(in)contidos - O novo livro de Vinícius Fernandes da Silva do PSQC

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Uma análise sobre a mobilidade urbana na Baixada Fluminense como contribuição para a formulação de uma sociologia dos transportes no Brasil - Em pé ou sentado? -


Em Fevereiro de 2014 defendi minha tese de doutorado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - IPPUR/UFRJ.

Desde sempre tive interesse sobre os transportes e a mobilidade urbana. Talvez desde a primeira vez que meu pai me "ensinou" a andar de trem (um "Japeri") quando eu tinha 15 anos.

É com muito orgulho, e alguns anos depois, que apresento este trabalho. Ao final dos slides haverá um link onde você poderá ter acesso à própria tese, integralmente.

Mas afinal eu te pergunto: "Em pé ou sentado?"

















































Para você poder ter e ler a TESE COMPLETA, é só clicar neste link:

https://drive.google.com/file/d/0B9mu72OM-pdKb3lQcGpnWGc2OUk/view?usp=sharing

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


Esta obra está licenciada por Licença Creative Commons.

domingo, 12 de outubro de 2014

Carta a Lobão


Caro Lobão, eu sei que a cidade enlouquece sonhos tortos, na verdade nada é o que parece ser, mas digo a você que a brincadeira já passou um pouco do ponto. Tá na hora de dizer a verdade. Chegar em público e dizer com sua voz rouca: "Rapeize, acabou, era tudo tiração de sarro, entrei nessa de direita-classe-média-reacinha para ver como funcionava essa dinâmica e zoar com esses otários. Agora chega!".

Caro Lobão, não nos conhecemos nem somos da mesma geração, mas escrevo essa carta com certa intimidade, porque você nunca foi um cara de se render. Todo mundo sabe da sua origem burguesa de garoto da Zona Sul do Rio de Janeiro, mas logo depois de entrar à vida adulta você deu uma banana para os arquétipos e demonstrou isso ao romper com a Blitz, quando viu que a parada era só reproduzir, reproduzir, vender, vender e vender até esgotar, e foi exatamente o que aconteceu com a Blitz, mas com você não.

Caro Lobão, você foi taxado de maldito, bandido, maconheiro, drogado, foi preso e perseguido. E eu sei, e você sabe, que vai chegar a hora que todo mundo vai perceber que temos uso-fruto de nosso corpo e de nossas vontades. Que se quisermos cheirar talco Barla poderemos, desde que arquemos com esta responsabilidade. Todas as sociedades humanas usaram e usarão substâncias para a expansão de seus estados de consciência, com as respectivas consequências das formas de uso. Irá demorar, mas esse dia vai chegar. 

Caro Lobão, a mídia que te detonou e perseguiu àquela época é a mesma que é morada para teus textos, e que te aplaude agora, mas você sabe que eles mentem, que eles te odeiam. Meu camarada, você mesmo disse que subiu o morro pra comprar as paradas e deu até tiro com a rapaziada pensando em fazer uma revolução popular no país. Sabemos que isso não leva a nada, mas você conheceu a realidade brasileira ao conviver com os efetivos excluídos em nossas cadeias e presídios.  

Caro Lobão, você sambou na cara das gravadoras, denunciou o jabá nas rádios e televisões (e por isso parou de tocar e aparecer nos mesmos), exigiu a numeração dos cd's e maior controle dos artistas sobre suas obras. Teve uma época que andou em uma maré ruim, que eu sei, e se reinventou com a genial ideia de lançar uma revista com um cd, e vender em... bancas de jornal! A galera da indústria virou a cara, porque são babacas e arrogantes, mas você realmente ousou em popularizar a produção musical neste pais. Cara, "A vida é doce" é foda e o seu Acústico é um dos poucos que canto em voz alta, e foda-se quem disse que você se vendeu à indústria para fazê-lo.

Caro Lobão, não é possível que somente Olavo de Carvalho tenha feito sua cabeça para a direita. Não há como acreditar. Tenho absoluta certeza que todos somos, de certa forma, filósofos, ou potenciais filósofos, mas se autodenominar Filósofo sem uma mínima formação acadêmica institucional, é um pouco demais para mim. Li o "Jardim das Aflições", faz um bom tempo, mas lembro que Olavo procura fazer um paralelismo entre a obra de Epicuro (e sua busca pelo prazer) ao desdobramento do pensamento hegeliano e marxista, criticando obviamente seus efeitos práticos e reais; em contraposição à obra de Aristóteles à escolástica, e a futura evolução ao pensamento liberal. Meu brother, nem ligo que você seja liberal, mas o que atualmente Olavo e seus discípulos pregam está longe de qualquer ideia ligada ao liberalismo original, vide a obra de Adam Smith. O que temos hoje da direita brasileira é basicamente ódio, ódio e mais ódio.

Caro Lobão, a direita classe média brasileira é burra e todos sabemos disso. Você sabe. Eu sei. Sabemos também que a grana oriunda da música e de shows, sem estar na mídia corporativa, não deve ser bem lá essas coisas. E como a direita é burra e não tem ninguém em quantidade suficiente para abastecê-la com mínimos bons textos, você naturalmente viu um filão bom de entrar. Era lógico que a classe média paulista que consome a VEJA iria proporcionar um tutu bom, eu sei. Sua biografia vendeu bem, porque é boa, e obviamente que tudo o que viesse a escrever posteriormente também venderia bem. Imagino a graninha que não rola com as palestras aos coxinhas paulistas, que quando eram crianças ouviam de seus pais "não escuta essa música não que isso é coisa de marginal, esse moço é bandido e drogado meu filho". Agora essas crianças, hoje jovens adultos, batem palmas pra você, não pela sua essência, mas por sua transformação ao que eles sempre quiseram, sua "conservadorização". Parece que você se "bundamolizou", falando por termos "lobinianos".

Caro Lobão, ser associado e comparado ao "Inútil" dos anos oitenta, a Constantino (nada de usar a cor vermelha, heim!) e Reinaldo Azevedo (procurando o manequim da Toulon até hoje) me traria vergonha. Sei que, no fundo, a você também. Meu distante amigo, tá na hora de dizer: "Há! Pegadinha do Mallandro!" e mostrar o dedo médio para a VEJA e essa cambada de elitistas escrotos.

Caro Lobão, já tá na hora de sair da Décadance e voltar à Élégance. 

Caro Lobão, um abraço de um ex-fã que tá doido para voltar a ser... fã?


*Referências às canções Essa Noite Não e Décadance Avec Élégance, e ao livro Jardim das Aflições (Olavo de Carvalho).  

Todas as informações deste texto foram retiradas do livro "50 anos a mil", biografia de Lobão e comprada por este quem vos escreve.

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

III Semana da Baixada Fluminense - 2014



O PET / Conexões de Saberes – IM/UFRRJ ( Instituto Multidisciplinar – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Campus Nova Iguaçu), fruto da fusão do Programa Conexões de Saberes (PCS) e Programa de Educação Tutorial (PET), busca a articulação entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão, com o propósito de contribuir na formação acadêmica e cidadã dos estudantes de origem popular e de baixa renda da Baixada Fluminense matriculados no IM/UFRRJ. E visando essa maior coesão social, o grupo PET/Conexões produziu a primeira edição da Semana da Baixada Fluminense, no Instituto Muldidisciplinar.

O trabalho desenvolvido pelo Programa de Educação Tutorial, articulado com o Conexões de Saberes, tem sido capaz de fornecer aos estudantes universitários de baixa renda, afrodescedentes e/ou de origem popular, um valioso capital cultural muito além da sala de aula. Através da participação dos mesmos em diversas atividades extra-curriculares e extra-acadêmicas como a leitura de textos, visita a Museus, Quilombos, Rodas de conversa e realização de eventos, como a I Semana da Baixada Fluminense, são atividades de grande importância para a vida cidadã destes estudantes e através da aproximação do saber acadêmico com o saber popular.



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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

2014: O ano em que o futebol saiu da minha vida




Certamente você já ouviu as frases: "Eu nunca mais quero saber de futebol" ou "Desisto, não volto mais a este estádio para ver a porcaria deste time". Normalmente as revoltas futebolísticas associam-se aos maus momentos vividos pelos respectivos clubes ou por uma grande falha da arbitragem que afetou o resultado de um campeonato, por exemplo.

Comigo não é diferente. Como botafoguense apaixonado, e oriundo de uma família de alvinegros, o momento atual é simplesmente desesperador, tanto dentro como fora de campo. Acredito que os palmeirenses também sintam este sofrimento. No caso de Botafogo e Palmeiras, e alguns outros gigantes da história do futebol brasileiro, a agonia já vem há anos. Para o Botafogo no mínimo uns... vinte!

Mas este texto não trata somente do desencantamento de um torcedor desiludido com seu clube. Na verdade é muito mais que isso. Minha infância foi permeada pelo futebol, com as brincadeiras na rua, com a zoação sobre ser botafoguense e "sofredor" e ao mesmo tempo comemorar as vitórias e campeonatos que vieram nos anos 90. Minha relação de amizade e amor com meu pai se deu com muitas idas ao Maracanã entre bate papos sobre futebol e a vida. Isto nunca sairá de minha memória e da minha história. Porém com o passar dos anos algo se perdeu, se quebrou na minha relação com este esporte definido e definidor do ethos brasileiro.

Faz um bom tempo que percebo que no futebol brasileiro os resultados esportivos cada vez menos se relacionam com o que acontece DENTRO de campo, quer dizer, da relação entre onze jogadores versus onze jogadores. Desde a descoberta do juiz, um dos principais do campeonato brasileiro à época, que beijava a santinha e depois manipulava os resultados das partidas, não há mais nenhuma maneira de confiar plenamente na arbitragem brasileira, por mais que a mídia tente nos empurrar a certeza que não, que é seguro, goela abaixo.

Porém o desencantamento mencionado acima se tornou mais complexo ao perceber que as grandes mazelas da sociedade brasileira se refletem e se amplificam quando olhamos para a situação do futebol nacional. O grito de indignação por mais direitos iniciados em Junho de 2013 pode e deve ser expandido a todas as práticas sociais do país, e o futebol é uma delas, talvez uma das mais importantes, inclusive.

A necessidade sufocante de mais democracia direta no Estado brasileiro talvez seja menos pior, não muito, se compararmos esta mesma necessidade aos feudos elitistas, conservadores, racistas e segregadores que dominam as cúpulas dos clubes de futebol de hoje e de ontem. Gestões com o pior resultado possível, pois praticamente todos os clubes do futebol brasileiro estão falidos ou quase insolventes economicamente. Como acreditar no futebol brasileiro se a CBF é um antro do que temos de pior como grupo social, com gente que representa, ainda, a ditadura, o autoritarismo, o sectarismo e o desprezo por tudo que se queira democrático e popular. O que dizer sobre o que foi feito com um templo como o Maracanã, transformado em um shopping center com um gramado verde no centro para a classe média ir ver jogos uma vez ao mês, quando estiverem de saco cheio do pay-per-view.

O que falar da nossa Copa do Mundo em 2014, que desalojou centenas de famílias, que priorizou o lucro e os ganhos do grande capital nacional e internacional, além de proporcionar o maior aparato repressivo desde os anos de chumbo, com dezenas de prisões políticas no último dia da Copa e em pleno governo de um partido de... esquerda!? O que dizer de nossa mídia corporativa que controla e manda efetivamente em nossos clubes e campeonatos, com seu poderio econômico e impenetrável regulação pelo poder público, determinando dias e horários de jogos quase sempre contrários às possibilidades de presença do público, mas dentro da lógica do futebol visto pelo sofá. Das preferências e favorecimentos midiáticos escancarados a determinados clubes, e que podem variar de acordo com as conveniências políticas, com o gosto clubístico de um diretor de tv manda-chuva ou com um time de jornalistas que não sabem separar paixão do trabalho.  

Nossa justiça desportiva, representada pelo STJD, é uma piada, onde cada julgamento tem um resultado diferente, de acordo também com o gosto futebolístico dos integrantes do Pleno, com um desfile de egos e projetos de ascensão e reconhecimento para futuro carreirismo nos tribunais de justiça espalhados por aí ou até na projeção de uma carreira política.

Mas aí você pode me provocar: "Mas e se um mecenas chegar ao Botafogo, pagar as dívidas e montar um time galáctico, você não vai torcer?". Sim, seria difícil não torcer. Mas digo que hoje me encontro em um estado de vida que não consigo mais me sentir representado sem poder decidir, ou participar, por minimamente que seja, de algo que também considero "meu" ou "nosso". Porque devo pagar um sócio-torcedor se não posso votar para o corpo político de meu clube? Porque terei um título de sócio-proprietário se a sede do clube é longe de minha casa e sua frequência é elitista, não havendo nenhuma política de aproximação com os torcedores mais distantes.

Talvez essa ruptura seja momentânea, mas realmente a minha antiga e fiel paixão pelo futebol desmoronou. E não me digam para torcer pelo Barcelona ou pelo Bayern. Eu não tenho e nunca terei nenhuma relação afetiva com nenhum desses clubes!

Enfim informo que ando precisando formar um grupo de novos amigos para uma pelada semanal. Quem sabe a semente de um novo-velho amor volte a brotar?

Ando meio triste e cabisbaixo porque no ano de 2014... o futebol deixou a minha vida. 


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense. 


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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Racismo


Esta é uma história verdadeiramente vivida e seu teor de autenticidade estará de acordo com a minha memória.

Eu devia ter entre 7 e 9 anos de idade, não sei precisar. Meu primo Fernando (este não é seu nome real) trabalhava em uma rede de supermercados muito popular nos anos 1980 e que não existe mais, era a Rede Rainha, se não me engano. Talvez trabalhasse no setor de armazenagem, no galpão do mercado que ficava ao lado da garagem da empresa de ônibus Nossa Senhora da Penha, em Mesquita, até então bairro da cidade de Nova Iguaçu.

Foi provavelmente uma função de pouca complexidade intelectual, com baixo salário e que proporcionava o convívio com outros trabalhadores na mesma situação. Meu primo ainda era bastante jovem e os primeiros trabalhos de nossas vidas quase sempre não nos colocam em nossa plenitude laboral. Eu também já vivi isso.

Porém este mesmo emprego parecia proporcionar-lhe uma rede de amizades fraternas em seu ambiente de trabalho. E foi nestas condições que em algum momento este meu primo mais velho convidou-me para fazer um passeio com ele e seus amigos do trabalho, passeio provavelmente financiado pela empresa e que levaria seus funcionários e familiares para o estreitamento dos laços de amizade e, obviamente, buscar a melhoria da produtividade. Os passeios de final de semana a diversos sítios que existiam/existem na Baixada Fluminense eram muito comuns nos anos 1980 e 1990. Não sei se ainda são, mas eu fui a vários, inclusive oferecidos e vendidos pelo colégio.

O que me recordo foi da tarde aprazível no sítio, na piscina, nos brinquedos, com crianças que não conhecia e passei a conhecer, com adultos que não conhecia e que me relacionei com bastante integração naquele dia feliz.

No retorno ao lar vínhamos em um grupo: eu, meu primo e mais algumas pessoas, em uma kombi, provavelmente. A volta era divertida como todo o passeio havia sido, os adultos brincavam e contavam piadas, encarnando uns aos outros. Havia eu, meu primo, e talvez mais um ou dois brancos ou com a pele mais clara, o restante do grupo, a maioria, era formado por negros e mulatos.   

Em um determinado momento uma das piadas era perguntar quem ali era o mais feio. Foi quando uma dessas pessoas, à qual jamais lembrarei o nome mas que ao mesmo tempo o rosto ficará eternamente em minhas lembranças, perguntou: 

- "E aí menino, quem é o mais feio?"
- "Você!"
- "Eu? Por quê?"
- "Porque você é preto!"

Aquela resposta que dei de maneira tão natural e automática funcionou como um açoite no ar. Um silêncio e um peso fez-se presente dentro daquele pequeno espaço proporcionado pelo automóvel. Acho que ainda posso sentir o constrangimento de meu primo e da percepção de algo de muito errado que eu havia feito.  

Porém ao invés de ódio e fúria, a imagem que tenho daquele homem e seu rosto negro, bigode escuro, cabelo crespo curto e escuro é de um... sorriso. Não lembro o que ele disse, mas recordo que foi com calma, tranquilidade e fraternidade. Lembro que a mensagem final era de que havia beleza em todos.

Imagino a vergonha que fiz meu primo passar e não posso e nem sei identificar de onde aquela frase e resposta vieram. Não posso isentar ou culpar meu núcleo familiar, ou minha família como um todo, ou meus amigos da época, ou a televisão, ou ninguém... pelo meu ato de racismo infantil. Se fosse para achar uma culpa talvez ela recaísse à nossa história e sociedade por importar e reproduzir o racismo, e a mim mesmo. 

Os detalhes de um belo passeio em um final de semana com boas e bonitas pessoas ficaram sombreados nos recantos do meu esquecimento.  

Uma maldita frase dita ficou talhada em minha memória e nunca mais sairá dela, para que eu sempre me lembre da vergonha que ainda sinto quase 30 anos depois de tê-la dito àquele gentil homem.

E como única maneira de me redimir de minha própria consciência, repito-a agora, dando o sentido do que deveria ter aprendido desde que comecei a me achar "gente".

- "E aí menino, quem é o mais feio?"
- "Não é você, você é o mais bonito!"
- "Eu? Por quê?"
- "Porque você é preto!"



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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Lançamento de O ASTRONAUTA, de Rodrigo Queiroz



Sinopse: "O Astronauta é uma história de esperança, amor, amizade e perda. Uma história emocionante e avassaladora, e que tem o poder de nos libertar da dor e nos entregar de bandeja a certeza de uma magistral narrativa, aliada ao talento nato do jovem escritor Rodrigo Queiroz."

Rodrigo J. R. Queiroz, 20 anos, libriano, noivo, carioca, estudante de Filosofia da UFRRJ, Potterhead, Tolkienmaniaco, e amante de heavy metal. Peguei o prazer pela leitura aos nove anos, quando li meu primeiro livro, O pequeno príncipe, e desde então comecei admirar a arte de escrever. Comecei a escrever O Astronauta em 2009 e só terminei em 2012. No final de 2013 recebi a proposta de lançar um livro, comecei a escrever outro, e minha noiva, que já tinha lido O Astronauta, insistiu para que eu o mandasse para a editora. Então eu o revisei, modifiquei algumas coisas e o mandei. Tudo foi dando certo e aqui estamos a menos de um mês do lançamento.

O lançamento ocorrerá dia 20 de Agosto da sede da Editora Multifoco. 
Endereço Av. Mem de Sá, 126 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20230-152. Tel.:(21) 2222-3034.

E para a noooooooooooooooossa alegria, Rodrigo Queiroz é meu primo e orgulho!
Não percam!

O PSQC recomenda!




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quarta-feira, 23 de julho de 2014

O corpo morto

Já velei e enterrei muitos corpos. Muito mais do que gostaria, menos do que irei velar e enterrar ainda. Uma lição aprendida pelos ensinamentos de minha mãe é que se podemos estar juntos nas alegrias, então temos a obrigação de estarmos juntos na partida, final. Mas por que ir ao morto se morto ele está? A morte é a morte, mas a morte é também um ritual. Um ritual onde os olhos se cruzam, os encontros acontecem, as lágrimas brotam, os sussurros são ouvidos, os gritos são lancinantes.

Já velei e enterrei parentes, amigos e vizinhos. Para cada um desses rituais, para cada uma destas despedidas, um sentimento único, pois cada corpo morto reflete o que se sente sobre ele. Já chorei sobre caixões, já peguei nas mãos, já beijei o rosto, já acariciei os cabelos, já segurei a emoção, já calei, já chorei no dia seguinte, já morri um pouco com todos eles.  

Talvez o que mais me incomode em nosso eterno desconhecimento sobre a morte é o sentimento de pena pelo corpo morto, como se ele em si fosse indigno por ter morrido. Explico. Um corpo morto não é inteiro, é parte de algo que existiu em sua completude, em sua totalidade, mas que agora jaz em uma parcialidade degenerativa, finda. Mas nossos olhos nos enganam, e pensamos que eles estão ali sãos, e que podem acordar em um breve abrir de olhos depois a uma fiel súplica ao pé do ouvido. Não, não acordarão, não reviverão.

Digo isto porque acredito que não devemos sentir pena daquele corpo, porque quem se foi não é responsável por sua própria morte, mesmo quando é, no caso dos que escolhem partir por si mesmos. Pena não é um sentimento nobre que possamos transmitir a quem um dia amamos, respeitamos ou conhecemos. A questão é que o corpo morto revela toda a nossa finitude, o corpo em si demonstra para nós o quão à merce ficaremos depois do fim da vida. Talvez esta sensação apenada seja a percepção de nossa própria fragilidade diante da existência.

Então choremos, desesperemos a falta, a saudade, a brevidade de quem queremos sempre ao nosso lado, para o impossível sempre.

Mas sem ter pena de quem partiu.
Porque em nossas lembranças e lágrimas, devemos ter sentimentos mais belos para nossos mortos.
Eles merecem.  



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sábado, 12 de julho de 2014

O choro de uma nação



Inicio este texto com uma afirmação:

A seleção brasileira de futebol não é o Brasil!

No dia 08 de Julho de 2014, às 19h, final do jogo semifinal da Copa do Mundo entre as seleções de futebol que representam o Brasil e a Alemanha, uma nação chorou.

A nação brasileira chorou, e podemos tentar descobrir 7 motivos para este extravasamento:



1 - Chorou ao ver os protestos iniciados a partir do dia 12 de Junho (início da Copa) serem violentamente reprimidos e impedidos pelas Polícias Militares dos Estados-sedes;

2 - Chorou ao ver o professor Pedro Guilherme Freire, professor da rede estadual do Rio de Janeiro, ser arrastado e espancado cruelmente por policiais militares sem ter praticado nenhum ato ilícito ou suposto crime no dia 12 de Junho de 2014;

3 - Chorou ao saber que professores são as atuais vítimas preferenciais das PM’s, obviamente que depois de pretos, mestiços, jovens, pobres e favelados, em sua maioria moradores de áreas “pacificadas” por fuzis e soldados;

4 - Chorou ao saber que em plena democracia temos territórios de exceção, principalmente áreas favelizadas onde cidadãos(?) são revistados, aviltados e julgados por tribunais militares, e a mídia corporativa e democrática parece não se interessar muito sobre isso;

5 - Chorou ao saber que o senhor Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, MENTIU ao afirmar que os protestos, legítimos pelos gastos e crimes praticados para a realização da Copa do Mundo FIFA 2014, eram bem-vindos para a democracia brasileira pouco antes do início do evento;

6 - Chorou ao lembrar dos presos políticos e dos flagrantes forjados em São Paulo. Das 10,8 mil famílias desalojadas (segundo dados estatais) ou 250 mil pessoas (segundo dados de movimentos sociais) pelas obras dos Grandes Eventos;

7 - Chorou ao saber que o corpo de Amarildo ainda continua desaparecido e que o IPM (Inquérito Policial Militar) INOCENTOU TODOS os policiais envolvidos em sua tortura, morte e desaparecimento. Que o sangue das costas arrastadas de Márcia parece estar incrustado no asfalto das ruas de Madureira e que nunca mais sairá de lá.


No dia 08 de Julho de 2014 a seleção brasileira de futebol foi goleada por 7 x 1 pela seleção alemã. Como disse acima “a seleção brasileira de futebol não é o Brasil!” e ao reescrever esta frase é também difícil não lembrar a citação de um famoso técnico futebolístico brasileiro que uma vez disse que “a bola pune”, neste caso não posso deixar de parafraseá-lo com uma outra frase-efeito, transmutando-a em “a opressão pune”. 

E para finalizar este texto e as citações, termino com:

“Gostou, gostou! Não gostou? Então vá para o inferno!” (Luiz Felipe Scolari).


Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF e atualmente é professor titular em sociologia do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.   



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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Dia da Baixada - 13 e 14 de Maio de 2014. Políticas públicas na Baixada Fluminense: trabalho, educação e território. Evento realizado pela Faculdade Estadual da Baixada Fluminense - FEBF


INFELIZMENTE ESTE EVENTO NÃO FOI REALIZADO DEVIDO À JUSTA GREVE DOS RODOVIÁRIOS DO RIO DE JANEIRO NOS DIAS 13 E 14 DE MAIO QUANDO O MESMO OCORRERIA.

Gente, eu, Vinícius Silva, em nome do Colégio Pedro II e pelo PSQC, estarei no dia 14 de Maio (quarta-feira) às 18:30h participando da Mesa 4 - Políticas Públicas e Território. Evento organizado pela Faculdade Estadual da Baixada Fluminense (FEBF), vinculada à UERJ.

Quem puder prestigiar, será bem bacana.


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terça-feira, 15 de abril de 2014

Alta Fidelidade (Lista 3): Músicas para fazer amor ou... transar, trepar, nhanhar, otras cositas más, etc.


Bom, faço a lista pessoal e intransferível de 5 canções que considero inevitáveis ao amor desde o momento em que se as escuta ao ato de correr para satisfazer o desejo incontrolável.


1) Cheiro de Amor (Duda Mendonça, Jota, Paulo Sérgio Valle, Ribeiro).
Intérprete: Maria Bethânia.




2) Just Way You Are (Bily Joel).
Intérprete: Barry White.




3) Smooth Operator (Antonio Hardy, Clyde Otis, Murray Stein, Sade Adu).
Intérprete: Sade.




4) Menina Veneno (Ritchie, Bernardo Vilhena).
Intérprete: Ritchie.




5) Roxanne (Sting).
Intérprete: George Michael.




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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

"E Agora?"

Documentário, produzido para a disciplina de Vídeo Instrumental (IAD/UFJF), sobre os protestos de Junho de 2013 e seus possíveis efeitos nas eleições de 2014.

Vídeo produzido pelas alunas Loa Santos, Rebeca Campagnoli e Isabela Dutra, e que teve a participação do professor da UFJF Vinícius Fernandes da Silva (este que aqui vos escreve). Com a citação ao final do vídeo do livro e blog Palavras Sobre Qualquer Coisa.

Ressalto o grande prazer em ter sido convidado e participado de filme tão bem roteirizado e editado.

Se você quiser saber um pouco mais e poder refletir sobre as Manifestações de Junho de 2013, este é um excelente começo.




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domingo, 2 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Pés Nervosos

Unha encravada.
Tarsos assimétricos.
Nariz rachado.
Mancha de Sol.

Humor esquizofrênico.
Fome TPM.
Pernas de Guarrincha.
Dedinhos de ET.

Nervos à flor da pele.
Cútis desbotada.
Meleca escondida.
Cravo enterrado.

Medo do volante.
Briga com a mãe.
Implica com o pai.
Enlouquece o marido.

Mas esse é meu amor.
Ela é normal.
Ela é legal.
Só tem os pés... nervosos.


Para Carla Lemos. Porque eu já estava devendo um novo poema para ela faz um tempo. Nada melhor do que um novo... mimo?


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Obvious Lounge: Palavras, Películas e Cidades

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Agora também estamos no incrível espaço de cultura colaborativa que é a Obvious. Lá faremos nossas digressões sobre literatura, cinema e a vida nas cidades. Ficaram curiosos? É só clicar na imagem e vocês irão direto para lá!

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Palavras Sobre Qualquer Coisa - O livro!

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Para efetuar a compra do livro no site da Multifoco, é só clicar na imagem! Ou para comprar comigo, com uma linda dedicatória, é só me escrever um email, que está aqui no blog. Besos.

O autor

Vinícius Silva é poeta, escritor e professor, não necessariamente nesta mesma ordem. Doutor em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ, cientista social e mestre em sociologia e antropologia formado também pela UFRJ. Foi professor da UFJF, da FAEDUC (Faculdade de Duque de Caxias), da Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC) e atualmente é professor efetivo em sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Criou e administra o Blog PALAVRAS SOBRE QUALQUER COISA desde 2007, e em 2011 lançou o livro de mesmo nome pela Editora Multifoco. Possui o espaço literário "Palavras, Películas e Cidades" na plataforma Obvious Lounge. Já trabalhou em projetos de garantia de direitos humanos em ONG's como ISER, Instituto Promundo e Projeto Legal. Nascido em Nova Iguaçu, criado em Mesquita, morador de Belford Roxo. Lançou em 2015, pela Editora Kazuá, seu segundo livro de poesias: (in)contidos. Defensor e crítico do território conhecido como Baixada Fluminense.

O CULPADO OCUPANDO-SE DAS PALAVRAS

Contato

O email do blog: vinicius.fsilva@gmail.com

O PASSADO TAMBÉM MERECE SER (RE)LIDO

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