(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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terça-feira, 18 de novembro de 2014

BAIXADA FLUMINENSE: Inovações e Permanências, por Adrianno Oliveira

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro em Fevereiro de 2014.






















Para ler e fazer o download da tese completa é só clicar neste link:





Adrianno Oliveira é capixaba de alma fluminense, vascaíno e pai do Gabriel.
Economista e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ, leciona Economia Brasileira e Economia Fluminense no campus Nova Iguaçu da UFRRJ. Apaixonado por economia, artes, cinema e fotografia (não necessariamente nesta ordem) e agora se embrenhando em outras searas, sempre buscando o novo, pois como diria o amigo Buzz Lightyear: “Ao infinito....e além!”






Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Diálogos III

- Cara, não acredito, puta que pariu, quanto tempo, quantos anos?!
- Meu Deus, como você tá meu amigo? Só o pré-vestibular tem uns 15 anos...
- Pois é, depois disso nos vimos pouquíssimas vezes!
- É verdade, e essa barba? Tá parecendo um Black Bloc, hahahaha!
- Eh... é, pois é, às vezes deixo a barba crescer, gosto, acho bonito.
- E aí, tá trabalhando aqui perto?
- Sim, sim, dou aula nesta faculdade aqui em frente, mas ando na maior correria...
- É, por quê?
- Porque dou aula aqui, vou e volto de Juiz de Fora também para dar aula e ainda estou terminando meu doutorado...
- Caramba! Que dureza...
- Pois é, mas estou feliz. E você? Todo paramentado...
- É, trabalho neste batalhão já faz um tempinho.
- E não é perigoso?
- Já estou acostumado.
- E família, filhos?
- Pois é, tô com 4 filhos, casado, e moro bem distante. E você?
- Também casei, mas ainda não temos filhos, queremos curtir mais, estudar... Mas em breve teremos.
- Como o tempo passa.
- É... como tempo passa.
- Vi tua prima uma vez, faz um bom tempo, ela terminou medicina, né?
- É, terminou.
- Levei uns vagabundos num camburão no Hospital em que ela estava trabalhando, mas acho que ela não me reconheceu...
- Ah...
- Estava todo sujo de sangue daqueles vagabundos que ela nem deve ter me reconhecido mesmo. Preferi nem falar com ela.
- Ah, sim...
- Mas é isso, vou lá, voltar ao trabalho.
- Também tenho que ir, já está na hora da minha aula e meus alunos estão me esperando.
- Bom te ver meu amigo.
- Bom te ver também... Cara... é... toma cuidado com essas armas aí e isso tudo, tá?
- Relax meu camarada, tá tranquilo, já tô acostumado, tá tudo na... paz.

Obs.: Estes fatos reais são baseados em obra de ficção. Qualquer semelhança não é absolutamente mera coincidência, ou será que é?


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Juiz é Deus sim!



Oras, que conversa é essa de que Juiz não é Deus no Brasil? É óbvio, claro e patente que juízes, e não só eles, são deuses, ou mais que deuses. Juízes, promotores e desembargadores carregam em si, devido às suas funções sociais e incorporações simbólicas, uma aura de inviolabilidade social, econômica e... jurídica.

O caso da agente que tentou aplicar a lei de trânsito a um juiz que conduzia seu carro sem placa e sem documento ao dizer que "ele não era Deus" é somente um dos poucos casos em que uma carteirada ou o "você sabe com quem está falando", como desenvolvido por DaMatta, são operacionalizados no cotidiano brasileiro. Quantas vezes não ouvimos falar que magistrados exigiram serem chamados de "doutores" (mesmo a grande maioria não tendo doutorado) ou "excelências" em ambientes fora de seus domínios laborais, como em reuniões de condomínios, por exemplo. Ou vídeos publicados em que vemos magistrados atuando de maneira arrogante e preconceituosa frente a "subalternos" sociais, como no caso em que um juiz humilha o funcionário de um restaurante no RN, ou do juiz que atirou contra um segurança de um supermercado à queima roupa matando-o no Ceará alguns anos atrás. Ou o que falar do corporativismo, do auxílio-moradia de quatro mil reais aprovado e a proposta do TJ-RJ de um auxílio educação para os filhos dos magistrados no valor de sete mil reais?

Mas como explicar esta situação? Como já citado acima podemos utilizar o conceito de Roberto DaMatta para ressaltar como a existência social brasileira é altamente marcada e delimitada por uma hierarquia social baseada em diferenciados prestígios simbólicos e que acabam por ser internalizados pelos grupos sociais desde o início de seus processos de socialização. Por este motivo o "sabe com quem está falando" ainda é tão compreendido e assimilado por todas as classes sociais no país.

Outro conceito que podemos observar é o trazido por Raymundo Faoro em seu "Os Donos do Poder", onde o mesmo fará um aprofundado estudo sobre a formação social e jurídico-administrativa do Brasil, recompondo as tradições ibéricas históricas dos indivíduos que vieram formar nosso país. Utilizando dos conceitos e metodologias de Max Weber, o jurista gaúcho irá demarcar a existência de um estamento social que conduziria os rumos materiais e simbólicos da nação, tendo uma gerência e posição privilegiadas dentro do cenário político e social brasileiro.

Para Faoro "o estamento burocrático comanda o ramo civil e militar da administração e, dessa base, com aparelhamento próprio, invade e dirige a esfera econômica, política e financeira. No campo econômico, as medidas postas em prática, que ultrapassam a regulamentação formal da ideologia liberal, alcançam desde as prescrições financeiras e monetárias até a gestão direta das empresas, passando pelo regime das concessões estatais e das ordenações sobre o trabalho. Atuar diretamente ou mediante incentivos serão técnicas desenvolvidas dentro de um só escopo. Nas suas relações com a sociedade, o estamento diretor provê acerca das oportunidades de ascensão política, ora dispensando prestígio, ora reprimindo transtornos sediciosos, que buscam romper o esquema de controle".

Dessa forma o Poder Judicário brasileiro não obedeceria ipsis litteris à conceituação desenvolvida por Faoro, mas de alguma forma se relacionaria de maneira contundente com a mesma. O Poder Judiciário é um dos elementos da trindade fundadora de nosso republicanismo democrático representativo, mesmo que subjugado em determinados momentos de nossa História, tendo sua influência diminuída em seu aspecto de garantidor da democracia como na República Velha, no Estado Novo e na malfadada Ditadura Militar de 1964 a 1985. 

Com a Constituição de 1988 o Poder Judiciário ganha novo significado e vigor diante de nossa jovem democracia, passando a ter um papel cada vez mais fundamental dentro das disputas e cenários políticos que vão se travando com a estruturação de grandes blocos partidários e correntes políticas. Há, a partir de então, a observação do aumento do papel do Judiciário no arbítrio de uma justiça social, às vezes atropelando e superando as funções do Executivo, ou até mesmo legislando sobre matérias que teriam como principal agente o Legislativo, extrapolando, portanto, suas funções fundantes. Todas estas observações, e críticas a estas observações, são válidas e necessitam cada vez mais de debates acadêmicos e de participação da opinião pública.

Talvez a grande questão a que devamos nos ater no caso do Poder Judiciário é o substrato de sua função primordial: a garantia da democracia. Porém como um poder que deve ter como principal atividade possibilitar o acesso à democracia, através das leis, não ser justamente democrático? Apesar de todas as desvirtuações observadas nos últimos tempos nos poderes Executivo e Legislativo, os mesmos ainda são regidos, apesar das formas assimétricas vistas entre poder econômico e poder popular, por processos democráticos. Mas e o Judiciário? Não queremos aqui romper com a determinação do concurso e do mérito pessoal para a efetivação de técnicos judiciários, juízes, promotores e defensores públicos, porém como um poder autônomo pode ser garantidor da democracia sem ao menos usufruí-la? Não seria interessante a população escolher através de sufrágio o promotor de uma determinada região entre alguns postulantes, já que sabemos ser impossível o caráter da neutralidade política? Não seria interessante haver um sufrágio para decidirmos qual o juiz será o responsável por tal Vara ou Comarca por determinado período? Ou, como se dá a escolha dos desembargadores? Alguém sabe realmente os critérios e como funciona?     

Esta é uma discussão a ser travada indissoluvelmente no presente, no agora da estruturação de nossa democracia e talvez só a efetiva participação popular de uma Constituinte possa elencar este tema para as reformas que tanto necessitamos. 

Quanto ao caráter simbólico do uso da função e do prestígio social da magistratura na vida cotidiana, há de se afirmar que a grande maioria dos magistrados e promotores não se utilizam do expediente descrito no início deste texto, por suas corretas percepções de que exercem função de servidores públicos ou por suas convicções de foro pessoal e íntimo. Porém o que devemos estar atentos não é sobre as possibilidades de suprimir estas "vantagens" sociais por escolhas e determinação pessoais, mas sim de que ainda seja suportado socialmente e juridicamente a possibilidade de "carteiradas" e "sabe com quem está falando" em pleno momento de luta e reafirmação democrática.

E ao final destas considerações irei contradizer o título deste texto para me desdizer com orgulho que "Juiz não é Deus!".


Citação: FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Vol. I e II. Editora Globo, Publifolha, Coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro, 10a. edição, 2000, p. 740.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Da grande vantagem de se ganhar mal, por Marco Vinícius Lamarão


Ou das verdades que a pequena burguesia tem mais medo...

(1) A primeira grande e incontestável vantagem de se ganhar mal é o fato de que, no mês de Abril, você não precisa pagar o imposto de renda e se lembrar - de forma violenta - o quanto você é roubado pelo Estado.

(2) A segunda grande vantagem é que, quando você falta ao trabalho, você não perde quase nada; é quase um brinde ou feriado.

(3) Você ganha tão mal que qualquer troco a mais errado é praticamente um novo 13º.

(4) Você pode olhar com cara de gozo para os seus amigos que ganham bem e pensar, soberbo: "traidores da causa".

(5) Na hora de pagar a conta, a família te trata como café-com-leite e você acaba não desembolsando muito, graças ao “ratatá” da solidariedade.

(6) "Viver com dívidas é viver com liberdade" é teu lema.

(7) Qualquer aumento que te derem é significativo embora, na real, não seja nada além do que um troco errado ...

(8) Pra quê ganhar bem quando se pode comprar em Madureira?

(9) De tão determinado na pobreza, montado na miséria, o pessoal já te considera o "sem lenço, sem documento" dos tempos modernos e, por conta disso, nutre certa admiração por você...

(10) Descobre que ganhar mal não é problema, problema é o carnê não ser aceito na "Ricardo Eletro", afinal, pra que serve a fortuna de Bill Gates se já inventaram o crediário?

O resto é luxúria!



Marco Vinícius Lamarão - Professor, militante, mil e tantos, metido a poeta e escritor, semi-músico, proto artista incubado, vídeo-maker inapto, mas sei fazer batatas souté. Dizem que sou formado em história, com mestrado em educação e que dou aula no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, mas eu duvido. Não passo, não lavo, não faxino e cobro caro, pois como todos nós- doença endêmica- por me dar preço, perco o meu valor. É nesta negação afirmativa que, quando não estou trabalhando, vivo. Não sou flamenguista e nem corintiano e esta coluna literária só não é mais torta do que a minha. Quanto ao que debateremos aqui: tudo e nada, cada qual em seu parágrafo ou não. Amém. 


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

CINEFILIA: "Relatos Selvagens", por Samantha Brasil

É com muito orgulho que o PSQC anuncia a luxuosa participação de Samantha Brasil em nosso humilde e persistente espaço. Samantha irá nos brindar com sua percepção aguçada e coração afetuoso para a arte mais apaixonante dos tempos modernos: o CINEMA!

Com duas críticas por mês, espaçadas quinzenalmente, irá falar sobre filmes de arte que entrarão em circuito. Nas segundas e últimas sextas-feiras de cada mês. Excepcionalmente estreamos hoje. Porquê? Porque somos ansiosos oras, eu e ela! Degustem! Divirtam-se! 

Obrigado Samantha. 




Relatos Selvagens

Por Samantha Brasil

7/11/2014

Relatos Selvagens é o indicado da Argentina ao Oscar de filme estrangeiro de 2015. O filme é uma produção de Pedro Almodóvar, escrito e dirigido por Damián Szifrón (criador da série argentina Os simuladores). Com ritmo frenético, acompanhado de uma estética do caos, permeado por uma linguagem coloquial e versando sobre vingança, o filme é composto por seis esquetes que não se comunicam, mas que brilham em conjunto de forma magistral. É difícil vermos um longa-metragem composto por historietas em que todas funcionem de forma eficiente. Aqui, pelo menos 4 são excelentes e 2 ótimas e é por este motivo que a película tem sido ovacionada por público e crítica.

Relatos Selvagens tem um galã de peso no elenco, o queridinho do público brasileiro Ricardo Darín. Mas o filme é muito maior que isso. A trama que envolve Darín é de fato uma das melhores. No dia do aniversário da filha, seu carro é rebocado por estar estacionado de forma irregular bem na hora em que ele está comprando o bolo da festa para a qual está extremamente atrasado. Ao se dirigir ao departamento de trânsito, além de pagar uma multa exorbitante, se depara com toda a burocracia que é peculiar aos serviços públicos e tem momentos de fúria que poderiam ser vividos por qualquer pessoa em situação semelhante. E é de momentos como esse que vem a “selvageria” do roteiro. No filme, em cada situação limite a que os personagens são submetidos, as respostas a estes estímulos são justamente aquelas que não podemos fazer por termos que respeitar não só às Leis como todas as regras de bom convívio social. Num embate entre cidadão versus Estado, esse trecho faz alusão ao filme Um dia de fúria (1993, Joel Schumacher) protagonizado por Michael Douglas

Neste universo da barbárie criado pelo diretor em que o politicamente correto não existe vemos ainda a trama na qual um rapaz da alta sociedade argentina atropela de madrugada uma mulher e, para tentar livrar o filho do cumprimento da pena pelo crime cometido, o pai usa das mais ardilosas ferramentas de corrupção imaginadas. Imediatamente somos remetidos ao interessante filme turco 3 macacos (2008, Nuri Bilge Ceylan) que trata de temática semelhante de forma séria e mais visceral.

Um episódio de ares tarantinescos envolve uma briga de trânsito, no qual dois homens vão aos limites da loucura após uma discussão por conta de uma ultrapassagem na estrada. Afinal, quem nunca discutiu no trânsito e/ou teve vontade de matar alguém ou simplesmente destruir o carro do oponente pelo simples prazer de expor todo o ódio cego que estava sentindo? Para encerrar o filme temos a atuação fantástica de Erica Rivas que interpreta uma noiva “à beira de um ataque de nervos” (em homenagem à produção de Almodóvar) no dia da sua festa de casamento.

Os seis episódios que compõem essa obra são alinhavados pela excelente trilha sonora composta por Gustavo Santaolalla que dão o tom grave de humor negro que nos faz rir de situações grotescas nas quais, de uma forma ou de outra, iremos nos identificar. Apesar de episódios breves (cada um tem em torno de 20 minutos), é possível fazermos uma reflexão sobre todos os “sacrifícios” que temos que fazer para nos conter no dia-a-dia a fim de que possamos viver de forma pacífica em sociedade. Em tempos em que uma cultura de intolerância e de ódio é crescente, Relatos Selvagens vem para nos fazer refletir sobre até que ponto podemos ir para satisfazer um desejo de vingança, ou porque não, de fazer justiça com as próprias mãos.

Nota: ♥ ♥ ♥ ♥  ½

Obs.: A escala de corações vai de coração vazio (em branco) até cinco!

RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes)
Direção: Damián Szifrón
Elenco: Ricardo Darín, Oscar Martínez, Leonardo Sbaraglia, Erica Rivas, Diego Gentili

Produção: Argentina/Espanha (2014)






Samantha Brasil foi criada na Ilha do Governador, insular espaço fincado na Zona Norte do Rio de Janeiro, permeada entre a Baía da Guanabara, o Aeroporto do Galeão e a Ilha do Fundão. Fez Ciências Sociais na UFRJ, mas decidiu também fazer Direito. Hoje é funcionária do TJ-RJ. O cinema foi surgindo em sua vida como gosto, até atingir o ápice de vício. Médicos dizem que hoje não há mais cura, então sua única saída será ver mais e mais filmes, além de viajar em busca de Mostras e Festivais de cinema. Agora também escreve sobre esta maravilhosa arte, porque vício é assim mesmo.


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Democracia de Exceção

Aristóteles já havia percebido que a melhor forma de governo seria o governo do “meio”, ou seja, uma forma de governo que atendesse aos interesses médios de uma sociedade. Em seu escalonamento da tirania à monarquia, levando-se em consideração a pior forma de governo à melhor forma, o filósofo acaba por consagrar a democracia como a melhor possibilidade, mesmo esta sendo uma degeneração da “politia”, mas talvez por ser mais eficaz em congregar os interesses das elites às necessidades da plebe.

Muitos anos depois Montesquieu viria refletir sobre as transições entre o poder no Estado francês, muito devido à nova força pautada pela burguesia. Suas considerações sobre a separação e autonomia entre os poderes constituintes do Estado teriam influência decisiva às revoluções liberais que ocorreriam nos EUA e na própria França. Indicando a solidificação do ideário dos poderes autônomos, tendo ressaltado principalmente o Executivo e o Legislativo.

A constituição dos novos Estados burgueses ocidentais obedeciam, quase que em sua totalidade, à configuração pautada na divisão dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O Brasil, após o golpe militar e a proclamação da República em 1889, foi amplamente inspirado na constituição administrativa de seu novo Estado pelo modelo democrático representativo norte-americano e na pax romana, na construção de seu modelo jurídico institucional.

A partir de 1988, quase cem anos após tornar-se uma República, o país finalmente constrói um documento progressista e garantidor das liberdades individuais e coletivas. De acordo com o modelo liberal nossa nova Constituição atenderia a todos os requisitos necessários à liberdade política e ao empreendedorismo privado. 

Porém vinte e seis anos após redigirmos nossa atual Carta Magna, as limitações e contradições para a efetivação da democracia proposta à época se colocam presentes neste momento. Como recém-saída de vinte anos de ditadura militar, nossa Constituição, em sua execução durante os anos seguintes, foi utilizada com um caráter inibidor do protagonismo democrático efetivamente popular. O medo do povo dispôs nosso corpo político-partidário a uma ideia de representatividade que expurga qualquer ação de participação direta. Neste aspecto a democracia só pode ser exercida através das eleições, pois qualquer outra forma de ação política proposta pela sociedade civil é refutada por um dirigismo partidário que reflete os interesses de manutenção do poder concentrado em legendas e grupos políticos que se perpetuam no cenário eleitoral por anos e anos.

A democracia real, aquela vivida no dia-a-dia nas ruas e instituições pelo conjunto da sociedade, ainda é uma sombra em relação à democracia proposta na Constituição de 1988. Os direitos fundamentais e as liberdades individuais e coletivas estão hoje pautados pela estratificação social por renda, escolaridade, sobrenome familiar, função socialmente exercida e cor de pele. A criminalização da pobreza é a maior usurpação dos direitos conquistados no pós-ditadura, pois hoje temos territórios, sabidamente pobres, tomados por forças militares com a autorização expressa da presidência da República. A democracia de exceção configura-se pela amplitude dos direitos conquistados juridicamente, mas pelas limitações encontradas na vida real.

Para que exemplos mais claros sejam dados, podemos citar o caso do juiz que foi considerado vítima pela Justiça por ter sido afirmado "que ele não era Deus”, sendo que o mesmo infringia claramente regras de trânsito e assim receberá indenização justamente por não ser... Deus. Ou então o caso de uma chacina agendada publicamente pela Polícia Militar através das redes sociais para o extermínio de pessoas em uma região pobre de Belém do Pará. Em uma democracia de exceção, estes exemplos se repetirão até que uma democracia mais próxima da vida real seja implantada.

Vinícius Silva é Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC -Faculdade de Duque de Caxias-, e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco.


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domingo, 2 de novembro de 2014

FLIM - 2 Festival de Leitura Interativa Mesquitense - 6 a 8 de Novembro de 2014


Como mesquitense venho com muito orgulho divulgar este evento. Não irei participar da programação do festival (adoraria por sinal) mas irei participar como beneficiário e cidadão de minha cidade. Que eventos como este surjam cada vez mais entre as cidades da Baixada Fluminense!











A programação:















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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os olhos abertos de Che

Os olhos abertos de Che vêem um caminho, libertam-se da dor. Esclarecem que na estrada escolhida de guerras, sujeiras, cansaço e fome, a fé ainda permanece ativa e altiva. Não a fé divinal, mas a fé de que os homens podem escolher a estrada da igualdade.

Os olhos abertos de Che revelam a convicção da escolha pelo projeto de mudança, mesmo tendo a violência como meio. Assistem a tentativa de sobrevivência ainda igualitária do povo cubano, a busca por mais igualdade em sua finda Bolívia, ao esquecimento e afastamento de sua terra portenha às suas ideologias.

Os olhos abertos de Che navegam pelo ar, correndo entre motocicletas nas vielas andinas deste continente. Sobrevoam as cidades, os vilarejos, e torcem que seus habitantes tenham a felicidade material e imaterial que tanto merecem. Estes olhos viajam invisíveis ao lado dos andantes, dos errantes, dos pedintes, dos mendigos, a penetrar-lhes as iris e a indagar "À luta?". Estes olhos emudecidos enxergam, mas quase sempre não são vistos.

Os olhos abertos de Che procuram seus filhos para dizer-lhes "Papai ama vocês". Procuram seus algozes para avisar-lhes "Sem mágoas, a morte a todos chega". Estes olhos cegam ao observarem que o rosto que lhes contém virou produto vendido e vendível. Estes olhos ao final lacrimejam, sorriem e pensam "Jovens, que sigam suas escolhas".

Os olhos abertos de Che se fecham e descansam, mas em seu último piscar me encontram e gritam "Tú!".   



Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pra sonhar e cantar, por André Jamaica

"Nasci pra sonhar e cantar". Este me seria um epitáfio perfeito. Pra quem não ligou nome à pessoa, epitáfio é aquela frase escrita no túmulo e que, geralmente, resume o que foi a vida do defunto.

Canto desde criança e isso não quer dizer que eu cantava bem. Não nasci cantor. Não fui aquela criança afinadíssima que poderia tentar uma vaga no coro dos Meninos Cantores de Petrópolis ou no programa de calouros mirins do Raul Gil. Eu era, sim, uma criança cara de pau! Com seis anos cantei na escola a música "Sonhos" do Peninha, sucesso nos meados da década de 70. Eu me diverti. Não posso dizer o mesmo de quem ouviu. Meu pai criava porcos e galinhas e eu, moleque, gostava de subir num pé de jenipapo e gastava ali um bom tempo cantando pra eles. Hoje sei que não tornei a vida daqueles bichos nada fácil.

Me tornei cantor por insistência, por teimosia e também por destino. Eu já estava em sala de aula travestido de professor de História quando a música resolveu me dar uma chance. Me agarrei a ela e larguei tudo. Fui encarar a noite, o barzinho, o público. Eu e meu companheiro violão. A cada música que cantava, em cada bar que trabalhei, tinha a certeza que desenvolvia ali o meu ofício, o ofício de cantar.Certa feita, depois de uma noite de trabalho, um cliente me abordou dizendo: "Estou com problemas sérios mas te ouvir cantar me fez esquecê- los por algumas horas, obrigado por isso". Gelei. Não tinha noção do tamanho da responsabilidade do meu ofício. Aprendi.

Mas a redenção do moleque que atormentava porcos e galinhas com sua voz chinfrim chegaria anos mais tarde. Parte relevante da história da música brasileira passa pelo auditório da Rádio Nacional. Por ali, nas décadas de 40 e 50 passaram os maiores cantores e cantoras do país, algumas das maiores vozes brasileiras em todos os tempos. Cantar naquele auditório equivale a um jogador de futebol jogar no Maracanã. Coisa de sonho.

E lá estava eu, no dia 23 de outubro de 2008 acompanhado pelo grupo Mulato Velho, no programa Dorina.com, cantando na Rádio Nacional. Confesso que chorei muito emocionado por estar ali. Não que eu achasse que tinha, e não tinha e não tenho, a qualidade e a importância das estrelas que ali passaram mas, estar ali fazia de mim um companheiro de profissão de Marlene, Emilinha, Cauby, Francisco Alves, Orlando Silva. Nunca, em nenhum lugar, em nenhum palco, eu me senti tão cantor.

Me exponho a tanta emoção porque... "Nasci pra sonhar e cantar".   




Músico e Historiador, André Jamaica trabalhou como professor de História em pré- vestibulares comunitários e começou sua carreira musical fazendo voz e violão em bares da Baixada Fluminense. Com a banda Caô de Raiz, vencedora dos prêmios de Melhor Banda e Melhor Música do Festival Som da UFF, gravou seu primeiro cd. Hoje André Jamaica é um cantor de samba requisitado nas rodas do Rio e lançou em 2014 o cd Fuzuê, com o grupo Sambalangandã, do qual é vocalista.





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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Obrigado Eleições 2014!




Obrigado Eleições 2014!

Obrigado por nos mostrar que existe, sim, luta de classes neste país. Que a estratificação social por renda, escolaridade, profissão, território, idade e cor da pele pode ser refletida na escolha eleitoral e nas propostas de diferentes partidos.

Obrigado por trazer de volta uma polarização explícita da política brasileira, onde o muro ficou bem estreitinho e difícil de ficar em cima.

Obrigado por colocar a política como tema principal do país, seja nas redes sociais, nos jornais, nos botecos e nas reuniões familiares. Isto é de um avanço sem precedentes em nossa História.

Obrigado por desvelar o rosto do ódio, este representado pelo fascismo, pela intolerância, racismo, xenofobia, homofobia, e por outras tantas fobias. Por desmascarar uma boa parte da população que se diz "democrática" mas que na verdade só quer admitir a existência de quem pensa igual a seus mesmos valores e opiniões. Ao outro? A aniquilação.

Obrigado por revelar que entre amigos e familiares que nos beijam, abraçam e apertam nossas mãos cotidianamente há visões de mundo antagônicas às nossas, e que nem por isso os mesmos devem deixar de ser amados, porém indica que devemos estar sempre atentos e vigilantes também aos nossos próximos. Que devemos estar vigilantes a nós mesmos, sempre.

Obrigado por apontar quem deve estar definitivamente excluído de nossas vidas virtuais e reais.

Obrigado por trazer um pouco do futebol para a política e nos fazer esquecer um pouquinho o... futebol.

Obrigado por publicizar como pensa nossa classe médica.

Obrigado por confirmar como pensam nossos policiais e militares.

Obrigado por explicitar que existe uma classe média que ainda não consegue enxergar nas camadas mais pobres a irmandade que nos faz efetivamente brasileiros, todos.

Obrigado por esclarecer que boa parte da militância de partidos que outrora eram de esquerda, e que hoje mal sabemos o "lado", tem uma imensa dificuldade em receber críticas e realizar auto-avaliação.

Obrigado por ser um efeito, sim, das Manifestações de 2013, tão criticadas neste processo de 2014. Se temos uma re-politização abrangente da sociedade brasileira, devemos agradecer às milhões de pessoas que foram às ruas em Junho de 2013.

Obrigado pode deixar mais do que evidente o caráter anti-democrático de uma parte da mídia nacional. 

Obrigado por não restar dúvidas da necessidade de uma Reforma Política no Brasil.

Obrigado!


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.


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Carta a Dilma Rousseff



























À Excelentíssima Senhora Presidenta da República Federativa do Brasil Dilma Rousseff, 

Venho através desta carta, um tanto quanto íntima de um cidadão a seu representante máximo em uma república presidencialista, revelar meus sentimentos e expectativas neste novo ciclo que se inicia. Primeiramente venho parabeniza-la pela difícil vitória e que lhe garantiu a reeleição. Por seguinte irei relatar algumas considerações deste humilde brasileiro que lhe escreve.

A partir deste segundo parágrafo pedirei desculpas, mas passarei tratá-la somente como Presidenta Dilma. Espero que não se zangue. Revelarei neste momento uma inconfidência. Votei na senhora neste segundo turno, mesmo tendo dito publicamente e anteriormente que votaria nulo. Sei que poderão me cobrar por tal atitude, mas achei melhor seguir minha consciência e meus instintos. No primeiro turno meu voto foi na candidata Luciana Genro. Na verdade meus votos nos primeiros turnos desde as eleições de 2006 não são mais em candidatos do PT, mas nos segundos turnos sim. Talvez reflexo da deflagração do mensalão à época.

Presidenta Dilma, votei na senhora neste segundo turno por motivos bem diferentes pela qual votei, torci e elegi Lula na eleição de 2002. No pleito em que Lula se tornou o primeiro presidente de origem efetivamente humilde deste país, a esperança havia vencido o medo. Infelizmente, mais de 10 anos depois, votei na senhora e em seu partido porque... o medo superou a esperança. Obviamente que este medo estava diretamente ligado ao projeto de país do outro candidato e partido. Projeto pautado em replicações de agruras já vividas por longos 8 anos e que não gostaria de ver repetidas em minha vida e na vida de todos os brasileiros. Acredito não ser necessário descrevê-las neste momento.

Mas e a esperança?

Falarei, agora, de desesperança. Minha desesperança teve início quando passei a perceber que, para a efetividade de uma denominada governabilidade, seu partido teve que se aliar ao fisiologismo das forças políticas mais retrógradas, clientelistas e causadoras das desigualdades históricas desse país. Em uma eleição para o governo de uma unidade da federação, a senhora subiu ao palanque de... 4 candidatos? Isto não é apoio, isto é um descompromisso total com qualquer posicionamento político e completo desrespeito aos cidadãos de tal estado, pois não há possibilidade de "derrota", somente a contemplação dos interesses dos muitos "aliados" e que precisam estar na agenda de cargos do governo. Não irei nem comentar sobre os financiadores/investidores de sua campanha, dos aliados e dos opositores. 

Minha desesperança se amplificou ao verificar o seu silêncio pessoal, que também representa um silêncio político e representativo, à imensa repressão policial aos cidadãos que foram às ruas nas Manifestações de Junho de 2013. Ao silêncio à fúria assassina das Polícias Militares em todo território nacional. Ao silêncio ao espancamento coletivo a que professores foram submetidos nas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo. Ao envio da Força Nacional para o impedimento de protestos contra o leilão do pré-sal. E por fim ao maior aparato de repressão policial e militar ocorrido no Brasil desde a ditadura militar no período da Copa do Mundo 2014, onde ao seu final tivemos 28 presos políticos em um inquérito policial que denunciava um anarquista nascido a 200 anos, Bakunin (obviamente... morto) e a constituição de um processo fictício, mas com mais de 2.000 páginas e lido em 20 minutos por um juiz. Seu Ministro da Justiça relatou que foi um procedimento legal. A presidência do seu partido, o PT, disse que as prisões eram inadmissíveis. Quem estava certo? A senhora em nenhum momento respondeu.

A desesperança se confirmou ao perceber que a política econômica, apesar dos importantes programas sociais, ainda está pautada no exacerbado rendimento de uma pequena elite, de bancos privados e do mercado financeiro. Onde a política fiscal arrocha a grande massa trabalhadora em um sistema de recolhimento piramidal e proporcionador de mais desigualdades. A tabela do imposto de renda, defasada mais de 100%, pressiona ainda mais a classe média, que demonstrou todo seu descontentamento nestas eleições. A desesperança se deu ao ver que os interesses ruralistas se sobrepuseram aos interesses de uma agricultura sustentável, da reforma agrária e dos interesses dos reais donos dessa terra: os índios. Que os interesses ultra-religiosos se sobrepuseram aos direitos de todas as orientações sexuais. Que o falso moralismo se sobrepôs à vida das mulheres. Que o discurso da guerra às drogas se sobrepôs à vida de milhares de jovens negros e pobres  

Mas e a esperança? Sim, ela existe. Anda pouca. Pequena. Mas ainda persiste.

A esperança surge na possibilidade de que a senhora, Presidenta Dilma, e seu partido, o PT, voltem de onde vieram, voltem às ruas, aos protestos, às indignações. Vocês deixaram de se indignar e terceirizaram a indignação. Voltem de onde vieram, da esquerda. Que as vozes das ruas entrem pelos corredores do Palácio do Planalto e insufle-os para o combate no Congresso, que sabemos representar os interesses mais conservadores e elitistas deste pais.

Ela, a esperança, emerge da necessidade da reforma política para a governabilidade, porque sem ela, a senhora pode ter certeza, não haverá sossego. Da ampliação da democracia, sua radicalização. Da ampliação da atuação política para além da representação. Da urgência da regulação da mídia, não de seu conteúdo, mas de seus donos, da desconcentração do oligopólio das empresas de comunicação, pois as maiores vítimas somos nós, população com grande déficit educacional e cultural e a senhora, que viu uma das mais grotescas articulações e manipulações para o impedimento da democracia. As empresas de mídia que persistentemente mentem e difamam precisam sofrer as consequências de seus atos, porque, hoje, absolutamente nada acontece a estes poderosos interesses.

A esperança se revigora ao verificar que precisamos repensar o Poder Judiciário, através da reforma política, em que este poder não pode se resumir a um reino estamental, onde se legisla em proveito próprio, onde vive-se totalmente separado de todo o restante do país. O Judiciário brasileiro pode ser qualquer coisa, menos justo. Necessita de algo que o próprio prega, mas que em nenhum momento pratica: a democracia. O Poder Judiciário brasileiro necessita de um banho de democracia. A reforma política necessita incorporar também esta tarefa.

Presidenta Dilma, o desafio é grande, imenso, talvez até mesmo impossível de se completar em 4 anos de governo, mas que precisa se iniciar para já, para amanhã. Peço que o PT esqueça 2018, que esqueça a possível candidatura de Lula, que esqueça o depois e que se foque no presente, para que nunca mais, mas nunca mais, o medo vença a esperança.

Presidenta Dilma, parabéns pela reeleição, e indico que serei um dos primeiros às ruas a bradar se for necessário, contra ou a favor da senhora, porque só assim a esperança poderá voltar à minha vida e às vidas de todos os brasileiros. 


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Mas não podemos generalizar..."




























Albert Einstein no início do século XX revolucionou a física moderna com sua teoria da relatividade. Tudo mudou. O mundo se redefiniu através da percepção que mesmo na Natureza mais desconhecida, na grandeza do Universo, dificilmente poderemos afirmar que algo é absoluto, que uma certeza poderá ser insoluvelmente verdadeira. As teorias da Mecânica de Newton, oriundas ainda do movimento do Renascimento e propulsoras do Iluminismo, tiveram que ser revistas e o próprio sistema filosófico cartesiano* passou a ser questionado a partir de então. A ciência, que através dos ideais do Iluminismo, poderia substituir as religiões na busca humana pelas leis universais e pela verdade, teria que refletir e repensar suas próprias limitações epistemológicas.

Esta pequena introdução aos alicerces da Física é para confirmar que nenhuma generalização é realmente possível. Todas as coisas e afirmações passam pela crivo da relatividade, seja na Natureza, seja pelas diferentes percepções sensoriais humanas.

Outro fato importante é perceber que grandes teorias e cosmologias sempre fizeram parte do imaginário humano coletivo e individual. Sabemos que o homem medieval tinha sua vida inteiramente pautada e vivida pelos ensinamentos e visões de mundo construídos pelas teologias dominantes. Com o avanço da ciência e a substituição das religiões como principais explicadoras do mundo em relação à primeira, os conhecimentos científicos também passaram a interagir com as dinâmicas sociais e na constituição das personalidades. A racionalização dos sistemas educacionais, o planejamento urbanístico, a higienização urbana e social através do avanço da biologia e da medicina, e a valorização das individualidades a partir da psicanálise são alguns dos exemplos que posso dar sobre a retroalimentação entre produção filosófica-científica e a própria reprodução humana, sem nos esquecermos da continuidade da influência religiosa e metafísica neste complexo tripé.  

Isto tudo para dizer que: Não! Não podemos generalizar nada. Nada. Nadinha da Silva. E isto é uma grande virtude, pois é o pressuposto fundamental de que temos a capacidade e a preocupação perene de relativizarmos tudo o que nos é próximo e tudo o que nos é também distante. A habilidade de percebermos o outro, a alteridade.

Portanto ciência e senso comum se entrelaçam em nosso dia-a-da, e isso já faz algum tempo. E só para relembrar que este senso comum trata-se de nossos conhecimentos prévios e/ou atuais e que utilizamos cotidianamente para a realização de qualquer tarefa, em uma conversa informal, em um planejamento temporal, em uma escolha em quem confiar, votar, amar, em uma fé corriqueira, em uma crendice, em tomar um remédio por acreditar que ele irá lhe fazer bem, mesmo fazendo ou não. Este senso comum não é o falso, ou mentiroso, mas ele opera sem as obrigatoriedades metodológicas e éticas do que chamamos de conhecimento científico ou de objetividade científica. 

E dentro do escopo da vida social há a incorporação de certos termos e chavões científicos, ou até mesmo filosóficos, que encontram ressonância na gramática popular e resultam em produções que quase sempre nem mais se relacionam com o enunciado original, perdendo seu sentido primeiro e ampliando outras significações. Significantes e significados se alterando mutuamente. As palavras e as coisas, coisas e palavras.  

Um destes termos anda sendo muito utilizado por bocas brasileiras nos últimos tempos. É o "mas não podemos generalizar...". Fico feliz que nosso povo tenha incorporado em sua dinâmica social um reconhecimento do relativismo. Porém ao mesmo tempo isso me traz uma grande preocupação sobre qual o sentido que tal termo realmente se refere. Infelizmente em nosso senso comum popular, e também no que consideramos os "estratos superiores" da sociedade, o "não podemos generalizar" tornou-se um guarda-chuva teórico-filosófico-frase-feita para justificar o injustificável.   

Se as Polícias Militares em todo país em suas institucionalidades transgridem qualquer ideia primária de direitos humanos, ouvimos logo seus defensores bradarem o "mas não podemos generalizar". Se médicos por todo o país têm atitudes racistas e elitistas através de manifestações públicas e classistas, o "mas não podemos generalizar" surge com toda força. Quando fica evidenciada as intenções de manter oligopólico e familiar o poder da grande mídia, da mídia confundida como corporação, onde o jornalismo é utilizado como ferramenta de subordinação da opinião pública e controle social, não há momento em que não se diga o... "mas não podemos generalizar". A ideia de que INSTITUIÇÕES possam representar ideários  anti-democráticos  e excludentes é muito doloroso para se admitir materialmente e simbolicamente, principalmente quando se faz parte destas instituições, então temos a busca da atomização pelo indivíduo, para que se amenize a sua própria posição institucional diante da óbvia prática/valores da instituição ou classe profissional à qual se pertence.

É óbvio que não podemos reduzir as pessoas às suas instituições. Mas "não generalizar" não pode mais esconder as motivações as quais certas representações atuam e significam claramente. 

Então declaro neste momento, mesmo com a subversão e a dificuldade de subtrair-me de minha formação profissional e científica como sociólogo e professor, que irei generalizar:

Mesmo que nem todos os policiais militares estejam incluídos, a Polícia Militar é uma instituição assassina, torturadora, transgressora dos direitos humanos, e que não possui nenhum compromisso com seu lema jurídico de "servir e proteger", mas com a real função dada pelo Estado de "controlar, reprimir e exterminar".

Mesmo que nem todos os médicos estejam incluídos, a "classe médica" brasileira é formada por profissionais que não têm nenhum interesse por salvar vidas dos pobres ou pela saúde coletiva, buscando muito rapidamente de volta o alto investimento realizado em suas faculdades particulares, atuando de maneira desleixada em clínicas e consultórios do SUS ou em planos de saúde para pobres, e até mesmo para a classe média. Negando-se a atuar em localidades distantes e pauperizadas, e nos rincões do Brasil profundo, mas observando a chegada de médicos estrangeiros para fazer o trabalho que ela classe médica não quer, chamando-os de... "escravos".

Mesmo que nem todos os jornalistas estejam incluídos, a grande mídia brasileira é formada por profissionais que têm como principal missão reafirmar seus valores de classe, garantindo o lucro e os interesses de seus patrões e das empresas em que trabalham, mentindo, vilipendiando, não investigando realmente, usando de deslealdade com companheiros de profissão por mesquinharia e ego.   

E em um último exercício de generalização, deixo em aberto a vocês mais um: me julgar.

*René Descartes (La Haye en Touraine, 31 de março de 1596 – Estocolmo, 11 de fevereiro de 1650 ) foi um filósofo, físicoe matemático francês. Durante a Idade Moderna, também era conhecido por seu nome latino Renatus Cartesius. Notabilizou-se sobretudo por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria - fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Por fim, foi também uma das figuras-chave na Revolução Científica. FONTE: Wikipedia.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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