(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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domingo, 30 de março de 2008

sábado, 29 de março de 2008

Para quem se interessar pelo meu projeto de pesquisa e/ou por minhas atividades acadêmicas coloco aqui o link com o resumo de minha dissertação e a página do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.

Lembrando que o título da dissertação é: "Tem espaço na van: Um estudo de caso em uma cooperativa de vans em uma cidade da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro".

Atualmente sou doutorando em Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ (IPPUR) e aprovado para o doutorado em Ciências Sociais na Unicamp.

Mais uma vez reitero que quem tiver dúvidas, questionamentos, quiser o trabalho em .pdf, ou conversar pessoalmente sobre o tema da pesquisa, é só entrar em contato comigo por este blog, email ou pelos comentários.


http://www.ifcs.ufrj.br/~ppgsa/mestrado/mestrado2007_278.htm


Brevemente será postado o link onde se poderá ir diretamente ao texto (arquivo .pdf) de meu trabalho acadêmico.

Besos.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Um conto sobre trilhos


Essa foi meu pai quem me contou.

Lá pelos idos da década de 70, o que mais se ouvia eram as grandes histórias ocorridas nos vagões dos trens que ligavam os subúrbios e a Baixada Fluminense ao centro da cidade do Rio de Janeiro, eram os trens da antiga Rede Ferroviária Federal.

Osmar era um mulato escuro, de cabelos sebosos, engomados com o primo pré-histórico do gel de hoje dia, a goma. Trabalhava na construção civil mas tinha um "quê" de malandro, usava roupas coloridas, e à noite vestia luvas pretas (era fã dos Panteras Negras). Tirava uma brasa nos bailes de black music, com aquelas pretas suadas que faziam passinhos marcados.

A única coisa que irritava Osmar era ter que pegar o trem lotado todos os dias, tão lotado que às vezes só tinha espaço para colocar um pé, se levantasse o outro, perdia o lugar.

- Olha o amendoim torradinho, olha o amendoim torradinho! – gritava o menino.

- Olha o picolé Dragão Chinês! Tem "Sem Nome" também – berrava outro guri.

- Sabe Tião, um dia eu vou ter um Chevettão só para não ter que pegar mais essa porcaria – resmungou Osmar.

- Que isso Osmar, para de reclamar de barriga cheia, fique satisfeito de ter uma condução baratinha pra gente poder chegar ao trabalho...

- Você se contenta com muito pouco – disse Osmar.

- Tu é que é muito metido – retrucou Tião.

- O que eu queria mesmo era poder pegar o trem em Japeri e ir sentado tirando um cochilo até a Central do Brasil.

Osmar pensava consigo: “Que merda de vida”.

Quando Osmar terminou de refletir seu sofrimento, e com o vagão já devidamente lotado, encostou-lhe um sujeito de quase dois metros, ficou coladinho, o homenzarrão era tão grande que sua axila (também conhecida como sovaco) ficou colada ao nariz do pobre do Osmar. E o pior é que o tal sujeito parecia ter tomado um banho de Leite de Rosas e já começava a suar! Para piorar a situação, já calamitosa, a composição ainda se encontrava em Nova Iguaçu, portanto, levaria mais uns 50 minutos para chegar à gari Central do Brasil.

Tião e Osmar trabalhavam juntos em uma obra no Leblon. O primeiro morava em Queimados, o segundo, como já mencionado, residia em Japeri.

- Brother! Eu nem ligo mais em ter carro, já me basta conseguir um diazinho ir sentado de casa até à Central.

- Do que você me chamou Osmar?

- Brother... ah foi mal, isso significa irmão em “ingrês”.

- Ah bom... pensei que estivesse me xingando...

- Esquece!

E pensava: “Que merda de vida”

Ir sentado passou a ser a grande obsessão de Osmar desde então. E cada vez mais os vagões andavam lotados em seus destinos de ida e volta, do lar para o trabalho, do trabalho para casa, carregando aquelas almas cansadas e exaustas, e não bastasse um dia inteiro de trabalho árduo ainda sobrava a odisséia do chegar às suas residências.

Em outra viagem e com seu contínuo e esquizofrênico desejo de se sentar, Osmar fitava todos os bancos à procura de um cantinho em que pudesse se jogar e tirar um cochilo até seu destino final. Estava ficando louco, passou a odiar os homens que cediam seus lugares às mulheres mais idosas, não podia ver uma grávida que já tecia pensamentos para que o rebento em sua barriga nascesse com uma bunda bem grande, já que mãe e o filho, por nascer, lhe roubavam o acento. Tossia intempéries para as crianças que lhe tomavam o lugar onde poderia pousar as costas cansadas.

E sempre pensava: “Que merda de vida”.

Um belo dia, em mais uma fatídica volta para o lar, Tião e Osmar entraram em um vagão, obviamente lotado. Mas nesse dia o trem estava especialmente cheio. Era Dezembro e um forte calor fazia no Rio de Janeiro, o odor de suor misturado com perfume barato fazia com que Osmar se sentisse entorpecido, ainda mais ele, que se zelava tão perfumado e cheiroso.

Porém aquele dia guardava uma surpresa para Osmar. Em uma de suas cotidianas lamentações com seu amigo Tião, Osmar avistou algo que pensou ser uma alucinação. Um lugar vazio tilintava mais a frente, na parte que liga os vagões.

- Cê tá vendo o que eu tô vendo Tião?

- Não? O que é?

- Lá, perto do borrachão, tem um lugar vazio, olha, olha!

- Mais não é que tá mesmo...

- Não acredito, deve ser uma miragem, não pode ser e olha que o trem está muito lotado hoje!

- É mesmo, muito estranho – suspirou Tião.

- É minha chance – disse Osmar – Olha Tião, tem uma mulher já de olho no lugar vazio, ah não, esse é meu!

E como um louco enlouquecido (com toda a força da redundância) Osmar pulou sobre outros passageiros e quase que escalando-os, pisando nas cabeças alheias, empurrando as senhoras, sendo xingado, quase apanhando, no auge de seu surto psicótico, dá um último pulo e grita: - Consegui!

Porém ao acabar de sentar seus glúteos naquele oásis no deserto, Osmar sente algo viscoso em suas nádegas, e quando passa a mão para verificar do que se tratava, vem o golpe fatal. Osmar tinha sentado em um banco sujo de merda, um belo de um côco, um tijolo marrom, uma posta de bosta provavelmente largada por um mendigo que dormira no trem pela madrugada.

Então Osmar foi da Central até Japeri sentado e mais uma vez pensou: “Que... !”

Essa história foi contada ao meu pai por um amigo e que tinha conhecido um colega de Tião, que era amigo de Osmar, e hoje eu conto essa história pra vocês.

Até a próxima.



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terça-feira, 18 de março de 2008

Acordes - Bebeto Castilho

Desde que o PSQC prometeu criar novas seções e diversificar os estilos literários, já foram postados variados tipos de texto. Palavras sobre cinema, livros, pessoalidades, poesias, política e acontecimentos. Mas uma das seções prometidas e que ainda não havia aparecido foi justamente sobre MÚSICA. A secção "Acordes". Não sei ao certo o porquê dessa demora.

Acho que hoje, infelizmente, a música perdeu muito do lugar que já ocupou em minha vida.

Desde a adolescência a música foi um elemento fundamental para a minha formação intelectual e posso até mesmo dizer... moral. A música era a grande motivação que fazia trancar-me no quarto e ficar horas ouvindo as mesmas canções e os mesmos discos (eu ainda ouvia "vinil" quando era bem jovem). Essas horas serviam para as dores-de-cotovelo, para as reflexões
sobre a vida, para os planos do futuro. E se puxar a memória pelos cabelos poderei encaixar vários momentos felizes e tristes que tive em trilhas sonoras pessoais, em "set lists" mentais, assim como nosso protagonista quase esquizofrênico da película "Alta Fidelidade".

A música fez com que aos 20 anos me aventurasse com um amigo e passasse a cantar em bares de Nova Iguaçu, no longínquo ano de 1999. E digo, foi muito bom, foi maravilhoso. Não ganhava dinheiro, não cantava muito bem, mas o prazer de fazer, de estar lá, de arriscar, isso não se perde, fica presente, como uma memória latente e que pode ser resgatada nos momentos de fraqueza, de covardia. A música encorajou-me a estudar sua teoria na Escola de Música Villa-Lobos e de ter alguma erudição de suas histórias, letras e melodias.

Minha casa sempre foi musical, lembro de minha mãe cantando Maria Bethânia, lavando roupa, e eu no carpete, ouvindo e internalizando (mesmo sem saber) o gosto pela música, o gosto pelas canções. Em minha sala, durante muitos anos, não houve televisão (e ainda não há), havia somente um rádio. Primeiramente uma rádio-vitrola, depois os "aparelhos de som", com toca-fitas k7, depois com o CD. Porém hoje não tem mais rádio em minha sala, depois que o aparelho antigo quebrou não foi comprado nenhum outro. Obviamente que o próximo terá que ter MP3 e todos os avanços que forem surgindo, mas outro aspecto mudou...


Atualmente baixamos tudo pela internet, qualquer cantor, qualquer banda, basta aparecer rapidamente na mídia e no dia seguinte está tudo disponível, é só ir lá e baixar. E não venham com a balela de pirataria, eu não vendo ou faço gravações em alta escala para comercialização de músicas em MP3 e vocês também não. As gravadoras que arrumem uma estratégia de nos oferecer formatos exclusivos com preços decentes, já ficaram milionárias às nossas custas e às custas dos artistas.

O que digo é sobre a gana pela procura, pelo que demorava ser descoberto, de "achar" algum artista novo pelo rádio e contar a novidade a seus amigos. A pergunta que lhes faço é: - Vocês ligam o rádio e ouvem 3 canções seguidas de artistas que vocês não conhecem? Dúvido. O rádio virou um lugar comum, um cansativo jogo de cartas marcadas, não precisa de jabá, basta a obviedade. Não consigo mais ligar o rádio e ter que ouvir exatamente as mesmíssimas coisas. Então o que nos resta é a internet. Mas juro para vocês, não é a mesma coisa. Não fornece o mesmo prazer. Uma coisa é ligar o rádio, sentar no sofá e viajar. Outra coisa é ligar o computador, clicar no Winamp, ficar vendo 500 páginas e quando se dá conta, o álbum terminou e você não ouviu, percebeu, viajou, amou, refletiu, riu, chorou, não fez nada, absolutamente nada com aquelas canções, sejam boas ou não.


Não sou purista, nem saudosista, quem acompanha o PSQC já pode perceber isso, não gosto desses chatos que vivem falando que no "tempo deles era muito melhor", minha posição está clara em textos como o "Gerações", dêem uma olhada. Mas tenho que admitir que o mundo musical popular está em transformação, com mudanças que sinceramente não sei se são para melhor ou pior. Só sei que, hoje, digo a todos que morro de saudades de me trancar em meu quarto e ouvir aquele velhos vinis arranhados de minha adolescência.

E depois desse desabafo musical, vamos aos álbuns que têm feito minha cabeça ultimamente. O primeiro deles é esse:



Amendoeira - Bebeto Castilho

Biscoito Fino (2006)

Produtores: Kassin e Marcelo Camelo





Amendoeira é um álbum raro. Raro por sua beleza e raro por contar um músico pouco conhecido do grande público. Bebeto Castilho foi um dos integrantes do antigo grupo Tamba Trio, onde tocava baixo elétrico e flauta. O Tamba Trio foi um dos mais importantes grupos da fase bossa nova de nosso cenário musical, na década de 1960. Sua música era carregada de tons jazzísticos onde uma bossa nova instrumental de alta qualidade era elaborada por grandes músicos, um deles, Bebeto Castilho.

Bebeto é tio-avô do popular e aclamado cantor e compositor da banda Los Hermanos (?), Marcelo Camelo. E foi o sobrinho-neto, conjuntamente com Kassin (também produtor dos Hermanos), que trouxe e encontrou o ponto exato para o re-surgimento do
flautista e baixista. Bebeto Castilho tem uma voz pequena, de curto alcançe, uma voz de músico, de um músico que canta, e a influência do trompetista americano Chet Baker é clara em seu canto.

O álbum é preciso, enxuto, bem arranjado, com harmonias bem elaboradas e muito bem tocado. Além de parcerias que asseguram um contraponto interessante à voz sem grandes variações de Bebeto.

O álbum nos brinda com uma série de sambas, temos A Vizinha do Lado (Dorival Caymmi)
, Sabiá da Mangueira (Bendito Lacerda / Erastófenes Frazão), Ora Ora (Almany Greco / Eduardo Gomes Filho) e Infidelidade (Ataulfo Alves / Américo Seixas). Sambas históricos, singelos e com melodias redondas e belas, delicadamente cantados por Castilho. Na humilde opinião do PSQC temos uma das faixas mais bonitas já produzidas nos últimos tempos na música brasileira, Beijo Partido (Durval Ferreira / Regina Werneck). Com participação de Nina Becker (Orquestra Imperial) esta canção tem tratamento orquestral irretocável, com belo contraponto entre a voz doce de Nina e a aspereza experiente de Bebeto.

Seguimos com a bela Amendoeira de Camelo e Minha Palhoça
(J. Cascata), esta última com participação do veterano baterista Wilson das Neves. Porta do Cinema (Luiz Souza) é uma composição do irmão de Bebeto, avô de Camelo e já falecido, canção com letra esperta e boa melodia, com particiapção nos vocais de Marcelo Camelo. Pode Ser? (Geraldo Pereira / Marino Pinto) também conta com participação especial, nesse caso de Thalma de Freitas. Cabelos Cor de Prata (Silvio Caldas / Rogaciano Leite) e Gazela (Arlette Neves / Bebeto Castilho) completam o belo álbum com canções que falam da vida dos que chegam a uma fase mais experiente, assim como já feito por Zé Ketti. Porque Somos Iguais (Durval Ferreira / Pedro Camargo) fecha o trabalho com um tema instrumental, revelando que o Tamba Trio ainda corre vivo nas veias do velho novo músico.

Essa redescoberta de Bebeto é um belo achado da Biscoito Fino e que deve ser desfrutado por aqueles que têm mais alta estima pela música popular brasileira, sejam eles nascidos a poucos ou muitos anos atrás.

Boas canções!


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domingo, 16 de março de 2008

Já Amou?

Já Amou?

“E aí?? Já encontrou o amor da sua vida?
Encontrou! Então me apresente à irmã dela.”




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sábado, 15 de março de 2008

Prosa com João

Olhe meu novo irmão,
não diga que não.
A rima é boa sim,
é só prestar atenção.

Olhe para seu feijão,
pois comida não tem pra
todo mundo não!
Esta serve para nós por fim
fazer samba!
E esperar uma nova canção.

Olhe para o céu, João!
E pare de achar que
a vida é um mundo cão.
Nossas lágrimas, então, irão
varrer este mundo.
E tentarão dizer para onde
vai a sua direção.

Mas que tentativa em vão.
O mundo não é nosso.
O mundo é de todo mundo.
E por que não temos o perdão?

É sim, João! É o fim da poesia, é o fim da alegria,
é o fim da fantasia... mas quem sabe não é o
fim da solidão?

Vamos embora, João! E chame José, Pedro, Lóssio
e Raimundo para levarmos esse mundo, para sempre,
nessa quase oração.

Não, isto não é
um sermão.
É só a teimosia e a
cortesia de quem tem
um novo quinhão.

Adeus, João! Vou deitar-me agora.
E sonhar o sonho de uma vida
de alegrias e de eternas companhias
nesse mundo...
sem razão.


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segunda-feira, 10 de março de 2008

Pagando pra ver

Parece que brevemente o mundo,
pelos menos o mundo chamado Brasil,
será habitado somente por advogados.

Não porque o querem ser.
Mas sim pela luta da fatídica palavra: estabilidade.
Maldita estabilidade!

Viva a aventura do prazer e da vocação.
Viva os palhaços, os poetas, os artistas,
os mambembes, os professores, os pintores,
os pedreiros...os românticos.
Vivam.

Mas... já é final do mês e minha conta tá no vermelho.



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quinta-feira, 6 de março de 2008

Confissão: Não consigo ouvir a música "Pai", do Fábio Junior, sem sentir vontade de chorar. Ainda agora ouvi esta canção no videokê do bar em frente de casa e me contive para não me derramar em lágrimas...

E isso é muito sério e verdadeiro.


Besos.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Ah! insustentável leveza de ser






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Com_versa







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Poema perdedor do concurso "Agora é com vocês" do Portal Literal, de não sei quanto tempo atrás. A tarefa era completar um trecho de um texto de um grande autor, neste caso, o autor escolhido foi o Ferreira Gullar.

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A terra do sempre

O Sino tocou e ficou claro que o almoço já tinha acabado de começar. Os adultos correram pelos corredores, até à Direção, e perguntaram se poderiam parar de comer tantas gelatinas e chocolates. Foram devidamente desautorizados. Uma senhora de cabelos roxos passeava nua e gritava estridentemente que aquilo era um absurdo. Severino tocava uma canção de pavor, enquanto Jorge martelava uma pedra-sabão ao piano.

Dentro de poucos minutos o almoço já terminaria de ter começado e todos iriam ter que voltar às suas selas de cavalo. Dona Jorgina lembrava que aquilo era um retrocesso e que em idos tempos todos podiam comer saladas verdes e tomar água gelada, mas desde que a velha Direção assumiu aquele lugar, o que se fazia era somente mastigar jujubas, chokitos e beber refrigerantes.

Depois de todos estarem trancafiados à meia-chave (para que pudessem assistir aos programas policiais da tarde), eram soltos à noite para que caminhassem livres pelas ruas perigosas da cidade. E somente poderiam voltar pela manhã, bem cedinho, assim que o cão latisse. Dona Jurema dizia que antigamente era muito melhor.

Seu Zeca falava sobre o tempo em que passeava pelas praças e ouvia os cantos dos urubus, jogava fliperama no banheiro e ria de tanto chorar ao ver as abelhas picarem seus vizinhos. Dona Iara gargalhava ao pensar no tempo em que ia para o mar bebericar um pouco de água doce e sentir o vapor quente do inverno, bons tempos...

Sempre às sete da manhã, quando a Lua estava nascendo, todos se levantavam diante das janelas fechadas e ouviam o barulho do satélite de metal se levantando, era realmente um espetáculo radioso. Ele também adorava... pena que teve que fugir. Lembrava-se dos Perdidos que acabaram se encontrando, e da fada que tinha virado menino. Nunca imaginou que isso pudesse ter acontecido... Todos os dias, todas as horas, todos os momentos, lembrava-se de como era divertido viver.

A verdade é que tudo mudou, o mundo todo, e ele realmente nunca imaginara que a Terra do Nunca iria deixar de ser do Nunca e passaria a ser a Terra do Sempre. Mas o impossível aconteceu, os Garotos Perdidos de tanto se acharem, acabaram virando adultos. Sininho se transformou em O Sino (sujeito-homem) e o Capitão Gancho morreu de tão jovem que ficou. Tudo estava invertido.

Wendy e seus irmãos, de tão velhos que ficaram, construíram uma prisão, uma prisão para que todos os adultos da Terra do Nunca voltassem a ser crianças, novamente, em uma tentativa desesperada de remoçarem seus sonhos. Mas seu líder tinha fugido de tão assustado que ficou. De todas as formas tentaram encontrá-lo, até uma tentativa de ressuscitar o Gancho foi realizada, mas sem sucesso.

E após o pó de pirlimpimpim ter virado sal e as árvores se transformado em prédios, todos tiveram a certeza de que ele tinha morrido. Ele era a única esperança de salvação para aquele povo, para que as pessoas não nascessem mais de cabelos brancos, e parassem de sorrir ao tomarem o primeiro tapa do médico após saírem do ventre do pai.

O problema é que todos se esqueceram dele. Esqueceram seu nome. Nem mesmo eu me recordo. Esqueceram das roupas de folhas verdes, da espada mágica, da pena vermelha na cabeça, dos vôos magnânimos e do amor que sentia por Wendy. Na verdade todos tinham esquecido aquele sentimento que fazia com que as pessoas, todas elas, sentissem borboletas no estômago e lagartas debaixo dos pés. O terrível bom-estar de querer bem a alguém.

E agora com essas folhas brancas em minha frente, também quase esqueço meu primeiro nome. Estou com noventa e três anos e já sou um escritor famoso, com prêmios da acadêmia, troféus na cabeceira da cama e também tenho um belo pijama de bolinhas vermelhas. Então a porta se abre e ouço a voz da enfermeira a gritar:

- Peter! Peter! Está na hora do seu banho.



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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Sereia


Carne trêmula de movimento.
Não tens pele, tens escama!
Não és negra, nem alva, tens
Cor de terra.
Negros são teus pelos e poros,
Negras são tuas ancas e pernas.

Mas tu não tens pernas.
Tinham razão, elas existem!
Peixe e mulher, conjulgados
Em um só ser.

E seu canto grita, alto e bravo.
Não se enganem!
Não hão de escapalhar-lhe.
Nenhum homem sobreviveu
E até mulher, pelo que se sabe,
Quase se perdeu.

E eu vou adentrando ao mar,
Cada vez mais, sabendo que irei
Me afogar, nos braços de Dona
Janaína, no colo de Yemanjá.
De braços dados com minha sereia.
Meu monstro do mar.

E assim, afogado com ela, feliz eu vou estar.



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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008


"Zen e a arte da manutenção de motocicletas" - Robert M. Pirsig
Paz e Terra Ficção - 1991


Ganhei esse livro em uma caixa com vários outros irmãos-de-papel e que vieram em contrapeso de uma negociação comercial de um tio meu. A história de como esse exemplar veio parar em minhas mãos começa quando este já mencionado tio contou que estava com caixas de livros em casa e que não sabia o que fazer com elas. Sem titubear, disse: "Manda pra dentro!". E lá fui eu todo serelepe pegar uma penca de velhos livros novos.

Entre muitos livros que me interessaram e os poucos que não dei bola (e que por fim dei de presente a um amigo), estava este do título acima. Lembro que por muito pouco não foi para o grupo dos "dados", porém o estranhamento por seu título e por sua capa, pelo menos essa edição brasileira de capa (existem outras), me fez ficar com ele. Ficou guardado em minha minibiblioteca por algum tempo, junto com todos os outros que de vez em quando eu passava o olho com a idéia de desbravar e com a respectiva falta de coragem para fazê-lo.

O nome esquisito e o trabalho de arte com temática anos 70 me assustavam. Alguns anos atrás comecei a lê-lo, porém não consegui terminá-lo, não passei do comecinho... (isso acontece). Ainda não estava preparado.

Então a pouquíssimo tempo decidi enfrentar a fera. Foi a melhor coisa que fiz. O "Zen..." é considerado um clássico contemporâneo dos anos 1980 e realmente foi um enorme prazer poder desfrutá-lo.

A história se passa entre 4 pessoas que atravessam os Estados Unidos no sentido Leste/Oeste, provavelmente entre o final dos anos 1960 e os anos 1970, em duas motocicletas. Dois desse quarteto formam um casal, marido e mulher, com a outra dupla formada por pai e filho. A história é narrada em 1a. pessoa pelo pai do adolescente, que é amigo de velha data do casal companheiro de viagem. A princípio parece ser mais uma história de descobertas e acertos de contas entre pai e filho durante uma longa viagem, onde os dois aprendem e reconhecem seus erros e suas virtudes. Tudo isso impregnado de uma detalhada descrição da diversificada geografia de terras norte-americanas. Parece ser isso... e é.

E somente este tema poderia fazer desse romance um bom livro (assim como temos bons filmes com esta mesma temática), porém "Zen..." vai além, muito além. Com o decorrer da narrativa vemos que esse pai possui questões que superam seus problemas de relacionamento com o filho, ou as preocupações geradas por uma viagem longa, difícil e cansativa.

O protagonista está em busca de algo perdido, um elo que pode ser decisivo para entender todos os seus problemas e dúvidas, do passado e no presente. E é a partir dessa busca que a narrativa de uma simples história de uma inesquecível viagem passa a dividir espaço com uma busca misteriosa, pessoal, intuitiva e solitária. E é nesta divisão entre viagem, lugares, pessoas, cidades, sentimentos, presente e passado que o romance vai se encorpoando e mostrando o que veio realmente dizer.

"Zen..." é um romance bem escrito e além disso trata de questões interessantíssimas sem ser didático. O autor toma partido, dividindo premissas e apontando caminhos. Estamos falando de epistemologia da ciência (as razões fundamentais para que a disciplina ciência seja "científica" ou não), de conhecimento acadêmico e de filosofia, filosofia antiga e contemporânea.

Não! Não corram! É exatamente isso que vocês leram: FILOSOFIA. Não uma filosofia boboca, que sub-julga quem a lê, que faz do leitor mais ignorante para se mostrar mais inteligente. Estou falando de filosofia de questões cotidianas e aferíveis no dia-a-dia. E essa é a grande virtude deste romance. Desmitifica a mãe da ciência moderna, a filosofia, e a trata como uma companheira, como uma amiga, como uma opositora, como uma aliada, como algo que deve ser refletido todos os dias, e não visto como um "conhecimento inalcançável de acadêmicos em suas salas congeladas de arcaísmos".

"Zen..." deve ser lido sem medo, com gosto, deve ser enfrentado e depois das primeiras palavras... degustado.

Bons livros!






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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O Gato

Sabe aquelas crianças que adoram fazer maldades com bichos, tipo: estripar gatos, apedrejar cães, matar passarinhos...

Meu irmão era uma delas, eu não.

Uma vez vi um gato preto agonizando em plena rua com algumas crianças em volta. Tinham batido e apedrejado o gato, estava morrendo, vi uma pedra grande e falei - "Por favor, matem esse gato, acabem logo com isso" - então deram o golpe fatal, mas o golpe não tinha sido fatal e ele não morreu.

Fui acusado por minha mãe de ser um dos responsáveis por tal maldade, apontado como uma daquelas “crianças-monstros” e obviamente fiquei magoado com aquilo. Mas outra coisa me incomodava mais do que aquela acusação, algo me deixava pesado, havia uma culpa, uma culpa.

Uma vizinha, famosa por adotar bichos de ruas e doentes, viu o que acontecera e cuidou do gato. Fiquei sabendo e de maneira discreta tentei ajudá-la. Peguei meu dinheirinho, juntado de mesadas, e comprei alguns remédios. Todo dia passava na casa dela para saber se o gato estava bem. Os ferimentos eram muito graves, de verdade, mas aos poucos ele melhorava.

Uma semana depois do ocorrido fui à casa de minha vizinha saber do gato preto. Ela me fitou os olhos e disse com um rosto de condescendência que ela (o gato era fêmea) tinha acabado de morrer em seus braços. Chorei copiosamente em sua frente, ela me afagou e disse que tudo bem, que a gata já tinha me perdoado.

Saí em silêncio e fui pra casa, do outro lado da rua.

E naquela noite chorei em minha cama, sobre meu travesseiro, sozinho, chorei feito criança que era. Nunca esqueci disso, nunca disse isso a ninguém.

É... acho que agora já sabem... e naquele momento percebi que podemos todos nos tornar "crianças-monstros", por uma fração de segundos, por uma decisão errada, uma escolha mal feita.

Nunca esqueci e, ainda hoje, peço perdão àquela gatinha negra.


Texto inicialmente postado como comentário no blog Sopros e Farelos, da amiga Daia.



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O carnaval, eu e a identidade nacional

Depois de algum tempo de folia e descanso o PSQC volta ao batente e arregaça suas palavras para todo o mundo.

E como prometido... vamos às palavras sobre qualquer coisa carnaval.

Parece que o Brasil carrega em sua formação e auto-percepção cultural algo que pode ser escutado de vez em quando no âmbito futebolístico: o complex
o de vira-lata. Parece que estamos sempre atrás dos países e culturas mais antigas, as "civilizadas". A democracia americana é uma beleza (lembremos que eles têm quase a nossa idade), a cozinha e os vinhos franceses são um luxo, a Império Romano foi um dos formadores da cultura do Ocidente e era italiano, assim como a Igreja Católica. Também podemos encontrar a Revolução Indústrial inglesa, a tecnologia japonesa, o kung-fu chinês e a maravilhosa filosofia grega. Poderia citar vários outros exemplos.

Nós e nossos hermanos latinos ficamos sempre à margem desse grande e poderoso arcabouço cultural mundial. E nisso acabamos por fortalecer nossa cultura nacional, a internalização e valorização do genuinamente brasileiro, e por isso somos tão fechados para uma grande parte da cultura feita fora do país, até mesmo de nossos irmãos latinos, infelizmente.

Somos o país do futebol, do carnaval, da mulata, do samba, das comídas típicas, da miscigenação, da mistura, da alegria, da diversidade da nossa culinária, das muitas danças folclóric
as, do sol, do calor, do amor ao verão, da sensualidade, do sincretismo religioso, do jeitinho brasileiro, do bom humor...

Só não "temos" cultura para ganhar o Prêmio Nobel, para ter uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, para ditar os rumos da economia mundial (só se quebrarmos), para liderar a luta pela manutenção física do planeta...

Esse exclusivismo cultural serve tanto para o bem quanto para o mal. E o que tem isso tudo a ver com o carnaval, acho que na verdade nem sei mais... porém posso convergir lembranças e idéias, e refletir sobre algumas coisas.

Por esse medo da derrota, de ficar para trás, de sermos menos brasileiros, de termos menos cultura, passamos a ser radicais das coisas que consideramos nossas. Queremos ser mais brasileiros do que qualquer brasileiro já tenha sonhado. Portanto, quanto menos desses traços culturais você tiver, talvez menos brasileiro você será. Não gostar de carnaval, do verão, de praia, de futebol, das mulatas sambando, de samba, de cotas raciais, poderá definí-lo como um cidadão "menos" brasileiro, não em direitos, mas em sua IDENTIDADE nacional perante aos outros cidadãos mais brasileiros que você. Este fato poderia ser atribuído simplesmente a um gosto, a não gostar de certas coisas, mas no caso brasileiro parece haver um "patrulhamento de identidade". Optar em não ter essa intensa "identidade brasileira" é, talvez, ser: racista, vendido, capitalista, branco, europeu, playboy, metido, arrogante, intelectual, intolerante, mesquinho, babaca, batedor de velhinhas e empurrador de bêbados na ladeira. Os estrangeiros que vêm morar no Brasil e que são cariocas de carteirinha, amam a Lapa, bebem cerveja, escutam choro, comem pretas e estudam antropologia, esses são os mais brasileiros de todos. São porque são brasileiros de coração.

Isso que estou falando acima não é uma filiação radical, mas pode ser sensivelmente percebido pelos "menos" brasileiros.

Quando criança, isso na década de 80, adorava ir ao clube perto de casa e participar dos bailes de carnaval para crianças e adultos, fantasiado de bate-bola, onde podia me esconder naquela máscara, jogar confetes em outras crianças, ouvir as mesmas marchinhas 500 vezes e ainda por cima super mal-cantadas, paquerar meninas e sair correndo de vergonha, entre outras brincadeiras que o carnaval me proporcionava. Como morador da Baixada Fluminense ainda era possível participar desses bailes de clubes (mesmo que muitos já estivessem decadentes, como o que eu frequentava já estava) e brincar com meus pais, irmão e coleguinhas de rua. Nesta época quase todo mundo no Rio de Janeiro saia da cidade maravilhosa para outros municípios e estados. Os tão agora famosos blocos de rua do Rio estavam esvaziados de popularidade nos anos 1980.

E qual criança não gostava de carnaval?

Eu até meus 18 anos gostei de carnaval. Viajava e brincava, sem fantasia, mas brincava, paquerava as meninas, gostava das marchinhas, da festa. Porém percebi de forma traumática que o carnaval de minha adolescência-vida-adulta não era mais o mesmo, comparado ao da minha infância. Pensem então nas pessoas que viveram os carnavais de 1920,30,40,50,60... Esse espanto ocorreu quando fui passar um carnaval com meu irmão em Cabo Frio, acho que já tinha 19 anos. Só estávamos eu e ele.

Panorama: uma cidade abarrotada de gente, um calor insuportável, jovens jogando uma espuma fedorenta e tóxica na cara de outros jovens (inclusive na minha), um trio elétrico que tocava axé music incessantemente (esqueci desse estilo musical como nosso traço cultural marcante), pitboys e pitgirls se pegando frenéticamente (e eu obviamente não beijei ninguém), rapazes alcoolizados batendo em outros rapazes alcoolizados sem nenhum motivo aparente, enfim... uma certa subversão ao carnaval de minha infância. Depois de algum tempo vi e percebi que essa "cultura" de carnaval foi a que passou a predominar nos jovens dos anos 90 e 2000. Nunca mais gostei de carnaval...

E assim, quando as pessoas perguntam se eu gosto de carnaval e digo que não, ouço, "Não gosta de carnaval, nem pareçe brasileiro", ou, "Branco desse jeito, não gosta de verão, não gosta de praia, nem parece carioca", ou então, "Você ainda não decorou o samba-enredo da Beija-Flor?".

Mas sou brasileiro, gosto do meu país, gosto de sua cultura, porém me permito a gostar de outras, de ouvir música em espanhol sem ser o Rebelde ou o Ricky Martin, de não gostar de praia, de gostar de comida árabe, de adorar a literatura em português (brasileira ou não), e de pensar em viver em outro país, pois o meu (nosso) nos dá poucas condições de se ter uma vida digna e estável, mesmo para quem estuda muito.

E esse carnaval de 2008 eu passei em Petrópolis, com minha senhora, e foi ótimo, lindo, um carnaval longe do carnaval, do confete e da serpentina. Mas nas madrugadas de não-sono eu vi os desfiles, quase todos, e vi como nossa cultura é bonita e única, e lembrei como eu gostava do carnaval. Então em um arroubo de saudade fiz uma promessa à minha companheira:

Em 2009 iremos passar o carnaval na Sapucaí!
Viva o carnaval!

Voltarei a gostar novamente de carnaval, serei mais brasileiro do que nunca! Está decretado!

... mas só não me peçam para ir à praia nesta calor infernal do Rio de Janeiro...






Besos.



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O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

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