro.

E neste momento de importantes mudanças e fricções, o conservadorismo e a direita saem das sombras e mostram suas faces. O meu maior estupor é de onde eles vêm. Não me espanta ver grandes conglomerados de mídia tramando golpes "constitucionais", fazendo campanha para determinados candidatos, escondendo escândalos, elegendo escândalos, criando uma clima de terror generalizado para o cidadão médio. Não me causa espanto os setores mais reacionários das elites e da classe média, classe média que só tem uma intenção na vida, ser uma elite que nunca conseguirão ser.

O desconhecimento e a ignorância também cavalgam juntos. Na verdade há duas formas de ignorância: a de fato e a seletiva. Explicarei. Dei aula de Introdução à Ciência Política no primeiro período do curso de Direito da UFJF (considerado um dos melhores cursos do país). Trabalhamos com Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau e... Marx. Quando iniciei o preparo para os textos de Marx, já fui adiantando a tentativa de despolitização dos textos, para depois fazermos o caminho inverso, o da re-politização. Uma parte dos alunos rejeitou de cara a leitura dos textos, por não gostarem de Marx... então a pergunta se fez: "Mas alguém já leu algum texto original do homem?". Resposta: "Não". Esta é uma ignorância de fato. Corroborada pelo universo de pré-noções espelhadas e espalhadas no escopo social. É a lógica do não li e não gostei. Do... ouvi dizer que é ruim.

A ignorância seletiva tem um caráter ainda mais funesto. A pessoa tem formação e informação, pode ter até algum conhecimento de um texto ou conceito, porém decide que não quer saber (o que é absolutamente um direito, não gostar de uma corrente de pensamento ou autor(es)) mas vai além, subverte e deturpa o conteúdo "indesejado". Qual texto considerado de esquerda diz ou revela que a luta pela desigualdade, pelo socialismo ou pelo fim do Estado requer voto de pobreza? Onde isto está escrito? A ideia é radicalizar o acesso à riqueza, não à miséria. Na visão marxista o capitalismo é um processo do desenvolvimento histórico e material da humanidade, trazendo inclusive benefícios tecnológicos e de circulação para as pessoas, apesar da ruína do sistema em um futuro desconhecido. Dica: Quer falar mal do titio Marx? Leia pelo menos UM texto dele. Indico "O Manifesto Comunista", pequena e tranquila leitura... depois pode falar mal o quanto quiser, mas com o mínimo de embasamento literário.

Meu espanto vem de onde menos se poderia esperar, ao ver que as classes populares fornecem material humano pobre e negro para exterminar... pobres e negros. Do que são formadas as PMs do país? O espanto se espanta com pessoas da Baixada Fluminense, de pessoas de origens humildes, como a minha, e que através de esforço coletivo (familiar) e pessoal alcançaram a alcunha de classe média no mapa social e que, infelizmente, parecem, às vezes, odiar seus iguais. Talvez porque a grande maioria de seus "iguais" não tenha alcançado o mesmo status atribuído pela tão propagada "meritocracia" a la brasileira. É este tipo de conservadorismo que causa náuseas, pela capacidade de ainda usar um discurso da desigualdade natural para vivenciar alguns pequenos privilégios alcançados e fundamentados na realização da distinção, por menor e insignificante que esta seja.

No discurso de eleger quem é "esquerda caviar" o cinismo é ainda mais desolador. Pois a luta pela diminuição das desigualdades, segundo a direita, só pode ser realizada do lugar onde esta mesma direita supõe que deveria ser realizada. Só pode defender pobre se você for... pobre. Se você não for considerado pobre e defender pobre, você é automaticamente um hipócrita, um... esquerdista-festivo, ou caviar. Obviamente que nesta posição a direita se auto protege, pois se são classe média (ou a elite do país, segundo eles próprios) então este é evidentemente o lugar ideal para urrarem sobre a meritocracia, sobre os valores estritamente individuais que os levaram a este patamar, e para vomitarem seus ódios e preconceitos contra a maioria pobre e as minorias políticas.

Esta direita de origem popular já foi denominada pela blogosfera de "direita pão-com-ovo" (eu adoro o referido prato por sinal, sem o devido processo de gourmetização). E é justamente esta a direita pautada pelo fenômeno descrito neste texto, pelo fenômeno da distinção social. Ela opera na lógica da diferenciação, na qual "hoje não sou mais o que fui ontem, me distingo dos pobres de minha origem meramente pelo meu desempenho individual, pelo jogo meritocrático da qual me dispus". Ledo engano. Os desempenhos individuais são uma fração dentro da realização do trabalho coletivo. Antes de nos sujeitarmos a concursos e processos de seleção, vivemos e dependemos do trabalho alheio, do trabalho de outras classes sociais. De quem limpa a nossa rua. De quem constrói a nossa escola. Do professor que dá aula às nossas crianças, mesmo que não sejam as "nossas". De quem monta nosso carro. De quem ajuda nossas famílias. De quem produz nossa comida. A ilusão da vitória individualista produz essa direita cheia de ódio do que é coletivo e do que é efetivamente público, expondo a incapacidade de perceber que a vida em sociedade só existe pelo trabalho socialmente produzido e compartilhado, e que ainda assim o uso-fruto de uma vida boa e digna está restrita a uma parcela mínima de nossa população, seja ela esquerda-caviar ou direita pão-com-ovo.

Se hoje tenho boa e confortável vida, ela se dá minimamente por algumas de minhas escolhas e maximizada pelo trabalho coletivo de centenas de anônimos que ajudaram efetivamente para que eu chegasse onde cheguei. O que eu quero? Eu quero que todos tenham a boa e confortável vida que tenho hoje, e tenho a absoluta certeza que agora é a minha vez de ajudá-los.

Não, eu não odeio meus familiares, amigos e colegas de direita. Me esforço cotidianamente a amá-los e sei de suas dificuldades em compreender minhas posições. E por isso que o mundo das palavras e das páginas em branco é um mundo distinto, que se relaciona sim com o mundo real da matéria orgânica e do oxigênio. Então é por isso que me obrigo a estender a mão, a dar abraços calorosos e beijos na bochecha mesmo de quem esteja diametralmente do outro lado do que penso e acredito (exceptuando-se quem ultrapassa os limites da democracia e tangencia o fascismo, com estes, é a ruptura).

E se você chegou até aqui, ao final deste texto, digo que não fico ofendido por ser chamado de esquerda-caviar ("nunca comi, só ouço falar"), mas que prefiro ser, então, xingado de "esquerda-festiva".

Porque em minha luta por mais igualdade e liberdade, prefiro ser associado à festa do que estar filiado ao ódio.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.
      

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Bolha

Você não existe.
Na verdade existe, mas não vive.

Sua existência depende das leis da física,
Mas todos nós não dependemos delas também?

É formada por alguns elementos químicos combinados.
E ar.

Sua brevidade coaduna-se com a das borboletas.
Borboletas ainda assim existem por mais tempo do que você.

Pode ser produzida de distintas maneiras,
Mas geralmente um sopro lhe dá forma.

Quase nunca atua sozinha.
Gêmeas estão sempre ao seu redor.

Então agora saímos do singular,
E vamos ao plural.

Algumas cores podem ser avistadas em seus voos erráticos.
Amarelo, vermelho, azul e verde também.

E voam.
E voam.

Suas existências sem vida.
Alegram pequenas vidas quase que instantaneamente.

Nos sorrisos doces.
Nas gargalhadas profundas.

De quem sempre quer,
Tornar ainda mais breve seus breves alçar.

Bolha.
Bolhas.

Bolha.
bolha

bolhabolha         bolha bolha           bolha bolha bolha                bolhabolhalha bobolha bobobo  bolha
  bolha bolha bolhabolhabolha                                   bolha      bolha    bollha bobolhalha  bolha          

bolha  bolha  bobobolha            bolha bolha    bolha                                                                  bolhab
  bolha

                                        bolha                          bolha                       bolhabolhalhalhabolhabolha  bolha

bolha            bolha                                     bolha  bolhabolhabolhabolha bolha                                    bo

             bolha bolhabolhabolha                          bolha                                  bolha                bolha
                                  bolhalhalhalha  bolha bolha                   bolha            bolha        bolha          bolha
bolha                                            bolhabolha   bolha                    bobobobobobolha           bolhabolha
                              bolha           bolha                              bolha                                     bolha
                                  bolha bolha             bolha                bolhabolhabolhabolhalhalhalh
                                         a bolha     bbbbollhhhha        bbbhhhhhlllllaaaaaaa  aabb
                                                  hhhablllhaa            babhlhllllabhlab           bhhla
                                                                        oooobhlolllhaoaoaoobabohlh
                                                                    bholla  boaoaolhlaobh a oaob
                                                                             hhbaolbaolhholoo
                                                                                   babhholllhob
                                                                                         aaobh
                                                                                            hla
                                                                                              b
                                                                                              o
                                                                                              l
                                                                                              h
                                                                                              a

                                                                                              d
                                                                                              e

                                                                                          sabão.




Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O ódio pela televisão e o ódio pela televisão?




Passei toda minha infância existindo durante os anos 1980. Como todo menino de classe média baixa (às vezes baixíssima), e ainda vivedor e morador da Baixada Fluminense, minhas principais brincadeiras e diversões eram obviamente me reunir nas calçadas com todos os primos e crianças vizinhas, jogar bola no campinho de terra batida e... ver televisão! Os videogames apareceriam depois. Um Atari e muito tempo depois um MasterSystem. Mas sim, a televisão era uma grande diversão.

A memória afetiva é grande, pois para mim são ainda muito claras as imagens de meus pais à noite vendo novelas e filmes, e tentando me proibir de acompanhá-los porque já fazia tarde da noite. Hoje sou um notívago às vezes convicto, às vezes envergonhado, até porque sofro muito fisicamente por esta situação. Mas que eles tentaram me tirar esse hábito, ah tentaram! A culpa é minha mesmo, mas o prazer também. Tínhamos um televisor Telefunken à válvula, isso quer dizer que quando o cristal esquentava a imagem ficava igual à tv com estática. O técnico frequentava minha casa quase que mensalmente, virou inclusive amigo da família. Até que depois de muitos anos ele se negou a consertar a antiga Telefunken e disse para minha mãe "A senhora tem que comprar uma televisão nova, essa aqui eu não conserto mais".   

E as memórias são facilmente identificáveis. Iremos a elas: Superman, o filme (I e II), Superman III, Roque Santeiro, Memórias de um Gigolô, Guerra nas Estrelas (todos os três), Rambo I e II, E a gata comeu, Plunct Plact Zum, A arca de Noé, Bozo (Papai Papudo: Que horas são amiguinhos? Cinco e sessenta!), os Trapalhões (todos), Clube da Criança, o Show da Xuxa, Ultraman, Spectreman, O rapto do menino dourado, Tira da pesada, Loucademia de Polícia, Chacrinha, Programa Silvio Santos, desenhos da Rede Manchete, e muito mais.

Obviamente que estou falando de tv's abertas que concentravam-se nas emissoras Globo, SBT, Manchete, TVE, Record (que vivia grande decadência à época), Bandeirantes. Depois surgiu a CNT e parava por aí

Como criança e pré-adolescente não entendia nada sobre poder e mídia, política e concessões públicas, só sei que gostava de ver televisão, e muito, pois era uma de minhas melhores diversões. O primeiro contato mais político que tive iniciou- se com a campanha para as primeiras eleições diretas presidenciais, já no período democrático em 1989. Também é clara a forte imagem da morte de Tancredo Neves, o caixão um pouco suspenso e seu rosto aparecendo pelo vidro, minha mãe chorando, Fafá de Belém chorando ao cantar o hino nacional na televisão, "Coração de estudante" tocando sem parar... imagens ainda muito fortes.

Meu avô Tuninho era um fã empedernido de Leonel de Moura Brizola. Vibrava com os discursos eloquentes do político que à época tornou-se governador do Estado do Rio de Janeiro. Política mesmo eu tive contato pela primeira vez com o direito de resposta conseguido por Brizola no já histórico momento em que Cid Moreira, o rosto da Rede Globo à época, leu com sua voz grave o texto não muito elogioso a Roberto Marinho e sua empresa de comunicação. Sim, eu assisti Cid Moreira ler tal texto ao vivo.  

Os anos se passaram, os estudos e a busca cada vez maior por informação mostrou-me o papel preponderante dos conglomerados de mídia no Golpe de 1964. As produtoras de "sonhos" também ajudaram a produzir anos de mais puro terror político-militar em nosso país. A Rede Globo de Televisão, criada em 1965, foi uma das grandes apoiadoras e beneficiárias do golpe militar, e de sua manutenção também. "Muito além do cidadão Kane" documentário político, e quase maldito, contra a Rede Globo e facilmente encontrável no youtube explicita uma visão pouco aberta à massa sobre como este grande conglomerado empresarial obteve sucesso nos anos de chumbo. Vale também lembrar, como uma pequena pílula vermelha, a fala do ditador Garrastazu Médici, que em um determinado momento disse “Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”1.

Vale lembrar também a omissão da Rede Globo na campanha das Diretas Já!, a associação com a Proconsult na divulgação de informações falsas sobre as eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro no início dos anos 80 e em que Brizola foi eleito, a produção do programa "O caçador de marajás" vinculado no Globo Repórter e a manipulação da edição do debate entre Lula e Collor para o favorecimento do segundo (que ganhou, levou, mas não ficou, em movimento também orquestrado pela mídia para sua derrubada por efetivas denúncias de corrupção) nas já mencionadas eleições de 1989.

Nos anos 1990, com a vitória do neoliberalismo e de Fernando Henrique Cardoso e o PSDB, seu papel resumiu-se a tentar não explicitar demais, juntos com outras empresas de mídia, os muitos escândalos de corrupção estouradas à época. 

Nos dias atuais Rede Globo continua, através de seu jornalismo e em todos os canais e empresas que lhe pertencem, de seus articulistas a editorais no jornal O GLOBO, mantendo e expandindo seu padrão conservador, tanto em suas colocações sobre política quanto em suas percepções econômicas, sempre atuando em desacreditar e criminalizar qualquer movimento social que lute por mais democracia popular direta, ou propostas de mais democracia nos meios de comunicação. Já se declarou contrária à taxação de mais impostos a grandes fortunas e à regulação da mídia, por motivos mais do que óbvios.

Mas então como se relacionar com questões tão pertinentes e claras, assim como contrastantes e quase que contraditórias? Em que uma empresa nacional (há relatos de que dinheiro da Time/ Warner tenha entrado para a expansão da Rede Globo no período da ditadura, apesar de ser limitado constitucionalmente o investimento estrangeiro a empresas de comunicação nacionais) gera milhares de empregos, desenvolve conteúdos audiovisuais nacionais premiados e ressaltados mundialmente e detém ainda, mas em franca decadência, altos índices de audiência. Porém e ao mesmo tempo mantém uma relação tão intrínseca com a manutenção da mesma elite econômica que domina o país há décadas e atua sempre de forma contrária a qualquer tentativa de empoderamento popular.

Acredito não existir resposta fácil ou simplista. De fato há inúmeras nuances a serem observadas nesta complexa dialética. Se no alto comando administrativo e editorial temos a aproximação com o conservadorismo político e o liberalismo econômico, a Rede Globo (especificamente) notabilizou-se, em muitos momentos, na diversidade de seus quadros em sua produção artística. Comunistas históricos como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho, Jorge Amado, entre muitos outros, participaram decisivamente como produtores de conteúdo da empresa, por mais que não tivessem total liberdade sobre o que era produzido, mas qual profissional de grandes conglomerados empresariais tem tal liberdade, inclusive nos dias atuais?

Porém a questão que se coloca e que considero extremamente pertinente no momento atual é: Deve-se demonizar aprioristicamente qualquer produto confeccionado pela Rede Globo ou qualquer outra grande empresa tradicional de mídia no Brasil? E mais uma vez repito a resposta já dada: Não há respostas prontas. Porém é pertinente chamar a atenção a dois casos recentes e de grande repercussão.

O primeiro foi o grande frisson causado pelas críticas contundentes de movimentos feministas e negros contra a mini-série O Sexo e as Nega, escrito e dirigido por Miguel Falabella. A série foi livremente inspirada em Sex and The City, onde bem sucedidas mulheres brancas novaiorquinas relatam suas experiências afetivas e sexuais na contemporaneidade.    

Logo de cara considero que exprimir a analogia foi o primeiro grande erro estratégico de lançamento e apresentação da série, pois as mulheres retratadas no seriado nacional são negras, pobres, moradoras de favelas e comunidades pobres. Essa associação direta entre realidades efetivamente diferentes, apesar da contemporaneidade vivida por todas, seria prato cheio para a percepção coletiva de representação da mulher-negra-pobre brasileira através dos esteriótipos recorrentes e persistentes em nossa sociedade e história. O título do seriado só corrobora esta percepção e as críticas à analogia inicial e ao título encontram eco sim na reprodução destes esteriótipos. Mas para mim a questão principal em relação às críticas desferidas por movimentos feministas e negros, e a grande maioria da mídia independente e de esquerda, é: O seriado foi duramente criticado e taxado de racista antes mesmo de ser visto! 

E como enunciado logo acima, as primeiras críticas podem ser consideradas pertinentes dentro do amplo contexto histórico e reprodutor de desigualdades materiais e simbólicas que vivemos em nosso país. Mas efetivamente é possível classificar um conteúdo de racista antes mesmo de ser visto ou consumido? E foi exatamente isto que vimos neste caso. Se por acaso durante a exibição ou ao final da série a mesma fosse indiretamente e simbolicamente racista, as críticas deveriam e devem (caso efetivamente isto se confirme) ser feitas, mas antes? Se odeia o Paulo Coelho antes de se ler pelo menos um livro dele? No Brasil, sim. Acredito que em outras partes do mundo também.

Neste caso o mais interessante foi quando o deputado federal Jean Wyllys declarou não considerar o seriado O Sexo e as Nega e nem Miguel Falabella racistas. Bastou para ser chamado de "afroconveniente". E não, não estou aqui para fazer campanha para o deputado, mas é reconhecida sua militância a favor dos direitos LGBT, das religiões afrobrasileiras, dos direitos de mulheres e negros. Porém parece que infelizmente a esquerda, representada não somente por partidos políticos mas por movimentos sociais e representações da sociedade civil, ainda vive sob o auspício da pauta única e coordenada, onde mesmo que se defenda os direitos humanos de maneira irrestrita, fugir da pauta por questões filosóficas e particulares irromperá ao que o pior a mesma esquerda ainda produz, o patrulhamento. Se críticas a algum aspecto sobre cotas fizer, racista será. Se reflexões sobre a separação física entre sexos realizar, como por exemplo em vagões de metrôs e trens, misógino será. Se programas da Rede Globo elogiar... alienado, misógino, racista, vendido, reacionário e todos estes não muito positivos adjetivos aglutinará. Não estou elogiando O Sexo e as Nega pois sequer o assisti. Posso falar do "mal gosto" do título ou da infelicidade da analogia, mas classificar algo de racista antes de mesmo de assisti-lo... jamais.   

Neste momento já posso sentir a acidez da bílis a ser produzida em alguns sistemas digestivos ao lerem estas minhas palavras, mas a estes só posso dizer e escrever: o antiácido de minha consciência me livra de qualquer temor de patrulhamento ou dirigismo, mesmo que seja de gente bacana e que luta por mais direitos humanos, assim como eu.

Mas para tornar ainda mais completa e complexa nossa digressão sobre ódios e ódios pela televisão, trago a enorme polêmica do especial sobre Tim Maia, também produzido pela Rede Globo. Especial baseado em filme lançado em 2014, este baseado em biografia realizada por Nelson Motta. De antemão o próprio filme já havia sofrido críticas por tornar um tanto quanto unidimensional um artista do talento e da complexidade de Tim, mas uma obra cinematográfica sempre será um recorte escolhido sobre uma obra que pode ser mais aprofundada, como no caso de uma biografia em formato literário.

O que mais chama atenção neste caso é que Tim Maia na parte final de sua vida e carreira tornou-se um grande antagonista da Rede Globo, e principalmente do jornal O GLOBO. Antagonismo que pode ser visto em entrevistas gravadas e dadas por Tim, onde o mesmo relatava que fora vetado em participar de programas musicais na empresa do Jardim Botânico. No livro de Nelson Motta e no filme de Mauro Lima, Roberto Carlos aparece menosprezando e humilhando Tim Maia, este em começo de carreira. No especial exibido pela Rede Globo, com trechos do filme, relatos de famosos e novas cenas gravadas com um dos atores que representam o cantor no filme, recolocam Roberto Carlos como um "amigo" que lançou "o gordo mais querido do Brasil". O Nelson Motta do seriado da Globo desdiz o Nelson Motta que escreveu a biografia. O filho de Tim Maia declarou que tanto no filme quanto na série seu pai "não merecia algo tão tendencioso". Mas como então um artista tão crítico da Rede Globo torna-se produto a ser explorado e vendido por tal emissora, esta a esconder as fortes críticas feitas à mesma pelo próprio retratado. Só pode haver uma explicação: Tim Maia foi e é um artista extremamente popular. E ser popular e ter o amor do povo invariavelmente provoca audiência, algo que anda escasso nas tradicionais mídias nacionais.

E esses dois exemplos que trouxe, atrelados à minha história afetiva e crítica em relação à televisão brasileira, tendo como base de observação a Rede Globo de Televisão, servem para tornar ainda mais complexa, mas também mais ilustrada a afirmação e a pergunta: O ódio pela televisão ou o ódio pela televisão?

1 Referia-se ao Jornal Nacional da Rede Globo.


Texto originalmente publicado no espaço Palavras, Películas e Cidades na plataforma de cultura colaborativa Obvious.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.
   

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PSQC na França!


Gente... para a imensa alegria do PSQC nós estamos na França! Sim, a Editora Anacaona, especializada em literatura brasileira e que publica autores brasileiros na França, fez uma matéria sobre o Palavras Sobre Qualquer Coisa e uma breve entrevista.


Estamos muito muito felizes! Para ler a matéria é só clicar no link abaixo, ela está em francês e português (ao final). Prestigiem a literatura nacional e principalmente o espaço para autores da Baixada Fluminense e periferias do Rio e do Brasil.


Merci.

Um trechinho em francês... para ler a matéria toda é só clicar no link ao final.


Alors que les auteurs Ferréz et Rodrigo Ciríaco se préparent à quitter São Paulo pour Paris dans quelques semaines à l’occasion du Salon du Livre, les éditions Anacaona poursuivent leur valorisation de la littérature des périphéries, aussi appelée « marginale » au Brésil.
Nous nous présentons l’écrivain Vinícius Fernandes da Silva, auteur du blog Palavras Sobre Qualquer Coisa (Des mots sur tout et rien), implanté et attaché à la région métropolitaine carioca de la Baixada Fluminense. Découvrez son travail, avec une version de l’entretien en portugais ci-dessous.

Peux-tu te présenter et décrire ton projet ?
Je m’appelle Vinícius Fernandes da Silva, j’ai 35 ans. Je suis né à Nova Iguaçu à Rio de Janeiro, j’ai grandi dans le quartier Mesquita et j’habite actuellement à Belford Roxo avec mon épouse. Je suis habitant, défenseur et critique du territoire qu’on appelle Baixada Fluminense.
Je suis poète, écrivain et professeur, doctorant en planification urbaine et en sciences sociales. Aujourd’hui, je suis professeur de sociologie à Rio de Janeiro. J’ai créé et géré le blog Palavras Sobre Qualquer Coisa depuis 2007 et en 2011 j’ai lancé le livre éponyme aux éditions Multifoco. Le livre a reçu la mention honorable dans la catégorie Littérature du Prix Baixada Fluminense de 2012.
L’idée initiale était de publier des poèmes que j’avais écrits, et peu à peu se sont ajoutés des nouvelles, des chroniques, des articles, des textes académiques, des critiques artistiques, des commentaires politiques, ou des présentations d’oeuvres et d’artistes en général. Le blog n’a jamais bénéficié d’aucun soutien financier ou commercial, précisément pour disposer d’une entière liberté éditoriale.

http://www.anacaona.fr/info-favela/voix-peripherie-rio-de-janeiro/



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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Projeto "O Espírito da Coisa"

OLÁ AMIGUINHO/A, TUDO BEM? VOCÊ ME RESPONDERIA UMAS PERGUNTINHAS?

O PSQC tem o intuito de realizar um projeto de crowdfunding (financiamento coletivo) neste ano de 2015. O projeto se chama O ESPÍRITO DA COISA e funcionará assim:

1) A construção de uma plataforma virtual (site) que receberá textos de novos autores da Baixada Fluminense, de periferias do Rio de Janeiro ou até mesmo de periferias de todo o país;
2) Qualquer tema ou conteúdo poderá ser abordado (sendo vedado qualquer discurso de ódio) e a publicação no site será gratuita;
3) Os textos enviados passarão por um período de votação pela internet;
4) Os textos mais populares entrarão na publicação de uma revista literária luxuosa e lindona a ser confeccionada trimestralmente (provavelmente);
5) Os autores não pagarão nenhum centavo para terem seus textos publicados na revista. O único trabalho é fazer a divulgação e torná-los populares, curtidos ou votados, para que possam ser publicados.


Perguntas:
Você contribuiria financeiramente neste projeto?
Com qual valor você estaria disposto a contribuir?
Realizando a contribuição, que recompensas (brindes) você gostaria de receber?
Gostou da ideia? Tem sugestões a nos fazer?

Para quem ainda não sabe muito bem o que é crowdfunding, adianto que se trata de algo bem próximo a nós, o que nos acostumamos chamar de "vaquinha". Mas o PSQC prefere chamar de: concretização de ideias de forma coletiva!

Quer saber mais sobre o assunto? Então acho que este vídeo pode te ajudar:


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu não sou carioca!



Eu nasci no Rio de Janeiro, mas não sou carioca. 

Rio de Janeiro e São Paulo são os dois estados da federação em que Estado e Capital se confundem em seus nomes. Portanto em São Paulo há paulistanos e paulistas. No Rio há cariocas e fluminenses. Porém diferentemente de São Paulo, essa distinção no Rio de Janeiro parece ser muito mais fluida, principalmente para quem vive na chamada Região Metropolitana do Estado, ou Grande Rio, onde estão a cidade do Rio de Janeiro e os municípios ao seu redor. No Rio de Janeiro há então como distinção os cariocas da "gema" e os cariocas.

Eu não sou carioca. Para mim 20 graus não é inverno. Eu não vou ao shopping de chinelo. Eu não gosto de horário de verão. Eu não tomo chopinho na praia depois do expediente. Eu não moro pertinho da praia. Eu não aplaudo o pôr-do-sol no Arpoador. Eu não vou à praia da Barra aos finais de semana. Não frequento o Baixo Gávea. Não tenho o corpo bronzeado de Sol. Não malho para ficar desfilando de sungão nas areias das praias da Zona Sul. Não vou à rodas de samba. Não torço para nenhuma escola de samba. Não decoro os sambas-enredos. Não passeio de bicicleta pela Lagoa. Não ando diariamente pelo Jardim Botânico. Não vou ao carnaval de rua. O garçom não é meu amigo e não sei o seu nome. 

Eu sou fluminense. É duro um botafoguense ter que afirmar isso, mas acredito que para flamenguistas e vascaínos a "dor" seja a mesma. Sou nascido, criado e habitante da Baixada Fluminense. Esta região, a Baixada, é composta mais ou menos por 13 municípios (existem diferentes tipos de classificação), mas quem nasce e habita alguma de suas cidades, sabe que há uma relação intrínseca entre quase todas elas.

Não, eu não o odeio a cidade do Rio de Janeiro. Muito pelo contrário. Minha vida acadêmica, profissional e cultural se fez andando pelas ruas do Rio. Fiz o antigo segundo grau no Maracanã/Tijuca, fiz a graduação e mestrado no coração do Centro, trabalhei anos no Galeão e meu doutorado também foi pelas terras da Ilha do Governador, para ser mais exato na Ilha do Fundão. Trabalhei na Glória, frequentei casas de amigos na Zona Sul, cinemas, teatros, festas e, raramente, praias também por lá. 

Na minha adolescência, e talvez juventude, tive vergonha, às vezes, em dizer que era da Baixada Fluminense. Porque quem é da Baixada vive em um certo limbo identitário. Estamos próximos demais do Rio, e por isso embebidos por essa "entidade" carioca, mas não temos os benefícios que a cidade do Rio de Janeiro possui. Ao mesmo tempo não estamos distantes o bastante para assumirmos outras identidades territoriais, como quem vive em Campos, Macaé, Itaperuna ou até mesmo Petrópolis ou Niterói, que já foram capitais. A primeira foi "capital de veraneio" da família imperial, a segunda foi capital do Estado do Rio de Janeiro, enquanto a cidade do Rio de Janeiro era a capital do Estado da Guanabara (vai entender?).

A positividade atrelada à identidade territorial e cultural do Rio foi forjada no Brasil a partir da década de 1950, com a Copa do Mundo e os processos de internacionalização da imagem do país realizados em um dos breves períodos em que efetivamente fomos uma democracia no século XX. A música, principalmente com o Samba e a Bossa Nova, foi outro caminho de construção desta identidade que, de certa forma e durante anos, projetou ao mundo e ao próprio Brasil o que é ser do Rio de Janeiro. Ser carioca é percebido por muita gente como ser... brasileiro, apesar dessa afirmação não ser mais uma unanimidade. Com o passar dos anos e em outros estados do país ocorreu uma transformação. Uma carga negativa formou-se em se dizer que é do Rio, pois parece haver uma percepção de "malandragem" ou "desvio moral" em quem fala com "chiado" entre o -t.

Porém essa identidade não é fixa, ela se desloca. Há também os favelados e os suburbanos cariocas, que sofrem com as agruras da violência, da desigualdade social e econômica, mas que de certa maneira também foram incorporados pela idealização e romantização do arquétipo do que é "ser" carioca, onde o samba, o funk e outros elementos populares fundem-se à alta cultura praiana e intelectual da Zona Sul. Políticos que não possuem absolutamente nada a ver com subúrbios ou favelas souberam se utilizar muito bem deste expediente identitário e simbólico, vale lembrar das campanhas eleitorais de Sergio Cabral e Eduardo Paes. 

Como escapar da explosão de beleza e cores ao sair do Túnel Rebouças e dar de cara com a paisagem da Lagoa e seus entornos? Onde efetivamente se tem a impressão da perfeita harmonia entre Natureza e Urbes (apesar de sabermos que não é muito bem assim). Algumas partes do Rio de Janeiro são inacreditavelmente extasiantes, e não é difícil de compreender porque os gringos ficam completamente enlouquecidos quando aqui/lá chegam.

Mas... e os fluminenses? Bom, também e basicamente convivemos com esteriótipos muito fortes. Como "cariocas" temos quase todas as associações pertinentes aos cariocas da gema, quase... Mas com o adendo da percepção coletiva da extrema violência, da extrema pobreza, da extrema sujeira, da extrema falta de urbanização. Não que estas percepções não reflitam a realidade. Mas não definem absolutamente quem somos.

Para exemplificar podemos demonstrar a fala de dois candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro durante a campanha eleitoral de 2014. Marcelo Crivella disse que devia-se melhorar as oportunidades de trabalho na Baixada "para que eles (bandidos) não venham de lá para roubar na Capital". Pezão, atual governador, ao justificar a preferência da ida do Metrô à Barra ao invés da Baixada disse que "era para dar mais conforto às empregadas domésticas e ao pessoal que trabalha no comércio da Barra". Portanto não haveria saída identitária a quem nos governasse: morador da Baixada ou é "bandido" por falta de oportunidades ou tem trabalho "subalterno". Há milhares de empregadas domésticas e comerciários na Baixada, e isso nos engrandece, mas somos muito, mas muito mais do que somente isso. Eu sou doutor, mestre, sociólogo, poeta, escritor e professor titular do Colégio Pedro II. Eu sou da Baixada Fluminense! E muitos outros "iguais" a mim também são ou estão no processo de mobilidade social, cultural e educacional.

Então em um determinado momento (não sei quando) decidi ter orgulho por ser fluminense, em ter nascido nesta terra e viver neste território. Hoje vivo na Baixada porque minhas famílias vivem aqui, meus amigos, porque o custo de vida é mais baixo e por uma decisão política. Sim, política! Continuarei reclamando, gritando, comparando e apontando as diferenças de nossa rede urbana e de saneamento, nossa terrível deficiência nos transportes urbanos, a falta de produtos e dispositivos culturais de alto nível, nosso corpo político coronelista e retrógrado, nossa bárbara violência (eu, minha esposa e sogra fomos violentamente assaltados na tarde do dia 08/01/2015 em Nova Iguaçu). Mas também ressalto e lembro dos vizinhos que formam grandes famílias em calçadas largas, da integração simbiótica entre as muitas cidades, dos banhos de cachoeira no Parque de Mesquita/Nova Iguaçu, em Tinguá ou no Parque do Gericinó em Nilópolis. Da pipa na rua. Do futebol no campo de terra. Da piscininha de plástico na laje.

E antes que pensem que sou anti-carioca, digo que não sou e não quero ser anti-nada, mas sim ser múltiplo. E neste momento de minha vida sinto-me cada vez mais fluminense, iguaçuano, mesquitense, nilopolitano, belford-roxense, queimadense, caxiense, meritiense, etc. E até... carioca.


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

pra mim o tempo sempre durou mais


sempre quis que o tempo fosse mais curto
como um Rimbaud a produzir sua obra prima na juventude mais tenra

que a genialidade escorresse entre os poros de minha carne ainda dura
que a corrosão do conhecimento espontâneo saltasse pelos olhos espantados

sempre quis o elogio da surpresa pela inteligência tenaz
como do gozo do cientista pela complexidade simples da descoberta

que a serenidade transparecesse pelos golpes de pequenos dedos
que o charme da inocência superior inflamasse a todos e a todas

tolo
tolo

pra mim o tempo sempre durou mais
como o bolo que sola sem se perceber

como o capataz que se demora a notar que é capataz
como o escriba que faz e refaz seu ofício porque dele depende

como o escultor que martela a pedra bruta sem nunca parar de lascar
como o torrão de açúcar que como ambrosia fosse

pra nunca esquecer que de gênios Gaia se faz de poucos
e de ferreiros necessita para a eterna manutenção do devir.



sempre quis que o tempo fosse mais curto
como se para esquecessem dos poucos erros ainda acumulados

que os platônicos amores permanecessem em suas áureas eternas
que a inspiração transbordasse a todo momento que requerida

sempre quis a saliva mais ácida e o mel mais doce a estalarem no céu da boca
como do anseio de Dorian para com a beleza mais divinal

que a glória mais profana iluminasse o passar das horas
que o apupo das palmas se deflagrasse ao sibilar de palavras ao vento

tolo
tolo

pra mim o tempo sempre durou mais.






















Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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sábado, 27 de dezembro de 2014

A Caixa de Afetuosidades






























Alguns anos atrás, acho que há mais de dez, uma grande amiga me deu um presente inusitado. Uma caixa de papelão grosso encapada por ela mesmo, em papel presente prateado, listrado e brilhante. Uma caixa... vazia! 

Em nossa tradicional cultura ocidental, dias festivos são preenchidos com embrulhos e caixas cheias de presentes! E assim vamos com nossos dias das Mães, dos Namorados, dos Pais, dos Amigos, das Crianças, Natais, fazendo a alegria do comércio, enchendo de "notícias" os comentaristas econômicos ávidos por crescimento, crescimento e mais crescimento. Não que essas pessoas não sejam importantes ou que estes dias não devam ser comemorados, mas até nossas homenagens foram capitalizadas pelo fetiche da mercadoria. Eu também fui cooptado por este fetiche, e nas vésperas de tais dias, lá vou eu encher shoppings centers e lojas para comprar presentes, e se não o fizer, correrei o risco de ser taxado de filho ingrato, marido insensível e etc. 

Mas e o que fazer com uma caixa vazia? A princípio... a dúvida, mas depois encontrei um destino à mesma. Ela seria a minha... Caixa de Afetuosidades! Isto significaria que a partir de então todo e qualquer documento, papelzinho, lembrança, cartas de amor, bilhetes de filmes, peças teatrais, shows ou eventos que fizessem me religar a uma emoção significativa, entrariam na caixa. Algo que achei que seria banal, tornou-se um marco que considero importante. 

E depois de tanto tempo, minha Caixa de Afetuosidades está cheia, abarrotada de papéis e lembranças que contam um pouco minha vida através de sentimentos e emoções, amores e desamores, acontecimentos vividos antes ou depois de casado, de formar nova família, de fazer novas ou desfazer velhas amizades. Pelos caminhos desconhecidos em que a vida nos traz e nos leva, a amiga que me presentou com a Caixa hoje não faz mais parte do rol de meus amigos mais íntimos. Na verdade nem trocamos mais palavras. E se me perguntarem "o por quê disso"? Não sei responder. Obviamente que erros cometi nesta relação de carinho e amizade, nunca com a intenção da mágoa ou do ressentimento, mas talvez coisas muito intensas tenham destinos mais dramáticos. Elucubrações de quem sabe muito pouco sobre os mistérios dessa grande surpresa que é a vida. Mas ao olhar para a Caixa, o amor e amizade que sinto por ela continuam presentes, porque não existe ex-amor, amores apenas se transformam.

Com o passar de todos estes anos a Caixa continua firme e forte, com claros desgastes que só o tempo pode proporcionar. Com sua tampa a rachar nas pontas, com o papel a descolar de suas paredes, com o brilho prateado a ficar fosco, com a poeira que se não se cansa de lhe sujar. Mas continua ali, altiva e viva, ainda recebendo, de vez em quando, os talhos de memória que a fazem cumprir a missão que lhe dei.

Hoje já se faz necessário uma nova Caixa de Afetuosidades, um novo recipiente para novas emoções, lembranças e aventuras. Para que os acúmulos possam ter representatividades materiais, não somente em fotografias, mas em pedaços que em um simples toque ou olhar, tragam a explosão de memórias e afetos já vivificados.

E se eu chegar à mais profunda velhice, meus descendentes poderão ouvir minhas histórias de meus lábios murchos, mas quando aqui não mais estiver, minhas Caixas de Afetuosidades ajudarão a revelar com mais carinho e amor os sentimentos que permearam minha vida.    

E você, já fez ou ganhou sua Caixa de Afetuosidades?


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

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Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!
Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

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